O “Vital e sua moto” da política de Goiás: mas que união infeliz!

Iris prolonga sua trajetória por aparelhos, disputando uma eleição ou outra, e Ronaldo Caiado é um político sem lugar no processo partidário brasileiro 

Ex-prefeito Iris Rezende e senador Ronaldo Caiado: união de políticos que não têm qualquer história em comum

Ex-prefeito Iris Rezende e senador Ronaldo Caiado: união de políticos que não têm qualquer história em comum

Henrique Morgantini 

Vital e Sua Moto, mas que união feliz, dizia um nerd com uma guitarra na mão nos anos 1980, que atendia pelo nome de Herbert Vianna. E os Paralamas do Sucesso ganhavam o então Brasil da redemocratização com uma inusitada história de amor entre um jovem brasileiro e seu desejo de aventuras sobre duas rodas pelo país. Ainda que contra tudo e todos, ainda que diante dos avisos de que “motocicleta é perigoso, Vital”, ele foi.

Mas este artigo não é sobre o Amor. Tampouco é sobre jovens. Se o Brasil não é para amadores, o mundo da Política não pertence aos jovens, definitivamente. Não há espaço, não há diálogo, não há respeito. O Jovem no Brasil nunca é levado a sério. A frase, antes de ser um verso de outra banda brasileira, é um axioma nacional. Enquanto isto, na política, o reduto de velhos, vão-se criando raízes de vícios e alianças perigosas, de interesses pessoais. Tristes tempos que nunca foram tão pretéritos, atuais e sem qualquer chance de alteração.

Por ocasião destas relações esquisitas, como Vital e uma Moto, lembro de um bem arquitetado artigo de opinião de autoria de Roberto Pompeu de Toledo para a revista “Veja” a respeito do convite – prontamente aceito – do então presidente Lula ao estudioso intelectual brasileiro Roberto Mangabeira Unger. Pouco mais de um ano antes deste chamamento para que Unger integrasse o governo, o professor de Harvard havia escrito um artigo em um jornal de circulação nacional quase que exigindo o “impedimento” do presidente Lula. Sim, a deposição ou o impeachment que boa parte dos idiotas julga ser normal de se considerar só porque “está previsto em lei”. O homicídio qualificado também está.

Era a época do escândalo do Mensalão e Unger em seu artigo queria porque queria que Lula deixasse o governo. Tempos depois, em 2007, recebeu do mesmo presidente o tal convite para tocar a Secretaria de Assuntos a Longo Prazo. A abreviação não poderia ser mais incrível para a situação e os personagens envolvidos: Sealopra. Ou, como depois foi chamada, “Alopra”.

Pompeu de Toledo dizia em seu material, entre outras considerações e comparações, que Unger era como um espírito à luz da Umbanda. Que, assim como os espíritos precisam de um corpo para se manifestar nestes ritos religiosos, Mangabeira era um espírito sem um corpo, afinal anos e anos estudando não lhe serviram para aplicar em lugar nenhum e ele demandava de um corpo ou, mais especificamente, uma estrutura da gestão pública, para manifestar seus dogmas e passar sua “mensagem”. Na Umbanda, o corpo que cede espaço para que o espírito se manifeste é chamado de “cavalo”. Portanto, chegava à conclusão Pompeu de Toledo, “Mangabeira é um espírito esperando por um cavalo”.

O cavalo no caso – vejam só – era o governo do Brasil, liderado por Lula.

Fazendo sentido ou não, Man­gabeira entrou nas máximas de FHC e deixou no ar um “esqueçam o que eu escrevi” e topou entrar no governo que pregava a expulsão. Está lá até hoje, inclusive, já deixando o Mensalão para trás e criando uma agenda positiva que desonere o Petrolão. Com tanto tempo, fica claro que fazia sentido o revisionismo técnico-religioso de Pompeu de Toledo: um era o espírito e o outro, o cavalo.

Mas que união feliz!

Foi Mangabeira Unger quem, aliás, esteve em Goiás para elogiar Marconi Perillo e ainda o escolher como uma espécie de embaixador político do Centro-Oeste para dialogar sobre os avanços da região no governo federal. É a “sealopra” em ação, não é mesmo? Marconi tem, com isto, a chance de transformar a oportunidade em trampolim para tentar um voo nacional. Ou para agora ou, quem sabe, no esquema de Alopra, ou seja, a Longo Prazo.

Acontece que, assim como a relação umbandística entre Unger e o governo do PT, está Vital e Sua Moto. Um precisa do outro para haver uma união feliz. Esdruxulamente, em Goiás, há no momento uma dupla no melhor estilo Vital e Sua Moto e, ainda, Unger e governo. Trata-se de Iris Rezende e Ronaldo Caiado.

Histriônica, a aliança que já não deu certo em 2014 (Caiado venceria as eleições mesmo longe de Iris e Iris perderia igual mesmo sem Caiado), agora volta a causar burburinhos e desequilíbrio nas articulações partidárias para 2016. E se a aproximação em 2014 tinha vistas para 2018, pelo menos para o senador democrata, agora em 2016, então, estar próximo de Iris é carimbar o seu passaporte para entrar na disputa ao governo na sucessão de Marconi Perillo.

Caiado e Iris não têm qualquer história em comum. Do contrário, sempre se posicionaram política e historicamente contrários e em lados opositores em grandes questões polêmicas. Mas, assim como a necessidade é a mãe de todos os inventos, eis que a dupla de velhinhos, já desgastados de eleições e embates, acertos, construções, desconstruções e perseguições – como perseguidos ou perseguidores – chegam ao mesmo ponto da estrada. Eis que depois de tudo, eles se unem como Vital e Sua Moto.

Como espírito e cavalo.

Afinal, um precisa do outro para em primeiro lugar garantirem sobrevivência no mundo da política. Se não há espaço para o Jovem, uma lei inexorável do tempo é implacável: o novo sempre vem. Quer Caiado, Iris, Marconi, Lula, Unger queiram, quer não. E compreender o seu momento de entrar e, sobretudo, de sair de cena é fundamental. No caso destes dois políticos goianos, que assemelham a representações de coisas e práticas antigas, a opção antes de sair é se unir para um se apoiar no outro na tentativa de manter o nariz fora e acima da enxurrada do Novo.

Em comum mesmo só a situação de ocaso que os une.

Iris está prolongando sua trajetória por aparelhos, disputando uma eleição ou outra, sabendo que poderá vencer uma e possivelmente irá perder a outra. É uma rotina de dança triste. Pressiona o PMDB a pressioná-lo para sair candidato ao não permitir que novos quadros e potenciais lideranças floresçam dentro da legenda. Aí, na hora da eleição, sobre para ele e o partido o chama como se fosse a única esperança.

Já Ronaldo Caiado é um político sem lugar no processo partidário brasileiro que, como já foi dito aqui antes, destrói as pontes que atravessa. Com isso, se isola e isola ainda mais o já isolado DEM. A cada dia que um prefeito deixa a legenda, Caiado se torna um totem cuja base política é surfar numa crise política envolvendo Dilma e o governo federal. Qualquer melhora do quadro nacional, Caiado perde o único discurso que sempre teve, sempre tem: o de desconstruir quem tenta erigir alguma coisa. Seja em Goiás, seja no Brasil.

E, como consequência desta união, forma-se em Goiás, e em especial em Goiânia, uma legião de desprezados. Vanderlan Cardoso, Paulo Garcia e Júnior Friboi são os nomes mais badalados de um conjunto de políticos que não conseguiram se encolher diante de Iris ou não toleraram a política praticada por Caiado e partiram para novos voos e tentativas.

Hoje, estes três nomes são lembrados para atuar nas linhas de frente do processo de sucessão metropolitano. Têm mais conteúdo de discurso e soluções factíveis e exequíveis, além de espírito de renovação, que a dupla que se une pela subsistência eleitoral. São menores em história – Friboi sequer tem uma – mas guardam em si algo que jamais poderiam ter quando aliados aos dois nomes em questão: liberdade.

Não sei a qual dos dois, se a Iris ou a Caiado, serviria o conselho cantado por Herbert Vianna. Até porque nesta simbiose do oportunismo é igualmente difícil saber quem é “cavalo” ou “espírito”. Mas o recado é:

“Motocicleta é perigoso, Vital”.

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