Operação Carne Fraca gera prejuízos, mas não barra recuperação econômica

O alarde é grande e o recuo do setor agropecuário no curto prazo é certo. Porém, economistas e gestores acreditam que se trata de uma turbulência passageira que não trará consequências graves para o futuro

Crise no setor produtivo é pontual e não deve se alongar por tempo o suficiente para interromper a recuperação econômica do País | Foto: Carlos Costa

Em 1958, a Revista Man­chete Esportiva publicou um texto intitulado “Com­­plexo de vira-latas”. Nele, Nelson Rodrigues falava sobre o sentimento de inferioridade sentido voluntariamente pelo brasileiro “em todos os setores, sobretudo, no futebol, em face do resto do mundo”. O escritor pegou como ponto de partida os lamentos em relação ao fracasso na Copa do Mundo de 1950, que ainda vigorava no País oito anos depois, para traçar um perfil do brasileiro.

A genialidade de Nelson Ro­drigues está no fato de que, se republicado no jornal de amanhã, o texto com certeza será entendido por um jovem nascido em meados dos anos 2000, pois, apesar de passados quase 60 anos de sua publicação original, a análise permanece atual.

No futebol, por anos sem conta, o brasileiro superou artificialmente esse sentimento, pelo menos até 2014, quando a derrota para o Uruguai em 1950 foi renovada pelo 7 a 1 contra a Alemanha. Naquele ano, os brasileiros viram seu complexo de vira-latas renascer e ser renovado ano após ano por uma sucessão de acontecimentos: crise econômica, crise política, crise moral, desemprego, perda do poder de consumo etc.

Pergunte a si mesmo: o Brasil é melhor que a Suécia em que sentido? O leitor provavelmente dispensará algum tempo pensando no assunto e, se perguntar a qualquer brasileiro, é provável que receba de imediato um “nenhum” como resposta. A verdade, entretanto, é que o Brasil é superior a vários países em muitos aspectos e um deles, para ficar em um exemplo, pode ser encontrado no campo. É certo que, se existe um lugar em que o complexo de vira-latas não será encontrado, este é o setor produtivo.

Isso porque o Brasil tem um dos setores produtivos mais modernos do mundo, tanto que é líder mundial em exportação de uma centena de produtos e está entre os primeiros colocados em produção de milhares de outros. Nas últimas duas décadas, os produtores mo­der­nizaram muito seus negócios e atualmente se tornaram modelo a ser seguido no restante do mundo, que sabe a força brasileira nesta área.

É claro que, sobretudo no que envolve infraestrutura de transporte e escoamento, o Brasil ainda está muito aquém de seus competidores – a Austrália, por exemplo, embora produza menos, tem maior preparo infraestrutural. Contudo, na base da cadeia o setor produtivo brasileiro é de ponta e, se o leitor for ao campo, com certeza encontrará produtores altivos e orgulhosos de serem altamente competitivos internacionalmente. Não à toa, o setor agropecuário representa quase 25% do PIB brasileiro.

Esse cenário não nasceu do dia para a noite, mas foi criado ao longo de quase três décadas, período em que o Brasil passou de importador de alimentos para grande exportador e parecia que assim permaneceria por anos sem fim. Parecia? Sim, pois notícias publicadas na semana passada fizeram os grandes importadores de produtos brasileiros suspenderem as transações, colocando em xeque essa posição.

Tudo começou com uma operação deflagrada pela Polícia Federal (PF) no dia 17 de março. Nomeada Carne Fraca, a ação deixou à mostra um esquema de corrupção que consistia na liberação de licenças e fiscalização irregular de frigoríficos sob pagamento de propinas. Na lista dos beneficiados, fiscais do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) e 21 frigoríficos.

O problema maior começou quando saiu a lista dos estabelecimentos investigados, contendo as duas maiores empresas do País no setor e que detêm uma parcela significativa do fornecimento de carnes para o mundo: BRF Brasil (Sadia e Perdigão) e a JBS (Friboi, Seara, Swift, entre outras marcas). Entre as denúncias, a existência de graves irregularidades sanitárias envolvendo, inclusive, produtos tóxicos à saúde humana.

O alarde feito à imprensa foi tão grande que, quase imediatamente, alguns países suspenderam totalmente as importações de carnes brasileiras até segunda análise, caso de Hong Kong, Chile, Egito e México; e outros anunciaram suspensão parcial: a África do Sul não irá mais importar carnes dos 21 frigoríficos investigados, assim como União Europeia e Japão; a Chi­na suspendeu o desembarque dos produtos de 65 frigoríficos.

A Suíça não importará apenas dos três frigoríficos interditados e a Rússia aguarda para debater o assunto com a União Europeia. Estados Unidos e Catar informaram que irão inspecionar 100% das carnes brasileiras, caso também da Argentina. Até a sexta-feira, 24, o único país que havia voltado atrás no embargo imposto ao Brasil era a Coreia do Sul, que tinha proibido importações da BRF.

A situação gerou desespero nos produtores brasileiros, afinal os países que anunciaram o embargo são grandes consumidores. China e Hong Kong, por exemplo, são os principais destinos da carne brasileira. Juntos os dois países importaram mais de 3,6 bilhões de dólares em carnes brasileiras em 2016, isto é, mais de 11 bilhões de reais. Isso sem contar Arábia Saudita, Rússia, Japão, Holanda, Egito, Emirados Árabes Unidos, Chile e Reino Unido.

A exportação de carnes resultou para o Brasil aproximadamente 14 bilhões de dólares em 2016. Trata-se de 7,3% do total de exportações do País no ano passado. As carnes bovina e de frango foram responsáveis por dois terços disso, sendo vendidas para quase 150 países. O País detém, apenas em carne de frangos, 37% da exportação mundial.

Isso mostra que a importância do setor agropecuário do Brasil no mercado internacional é inegável. E o impacto da suspensão anunciada por esses países foi também imediato: em um dia, as exportações caíram de 63 milhões de dólares para 74 mil dólares. O resultado foi conferido na terça-feira, 21 de março, e o restante da semana seguiu fluxo semelhante. Como consequência, os frigoríficos reduziram sua produção e chegaram a demitir alguns de seus funcionários.

A JBS, que abate uma média de 30 mil cabeças bovinas por dia, suspendeu por três dias a produção de carne bovina em 33 de suas 36 unidades e anunciou que todas iriam operar com uma redução de 35% na capacidade produtiva. Trabalhando com capacidade reduzida, obviamente, grande parte dos frigoríficos passou a comprar menos, impactando diretamente os produtores, pois milhares de animais prontos para o abate tiveram que ser deixados à espera, gerando prejuízos. Isso porque a linha de produção dos frigoríficos é enorme.

A unidade da BRF na cidade goiana de Mineiros – que exporta para África do Sul, União Europeia, Cuba, Gabão, Gana, Hong Kong, México, Rússia, Suíça, Antígua e Barbuda e Bahamas – deixou de abater 115 mil frangos e 25 mil perus por dia com a interdição realizada pela operação da PF. Para que os produtores não tivessem que “descartar” os animais, que crescem rápido e logo passam do tempo do abate, a empresa precisou protocolar pedido no Serviço de Inspeção Federal (SIF) para levar a produção para Uberlândia (MG).

A expectativa é de que o Brasil chegue a perder 2,7 bilhões de dólares no ano devido ao problema. A culpa é da PF? Não. A operação não pode ser questionada, pois o desenrolar dos fatos ainda virá e uma ação que visa diminuir a corrupção endêmica existente no Brasil não pode ser desclassificada, mesmo que traga consequências negativas à economia. As acusações contra os frigoríficos são de pagamento de propina a fiscais agropecuários para evitar o fechamento de unidades e facilitar a emissão de autorizações sanitárias.

Esse tipo de situação é inaceitável em um país que luta há anos contra a corrupção. A JBS, por exemplo, a maior empresa privada não financeira do País e que tem uma receita líquida total de R$ 170 bilhões, só cresceu devido ao financiamento público. A JBS nunca chegaria ao patamar atual se não fosse os milhares de reais saídos do BNDES para o grupo. O mesmo vale para vários outros conglomerados brasileiros.

A empresa é importante? Sim, e não apenas pelo lucro, mas também porque emprega, nos treze mercados nos quais atua, da Argentina ao Vietnã, do Uruguai aos Estados Unidos, 237 mil pessoas; só no Brasil são 125 mil funcionários. Agora, a importância da empresa minimiza possíveis ilegalidades? Não. Se forem provadas pela investigação, tanto esta quanto as outras empresas precisam ser punidas.

O erro da Operação Carne Fraca está na divulgação de informações no dia da operação e no “auê” feito pela imprensa em relação ao assunto. Nesse sentido, a “maior operação da história da PF” foi um tiro no pé do País, principalmente em um momento em que o Brasil começa a se recuperar. Contudo, a crise da carne durará o suficiente para atrapalhar a volta do crescimento do País? Apesar dos prejuízos imediatos, é provável que não.

O governo federal agiu rápido: exonerou os superintendentes do Mapa no Paraná e em Goiás; afastou os 33 servidores do Mapa envolvidos no esquema, inclusive os três que são suspeitos de fraudar o processo de certificação sanitária internacional; chamou os países que suspenderam as importações para conversar; interrompeu a exportação dos frigoríficos investigados; e já anunciou o lançamento do novo regulamento de inspeção de alimentos, que acontecerá ainda em março.

O dever de casa a ser feito pelo governo federal é no sentido de mos­trar que, apesar da corrupção en­dêmica instalada no País, o setor pro­dutivo tem condições de se manter ativo e apresentando produtos com qualidade. Trata-se da tentativa de convencimento de que a briga por uma mudança cultural não afeta a produção brasileira, pois dela depende a economia do País.

Os governos estaduais também estão agindo de maneira célere. Goiás, por exemplo, que é o maior Estado produtor do País, já anunciou que irá mandar uma equipe técnica aos países importadores de produtos goianos para assegurar a qualidade dos produtos e reverter os embargos, evitando perdas econômicas para o Estado (leia mais na próxima página). Logo, é muito provável que o País consiga reverter essa crise no curto prazo, evitando prejuízos mais robustos.

Um ponto importante a ser ressaltado é que a probabilidade de os embargos impostos pelos países importadores durar muito tempo é pequeno, pois a importância do Brasil no mercado internacional é muito grande e não há países que possam suprir a demanda rapidamente. A Austrália é um importante produtor, mas não produz o suficiente. Isso porque o Brasil representa 80% das importações de frango do Japão, 60% do Oriente Médio, 40% da União Europeia e 40% da China. Isso levando em consideração que apenas cerca de 20% da produção brasileira vai para exportação.

É bom lembrar também que a agropecuária é um dos pilares da economia brasileira e que o setor não é nada frágil. Ao contrário. Como diz a economista Ana Carla Abrão, “se o Brasil dependesse de sua indústria, que é subsidiada e com baixa produtividade, a crise e o desemprego seriam ainda maiores. Temos o agrobusiness mais produtivo do mundo e a economia brasileira só não afundou mais graças a ele.”

A prova disso veio no boletim macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), publicado pelo jornal Valor Econômico na sexta-feira, 24, que mostra que o setor agropecuário será fundamental para que o Brasil registre, no primeiro trimestre deste ano, a primeira variação positiva para o PIB em dois anos.

Isso porque a agropecuária deve avançar 6,8% entre em janeiro e março, após crescer apenas 1% no quarto trimestre do ano passado – na comparação com o mesmo período de 2016, a alta é de 8%. De todos os setores é o único que apresenta crescimento consistente. Segundo a previsão, a indústria deve voltar a crescer, mas ainda de maneira tímida (1,2% no primeiro trimestre contra -0,7% no quarto trimestre de 2016); todos os outros setores apresentam recuo: serviços (-0,3%), consumo das famílias (-0,2), consumo do governo (-0,3%), importação (-6,9%).

Mais: o resultado apresentado pelo Ibre não desconsidera que o preço dos alimentos está em queda desde o início do ano – o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo -15 (IPCA -15) fechou a semana passada em queda, consolidando a desaceleração da inflação e um dos grupos que ajudou nesse resultado foi justamente o de alimentos, que recuou de 4,42% no primeiro trimestre de 2016 para apenas 0,14% no deste ano. Isto é, o setor permanece forte, mesmo com preços mais baixos.

Além disso, é preciso levar em consideração dois fatores: 1) a participação das carnes na exportação brasileira é importante, mas apenas aproximadamente 20% da produção do setor vai para exportação, sendo 80% para consumo interno, que não será interrompido; 2) segundo a PF, em um universo de quase 5 mil fábricas de processamento de carne no Brasil, apenas 21 estão sob investigação até o momento.

Motores internos

É fato que a economia brasileira já dá sinais de melhora, tímidos, mas existentes. Tanto que as perspectivas para o segundo semestre de 2017 são mais animadoras que as do semestre passado. Por um lado, o corte de juros deve facilitar a renegociação de dívidas; por outro, uma inflação mais baixa pode aumentar o poder de consumo dos brasileiros, que recebe também um impulso dado pela liberação das contas inativas do FGTS. Ou seja, o motor da recuperação é interno, não externo.

Ana Carla Abrão: “Não deixa de ser preocupante, mas não acho que o impacto seja grande o suficiente para interromper o processo de recuperação” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

A economista Ana Carla Abrão diz que as consequências da Ope­ração Carne Fraca arranharam a imagem do Brasil no exterior de uma forma importante e que a recuperação dessa imagem não será fácil. Ela afirma, porém, que isso não deve alterar as perspectivas de recuperação da economia brasileira, “pois é baseada nos motores de recuperação do mercado interno e não do mercado internacional, até porque o Brasil ainda tem uma economia muito fechada.”

Segundo ela, o governo conseguirá evitar que o problema se generalize. “O preço vai cair porque vai sobrar mais carne no mercado doméstico, mas não vejo isso como um problema que ameace o processo de recuperação. O que faz diferença é a política monetária que agora colocou a inflação no lugar, fazendo os juros caírem. Isso gera capacidade de investimento, recuperação da mão de obra e de empregabilidade. É claro que não deixa de ser preocupante, mas não acho que o impacto seja grande o suficiente para interromper o processo de recuperação”, explica.

Nathan Blanche : “20% de um negócio é muito? Sim, mas não é 100%. Lamento o ocorrido, mas, em termos de contas externas, não me preocupa” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O economista Nathan Blanche, da Tendências Consultoria, diz que, embora os prejuízos sejam significativos, esse não é o maior problema do País. “Do ponto de vista de balança comercial é importante, mas não é isso que afeta o prêmio de risco do País. Esse é afetado pela contaminação da imagem do Brasil diante da má conduta ética dos fabricantes, mesmo que seja a minoria, e dos próprios agentes públicos”, afirma.

Contudo, Blanche relata que, mesmo a imagem é recuperável, desde que o governo haja corretamente para tratar a questão. “O governo terá que chamar os órgãos de fiscalização e explicar tudo de maneira séria e madura. Se não for assim, não resolve. Agora, do ponto de vista econômico, não afeta tanto. 20% de um negócio é muito? Sim, mas não é 100%. Lamento o ocorrido, mas, em termos de contas externas, não me preocupa”, explica.

Setor produtivo prejudicado no curto prazo 

Se os prejuízos não devem se acumular no longo prazo na economia brasileira, no curto os danos são certos e os maiores prejudicados são os produtores, por dois motivos:

1) Na visão dos produtores, a maior consequência do escândalo de corrupção envolvendo frigoríficos brasileiros é dar munição aos governos estrangeiros para impor mais tarifas alfandegárias ao Brasil, sobretudo porque o mundo vive um contexto de forte protecionismo – vide os Estados Unidos de Donald Trump;

2) Com maiores taxas alfandegárias e com uma redução da produção, os produtores temem que os frigoríficos utilizem isso como pretexto para reduzir ainda mais o preço pago por cabeça.

Tasso Jayme: “O único setor que ainda gera emprego e que levanta o nome do Brasil no exterior, que é visto como o país da corrupção, é o agronegócio” | Foto: André Costa/Jornal Opção

O presidente da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA), Tasso Jayme, relata que há cinco meses que o mercado vem em curva decrescente e que o cenário brasileiro não favorece os preços. “Existem mais de 4 mil frigoríficos de carnes em geral (aves, suínos e bovinos), mas os de carne bovina são poucos. Os pequenos estabelecimentos têm sido absorvidos pelas grandes redes e qualquer ação é pretexto para que essas grandes redes queiram pagar menos pelos nossos produtos”, diz.

Segundo ele, por muitos anos, houve um cenário de estagnação dos preços da pecuária de corte brasileira e que isso gerou um desestímulo nos produtos, que acabaram migrando para outros ramos. “Recentemente tivemos um aumento, mas foi inferior ao valor real que teríamos que ter sobre o boi e a vaca. E essa correção que tivemos de dois anos para cá, começou a ser perdida nos últimos cinco meses, quando os preços praticados começaram a cair e chegaram hoje a 30% do que era, tanto no bezerro, no boi magro e no boi gordo. Os frigoríficos alegam que houve uma queda no consumo, mas isso não é verdade. Co­nhecemos essa tática”, relata.

Tasso Jayme acredita que a operação não chegará aos frigoríficos de carne bovina, que é o produto mais expressivo, e que isso favorecerá o mercado, impedindo qualquer crise mais profunda tanto para Goiás quanto o Brasil. “Te­mos um sistema de fiscalização muito forte e não acho que a operação vá fazer com que a exportação de bovinos sofra alguma queda significativa. O Brasil é líder mundial de exportação de carne bovina e Goiás se beneficia disso porque tem entre 10% e 11% do rebanho nacional.”

Avanços

Tasso Jayme informa que o agronegócio dobrou sua produtividade nos últimos 20 anos, conseguindo avançar muito em tecnologia com nutrição e genética para, por exemplo, antecipar o abate. “Nos dedicamos muito a essa atividade”, diz, e com ele concorda o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner.
Schreiner conta que há 30 anos, o Brasil era um grande importador de alimentos. “Importávamos carne contaminada, leite em pó vencido e feijão de péssima qualidade. Com a criação de órgãos de pesquisa, como a Embrapa, começamos a nos desenvolver e nos tornamos um país extremamente competitivo”, diz.

José Mário Schreiner: “Defendemos as investigações e as punições aos possíveis culpados, mas não se pode colocar todo setor produtivo na mesma situação” | Foto: André Costa / Jornal Opção

De acordo com ele, naquela época, um boi era abatido com quatro anos de idade; hoje, é abatido com um ano e meio, usando o mesmo espaço físico e os mesmos recursos naturais. E isso foi conseguido por meio de pesquisas, por exemplo, com cruzamentos genéticos e melhoramento das pastagens, que permitiram o desenvolvimento de animais mais precoces, seja na cultura de corte, de leite, de frango ou de suínos.

“Antes”, relata Schreiner, “o frango saía da granja com 65 dias para ser abatido; hoje, sai com 32. E isso sem recursos hormonais. Só com rações. Além disso, também evoluímos em termos de indústria. Temos indústrias muito modernas no Brasil. E não foi apenas nós que evoluímos, mas a sociedade também. Há 40 anos a família brasileira gastava 43% da renda familiar para comprar comida; hoje, gasta 17%”.

A razão da diminuição nos gastos com alimentação, segundo o presidente da Faeg, se dão por dois motivos: porque o nível salarial do brasileiro melhorou, mas também porque o setor produtivo conseguiu colocar alimentos mais baratos na mesa do brasileiro. “Ou seja, através de todo esse avanço tecnológico, a sociedade também avançou. O setor não pode avançar sozinho e foi isso o que nos deu competitividade internacional”, afirma.

É claro que a competitividade acontece em termos de tecnologia, afinal a infraestrutura brasileira ainda é caótica para o escoamento e a exportação de produtos. Porém, se ainda falta avançar, os avanços já conquistados não podem ser desprezados. Por isso, argumenta Schreiner, é necessário cautela com as apurações e divulgação de informações em relação à Operação Carne Fraca.

“Não se conquista mercado do dia para a noite e muitos países que são nossos concorrentes querem nos ver andando para trás. De­fendemos as investigações e as punições aos possíveis culpados, mas não podemos colocar todo o setor produtivo na mesma situação, pois não os avanços que conquistamos não podem ser jogados fora, porque esse ganho não é só do setor agropecuário, mas do Brasil”, explica Schreiner.

“Vamos não apenas superar isso no curto prazo como também iremos aumentar nossa participação no mercado internacional”

Secretário de Desenvolvimento de Goiás, Francisco Pontes: “Iremos superar essa crise mostrando ao mundo a qualidade de nossas carnes” | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

É fato que o agronegócio foi o único setor que conseguiu se sustentar no Brasil durante a crise econômica que atingiu o País há dois anos. Essa é, inclusive, uma das explicações para que Estados produtores como Goiás não estejam em situação tão ruim quanto Rio de Janeiro ou Minas Gerais.

Em 2016, o Estado produziu mais 730 mil toneladas de carne bovina (9,9% da produção nacional),165 mil toneladas de suínos (4,4%) e 802 mil toneladas de aves (6%). E toda essa produção de carnes representou, apenas do ponto de vista do produtor rural, sem o processamento industrial dado pelos frigoríficos, 9,9 bilhões de reais. O volume exportado foi de 443 mil toneladas – 1,2 bilhão de dólares de exportação.

Isso mostra que o setor é de fundamental importância para a economia goiana e, por isso, demanda ações rápidas para conter qualquer prejuízo mais aprofundado que possa haver. O recém-empossado secretário de Desenvolvimento de Goiás, Francisco Pontes, relata que no curto prazo os prejuízos adivindos dos embargos dos países importadores são inevitáveis, mas diz que o Estado já trabalha para reverter o quadro.

Segundo ele, o governo já determinou ações imediatas. A primeira delas é a visita a todos os compradores internacionais para “mostrar a eles que nossas carnes são de qualidade e que nossas plantas industriais são modernas e certificadas. E faremos isso, independente do governo federal, para evitar danos maiores e também para que nos preparemos para o futuro, depois que essa crise tiver passado.”

A agenda de visitas a ser realizada por uma equipe técnica da secretaria de Desenvolvimento (SED) e liderada pelo superintendente de Agri­cultura, Antônio Flávio, deve começar pelos países da União Europeia nesta semana e depois seguir para Estados Unidos e demais países com importação expressiva de carnes goianas, como China e Hong Kong.

De acordo com Pontes, essa medida é emergencial. Ele diz acreditar que o Estado vai superar essa crise em um curto prazo. “Sabemos fazer isso bem e tenho certeza de que, passado isso, iremos aumentar ainda mais nossa participação no mercado internacional”.

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