O ex-prefeito e a ex-primeira-dama que adotaram o filho que ninguém queria ter

O ex-prefeito de São Miguel do Passa Quatro Elson de Oliveira e sua mulher, Cotinha, adotaram Emanuel, que, contra todos os prognósticos, viveu 18 anos

Walder Emanuel: segundo os médicos, viveria muito pouco; com o carinho dos pais adotivos, viveu 18 anos | Foto: Álbum de família

Edmar Oliveira

Especial para o Jornal Opção

Criar e educar filhos saudáveis não é tarefa fácil. Adotar é sempre um desafio e um gesto de amor. Mas adotar um recém-nascido com microcefalia, paralisia cerebral, epilepsia, mongolismo, cego, mudo, quase surdo e deficiente físico é raro como ipê no Alasca. E foi o que fez o casal Elson Gonçalves de Oliveira e Maria Pires de Oliveira , a dona Cotinha, ao acolher em seu lar Walder Emanuel Gonçalves, em São Miguel do Passa Quatro, a 100 quilômetros de Goiânia. Elson foi o primeiro prefeito do recém-emancipado município, de janeiro de 1989 a dezembro de 1992, e Cotinha foi a primeira-dama e secretária de Ação Social. Emanuel, que em hebraico significa “Deus conosco”, foi nome cuidadosamente escolhido pelos pais adotivos, que são católicos. O menino nasceu em 28 de janeiro de 1990, fruto da gestação de Manoela Elias Barroso, a “Ina”, deficiente mental supostamente engravidada pelo próprio pai, Antônio Elias Barroso, que tinha o mesmo problema da filha. Diante da situação e comovidos com o caso, Elson e Cotinha, por meio da prefeitura, se empenharam no cuidado à mãe e ao bebê, que, até o terceiro dia de vida, parecia normal.

O que aconteceu a partir de então renderia um drama cinematográfico semelhante a “O Óleo de Lorenzo”, lançado em 1992, baseado na história real do casal Augusto e Michaela Odone, cujo filho, Lorenzo Odone, é diagnosticado aos 5 anos como portador de adrenoleucodistrofia (ADL), doença rara que provoca incurável degeneração do cérebro, causando a morte em pouco tempo. Após a descoberta da doença, os pais de Lorenzo enfrentam a falta de remédios e o fracasso da medicina. Decidem então pesquisar por conta própria até encontrarem um óleo que contém o avanço da ADL, que progressivamente destruía o cérebro de Lorenzo deixando-o cego, fisicamente incapaz, sem condição de engolir e de se comunicar. Lorenzo viveu 30 anos, 20 a mais do que previram os médicos. A saga de Elson, Cotinha e Emanuel também é enredada pela dor, angústia, amor, gratidão, superação e fé, que os acompanharam até a morte de Emanuel, aos 18 anos, contrariando todos os prognósticos médicos, que inicialmente lhe deram alguns dias de vida. Narrar a saga da família Oliveira e Emanuel é como enfiar um edifício de cem andares em um barracão de dois cômodos. É um desafio para o repórter frente a tantas nuances essenciais.

Lorenzo, seu pai, Augusto Odone, e o cuidador: exemplo de luta

Assim que tomou posse na Secretaria de Ação Social, aos 39 anos, a primeira providência de Cotinha foi verificar a condição dos moradores da cidade e do campo. Em abril de 1989, constatou a criminosa gravidez de Ina, que já estava no terceiro mês, e que pode ter sido vítima de algum dos jovens desocupados que circundavam sua casa dia e noite, conforme relatos de vizinhos. Mas a grande suspeita recaía mesmo sobre o pai. Apesar de deficiente, mas com algum grau de lucidez, era ele quem cuidava da filha, dava-lhe banho, trocava sua roupa íntima. Quando toda a cidade ficou sabendo do caso, Cotinha passou a ser pressionada para denunciar Antônio Barroso à Justiça. A comunidade pedia a prisão de Antônio Barroso. Mas Cotinha não atendeu ao clamor popular e decidiu, em vez disso, assistir Ina, o pai e a mãe, Sebastiana Batista José de Carvalho, também com deficiência. “Perguntei à juíza da cidade: até onde posso ir com meu amor a essa família? O que faço é caridade. Não quero ver o pai de Ina preso. É inocente como ela. Não sabe o que faz e não há certeza de que ele cometeu incesto.” A resposta: “A senhora pode ir até o infinito com sua solidariedade”. O primeiro passo foi retirar Ina de perto do pai por causa da revolta das pessoas e porque a gestante precisava de cuidados especiais.

Cotinha e família comemoram aniversário de 12 anos de Emanuel | Foto: Álbum de família

A recém-criada São Miguel do Passa Quatro era carente de tudo, conta Elson Oliveira, que tinha 45 anos quando tomou posse. Era impossível manter Ina em local adequado na cidade. Enclausurada na deficiência, Ina, então com 34 anos, não tinha noção do que estava acontecendo e foi encaminhada pela Ação Social ao Abrigo São Vicente de Paulo, na vizinha Vianópolis, onde Elson e Cotinha moraram 19 anos. Logo, a mãe biológica ficou conhecida em Vianópolis e dez famílias, bem-sucedidas e influentes na cidade, foram visitá-la e se ofereceram para a adoção, já que, devido à sua deficiência, não teria condições de educar o filho. O prefeito e a primeira-dama ficaram esperançosos, certos de que o futuro da criança estava garantido, com pai, mãe, família, amor e lar.

No abrigo, a mãe recebe cuidados médicos e assistenciais no pré-natal até ser reconduzida para sua cidade de origem para o parto, em 10 de janeiro de 1990. Mas São Miguel do Passa Quatro não tinha hospital e Ina já sentia contrações. Em 28 de janeiro, rapidamente foi encaminhada a hospital da vizinha Bela Vista de Goiás, que fica a caminho da capital. “Ina ignora tudo o que acontece à sua volta. Não tem consciência da beleza da maternidade. Inclusive, já internada para dar à luz, ao ver-se agredida pela frequência das dores agudas do parto, escapole dos seguranças e sai correndo rua afora. Quase é atropelada por um carro desavisado”, anota Elson Gonçalves de Oliveira, em seu livro “Família Feliz”, da R&F Editora, no capítulo “Emanuel: o anjo que desceu do céu”. Elson prossegue: “Agora é só aguardar mais um pouco para ver quem ganhará a corrida de sua disputada adoção”.

Ina não quer saber do recém-nascido. Rejeita a sugestão de amamentá-lo e, quando o vê, às vezes solta estranhas gargalhadas. Apesar disso, Elson e Cotinha comemoram o nascimento de um menino sadio até que, três dias depois, ele sofre convulsão e seguidas paradas respiratórias. Emanuel é levado com urgência para o Hospital da Criança, a 40 quilômetros de Bela Vista, em Goiânia. Ansiosos mas com fé, o casal acompanha a correria para salvar Emanuel. O caso é gravíssimo. O paciente, internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ficou 21 dias sob os cuidados de dedicados médicos, que se revezaram dia e noite no tratamento. Nesse período, algumas mulheres do Bairro Feliz, de Goiânia, amigas da família Oliveira, amamentaram Emanuel. Segundo os médicos, só o leite materno poderia mantê-lo vivo.

Médico alerta: quadro é “gravíssimo”

Após as três semanas de apreensão e angústia, um médico do Hospital da Criança liga para a Secretaria de Ação Social e avisa Cotinha que o menino está de alta, que o pior havia passado, mas que seguiriam com ele receitas de remédios psiquiátricos de uso controlado. Depois, pessoalmente, o mesmo médico explica a situação de Emanuel: “O quadro é gravíssimo, irreversível, definitivo. A medicina não pode fazer mais nada por ele”. Chocados, Elson e Cotinha são informados ainda que, na convulsão seguida de paradas respiratórias, pode ter havido grande perda de neurônios. “O médico do Hospital da Criança nos alertou que Emanuel talvez jamais falasse e que não teria vida. Ele era um fiozinho, uma tirinha, magrinho, quase da espessura de um dedo, mas era lindo, de pele rosada e olhos grandes e negros, como jabuticabas”, lembra Cotinha, orgulhosa, com feição doce e olhos brilhantes, parecendo ver o bebê no berço arrumado em sua própria casa, para onde foi levado depois de deixar o hospital, já que ninguém da família consanguínea o aguardava e não tinha condição psíquica para recebê-lo.

Convulsões, dores, paradas respiratórias e pneumonias acompanhariam Emanuel para sempre, com maior ou menor intensidade, de acordo com as crises, além da ausência de locomoção motora e do corpo definhado. O garoto chorava sem parar, aparentando sentir dores horríveis na cabeça, segundo Cotinha, que se dedicava a ele à noite em casa e durante o dia na Secretaria de Ação Social. Voluntárias de São Miguel do Passa Quatro continuaram o trabalho das mulheres de Goiânia e também amamentaram Emanuel, garantindo-lhe a sobrevivência.

Cotinha e Elson Oliveira adotaram e cuidardam de Emanuel durante 18 anos, com extremo carinho | Foto: Edmar Oliveira

Dez casais, pretensos adotantes, rejeitam o menino

Em 22 de fevereiro de 1990 chega à casa de Elson e Cotinha o primeiro casal que havia demonstrado interesse na adoção. Carinhosamente, Cotinha apresenta Emanuel, vestido com roupas novas e perfumado, e conta: “O garoto é lindo, corado, robusto. Mas há um problema: ele sofreu parada respiratória e toma remédios controlados”. A pretensa mãe adotiva exclama: “Deus nos livre! O que é isso?! Adotar esse menino doente? Nós pensávamos que nasceria sadio”. O casal se desculpa e vai embora.

Mais tarde, o segundo casal telefona para Cotinha e é informado sobre o quadro de Emanuel e também o rejeita. Foi assim até a décima família. “Qual casal adotante, com mil possibilidades de escolha, inclusive de examinar a cor e o brilho dos olhos, a pele, o formato do rosto, o sorriso iria optar por uma criança doente, que chora a noite inteira sem cessar e não deixa ninguém dormir?”, pergunta o compreensivo Elson Oliveira, em trecho do livro “Família Feliz”.

Rapidamente Emanuel torna-se o assunto reinante na comunidade de São Miguel do Passa Quatro e Vianópolis, mas ninguém quer adotá-lo. Diante do impasse, o prefeito e a primeira-dama decidem tentar manter Emanuel com a mãe biológica, inclusive com a prefeitura custeando uma enfermeira para auxiliar Ina, que se esquiva. O ambiente perturbado e a falta de higiene na casa de Ina são empecilhos, e o estridente e diuturno choro do menino afugenta a enfermeira, que, depressa, o abandona. “E agora, o que fazer?”, perguntam-se Elson e Cotinha, angustiados com o sofrimento de Emanuel e resistindo à ideia de interná-lo em algum abrigo, como a Vila São Cotolengo, em Trindade, na Grande Goiânia, que cuida de deficientes mentais e físicos abandonados.

Em 27 de fevereiro de 1990, Elson e Cotinha se colocam como o décimo primeiro casal adotante. Resolutos, adotam Emanuel, mas antes consultam os três filhos ainda adolescentes: Vassil José de Oliveira, o mais velho, Waber Joaquim de Oliveira e Vanusa de Oliveira Prudente, a caçula: “Vocês aceitam Emanuel como irmão de verdade? Saibam que talvez ele nunca vai falar, andar, sentar e tem graves problemas neurológicos e físicos”. No início, há questionamentos e choro, mas os três acabam recebendo o quarto irmão.

A entrevista quase é interrompida quando Cotinha, aos prantos, recorda que ela e Elson acolheram Emanuel porque o filho morreria rápido em abrigo e porque precisava mais que cuidados especiais. “Ele tinha que ter família, papai, mamãe, irmãozinhos”, ressalta. O menino segue chorando o tempo todo. Medicamento algum aplaca seu sofrimento. Elson se ampara nas palavras de Jesus Cristo: “O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim o fazeis (Mateus 25:40)”. Aos 49 anos, Vassil Oliveira, jornalista, conta que ele e os irmãos usufruíram apenas os aspectos positivos de Emanuel. A entrega e dedicação ao “irmãozinho”, como carinhosamente se refere ao quarto irmão, ficaram por conta de Elson e, sobretudo, de Cotinha. “Nós, filhos, usufruímos o lado bom do Emanuel. Sempre fomos presentes, participativos. Só de estar com ele, adulá-lo, brincar com ele, pegá-lo no colo… Ele era um anjinho”, afirma. “Eu, Vanusa e Waber morávamos em Goiânia. Quando íamos para a casa de meus pais em Vianópolis nos fins de semana, ficávamos tranquilos, descontraídos, e testemunhávamos minha mãe atravessando noites inteiras com Emanuel no colo, ninando-o e cantando baixinho para acalmá-lo, já que ele não parava de chorar.”

Cotinha e Elson com os três filhos biológicos: Waber, Vanusa e Vassil Oliveira (jornalista) | Foto: Álbum de Família

Amor da avó Izídia e a grosseria do pediatra

Segundo Vassil Oliveira, Emanuel reagia a estímulos apenas de sua mãe e de sua avó, Izídia Pires de Carvalho, que costumava dizer que, se Emanuel morresse, ela morreria junto, tamanho o amor que sentia pelo menino. Izídia morreu aos 80 anos, oito meses antes de Emanuel, em abril de 2007. “Minha avó carinhosamente danava com ele, dizendo: ‘Você tem que comer, rapaz. Pare de manha e coma’. E pegava-o no colo e conversava com ele, que retribuía olhando-a e se apaziguando. Vanusa Oliveira, 40 anos, administradora de empresas e especialista em comunicação e marketing, diz que encarava a o caso como caridade dos pais: “Eles sempre foram cristãos dedicados e vimos em Emanuel um desafio, mas nosso irmão nunca atrapalhou a família. Ao contrário, nos uniu ainda mais”. Vaber Oliveira, 45 anos, autônomo, não participou da entrevista.

Desde os primórdios, a religião acompanha o homem e desperta o interesse de estudiosos. O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung aprofundou-se no tema e apontou a religião como uma faculdade psíquica em “Psicologia e Religião”, “Psicologia e Religião Oriental”, “Aion – Estudo Sobre o Simbolismo do Si-Mesmo” e “Resposta a Jó”. Obviamente Jung não fala de uma religião específica, mas de todas, como intrínsecas à psique. E essa faculdade é aflorada em Elson e Cotinha Oliveira, que, amparados no Evangelho, atravessaram firmes momentos insuportáveis para a maioria das pessoas, além de provações diversas, como se deparar com um pediatra insensível que atendia em uma importante instituição de apoio a excepcionais em Goiânia. Ao ver o resultado dos exames de Emanuel, o médico o examina e constata que o garoto sofre de microcefalia, paralisia cerebral e epilepsia. E com o olhar entre Emanuel e Cotinha, dispara: “O que é isso?! Esse menino não presta! Ele é seu?” Indignada, a mãe retruca: “Não nasceu de mim, mas é meu filho como os outros três que tenho”. Cotinha prossegue na tentativa de diálogo e explica a história de Emanuel ao médico insensível, que esbraveja: “Você é doida?! Por que pegar um menino desse para criar?!” Ela: “Doutor, se o senhor achasse uma criança nessa situação, o que faria?” Ele: “Jogaria no lixo, pois não tenho nada a ver com isso!”

No livro “Família Feliz”, Elson revela que Cotinha estava em prantos quando ele, nervoso, tenta conversar com o médico, sem sucesso. Tosco, o pediatra sentencia, antes de se levantar e sair do consultório: “Vocês vão sofrer para o resto da vida com esse menino. Vão se arrepender!”. Constrangidos e em prantos, Elson e Cotinha percebem que é inútil buscar diálogo com aquele senhor. Pai e mãe voltam então com o filho para São Miguel do Passa Quatro, já que têm muito trabalho na prefeitura.

Dois meses depois, as duras e secas palavras do médico ainda ressoam na cabeça do casal. Em “Família Feliz”, Elson confessa: “É desesperador. Todos nos sentimos frágeis e impotentes diante desse quadro grotescamente desenhado pela inabilidade do doutor da medicina. A situação irreversível da doença é um pedido de socorro sem eco. Não haveria modos mais suaves e menos agressivos de transmitir notícia tão trágica? Pelo menos a conscientização da verdade tem a força de nos transportar para o mundo da oração, da contemplação e da fé”.

Outro pediatra de Goiânia, humano e educado, fez o que pessoas angustiadas esperam: dialogou e explicou, pausadamente, que o quadro é realmente grave e que crianças como Emanuel vivem pouco.

Orientados por amigos, o casal leva Emanuel para avaliações no renomado Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, onde exames confirmam definitivamente que o menino tem paralisia cerebral, microcefalia, mongolismo, epilepsia e cegueira. Os médicos notaram também que Emanuel tem audição mínima.

Elson Gonçalves de Oliveira, advogado de família e professor de Português, conclui o mandato em São Miguel do Passa Quatro em 1992 e retorna com a família para Vianópolis, onde ele e Cotinha nasceram e têm casa e escritório de advocacia. Elson lecionou 25 anos, 24 deles em Vianópolis. O casal possui casa também em São Miguel do Passa Quatro. Elson foi vice-prefeito do município de 1º de janeiro de 2013 a 31 de outubro de 2015, quando assume a prefeitura após a renúncia do prefeito, Humberto Batista da Paixão, terminando o mandato em 31 de dezembro de 2016.

Emanuel com sua avó Izídia: amor incondicional | Foto: Álbum de família

As sete fases de Emanuel

Elson conta que, ainda bebê, Walder Emanuel Gonçalves é batizado e consagrado a Nossa Senhora. Aos 7 anos, é adotado oficialmente em cartório. Cotinha toma a palavra e define a via crucis de Emanuel Gonçalves em sete fases, marcadas por sofrimento implacável e entrega total ao menino de corpo subdesenvolvido e rígido, sem movimentos dos braços e pernas e com a incorrigível deficiência mental. A primeira fase, que começou quando Emanuel ainda era recém-nascido e durou seis anos, foi de choro, muito choro de Emanuel. Dona Cotinha lembra que, no princípio, ficou quarenta dias e quarenta noites segurando-o no colo buscando acalmá-lo, quase sem descanso. Parentes e amigas tentavam ajudar, mas não conseguiam muito tempo. Era tarefa sobre-humana.

Findada a quarentena e acatando sugestão do esposo e filhos, Cotinha, a contragosto, tira dois dias para descansar, deixando o menino aos cuidados de voluntárias. “Eu era resignada. Não sentia nada, apesar dos alertas de pessoas próximas, que diziam que eu estava estressada e emagrecendo muito”, relata.

O choro de Emanuel atravessa a noite, desperta a curiosidade de vizinhos e a crueldade de adversários políticos de Elson, que espalham dizem pela cidade que o menino estava morrendo à míngua na casa do prefeito. “Eu sempre abria a porta para os vizinhos, geralmente à noite, com Emanuel nos braços. As pessoas achavam que eu ele não recebia os devidos cuidados. Pensavam que eu estava dormindo e deixando o menino chorar. Isso foi doído para mim, que dedicava tanto amor ao meu filhinho”, recorda Cotinha, triste. “Numa noite, flagrei um adversário político espiando pelo buraco da porta. Quase morre de susto o coitado, quando a porta foi aberta de repente. No entanto, o que ele viu serviu para calar a boca de muita gente má e fofoqueira que não tem nada de bom para fazer na vida: minha esposa embalando-o nos braços, em alta noite, e eu sentado na cama, com a cabeça escorada e tentando tirar um cochilo”, relata Elson em “Família Feliz”.

A segunda fase foi caracterizada por vômitos recorrentes, que geraram pneumonia química (comum em crianças e idosos com dificuldade para comer e que provoca inflamação dos pulmões, febre e dificuldade para respirar), que se manifestava em decorrência da inalação, pelo aparelho respiratório, de parte do alimento. Como Emanuel não mastigava, Cotinha batia sua comida no liquidificador, que estragava pelo uso excessivo e tinha que ser trocado todo mês. A alimentação era composta por carnes, grãos, cereais, verduras e frutas. Mas o garoto engolia e vomitava. A mãe insistia e lhe dava suco de frutas, que ficava no máximo dez minutos no estômago. O refluxo mandava tudo de volta. A amorosa mãe sabia que sem nutrientes no corpo a vida era impossível. E lhe dava comida novamente. Talvez o pouco tempo dos alimentos no corpo tenha sido suficiente para que o organismo sugasse o mínimo para a sobrevivência. “Ele permanecia vivo por milagre e por nosso amor e jamais ficou anêmico”, afirma Cotinha, orgulhosa.

“As dores de Emanuel não cessam. Dores agudas. Crise após crise. Tudo tem limite e seu limite parece transposto. Quando dorme, segue-se um gemido triste, que incomoda a todos. As convulsões se sucedem. A mãe desaba a chorar e nossa filha entra em pânico. Os médicos dizem que o caso não tem solução”, escreveu Elson Oliveira sobre a agonia do filho, em “Família Feliz”. “Mas, apesar disso, em casa todos sabemos o significado da dor: ‘Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados (Mateus, 5:4)’”, registrou o fervoroso Elson, apoiando-se nos ensinamentos de Cristo. Cotinha, que chega a constranger por tamanho amor, diz que a terceira fase foi curta: durou “apenas” quatro meses e foi de choros contínuos, como na primeira fase, com Emanuel só se aquietando nos braços da mãe, que ficava em pé balançando-o “como numa rede”. Segundo ela, as orações e a fé eram o alicerce de tudo: “Pelas nossas próprias forças, jamais seria possível. Deus agia em nós”.

As deficiências de Emanuel são implacáveis e seu sofrimento prossegue, concomitante à dedicação dos pais, que fizeram, desde a adoção, um acordo: Elson trabalharia para manter a casa e Cotinha se dedicaria mais ao filho. Na pré-adolescência Emanuel entrou na quarta fase, de três meses, que se caracterizou pelo silêncio absoluto e insônia. Não dormia à noite nem de dia, e não chorava. Cotinha ficava incomodada e não dormia também: “Ele tossia, expelia catarro pela boca, ficava se mexendo no berço parecendo querer saltar de lá”. Essa etapa foi também das doenças: gripes, faringites, inflamações e dores nos ouvidos, inflamações de garganta, amigdalite, pneumonias. Chorando muito, Cotinha dá um tempo na entrevista, respira fundo, enxuga as lágrimas e desabafa: “Essa foi uma das fases mais tristes da minha história com o Emanuel, porque eu já me encontrava cansada e doente, não comia nem dormia direito, minha vida era ele. Mas eu recebia uma força tão grande de Deus e recorria ao que disse o apóstolo Paulo: “Tudo posso naquele que me fortalece (Filipenses 4:13)”. Mas Cotinha é humana, e mesmo com fé e amor que parecem inesgotáveis, chega ao seu limite, que quase a leva a desistir: “Confesso que fui tentada como Cristo. Às vezes eu soltava o Emanuel no berço e dizia: não aguento mais! Não aguento!” Porém, minutos depois, se lançava sobre o berço do filho querido: “Me perdoa, me perdoa. Eu aguento, sim. Deus me dará forças e eu vou aguentar a vida inteira. Pode ficar tranquilo, meu filho. A mamãe vai cuidar de você para sempre”. E eu o abraçava e beijava enquanto declarava meu amor por ele”.

Aos 12 anos, Emanuel ganha de presente festa de aniversário de membros da Igreja Presbiteriana Independente, do Centro Espírita Allan Kardec e da Ação Carismática da Igreja Católica de Vianópolis. Ganha muitos presentes. “A festa foi linda, com muitos balões, e Emanuel ficou recepcionando as pessoas por meio dos fantoches, um casal de pastores: ‘Oi, estou aqui, meu nome é Emanuel. Sou o aniversariante. Oi, você que está aí no portão, chega mais. Quero brincar com você’”. Os fantoches eram a voz de Emanuel.

É impossível estabelecer cronologia exata para a trajetória de Emanuel, que, já na quinta fase, com 16 anos, começa a atrofiar. Os pés se enrolam, o peito encolhe e as costas crescem, tornando-o corcunda. Não consegue mais segurar a cabeça e não sentava mais no colo da mãe. Braços e pernas permaneciam esticados e inertes. “Eu ficava com muita pena dele porque, apesar de estar numa caminha especial, com cortinas protegendo-o de insetos, às vezes uma muriçoca entrava e Emanuel nos acordava aos gritos. Íamos lá, matávamos a muriçoca e ele voltava a dormir. Como não se mexia, sua defesa era o grito”, conta Elson Oliveira, com os olhos lacrimejantes.

Na mesma fase, Emanuel para de comer. Tudo que a mãe lhe põe na boca, ele rejeita e, se engole, vomita. As pneumonias, convulsões e refluxos, que o atormentaram a vida inteira, variando de intensidade conforme as fases, voltam juntas e fortes. A situação piora. O menino engasga com a própria saliva, perde o fôlego e dona Cotinha luta para que retome a respiração. Angustiada, corre com ele para os consultórios. “Eu já era couro e osso e despertava não só a preocupação da família, mas também dos médicos”, relata. “Todo o carinho de minha mãe com o Emanuel significava mais ou menos o seguinte: a garantia de ele viver mais e de minha mãe sofrer mais”, assinala Vassil Oliveira. Cotinha, com o apoio da mãe, Izídia Pires, foi quem limpou as fezes, os vômitos e as secreções de Emanuel, da adoção à morte do filho. Esporadicamente outras mulheres faziam isso, como a filha Vanusa Oliveira.

Washington Cruz, arcebispo de Goiânia, visitou Emanuel

Visita ilustre do arcebispo

Aos 17 anos, em janeiro de 2006, Emanuel recebe, em Vianópolis, a visita do arcebispo metropolitano de Goiânia, dom Washington Cruz. O religioso ora pelos pais, pelo menino e se interessa por sua história. Abençoa a todos e assegura a Elson e Cotinha de que estão cuidando de um anjo de Deus. Emanuel entra na sexta fase e já não havia médico que o atendesse. Todos apenas passam as receitas e explicam a Cotinha que a medicina nada pode oferecer além dos remédios. As convulsões, pneumonias e perdas de fôlego se intensificam. A agonia parece não ter fim. Irmãs, amigas e outras parentes remediam a situação, eventualmente ficando com o menino para Cotinha sair e resolver questões na capital. “Uma vez, ao retornarmos de Goiânia, onde passamos por difícil situação familiar, chegamos à beira do berço e Emanuel virou-se para nós e deu uma gargalhada. Foi a única em seus 18 anos. Parecia nos dizer que precisávamos ficar alegres, e não tristes”, recorda Cotinha, satisfeita. O menino deu o único sorriso (antes, eventualmente esboçava alegria) três anos antes de morrer.

Cotinha, embora não admita, está doente, esgotada e não dorme bem. Vendo seu estado, um casal de Trindade, também católico, tenta convencê-la e ao marido a internar Emanuel na Vila São Cotolengo. “Comecei a me perguntar, diante do quadro de Cotinha: quem sabe dá certo?”, revela Elson. “Fomos conhecer a Vila São Cotolengo e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Trindade. Vimos que tudo era arrumadinho e que os internos recebiam muito amor. Ao retornarmos, conversamos com a então promotora de Justiça de Vianópolis, que havia trabalhado em Trindade. Contamos a ela sobre o Emanuel e a Vila São Cotolengo. Após longa conversa, ela nos fita e diz: “Vou dar-lhes minha opinião. Conheço bem a APAE de Trindade e a Vila São Cotolengo. Essas instituições tratam os especiais com muito amor e carinho, mas há uma grande diferença: nelas o Emanuel não terá pai, mãe e família”. As palavras da promotora amiga são decisivas. Emanuel permaneceria até o fim em casa, com os pais, os irmãos, a família.

Meses antes de completar 18 anos, Emanuel entra na sétima e última fase. O sofrimento é renitente e agudo. Uma enfermeira é contratada para ir com frequência à casa da família Oliveira assistir o menino, que já não consegue sequer evacuar. As fezes só saem com supositório e massagem que Cotinha fazia em sua barriga. Emanuel grita por causa com as cólicas e dores na cabeça; os vômitos, a febre e a perda de fôlego são impiedosos. Cotinha adia a morte de Emanuel inúmeras vezes, lhe retomando a respiração. O clima na casa é de fé e sofrimento.

Em março de 2007, um AVC arrebata a principal aliada de Cotinha nos cuidados a Emanuel, Izídia, sua mãe. Cotinha chora convulsivamente durante a entrevista e lembra que, no luto, se dirigiu a Deus em oração: “E agora, Senhor? O que é que eu faço? Além de mim, só minha mãezinha cuidava realmente do meu filhinho. Estou muito doente e não tenho mais ninguém para me ajudar. Mas se o Senhor me der forças, vou com minha missão até o fim”.

Durante as sete fases, Manoela Elias Barroso, a Ina, encontra-se com Emanuel várias vezes na casa de Elson e Cotinha em São Miguel do Passa Quatro, mas, em sua deficiência, jamais demonstra afeto pelo filho. Não entende dera à luz e era mãe. Os pais de Ina, Antônio Elias Barroso e Sebastiana Batista José de Carvalho, ambos excepcionais como a filha, morreram meses depois do nascimento de Emanuel, em 1990.

Maria das Graças Brasil, neuropediatra e professora da Faculdade de Medicina da UFG: “Cotinha sabia que não havia recurso médico para o filho, mas lhe deu todo o cuidado e dedicação. Nunca o abandonou e sempre se dedicou a ele” | Foto: Edmar Oliveira

Caso impressiona neuropediatra e diretora de Juizado

Na adolescência, até os 15 anos, três médicos atenderam Walder Emanuel Gonçalves e Cotinha em consultório: a clínica-geral Geíres Maria Gonçalo de Souza, o falecido pediatra Seikazu Tamashiro e a neuropediatra e psiquiatra da infância Maria das Graças Nunes Brasil, professora do Departamento de Saúde Mental e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) e de Neuropsicologia da Escola de Saúde da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás. Ambos, segundo dona Cotinha, fizeram de tudo por Emanuel, mas eram impotentes diante do quadro complexo e irreversível. Cotinha lembra que, em consulta com Maria das Graças Brasil, ouviu recomendação carinhosa: “Mamãe, mamãe… Cuide do seu filho, mas veja a sua situação também. Você está esgotada. Precisa se cuidar”.

A neurologista afirma que Cotinha é um exemplo de amor completo, entrega plena, mesmo diante de prognóstico tão difícil: “Embora dona Cotinha soubesse que não havia recurso médico para o filho, lhe deu todo o cuidado e dedicação. Nunca o abandonou e sempre se dedicou a ele”. Segundo a médica, dona Cotinha é um símbolo altamente positivo diante do que se vê em relação a doenças muito graves, incuráveis. “Isso é apreciável, emocionante. Várias vezes me emocionei ao atender Emanuel e Cotinha, que me ouvia atentamente, entendia tudo, chorava, mas embora entendesse e soubesse da dificuldade do caso parecia ter esperança de que poderia surgir alguma novidade na ciência para amenizar o sofrimento do filho. Cotinha é dessas pessoas que pensam que enquanto há vida, há esperança”,  recorda Maria das Graças Brasil, referência em neuropediatria e psiquiatra da infância em Goiás. “Reportagens como esta contribuem muito para quebrar tabus, levar mensagem positiva aos pais de crianças com problemas incuráveis, levar alento”.

Assistente social e diretora da Divisão Psicossocial do Juizado da Infância e Juventude de Goiânia, Edivânia Freitas de Menezes Tavares, que está no Juizado desde 1990 e há 14 anos na direção, diz que jamais viu adoção semelhante à de Emanuel. Houve adoções atípicas, como uma feita por espíritas, que acolheram criança cega, e o de uma médica, também espírita, que adotou duas crianças portadoras do vírus da Aids, além de uma terceira história incomum: a de um casal que adotou bebê com microcefalia e que já havia adotado outro bebê, também especial. “Quem adota é movido por muito amor”, acredita. “Adotantes como os que citei e como dona Cotinha, que se dedicam a crianças especiais, são muito amorosos, se entregam de corpo e alma a causa sublime. Não medem sacrifícios para dar alegria a crianças e adolescentes rejeitados”.

Edivânia explica que melhorou a aceitação de crianças pardas, mas continuam as dificuldades na adoção de crianças e adolescentes negras, doentes e de irmãos, que a lei determina que sejam adotados juntos: “Caso marcante é o de uma criança com paralisia cerebral e tetraplégica abandonada no Juizado da Infância e Juventude pelos pais biológicos. Aos dez anos, aguarda adoção na Associação de Serviço à Criança Especial (Ascep), em Goiânia. Até hoje, ninguém se interessou por ela”.

Enfim, morre Emanuel. Cotinha o entrega a Deus 

Dezembro de 2007. O quadro de Walder Emanuel Gonçalves piora acentuadamente. Elson e Cotinha preveem que o filho está indo embora para sempre. O menino agoniza. Na madrugada do dia 19, conta Elson Oliveira em “Família Feliz”, “Emanuel não chorou, não fez cara feia, não teve convulsão. Estava sereno”. Foi perdendo a respiração de forma lenta, até morrer às 9 horas, no colo da mãe que tanto o amou e sofreu com ele. Minutos antes do último suspiro, quatro dos oito netos de Elson e Cotinha, Gabriel, Lucas, Wagner Neto e Mariana, crianças, se aproximam, desesperados, batendo de leve no rosto de Emanuel, tentando ingenuamente mantê-lo vivo: “Não, tio Emanuel! Não, tio Emanuel Não morre, não! Não faz isso com a gente, não!” Cotinha manteve-se serena e os consolou: “Meus filhos, o tio Emanuel está indo para o céu. Podem ficar tranquilos. O tio Emanuel está indo encontrar o papai do céu”. E mandou os netos para sala para. Em seguida, sozinha, ergueu o corpo do filho ao céu e se dirigiu a Jesus Cristo: “Senhor, não vou mais prender o Emanuel. Ele é agora é seu. Entrego-lhe meu filhinho e a minha missão cumprida. Muito obrigada”.

Cotinha sentou-se na cama com o corpo no colo, em prantos. Não sabia o que fazer. Estava acostumada a lidar com Emanuel vivo. E agora? Em seguida, chegam Elson, um padre e um pediatra. Alguém sugere, mas a Cotinha se recusa a dar o último banho no filho em água fria. Fica nervosa com a ideia: “Tem que ser água quentinha, como sempre foi!” Depois, penteia seu cabelo com a ternura costumeira, perfuma-o, ordena a compra de roupa e sapatos novos, o arruma pela derradeira vez. Quando chega a hora de colocá-lo no caixão, um funcionário da funerária pede: “Não faça isso. Deixe-me por o corpo para a senhora”. Cotinha chora muito e entende que sua missão só terminaria mesmo agasalhando cuidadosamente Emanuel na pequena urna. E o fez. O corpo foi velado em sua casa e sepultado no jazigo onde estão os pais de Cotinha: Izídia Pires de Carvalho e José Carlixto de Carvalho. Cotinha coloca foto de um anjo no túmulo de Emanuel, que morreu a pouco mais de um mês de completar 18 anos.

Desde a morte dos pais, Ina, a mãe biológica de Emanuel, passou a morar com um irmão, que não é deficiente. Sem sucesso, Elson e Cotinha tentam convencê-la de ir ao velório. Ina, atualmente próxima dos 60 anos, jamais teve consciência de sua maternidade e da morte do filho.

Cotinha ressalta que várias vezes ela e o marido passaram por crises financeiras, mas nunca enfrentaram privações. “Certa vez, estávamos sem nada. Gastávamos muito com os remédios e os médicos do Emanuel. E uma vizinha pobre me pediu um litro de óleo e açúcar. Eu só tinha um litro, e o dividi com ela. No mesmo dia, um rapaz que tinha dívida antiga com Elson na advocacia, e que era representante comercial, passa de moto na porta da nossa casa da família Oliveira e grita: “Dona Cotinha, dona Cotinha! Vou pagar o senhor Elson com um fardo de óleo, de arroz e açúcar. Eu recebi os fardos e agradeci a Deus por aquela provisão”.

Em “Inveja e Gratidão”, a psicanalista austríaca Melanie Klein mostra o quanto a inveja pode ser destrutiva e o inverso, a gratidão, benéfica para a saúde mental. Hoje, a neurociência revela que o agradecimento libera dopamina no cérebro, causando sensação de bem-estar. “Nossa vida sempre se norteou pelo amor e gratidão a Deus, aos pais, aos filhos, aos amigos e ao nosso querido filhinho Emanuel”, diz Cotinha.

George Harrison:  o beatle espiritualista, que dizia que estava pronto para partir

Algumas pessoas, crentes ou céticas, parecem ser mais preparadas para encarar a própria morte e a de entes queridos. O ex-beatle espiritualista George Harrison, hindu, enfrentou câncer na garganta, no estômago e, por fim, no cérebro. Diante da angústia e apreensão de parentes e amigos, como Paul McCartney, os tranquilizava e dizia que estava preparado para partir. Em novembro de 2001, Harrison foi se encontrar com Deus, a quem exaltou em “My Sweet Lord (Meu Doce Senhor)”. “Ele entregou a vida a Deus havia muito tempo e não estava tentando se agarrar em nada. Claro que ninguém gosta de ficar doente, mas ele aceitou o que estava acontecendo”, disse Olivia Harrison, viúva do ex-beatle, em entrevista à BBC de Londres em 28 de novembro de 2002.

Ao ser indagada se está pronta para morrer, dona Cotinha ri alto e responde, alegre e tranquila: “Pode ser agora? Estou absolutamente preparada. Não deve haver nada mais lindo que ver a face de Deus, que é amor”.

A postura de Elson e Cotinha frente a Emanuel remete à frase do cético e genial Millôr Fernandes, que deixou escapar em “Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos”: “O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”. A dor de Emanuel era de Elson e Cotinha também.

Elson Gonçalves de Oliveira e Maria Pires de Oliveira, dona Cotinha, tinham intensa vida social até adotarem Emanuel. Após a convivência de 18 anos com o filho, Elson, hoje com 73 anos, e Cotinha, com 67 anos, não frequentam mais festas e reuniões públicas, a não ser na igreja. Continuam, como sempre, com a casa aberta a todos, recebendo em São Miguel do Passa Quatro e Vianópolis inclusive moradores de rua e viciados em drogas, a quem doam comida, fé e alento. Cotinha encerra a entrevista com mais uma citação do apóstolo Paulo: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, mas o maior destes é o amor (I Coríntios 13:13)”.

6
Deixe um comentário

6 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
6 Comment authors
Jô Almeida

Chorei de emoção! Que abençoe está família!

Carlos Cristiano Soares

Desaguei com tanto amor!

Marcelo Marciano de Oliveira

Lágrimas nos Olhos e Emoção com essa História Linda.Exemplo de Vida para a Humanidade.

selma aparecida

Uma lição de vida,fiquei emocionada,que Deus de em dobro a felicidade de família.

Florbela

Grande testemunho de fé. Grande história de amor incondicional. Deus abençoe esta família, estes pais. <3

Yracema

Estou muito emocionada com a história da família, também tivemos um irmão especial… Eles nos ensina a amar… Amor esse que é puro, que se estende pra outros, que nem sabem o quanto a gente ama… Esse casal fez o ECC em Vianópolis, tantas pessoas tinham medo de ficar no grupo de vocês kkkkkk, com medo de não saber como falar diante de uma pessoa tão estudada e importante como o senhor… E muita gente não conhece essa grande alma e grande amor que existe aí dentro. Deus os abençoe.