O que é que o goiano tem no governo Bolsonaro

Figuras como o governador Ronaldo Caiado (DEM), os deputados federais Major Vitor Hugo (PSL), Delegado Waldir Soares (PSL) e João Campos (PRB) ganharam protagonismo na política nacional com chegada do capitão ao poder

Onyx Lorenzoni Ronaldo Caiado Jair Bolsonaro ACM Neto - Foto Marcos Corrêa PR

Entre o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), o presidente Jair Bolsonaro (PSL), e o prefeito de Salvador e presidente nacional do DEM, ACM Neto, o governador Ronaldo Caiado (DEM) surge como gestor estadual com mais destaque e proximidade com o Palácio do Planalto | Foto: Marcos Corrêa/PR

O paulista Jair Bolsonaro (PSL) fez sua carreira política no Rio de Janeiro. Apesar de ter nascido em Glicério (SP), o presidente da República começou nos cargos eletivos como vereador em 1989 e chegou à Câmara dos Deputados em fevereiro de 1991. Nos quase 28 em que ocupou o cargo de deputado federal, Bolsonaro sempre representou o Rio. Foi do baixo clero do Congresso Nacional à Presidência da República.

Já o goiano Ronaldo Caiado (DEM) estudou no Rio de Janeiro, mas sempre esteve ligado à política em Goiás. Médico ortopedista e produtor rural, o governador nasceu em Anápolis e concorreu à primeira eleição em 1989, quando foi candidato a presidente. No ano seguinte foi eleito deputado federal. Antes, ganhou destaque por presidir a União Democrática Ruralista (UDR) de 1986 a 1989.

Com um intervalo de quatro anos, quando ficou em terceiro lugar na disputa pelo governo de Goiás em 1994, Caiado foi eleito novamente deputado federal em 1998, feito que repetiu com representante dos ruralistas em 2002, 2006 e 2010. Na eleição de 2014 optou pelo cargo de senador, mandato que ocupou até 2018, quando chegou ao Palácio das Esmeraldas.

Caiado, desde que assumiu o cargo de governador, se tornou uma espécie de líder dos governadores junto ao governo federal. Sempre bem recebido pelos membros da gestão Bolsonaro em Brasília (DF), inclusive pelo presidente, o goiano virou o porta-voz dos chefes dos Executivos estaduais em suas negociações com o Palácio do Planalto.

Muito vem do fato de que Bolsonaro e Caiado eram oposição aos governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT, entre 2003 e 2016. Os dois tiveram seus momentos de destaque durante o processo de impeachment da petista. Enquanto Caiado assumia um protagonismo inegável na Comissão Especial que discutia o afastamento e a destituição de Dilma do cargo, Bolsonaro aparecia por seu discurso polêmico em defesa da memória do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra no plenário da Câmara.

Dois ex-opositores se viram próximo com a mudança de rumo político, tanto no Palácio do Planalto quanto no das Esmeraldas, agora na situação. Caiado abriu espaço para se tornar um governante próximo e com bom trânsito no governo federal. E manteve o destaque que tinha na imprensa nacional como interlocutor da oposição agora na figura de governador que mantém diálogo aberto com o presidente da República.

Deputados goianos
Apesar de não terem nascido em Goiás, três deputados federais que representam o Estado na Câmara também surgiram como figuras de destaque a partir da posse do presidente Jair Bolsonaro. Um novato e dois integrantes do baixo clero da Casa foram alçados à posição de negociadores de primeira hora do governo no Congresso.

O primeiro deles é o tocantinense João Campos, delegado da Polícia Civil que está em seu quinto mandato consecutivo desde 2003. Defensor das pautas religiosas, o pastor da Assembleia de Deus migrou do PSDB para o PRB, partido identificado com a Igreja Universal. Presidente estadual da sigla, João Campos ganhou mais um apoio na última reeleição.

Mas a proximidade com Jair Bolsonaro ficou evidente quando o presidente lançou João Campos como candidato na disputa com Rodrigo Maia (DEM-RJ). Só que o PRB não viu da mesma forma que Bolsonaro e resolveu não dar bola para a candidatura de seu filiado à presidência da Câmara. Mesmo com a força de Maia confirmada na Casa, João Campos segue como consultor do governo e tem voz quando o assunto é segurança pública.

Se ficou marcado publicamente como o defensor da proposta de reorientação sexual no Congresso, que ficou conhecida como “cura gay” por psicólogos, o parlamentar do PRB virou peça chave do governo Bolsonaro na Câmara. O tocantinense nasceu em 1962 na cidade de Peixe, que ainda pertencia ao Estado de Goiás.

Polêmico e líder de votos
Em seu terceiro mandato, o primeiro como suplente, o delegado Waldir Soares trocou o PR pelo PSL quando foi convidado por Bolsonaro para ser o presidente da sigla em Goiás. Insatisfeito com o PSDB, que não quis lançá-lo candidato a prefeito em 2016, Waldir migrou para o PR, mas logo se indispôs com o novo partido.

Depois de fazer campanha em Goiânia sem pedir ajuda aos outros filiados do PR, o deputado federal mais votado do Estado em 2014 e 2018, com 274 mil votos em cada uma das eleições, virou um dos homens de confiança do presidente da República. Tanto é que fala diretamente com Bolsonaro pelo WhatsApp praticamente todo dia. De homem do presidente a líder da bancada do PSL na Câmara no final de 2018, Waldir tem sido criticado por não conseguir coordenar os parlamentares da bancada do partido do presidente, que tem hoje 54 deputados.

Quando a oposição, com ajuda do centrão, conseguiu inverter a pauta da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) na Câmara e colocar primeiro em votação a proposta do Orçamento Impositivo, antes da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Reforma da Previdência, Waldir tentou dizer que era uma “vitória do governo” mudar de posição e apoiar a inversão. O problema é que não convenceu muita gente.

O próprio Delegado Waldir tem mostrado nos últimos dias certo desentendimento com o presidente da República e o PSL. Tanto que em entrevista recente chamou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de “primeiro-ministro” na defesa da Reforma da Previdência. O parlamentar paranaense que representa Goiás no Congresso disse que essa é a verdade, mesmo que desagrade alguém do governo.

Acostumado a incendiar a debate, independente do método ou discurso utilizado, na oposição aos governos do PT, o presidente estadual do PSL se viu agora na posição de combatente das chamas e articulador das vontades do governo na Câmara como líder de bancada. Waldir tem sido desafiado a ser mais versátil. O que se espera é ver se conseguirá mostrar essa faceta de deputado da situação.

Líder do governo
O que o paranaense delegado da Polícia Civil não consegue esconder é a insatisfação com a forma que tem atuado o líder do governo na Câmara, o novato Major Vitor Hugo (PSL). Eleito pelos goianos como mais um homem de confiança do presidente Jair Bolsonaro, o baiano integrante do Exército e servidor de carreira da Câmara ainda não mostrou a que veio como representante da nova política.

Major Vitor Hugo é cobrado por outros deputados do PSL e dos partidos que podem compor a base do governo Bolsonaro por não conseguir coordenar as ações do Palácio do Planalto no Legislativo. Conhecedor técnico do funcionamento da Câmara, Vitor Hugo ainda precisa aprender a diferença entre a atuação de um servidor de carreira e um político eleito para atuar como parlamentar que acumulou a função de líder do governo na Casa.

Nem Waldir ou Vitor Hugo falam abertamente da insatisfação que um demonstra pela atuação do outro na defesa e articulação em defesa das pautas pró-governo na Câmara. Mas é evidente que os dois não têm uma boa relação, o que pode prejudicar o encaminhamento dos projetos da gestão Bolsonaro na Casa.

A virada de chave na política brasileira, com uma quantidade considerável de deputados estaduais e federais eleitos na cola do presidente Jair Bolsonaro, garantiu protagonismo a figuras políticas que antes seriam inimagináveis como líderes do governo ou da bancada do partido do presidente. Até por perfis de incendiadores da nação, e não de conciliadores natos. Mas todos os citados terão tempo de mostrar que são capazes – ou não – de cumprir os papeis destinados a eles pelo Palácio do Planalto.

Por fora
Distante da disputa de poder no governo federal e na Câmara, o ex-deputado federal Daniel Vilela (MDB) conseguiu ser reeleito presidente estadual do partido com facilidade. Seus aliados fizeram um limpa com a expulsão dos prefeitos que apoiaram Caiado na eleição para governador em 2019.

Enquanto trabalha para dar uma nova cara ao MDB goiano, tem de lidar com um dos deputados estaduais de seu partido como líder do governo estadual na Assembleia Legislaiva. O caso Bruno Peixoto incomoda Daniel, mas publicamente não o tem impedido de trabalhar. Nascido em Jataí, o goiano é cotado como um dos nomes que pode assumir o MDB nacional, que precisa se reinventar. Justamente o que tem tentado fazer o ex-deputado com a legenda em Goiás.

O que ninguém sabe responder é quais deles serão protagonistas nos próximos meses ou anos. Só o tempo responderá quem será capaz de se tornar de fato líder ao mudar de lado, da oposição para a situação, e como isso será feito. Há quem só sabe ser oposição, mas existem os que aprendem a se adaptar. O desafio de Caiado, Waldir e Daniel é o de apresentar uma nova faceta. Vitor Hugo e João Campos precisarão dizer a que vieram e por que devem ser mantidos como deputados imprescindíveis ao governo Bolsonaro.

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