Pandemia: a cada cinco minutos, uma criança brasileira fica órfã por Covid; entenda como o luto pode afetá-las

O país ainda está em uma fase crítica da pandemia em que o cuidado maior é para evitar o aumento do número de mortos, mas os órfãs também já alcançam números exorbitantes

Segundo um levantamento feito pela revista científica “‘The Lancet”, a cada cinco minutos, uma criança brasileira fica órfã ou de um dos pais ou dos avós em decorrência da Covid-19. Entre março de 2020 e abril de 2021, 113 mil menores de idade perderam os pais. Quando olhamos para as crianças que eram cuidadas pelos avós esse número salta para 130 mil. Mundialmente, 1,5 milhões de menores de idade estão enfrentando o mesmo luto.

Em meio a pior crise sanitária já enfrentada, o Brasil atinge a marca de 570 mil mortos pelo vírus que foi detectado pela primeira vez, em dezembro de 2019, na China. Mesmo com o avanço da vacinação, é costumeiro que a preocupação maior ainda seja em evitar o número de mortos. Mas agora, outras estatísticas começam a aparecer nos mostrando as consequências que essa pandemia ainda vai deixar. Dentre elas, estão as crianças enlutadas, os filhos deixados sozinhos por conta de um vírus.

O processo do luto em uma criança, depende muito de sua fase de desenvolvimento, como diz a psicóloga, Ana Lúcia Cabral. “O luto é um processo, cada pessoa vai vivenciar esse processo de uma forma única, e isso não é diferente com as crianças”, afirma. Dependendo da idade, a criança pode não conseguir compreender toda a universalidade que envolve a questão da morte e que é algo irreversível. Mas a consciência do fato vai amadurecendo conforme o crescimento da criança.

Por ainda serem muito jovens, as crianças enlutadas podem não saber expressar sua dor de forma muito clara. O luto pode vir em uma mudança de comportamento, uma birra, um choro e até o foco em outras atividades, como explica Ana Lúcia. “Essa mudança de comportamento é uma forma de expressar, que também pode ser através de um desenho, jogo e, por isso, é essencial estar atendo e disponível para acolher essa expressão, validar o que ela está sentindo”.

Durante esse processo, como analisa a psicóloga, é importante permitir que a criança “chore, que manifeste sua angústia, que fale das lembranças, que pergunte sem medo, que sinta confiança, que saiba que pode falar sobre a pessoa que morreu” ao invés de tentar reprimi-la.

A Pandemia do Covid-19 é entendida como um desastre, muitas vezes, pessoas que passam por situações do tipo podem desenvolver Transtorno de Estresse Pós-Traumático. As crianças enlutas não fogem a regra. Sintomas como depressão, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de sono, baixa concentração nas atividades e isolamento emocional podem surgir nessas pessoas que enfrentaram situações estressantes demais como a morte de seu principal cuidador.

Como explica a doutora em psicologia, Célia Maria Ferreira, “em função da falta de maturidade e habilidade de comunicação, a criança tem dificuldade de expressar o que sente em palavras. Pode exprimir a dor psíquica por meio da dor corporal, irritabilidade, comportamento agressivo, dificuldades escolares, perda ou aumento do apetite, apresentar ansiedade de separação, medo de morrer ou de perder uma pessoa querida, apresentar depressão, ter pesadelos e retraimento social.”

Outro fato que começa a ganhar espaço, é o auxílio que essas crianças deveriam receber do governo. Afinal, muitas perderam o principal provedor de dinheiro da casa, ou até mesmo ambos, e estão em situação de desamparo. Esse novo contexto também pode agravar o processo de luto. “A criança pode apresentar dificuldade de se ajustar no novo contexto, na nova rotina, no dia a dia sem aquela pessoa, sem os cuidados, a convivência”, afirma Ana Lúcia.

A economista Greice Guerra Fernandes, afirma que uma proposta de Auxílio para essas crianças já está em discussão. “O Governo já estuda dentro da reformulação do Bolsa Família, incluir um valor que a princípio seria de R $240,00 a R$ 250,00 para cada criança ou adolescente, segundo o Ministério da Cidadania”, explica Greice. E acrescenta dizendo que “seria interessante também que o recebimento deste Auxílio fosse por pessoa e não por família”, pois assim, em casos de 3 ou mais irmão o valor seria acumulativo e somaria quase um salário mínimo ajudando mais ainda essas crianças.

A questão é que é urgente uma medida do governo para amparar as crianças órfãs pela pandemia. Auxílio financeiro e psicológico devem ser pensados para cuidar desses filhos da pandemia. Não somente eles, mas também de quem assumiu a responsabilidade de cuidar dessas crianças.

 

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