Neste momento de crise, o Brasil precisa de um estadista?

País passa pelo momento mais difícil e complicado da Nova República. Em meio às turbulências econômica, ética e política, cresce o questionamento sobre a falta de um governante de visão mais ampla de Estado

Dilma Rousseff está acuada em um momento em que o Brasil vive uma crise econômica, política e ética

Dilma Rousseff está acuada em um momento em que o Brasil vive uma crise econômica, política e ética

Frederico Vitor

Estadista é aquele versado nos princípios ou na arte de governar, ativamente envolvido em conduzir os negócios de um governo e em moldar a sua política. Ela, ou ele, exerce liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias. Neste período turbulento em que o Brasil passa por uma grave crise política, ética e econômica, não faltaria ao País alguém com tais características que conduza a nação a superar seus entraves? Onde estariam os brasileiros capazes de formar uma estrutura política que teria como objetivo colocar a pátria no lugar em que seus cidadãos sempre reivindicaram como direito, ou seja, no seleto grupo de países protagonistas da ordem mundial, onde as decisões tomadas aqui fariam eco em todo o globo terrestre?

A presidente Dilma Rousseff (PT) foi eleita em 2010 e reeleita no ano passado, vendida com o rótulo de boa gestora e detentora de pulsos firmes que conduziriam o País a um período de estabilidade econômica, prosperidade e segurança. Porém, a realidade se mostra exatamente o contrário. A ‘chefa’ de Estado e de governo do País mais rico e poderoso da América Latina se encontra acuada. O que é mais constrangedor: a petista está recolhendo os cacos políticos na tentativa reconstruir uma coesão de sua base no Congresso Nacional para ter condições de aprovar os projetos de ajustes, essenciais para que o Brasil dê passos rumo à saída da crise.

Diferentemente de Lula, seu criador político e antecessor no Palácio do Planalto, Dilma sequer consegue dissimular a estampa de mulher de Estado. Sua popularidade é a mais baixa da história da Nova República e o remédio amargo que ela prescreve para que o País saia de seu estado febril é tão amargo que poderá custar seu mandato como presidente.

A história aponta que o Brasil teve líderes estadistas em diferentes épocas. O primeiro deles foi o imperador Dom Pedro II, que manteve a soberania das fronteiras nacionais intactas, formou uma aliança com Uruguai e Argentina para vencer o Paraguai na Guerra da Tríplice Aliança (1865-1870) e fincou bases para afirmação nacional. O monarca alicerçou bases para uma incipiente industrialização que se deu ao reboque da expansão cafeeira e, ao apagar das luzes de seu reinado, aboliu a escravatura, mesmo que tardiamente — o cruel sistema escravocrata brasileiro é uma das maiores feridas sociais do País.

No século 20, dois nomes se firmaram como estadistas. Getúlio Dornelles Vargas, o pai do trabalhismo brasileiro, foi o primeiro deles. O gaúcho de São Borja triunfou na Revolução de 1930 e a consolidou ao vencer os paulistas na Revolução Constitucionalista de 1392. Sua política tirou o País da condição quase feudal para uma concepção moderna de Estado, apesar da ditadura do Estado Novo. O caudilho criou a Justiça do Trabalho, o Ministério da Justiça e o salário mínimo, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a carteira profissional, a semana de 48 horas de trabalho e as férias remuneradas.

Na área estatal, Vargas criou a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce, a Hidrelétrica do Vale do São Francisco, a Petrobrás e entidades como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No campo da política internacional, lutou ao lado dos Aliados contra o Eixo nazifascista (Alemanha, Itália e Japão), tendo formado a Força Expedicionária Brasileira (FEB) que cruzou o Atlântico para combater a máquina de guerra de Hitler nos campos de batalha italiano. Para o bem ou para o mal, o “pai dos pobres” deixou sua marca no Estado brasileiro, portanto é sempre lembrado como um estadista.

JK

No final da década de 1950 e início de 1960, outro brasileiro entrou para a história com sofisticada visão de Estado. Ao assumir a Presidência da República com metas ousadas, Juscelino Kubitschek disseminou o desenvolvimento industrial, levando para São Paulo a fábrica da Volkswagen que, por influência desta, tantas outras vieram, formando assim o parque industrial conhecido como ABC paulista. O seu governo é lembrado por ter ocorrido numa época denominada de “anos dourados”, caracterizado como uma fase de prosperidade econômica, baixa inflação, elevadas taxas de crescimento da economia e do padrão de vida dos brasileiros.

Dentre as grandes realizações do período JK, como não poderia ser diferente, se destaca a obra-sonho de Dom Bosco, isto é, Brasília, a “capital da esperança”. A nova sede dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário da República, construída em meio à imensidão do Planalto Central, inaugurada em 21 de abril de 1960, se tornou o marco na integração nacional. A nova capital foi o elo entre litoral e interior, do Brasil moderno ao profundo, do arrojado ao arcaico, do urbano ao rural. Marco histórico urbanístico seria mais tarde tombada patrimônio mundial pela Unesco, expoente do estilo arquitetônico modernista de Oscar Niemeyer.

O que os estadistas das grandes potências mundiais têm a nos ensinar

Os países ricos, principalmente aqueles que são celeiros de tecnologia, pesquisa e inovação, em algum momento de suas respectivas histórias, sofreram mudanças positivas em seus cursos em função das ações de homens de Estado. Abraham Lincoln, o 16ª presidente dos Estados Unidos, de 1861 até 1865 (ano em que foi assassinado), foi o homem certo para a hora certa no momento mais dramático da história americana.

Lincoln foi o responsável pela união de uma casa divida. Coube a ele o papel de manter coeso um país rachado entre dois modelos de sociedade e de estilos de vida: o norte industrial, rico, próspero e liberal, e o sul rural, atrasado, testamental e escravista. Ao se eleger em 1861, os governantes dos Estados do Sul, descontentes e temerosos do fim do regime de escravidão, base principal das “plantations” de algodão, declararam independência da União. Rebelados, 11 Estados formaram os Estados Unidos Confederados e eclodindo a Guerra Civil Americana, um conflito sangrento que durou quatro anos. O saldo: 700 mil mortos, numa época em que os Estados Unidos tinham 31,5 milhões de habitantes.

São nos momentos de turbulências que aparecem as qualidades do estadista; sob seus om­bros e sua responsabilidade, decisões são tomadas. Um líder detentor de autoconfiança consegue determinar os caminhos de uma nação. Lincoln defendeu valores universais e sua liderança alçou os Estados Unidos à vanguarda mundial. Mais importante do que vencer os confederados no campo de batalha foi a aprovação da 13ª Emenda à Constituição americana, a qual foi ratificada no final de 1865, acabando oficialmente com a escravidão em todo território americano.

Era Roosevelt

O homem de Estado começa a se diferenciar do político co­mum, em especial aquele de clientela, no momento em que é capaz de liderar o sistema político para a construção do futuro. Franklin Delano Roosevelt, 32ª presidente americano, tratou de sinalizar isso para o povo de seu país ao assumir, ainda em campanha para a Presidência, o compromisso que se tornaria a sua marca de fazer política interna: o New Deal.

É nas crises que se agigantam os líderes que dão novo rumo ao sistema político e aos rumos de seus países. Em um momento em que os Estados Unidos estavam imersos na miséria e no desemprego, resultado da queda da bolsa de valores de Nova York em 1929, conhecida como a Grande Depressão, Roosevelt prometia elevar a moral americana e torná-la a maior superpotência do mundo. E justamente aquele homem na cadeira de rodas, um líder que conduziu o despertar de uma nação gigante, se constituiria num dos maiores estadistas da história.

No poder, Roosevelt tomou me­didas imediatas visando recuperar a autoestima do orgulhoso povo americano. Criou o arrojado programa de obras públicas do qual resultou a construção de ferrovias, hospitais e barragens. Por meio de seu pacto com a sociedade americana, o New Deal conduziu a economia americana do abismo à prosperidade.

É certamente por isso que Roosevelt é a mais genuína definição do que vem a ser um estadista: um homem que pensa nas próximas gerações e não nas próximas eleições. Além disso, ele conduziu vitoriosamente os Estados Unidos rumo ao triunfo militar e geopolítico na Segunda Guerra Mundial. A história americana e do mundo do século 20 não se construiria sem a perspicácia, patriotismo e espírito público de Roosevelt.

Churchill

No mesmo período de Roo­se­velt, do outro lado do Atlântico, Winston Churchill tomou posse como chefe do Executivo britânico, aos 65 anos de idade, sem “nada mais para oferecer, a não ser sangue, suor e lágrimas”. No contexto da Segunda Guerra Mundial, aproximou-se dos Esta­dos Unidos, tendo conseguido em­préstimos para financiar as forças armadas de Vossa Ma­jes­tade contra as ameaças representadas pela Alemanha, Itália e Japão.

O exemplo de Churchill e de sua magnífica oratória permitiram a ele manter a coesão espiritual do povo britânico nos momentos de provação, quando bombardeios sistemáticos da Alemanha devastavam Londres e outras cidades do Reino Unido. Durante anos, Churchill foi como a voz da consciência de seu País, que sacudia os espíritos e lhes insuflava grandes doses de energia e valor. Apesar de ter vencido a guerra, perdeu as eleições no Reino Unido em 1945, mas entrou para história como o estadista que preservou a integridade do Império Britânico ante a apavorante ameaça de Hitler.

Bismarck

Otto von Bismarck foi um dos mais importantes e influentes estadistas do século 19, e fundador da moderna Alemanha. Bismarck foi primeiro-ministro do reino da Prússia e o primeiro político a exercer o cargo de chanceler do Império Alemão. A sua influência nos destinos da Alemanha e da Europa foi enorme, devendo a ele a unificação da Alemanha transformando-a em uma grande potência industrial, econômica, militar e cultural. Quase todas as grandes movimentações políticas europeias da segunda metade daquele século teve algum grau da influência de Bismarck.

O estadista alemão travou três guerras para unificar os estados germânicos: contra a Dinamarca, em 1864; a Áustria, em 1866; e a Guerra Franco-Prussiana. Depois da derrota de Napoleão Terceiro da França, o rei da Prússia foi coroado como Guilherme Primeiro, Imperador da Alemanha. Bismarck tornou-se chanceler do novo império, sendo conhecido como o chanceler de ferro. O sucesso de Bismarck para conseguir a unificação alemã e o poder nacional baseou-se na grande habilidade diplomática, fazendo-o um grande estadista de seu tempo.

De Gaulle

Como general e como estadista, Charles de Gaulle está para a França do século 20 como Napoleão para o século 18. Ambos foram indivíduos absolutamente singulares, tanto nos campos de batalha como na condução do Estado. Ninguém pôde com eles rivalizar em gênio militar, ousadia política e visão histórica do papel da França no mundo que lhes foi contemporâneo.

Napoleão foi o último go­ver­nante de uma França que até então era a primeira potência europeia e mundial e que, a partir de então, deixou paulatinamente de sê-lo. De Gaulle, ao con­trário, iria se tornar o líder de uma França humilhada e sub­jugada pela Alemanha nazista.
Durante a Segunda Guerra Mundial, De Gaulle não contava com mais do que algumas poucas forças da armada francesa que se negaram a voltar à França invadida. De Londres, e nas colônias francesas na África, ele comandou heroicamente uma resistência contra os invasores alemães.

Com Paris libertada, em 1944, começava a reconstrução da França. De Gaulle achava que a nação gaulesa poderia desempenhar um papel determinante no pós-guerra e, para tal, era necessária uma política externa independente. Por isso, o estadista francês bancou a saída da França da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a obtenção de instrumentos próprios de defesa, como a bomba atômica, tornando-se uma potência nuclear.

Além disso, sob seu comando, patrocinou a independência da Argélia, comandou a reconstrução geopolítica da França garantindo uma zona de influência na Alemanha Ociden­tal. De Gaulle financiou o ressurgimento da indústria francesa, em especial a automobilística, aeronáutica, bélica e espacial, condicionando-a em poucos anos a maior economia europeia, sendo superada pela Ale­manha reunificada a partir de 1989.

2 respostas para “Neste momento de crise, o Brasil precisa de um estadista?”

  1. SIM, Frederico Vitor, o país precisa de estadistas e de Democracia plena. O Brasil tem o direito de arguir a saída da presidente que não preside, assentada na inércia de seus milhões de votos questionados por quem ainda crê que “O poder emana do Povo”. Com menos de 7% de popularidade, com uma teimosia que beira o índice 8 na escala Ritcher de balança-mas-não-cai dos governantes de Nuestra America, Dilma é o anti-exemplo de tudo que o artigo reitera.
    Quanto ao Getúlio, há de se reescrever o caráter ditatorial do Estadista falhado que ele foi.
    Ótimo artigo, sr. Vítor.
    Abraços,
    Beto.
    http://betoqueiroz.com

  2. Avatar Manuella Louzada disse:

    Comparar essa crise com pós 2ª guerra e recessão de 29 é meio muuuuito forçado né Frederico Vítor?

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