Pandemia faz da abstenção um desafio para as eleições

TSE trabalha para minimizar o impacto da Covid nas urnas. Só em Goiânia, os idosos do grupo de risco representam 19% do eleitorado

Sempre ativo e rigoroso com sua rotina de treinos, o aposentado e maratonista Arédio Dias, tem a mesma obstinação de atleta quando se fala em deveres com a democracia. Com seus 86 anos, ele já ganhou há algum tempo o direito ao voto facultativo, no entanto, mesmo pertencendo ao grupo de risco para Covid-19, diz não abrir mão de ir às urnas nas eleições deste ano. “Sempre votei e não vou deixar de ir agora. É só tomar todos os cuidados que já venho tomando. Não esquecer a máscara”, diz o atleta, em tom de quem ensina uma receita.

A determinação de Arédio Dias é até inspiradora, mas em um cenário de crise sanitária sem precedentes como o gerado pela pandemia do coronavírus, não será um ato generalizado entre os eleitores. Muitos, por medo, não querem deixar suas casas para ir às zonas eleitorais.

É o caso da professora aposentada Doraci Lima, de 68 anos. Além do grupo de risco, ela também está entre os que vão se abster de votar neste ano. “Estou me mantendo isolada e com todo cuidado desde que a doença chegou. Acho que não seria prudente ir para um lugar com aglomeração e pegar fila. É arriscado. Prefiro pagar aquela multa (R$3.50).”

O que Arédio e Doraci tem em comum é que ambos estão entre os 19,1% do eleitorado goianiense que tem mais de 60 anos, e que, de acordo com as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS), são do grupo de risco para Covid.

Goiânia, como muitas outras cidades brasileiras, tem muitos idosos (cerca de 127 mil, segundo IBGE). Para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e partidos políticos esse fator gera preocupação quanto ao que pode significar para o índice de abstenção. Pessoas com mais de 60 anos tem se demonstrado apreensivas quanto aos riscos de se contaminar e, por isso, seguem com maior rigor as orientações das autoridades médicas e de familiares sobre o distanciamento social. Esse cuidado deve pesar na decisão de votar ou não, este ano.

O advogado eleitoral Julio Meirelles avalia que o temor em se contaminar com coronavírus vai falar mais alto na decisão de ir as urnas. “As pessoas precisam enfrentar fila para votar. É claro que vão repensar se vale a pena. E aí vem o instinto de sobrevivência. As pessoas vão ficar preocupadas com sua própria vida, sobretudo aquelas que são mais suscetíveis à contaminação e, o que é pior, a mortalidade causada pela doença. Isso vai provocar uma abstenção maior do que já vinha sendo registrado”, avalia.

Outro fator que deve ampliar a abstenção, na opinião de Julio Meirelles, é o baixo engajamento nas eleições. “Teremos pouca participação popular nas eleições, ou seja, será uma eleição fria e com capacidade de mobilização reduzida sensivelmente. Com isso veremos uma abstenção muito mais alta do que o normal.”

Fonte: TSE

O também advogado eleitoral, Bruno Pena, acredita no aumento da abstenção eleitoral, mas avalia que o percentual não seja tão significativo. “Eu acho que nessa eleição deve ter uma pequena variação. Talvez um acréscimo que não seja nem de 10%. Não são todos eleitores dos grupos de risco que vão deixar de votar. Afinal, quem faltar pode ter que pagar multa, que embora pequena, não deixa de ser uma dor de cabeça”, pontua.

Nas eleições municipais de 2016, Goiânia registrou 20% de abstenção. Naquele pleito havia mais de 957 mil eleitores aptos a votar, mas quase 200 mil não compareceram às urnas. Mesmo em um ambiente de crise sanitária e com tantos eleitores compondo grupos de risco, o cientista político Pedro Mundim acredita que o percentual abstenção deve se manter estável.

“Se a disputa for muito acirrada, os eleitores se sentirão incentivados a participar mais. Caso haja uma diferença muito grande de um candidato para o outro, as pessoas tendem a não votar. Mas acredito que a pandemia não será motivo principal para eleitores deixarem de ir as urnas, até porque há uma sensação de que muita coisa voltou ao normal, como bares e idas a cidades turísticas”, diz. “O quanto da pandemia vai refletir nas urnas? Não dá para calcular.  Não há parâmetros para fazer essa estimativa de quantos podem deixar de ir”, completa Pedro Mundim.

Fonte: TSE

O historiador Tiago Zancope vai um pouco além em sua análise. Para ele, o cenário eleitoral pode até reduzir a abstenção. “Quando se fala de Goiânia, teremos 14 candidatos majoritários. Só isso já causa um movimento grande e incentiva as pessoas a irem votar. Somado a isso, temos o fato de que o horário para a votação foi estendido e o TSE colocou um horário prioritário para os idosos. Isso pode resultar em um número maior de eleitores indo às urnas.”

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral,  Luís Roberto Barroso, também se demonstra otimista em relação a abstenção. “Tenho percebido uma sociedade extremamente mobilizada, consciente e participante. De modo que eu imagino que possamos ter o mesmo comparecimento dos últimos tempos, ou talvez até um pouco mais”, disse. “Lembrando que as eleições municipais são as mais próximas dos cidadãos. Ninguém mora na União, ninguém mora nos estados. As pessoas moram mesmo no município e é ali que têm capacidade de fazer maior diferença”, reforçou em entrevista coletiva recente. 

Descrença política gera abstenção

Não é só a pandemia que pode afastar os eleitores das urnas. O crescente percentual de abstenção assistido em eleições anteriores é reflexo da descrença política. Pesquisa do Instituto Locomotiva/Ideia Big Data feita em 2018 mostrou que 96% dos cidadãos não se sentem representados pelos políticos em exercício e que 94% acreditam que os parlamentares estão mais preocupados em se manter no poder do que em governar o país.

O jovem Teófilo está descrente com a política | Foto: arquivo pessoal

Jovem estudante Teófilo Tavares, de 23 anos, pensa em não ir às urnas este ano. Ele mora em Goiânia, mas vota no interior. A descrença política deve pesar em sua decisão. “Penso se vale a pena viajar para ir votar, quando me parece que a política é sempre a mesma e nada muda. Parece que meu voto não faz diferença”, estima. 

A posição de Teófilo está relacionada com um cenário político degradado pelas denúncias de corrupção que repercute nas candidaturas em todas esferas eleitorais. Entre os jovens é amplo o sentimento de desmoralização dos partidos e seus candidatos.

Em 2018, em todo o País, quase 30 milhões de eleitores não compareceram às urnas

TSE faz campanha contra abstenção

Mesmo com tantos impactos provocados pela pandemia do coronavírus, sobretudo nas eleições de 2020, o TSE tem buscado meios para que o maior número de eleitores votem no pleito de 15 de novembro, e que não tenhamos uma abstenção superior às eleições anteriores. O ministro Luís Roberto Barroso, presidente da Corte Eleitoral apresentou o “Plano de Segurança Sanitária para as Eleições Municipais de 2020”, construído a partir de um amplo trabalho de especialistas da Fiocruz – Fundação Osvaldo Cruz, e dos hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein.

“O objetivo é proporcionar o mais alto grau de segurança”, afirmou o ministro. Ele ainda destacou a democracia brasileira tem dimensões continentais com mais de 147 milhões de eleitores, a quarta maior do mundo. A ideia é que todas as seções eleitorais tenham álcool em gel para limpeza das mãos dos eleitores antes e depois da votação, além dos mesários receberem equipamentos de proteção.

Na realidade está se travando uma grande campanha, para convencer o eleitor a comparecer à votação, mas que se tenha todos os cuidados necessários e que todos cumpram com seu dever cívico, de forma ágil, permanecendo o tempo mínimo necessário para votar e depois retornando a sua residência. Decisões importantes antes já haviam sido tomadas, como a suspensão do cancelamento dos títulos eleitorais de pessoas que não fizeram a coleta de biometria, bem como a não verificação biométrica para identificar o eleitor no pleito. Ou seja, o eleitor poderá votar apenas com seu documento de identificação, como em eleições anteriores.

Horário diferente

Entre as diferenças para o pleito de 2020 está o horário. O TSE decidiu estender o prazo de votação, que agora será das 7h às 17 horas. Os idosos, por serem do grupo de risco da Covid-19, terão preferência das 7h às 10h. Não foi estabelecido horário de preferência para outros integrantes do grupo de risco.

Segurança contra Covid-19

Além disso, no dia da votação serão colocadas marcações no piso, indicando o distanciamento mínimo que cada pessoa deve manter, será exigido uso de máscara e é recomendado que cada eleitor leve uma caneta, para que não haja compartilhamento.

Os mesários estarão trajando equipamentos de proteção individual (EPI) como máscaras, face shield, luvas, e os documentos de cada eleitor serão recebidos por meio de uma bandeja, para a identificação e liberação do eleitor. Será disponibilizado aos eleitores álcool em gel, em vários locais, para que façam a higienização de suas mãos antes de utilizarem a urna.

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