Pessoas e recortes de uma manifestação que já tem seu lugar na história

Na voz e nos atos de seus personagens, uma viagem por dentro do dia da maior mobilização que Goiânia viveu

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Domingo, 13: sob fogos de artifícios, manifestantes aplaudem atuação da PF em frente à sua sede, em Goiânia | Foto: Domingos Ketelbey

Yago Sales

Em Goiânia, a buzinada tímida despertou, às 8 horas, He­loísa Maria Romano de Melo, de 81 anos. Ela anda a passos lentos até a sacada do quarto andar do apartamento em que mora na Rua 5, no Setor Oeste. Quer assistir à movimentação desde o início. Pôs seu melhor vestido e pretende testemunhar o dia histórico ao qual todo o País assistirá. Do bule esmaltado vermelho, o café escorre para a xícara. O cheiro forte da bebida circula pelo apartamento. Na televisão, informações dão a entender que o movimento acontecerá mesmo. E forte. E em todo o País.

A filha, otimista, ligou para alertar: mamãe, não se esqueça de olhar a praça. Viúva e longe dos filhos, sobrou-lhe a privilegiada sacada, que fica a cem metros de onde aqueles que escolheram o dia 13 para pedir a saída de Dilma Rousseff se concentram.

Ao meio-dia ela se encosta à mureta da sacada, observando famílias inteiras carregando a bandeira do Brasil. Lembra-se de quando levava os filhos à cidade para acompanhar a passagem do presidente, o “doutor Juscelino Kubitschek”. O marido Sílvio de Gomes Filho, falecido há quase 20 anos, era amigo de JK. “A rua ficava toda cheia quando o presidente vinha nos visitar. Ele era muito amigo de Sílvio”, conta, mostrando a foto em que aparecem JK, o marido e o filho, ainda criança.

 Dona Heloísa mostra fotografia de seu marido ao lado de JK

Dona Heloísa mostra fotografia de seu marido ao lado de JK | Foto: Domingos Ketelbey

Dona Heloísa se entristece ao se lembrar do País daquela época. Tem a sensação de ter vivido em tempos sem corrupção. Na roça, ajudando o marido a cuidar de seu pedaço de chão, a corrupção política parecia não existir. Ao recordar, ela se debruça na saudade de tempos em que o presidente, diz ela, dava a vida pelo povo, andava a cavalo, destemido, em busca de terra para plantar a nova capital. Então, dona Heloísa escuta apitos e estende o pescoço à rua. A movimentação cresce.

Um motivo em especial – e pessoal – explica o porquê de dona Heloísa não gostar do PT. “Não posso provar e nem adianta eu falar nisso, mas o Zé Dirceu veio a mim, enviado de Lula para comprar minha fazenda. Eles queriam se aproveitar de mim, claro”. José Dirceu é um dos correligionários políticos de Lula. Ministro-chefe da Casa Civil da Presi­dência entre 2003 e 2005, deixou o cargo ao ser acusado como o mentor do mensalão. Em 2013, Dirceu foi preso. Em 2015 também foi acusado de envolvimento nos esquemas de corrupção da Petrobrás, e novamente preso.

Às 14 horas, Veronice Fernandes de Oliveira, de 68 anos, amiga de dona Heloísa, adentra o apartamento. De tão “da casa”, tem acesso livre – embora tenha sido a ansiedade a fazer a anfitriã deixar a porta da sala aberta. As duas, eufóricas, apontando para as curiosidades que apareciam na rua, aos poucos viam a multidão ilustrando de verde e amarelo a Praça Tamandaré.

“Tirar Dilma para pôr quem?”

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Olívio Pereira: “A corrupção sempre esteve presente na Petrobrás” | Foto: Domingos Ketelbey

Seu Olívio Pereira, 85 anos, lia o jornal quando a filha o informou: “Papai, tem um repórter querendo falar com o senhor”. Ele não se importou. “Não quero falar nada”. Mara Pacheco veio cabisbaixa, explicando: “Desde que papai rompeu com o grupo de Iris Rezende (ex-prefeito de Goiânia), não gosta de se envolver com política”.

Marielza Pacheco, 80 anos, é mulher de seu Olívio. Mesmo debilitada, está otimista: “Agora essa que se diz presidente vai ter de sair do poder”. Ela é, porém, interrompida pela entrada abrupta de seu Olívio na sala. “Vocês querem falar daquela palhaçada ali fora? Se tirarem a Dilma, vão colocar quem? O Temer? O Cunha? Sempre houve corrupção na Petrobrás. Agora é que deram nome aos bois. Aqueles ali só estão protestando depois de desmamados do governo Lula”, diz, veemente, sob o olhar raivoso de dona Marielza.

“Olha, moço, ele não sabe o que fala. Vive criticando a Dilma. Não gosta dela e agora vem defendê-la. Logo para o jornal, O­lívio…”, reclama, saindo da sala, sem autorizar fotografia. Seu Olívio se diz favorável à volta da ditadura. “A ditadura resolveria tudo. Poderiam tê-la estendido até hoje”, diz, indo à sacada do prédio.

Lá embaixo, a aglomeração na Praça Tamandaré parece ter agradou bastante aos vendedores ambulantes. Nem precisavam andar de um lado para o outro. Filas se formavam para comprar cerveja e refrigerante em lata. Entre eles, os valores não variavam. Enquanto uma latinha na caixa de isopor custava 3 reais, nas quitandas e churrascarias o preço subia para 6 reais.
As camisetas organizadas de acordo com a cor (a maioria, claro, amarelas) e tamanho vão desaparecendo aos poucos. Jorge Aidar, de 63 anos, pintor de aeronaves, afirma que o seu gosto político varia de acordo com o cliente. “Se o cliente é ‘coxi’ [de coxinha], eu, claro sou contra o PT”, confidencia ao repórter. E ri. Ele tinha vendido, só pela manhã, cerca de cem camisetas – simulacros do uniforme da seleção brasileira – a 20 reais cada. Ele conta que, desde que conheceu sua mulher, largou a profissão de pintor de avião para fabricar e vender camisetas. “O ‘avião’ é ela”, reage, sem dar maiores explicações. Nem precisava.

Júlio Guimarães, o pipoqueiro: “Se não tirar a Dilma, vai piorar”

Júlio Guimarães, o pipoqueiro: “Se não tirar a Dilma, vai piorar” | Foto: Domingos Ketelbey

Para aproveitar “a gente fina”, Júlio Guimarães, 40 anos, o pipoqueiro, aumentou a pipoca de R$ 2 para R$ 4. Eleitor do PT não quer mais saber de Lula, Dilma “e desse povo que agora que ficou rico e esqueceu o pobre”. Para ele, o protesto é válido. “Está todo mundo cansado da corrupção neste País.” Em frente à televisão, assistindo aos noticiários, gagueja um diagnóstico: “Se não tirar a Dilma, a coisa vai piorar”. É ele que, por exemplo, anota a escalada do preço do gás usado para o trabalho diário em feiras, festas e protestos de toda pujança. É ele também que não aguenta mais pechinchar o valor da pipoca. “Alguns anos atrás era R$ 1 o saquinho. Hoje, compro de R$ 4”, reclama, fazendo o balanço das vendas.

Um personagem ímpar é fotografado, tão assediado que quase não consegue conceder a entrevista. Ao mesmo tempo em que o segundo-tenente da reserva Carlos Roberto Mendes, 65 anos, é clicado pelo médico Lessandro Martins, vestido com o uniforme militar, ele reafirma, segurando uma placa de anseio pela intervenção militar: “Tanque nas ruas e a destituição dessa política pelos militares vão restaurar a ordem”.

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Carlos Mendes: “Tanque nas ruas e militares vão restaurar a ordem” | Foto: Domingos Ketelbey

O pedido do militar se dá em março de 2016. Neste mesmo mês, há 52 anos, muitos foram às ruas pedir a queda de João Goulart (Jango, “o comunista”) da Pre­si­dência. Foi a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. ­Lessandro, o médico que fotografou o segundo-tenente fardado, discorda: “Só em último caso (sobre a intervenção militar). O impeachment só pode ser feito se comprovadas as pedaladas fiscais”, falou o médico, que tinha acabado de chegar do exterior naquele domingo e levava a mulher e os dois filhos para pedir a saída do PT do Planalto Central. 

Enquanto isso, pessoas desconhecidas entre si e assoprando apitos seguram cartazes aos montes. Neles se leem: “Luladrão”, “Basta de corrupção!” e “Sua hora chegou, corrupto!”. Além de levar suas mensagens escritas, os presentes não se esquecem de que ali era para um ato conjunto para protestar contra o PT. No trio elétrico, palavras eram distribuídas e uma multidão as repetia. O coro só se esquecia de Lula e Dilma quando era para “adorar” o juiz Sérgio Moro, o principal nome da investigação conhecida como Operação Lava Jato.

Músicas ao ritmo da moda, como o funk, animavam a multidão sob o sol de início de tarde. Uma mulher circula por ali e, sem querer dizer seu nome, assume que é raro sair do condomínio em que mora. E completa ressaltando que, quando sai, está sempre protegida pelo teto do carro. “Mas pelo Brasil vale a pena sofrer”, diz, envolvida com seu smartphone.

Valdessar Bezerra: “Aqueles que votaram na Dilma veem um desastre”

Valdessar Bezerra: “Aqueles que votaram na Dilma veem um desastre” | Foto: Domingos Ketelbey

Os manifestantes se protegem do sol como podem: debaixo de marquises, de árvores, de sombrinhas ou dentro de fast foods – muitos deles saem cheios de ânimo para continuar o protesto, depois do lanche. É na rota gastronômica das imediações que a reportagem encontra Valdessar Bezerra, de 66 anos. Recepcionista, ele atendia a centenas de clientes prontos para o ato político na Churrascaria do Walmor, no Setor Oeste. Assistia à animação da freguesia. Depois do expediente, mais tranquilo, contou ao Jornal Opção que é “favorável ao protesto”. “O País está inseguro, confuso. O momento é crítico. Quem votou na Dilma vê um desastre”, analisa, posando para a foto diante da praça já esvaziada.

Naquele momento, todos seguiam para a Avenida 85, em direção ao que tem se tornado o templo de adoração do movimento: a sede da Polícia Federal. A instituição se tornou símbolo de democracia e garantia de justiça, alegam os manifestantes. Afinal, foi responsável por manejar ricos de suas vidas luxuosas, bancadas com dinheiro público – principalmente da Petrobrás –, diretamente para a cela. Bonecos de Lula com roupa de presidiário, ilustrações diversas e cartazes eram distribuídos em homenagem a Sérgio Moro, no meio da multidão, que entoava gritos de apoio ao juiz.

Em alguns grupos aglutinados debaixo de árvores, se discutiam as buscas na casa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Instituto Lula, para apurar a relação do petista com o esquema de corrupção da Petrobrás. As discussões provocaram confronto entre grupos contra e a favor de Lula e críticas à ordem de condução coercitiva de Sérgio Moro.

Joana D’arc: “Eu não poderia deixar de defender o juiz Sérgio Moro”

Joana D’arc: “Eu não poderia deixar de defender o juiz Sérgio Moro” | Foto: Domingos Ketelbey

Um dos homens, que não quis se identificar, relembra que, dois anos depois do início das investigações, a Operação Lava Jato – provocada por irregularidades descobertas em um posto de gasolina e que culminou no escândalo da Petrobrás – alcançou o petista-chefe. E diz que isso foi o que provocou a ira de Lula, que chamou a sua defesa os militantes de seu partido — a 24ª fase da Lava-Jato, batizada de Alethea, não só levou Lula a prestar depoimento, como também outras dez pessoas ligadas e ele. “A Polícia foi até ao sítio e ao apartamento dele”, realça uma mulher, de óculos escuros e de olho em seu iPhone, sobre as principais suspeitas em torno do ex-presidente.

A procuradora da República aposentada Joana D’arc, 73 anos, desobedeceu ao médico e caminha na Praça Tamandaré amparada pela nora Jaqueline. “Não poderia deixar de defender o Moro. Ele é o salvador da pátria. Ele é o que foi Tiradentes para a Inconfidência Mineira. Sem ele, estaríamos no fundo do poço”, diz, com apito entre os lábios.

“Só vejo tanto ‘bacana’ assim quando fico na porta dos restaurantes”

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José Rodrigues, vendo os “bacanas” na manifestação: “Será a Copa?” | Foto: Domingos Ketelbey

O evento caminhava. E, para trás, deixava seus sinais. A reportagem do Jornal Opção encontrou pilhas de folhetos empacotados na praça, jogados fora, depois que os manifestantes voltavam para casa ou seguiam pela Avenida 85. Um carrinho do hipermercado Pão de Açúcar ficou abandonado. Faixas estendidas com frases contra o PT se tornaram cenários para selfies de quem chegou atrasado. No chão, José Rodrigues, 40 anos, encontra as latinhas que serviram aos manifestantes. Vão agora servir para ele comer amanhã. “Só de pensar que não vou precisar pedir almoço na porta do restaurante na segunda…”.

José ganha R$ 2,50 por quilo de alumínio. Anda na contramão desde criança. No domingo, não foi diferente. Vinha subindo a Avenida 85, com apenas uma sacolinha quando se viu diante de uma multidão. Assus­tou-se e chegou a pensar: “Será que a Copa do Mundo já chegou?”, contou. Disse que só vê tanto “bacana” assim quando fica à porta de restaurantes nos bairros nobres da capital.

Estampava um riso sem dentes e três sacos com latinhas. De Dilma, de Lula, do PT, só sabe dizer que nunca votou neles, mas sabe que Lula fez muita coisa boa: “Lula não é aquele que deu a Bolsa Família?”. Para ele, que nasceu do Rio Grande do Sul – os olhos verdes já fariam suspeitar da origem sulista –, o importante é continuar na contramão, para encontrar o que sobrou e “comer com dignidade a­manhã”. Es­perança, para ele, é ter pe­lo menos o documento de identidade que nunca teve. Nem carteira de trabalho, nem título de eleitor.

Chuva

Policiais caminham pela Avenida 85

Policiais caminham pela Avenida 85 | Foto: Domingos Ketelbey

Chovia sobre os manifestantes e os organizadores, pelos microfones, pediam para que não desistissem, no meio do caminho, do percurso de pouco mais de quatro quilômetros até a Polícia Federal. Quando caiu a chuva, vendedores de capas apareceram. Quanto é uma? “Dez reais. Não conta para ninguém, mas faço por 5 para o senhor”.

Um coronel da Polícia Militar, encostado em uma viatura, despreocupado com os avisos pelo rádio, disse que 600 policiais militares acompanhavam o protesto. Sob a chuva, portar a farda molhada era uma tarefa a mais para os PMs no Viaduto João Alves de Queiroz, na Praça do Ratinho. Policiais cansados, muitos deles com coldres vazios, desarmados, posavam para fotos marchando contra a corrupção. Muitas vezes, com sorrisos bem espontâneos.

Felipe Rodrigues, 24, criou um jogo em que Dilma foge do im­pe­achment. Disponibilizado gratuitamente para downloading, avisa ele, que aproveitou o dia 13 para distribuir folhetos convidando a todos para baixar e jogar. “É a forma que encontrei para protestar”, disse.
Quando a chuva vai findando, por volta das 17 horas, a multidão já se dispersa. Um agente federal, sem identificar, presume que, se assumir um cargo no governo, “Lula pode limitar a atuação histórica da Polícia Federal” que, com a autonomia conquistada pela instituição, tem dado luz aos “escombros da política nacional”, “assombrando os corruptos” e “manejando poderosos dos postos de falcatrua” e direcionando-os à prisão.

O dia 13 de março foi um dos capítulos da crise política quase surreal por que passa o Brasil. Poderia ter sido um enredo saído da cabeça de algum romancista apaixonado por histórias envolvendo vilões e heróis. Os fragmentos de vidas interligados ao protesto de domingo se somam às demonstrações de descontentamento. Os desdobramentos na semana seguinte revelam que a história de um partido, de políticos e de um povo só está começando. Um trajeto feito de memórias, de barulho, de gritos, de realidade, de contradições. De desrespeito e desabafo contra seus alvos. No futuro, o espaço de tempo dirá o que significou aquele domingo para o Brasil. l

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