O Brasil pode viver (ou já está em) uma depressão econômica?

O cenário de crise, que parece se agravar, leva a essa questão. Mas o que há de real no termo e na situação? Há muita controvérsia em torno de causas e consequências  

Crianças fazem fila para receber sopa em 1934, no auge da Grande Depressão nos EUA

Crianças fazem fila para receber sopa em 1934, no auge da Grande Depressão nos EUA

Elder Dias

Desde 2013, nenhum índice econômico aponta para qualquer melhora do quadro brasileiro. Pelo contrário, trimestre a trimestre os sintomas se agravam. A recessão está hoje bem concreta. A pergunta já é outra: estaria o Brasil caminhando para uma depressão? É uma questão que está na cabeça dos economistas, mas que, talvez com outras palavras (“fundo do poço”, “abismo”, “precisão” etc.), perpassa o receio dos leigos.

Definir uma depressão econômica é algo de certa complexidade e que vem sendo tratado, muitas vezes, com alarmismo ou, pelo menos, com pouca sobriedade. Em tempos tão suscetíveis no Brasil, apenas isso, em si, já é um problema.

Para responder à questão do título, primeiramente seria necessário definir o que é “depressão”, no sentido econômico. Entre economistas e pesquisadores da área, há certo consenso de que depressão caracteriza uma recessão severa e prolongada. A partir daí, acaba qualquer unanimidade — como os dois entrevistados desta matéria (veja correlata) comprovam.

No livro “Uma História Monetária dos Estados Unidos – 1867-1960” — considerado por muitos como o livro de economia mais famoso da segunda metade do século 20 —, os economistas Milton Friedman e Anna Schwartz procuraram demonstrar que uma política errônea do Sistema de Reserva Federal (FED) transformou a crise de 1929 de uma instabilidade contornável em recessão. Naquele momento, o FED — um sistema que corresponderia ao Banco Central brasileiro, em vez de aumentar a liquidez, optou por uma política monetária “contracionista”, baseada em uma drástica redução de gastos. Uma tese que servia a um duplo propósito: a) tirar a culpa do livre mercado para jogá-la no governo da época; e b) desbancar os “espíritos animais” keynesianos — John Maynard Keynes fundamenta sua teoria de intervenção do Estado na economia contestando a autorregulação do mercado exatamente por causa da ação do “espírito animal” (“animal spirit”, em inglês) dos empresários.

O monetarismo da dupla de economistas acabou por vencer a decisiva guerra discursiva sobre a causa da Grande Depressão e não por acaso está entronizada no jornalismo feito nessa área no Brasil. Isso acaba trazendo uma compreensão sobre o momento nacional atual por um viés que enxerga o homem como um ser dissociado da realidade. Basta ver o que faz a dupla William Waack e Carlos Alberto Sardenberg toda noite, de segunda a sexta, no “Jornal da Globo”. Apenas índices, taxas e porcentagens. Parece que a economia só afeta o ser humano depois de percorridos todos os números.

Esse modelo monetarista que afasta o elemento humano permanece no ideário de profissionais da economia e da imprensa brasileira, embora uma vasta literatura já tenha resgatado e dê suporte aos “espíritos animais” de Keynes. Em bom português — e com economia de economês —, não se lida, no mundo real, com seres amorfos e ideais, mas pessoas que poupam e gastam tendo por base expectativas e perspectivas para o próprio futuro. Na prática, todos sabem exatamente o que isso quer dizer: se alguém pensa que a vida vai melhorar, logo deduz que talvez possa bancar a prestação do carro que vem desejando comprar já há algum tempo; mas se, por outro lado, há dúvidas sobre o que virá, a motivação vira cautela e, então, talvez seja melhor guardar o dinheiro para um momento de maior necessidade.

Duas pesquisas em intervalos já distantes no tempo mostram como esse “espírito animal” age. Em julho de 2007, uma manchete do portal UOL Economia relatava: “Boa parte da população já sente queda da inflação e do juro, diz CNI/Ibope”, em texto que se iniciava com a frase “A queda do juro e o controle da inflação já sensibilizam boa parte da população”. Já em abril último, quase oito anos depois, a manchete, da Agência Brasil, era bem diferente: “CNI: piora a percepção dos brasileiros em relação à inflação e ao desemprego”.

A questão da percepção funciona da seguinte forma: a pessoa comum nota que “tudo está subindo de preço”. A mesma sensação tem também o comerciante da venda onde ela compra. Então, porque “a gasolina e a conta da luz subiram”, este resolve subir o valor de seus produtos. Ou seja, simplesmente as pessoas passam a acreditar que “vai acontecer”. E a inflação ganha força dessa forma, como uma bola de neve em formação. Se as pessoas acham que o dólar vai subir, elas o comprarão com expectativa de ganho. E como o dólar compõe o preço de quase tudo que se compra, o preço de tudo também sobe com o dólar.

Alguns números podem ajudar a ter ideia de como essa espécie de alarmismo pode gerar o caos e, no fim, levar a uma recessão ou, vá lá, uma depressão econômica. Na campanha eleitoral de 2014, um dos grandes temas econômicos se referia à disparada da inflação. Mas como evoluiu a inflação nos últimos governos? No segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a inflação anual média foi de 8,6%; no primeiro mandato de Lula, 6,4% ao ano; na segunda gestão do petista, 5,1%. E o primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT)? Encerrou-se com 6,1% de média inflacionária por ano.

O leitor mais atento pode dizer que o último governo teve uma inflação contida por causa do controle do preço da gasolina e da energia. E estaria certo. Mas o mesmo leitor teria de concordar que não importando os motivos (como o controle de preços), a população não sentiu um grande aumento como era noticiado diariamente. Não que a imprensa tenha “criado” a inflação, mas é preciso destacar que, se a economia é gestão de expectativas, o que ocorrerá se as principais fontes de notícias do cidadão se convencerem de que a situação é ruim e vai piorar e de que estamos a beira do colapso? Enfim, a histeria, que se ancora mais na política do que em números, acaba por produzir seus efeitos.

Fosse com Dilma ou com os candidatos derrotados na eleição, já era ponto pacífico que o ano de 2015 seria de ajuste fiscal. Um ajuste que pode ocorrer e, principalmente, ser interpretado de diversas formas, o que infelizmente gera consequências bastante reais no dia a dia da economia. Com uma imprensa de espírito “menos armado”, os cortes de Dilma poderiam estaria sendo vistos como algo para dar mais eficiência à máquina pública e não tratados como evidências irrefutáveis de que o País está no fundo do poço. E se o eleito tivesse sido, por exemplo, Aécio Neves (PSDB)? Talvez boa parte da imprensa preferisse um termo mais positivo para a mesma política. “Choque de gestão”, quem sabe.

Uma previsão de queda do PIB de 3,5% em 2015 é algo assustador. Não pode ser explicada simplesmente pelo fim do ciclo das commodities. Um economista pode dizer que falta confiança por parte dos empresários. Mas como pode haver tanto descrédito a um governo que acabou de ser eleito e, muito pior, reeleito? Ora, se houve uma reeleição isso significa que não é o desconhecimento sobre o governante que gera tal desconfiança. Ao contrário, esse governo tomou medidas consideradas necessárias pelo mercado e especialistas. Curiosamente, os resultados são divulgados como prova inexorável de uma marcha rumo ao abismo.

De fato, o governo cometeu erros na gestão político-econômica do nosso País, e não foi imprensa ou nenhuma conspiração da direita que inventou a crise econômica, mas voltemos à pergunta inicial: o Brasil está caminhando para uma depressão? São muitos indicadores negativos, como aumento da dívida publica e a elevadíssima taxa de juros nacional, mas há muitos caminhos já testados que podem tirar o Brasil da crise atual. O que talvez seja necessário é entender que a economia trata de nós mesmos e nossas vidas cotidianas; não é um reino separado do qual só grandes especialistas têm a chave de acesso. Se dependermos só deles, talvez as piores de suas profecias se realizem.

Na prática, um termo que mais simboliza do que existe

Para o professor e economista Valdivino de Oliveira, o quadro brasileiro já é de depressão. E ele dá sua justificativa: “Estamos em um ciclo vicioso. Estabeleceu-se um processo de recessão junto com uma grande instabilidade política. Os governos federal e estaduais começam, então, a aumentar impostos. Com isso, o setor produtivo vai afundando, perdendo competividade e passa a pagar mais impostos.”

Para ele, as notícias econômicas são ruins e o remédio para curar os estragos na economia está ficando cada vez mais amargo. Ex-deputado federal e também auxiliar dos governos de Goiás e do Distrito Federal em várias gestões, Valdivino vê o Congresso como uma “casa política” e que observa o “termômetro popular”. “Não adianta Joaquim Levy [ministro da Fazenda] querer consertar a economia com criação de impostos, os deputados não vão aprovar porque o povo e o empresariado não aguenta mais. O custo Brasil é muito alto e não dá para resolver dessa forma, prejudicando o setor produtivo para pagar mais juros da dívida pública”, analisa.

Valdivino identifica uma recessão crescente e aponta a queda da produtividade como um sintoma importante. “Não vemos uma redução no ritmo recessivo. O que vemos é uma perspectiva cada vez pior para a produtividade, que tinha uma retração de 1,5% isso subiu para 2,2% e agora já se fala em até 4%. Onde isso vai parar?
Uma pergunta: e se fosse Aécio Neves (PSDB) o presidente hoje? “É uma questão de política econômica, que é mais bem conduzida com um governo mais forte. A crise política agrava a crise econômica, que agrava a política. Elas se alimentam mutuamente. O problema é que o governo só está aplicando uma cartilha recessiva.”

Já para o doutorando em História Marcelo Rizzo, o cenário poderia ser pior com Aécio —não pela questão econômica, mas social. “Se pensarmos que a receita do PSDB para fazer o ajuste fiscal é retirar a liquidez, podemos ver que não teríamos nada diferente do quadro atual, pois a fórmula usada é a mesma e não está dando certo. E poderia haver um grande retrocesso social, já que a economia não deve significar só uma busca por índices favoráveis, mas a melhora de vida da população”, justifica. “E o pensamento monetarista que caracteriza a política econômica tucana procuraria atingir esses índices pela retirada de medidas sociais que não só estimulam a economia como reduzem a pobreza no Brasil.”

Tendo História Econômica como foco de sua tese na Universidade Federal de Goiás (UFG), Rizzo discorda da ideia de que o Brasil esteja em depressão, ou mesmo entrando em uma. “Primeiramente, depressão é um termo que se relacionou a um fato histórico específico — a Grande Depressão — que hoje só está sendo utilizado por ter em vista um efeito político. Se no século 19 utilizava-se o termo ‘pânico’, até pelas corridas bancárias que as instabilidades econômicas causavam, hoje se usa o termo ‘crise’, que se relaciona tanto com curtas como com longas recessões”, ressalta. Segundo ele, não há dados macroeconômicos que corroborem, no momento, nem mesmo uma longa recessão. “O maior problema agora é uma economia à deriva, pois o Congresso, seguindo interesses políticos, procura travar as tentativas do governo em lidar com a crise. Não pode haver retomada sem um mínimo de consenso.” l

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