Na terra onde falta Voltaire e sobra Maquiavel, as sementes do fascismo já dão seus perigosos frutos

Traços perigosos das ideias totalitárias e autoritárias se delineiam em meio às multidões desde as chamadas jornadas de junho de 2013. E isso está cada vez mais grave

Na Roma antiga, o feixe de lítor (“fascio lictor”, em latim) era carregado à frente de grandes autoridades da magistratura: o fascismo deu-lhe novo significado

Elder Dias

Pegue um livro que você considere inútil – caso queira fazer a experiência a seguir não apenas hipoteticamente. Então, em seguida, rasgue uma página desse livro. Fácil, não? Agora tome outro exemplar do mesmo livro – se um exemplar é inútil, obviamente um idêntico também será. Só que, desta vez, tente rasgá-lo inteiro ao meio, como fez com a única página. Talvez não seja impossível (o que vai depender da quantidade de páginas), mas, de qualquer forma, será uma tarefa muito mais difícil do que a primeira.

Esse era o princípio do fascismo em sua origem, que remonta ao início do século passado: basicamente, seria “união para ter força”. Não por acaso, o símbolo clássico do fascismo é um feixe de varas. Sozinha, uma vara é frágil e vulnerável, como os indivíduos avulsos; estes, unidos em um feixe, o tornam poderoso. Em tempo: feixe, em italiano, é “fascio”, que, por sua vez, se origina etimologicamente do latim “fasces lictoris”, ou feixe de “lictor” (“lítor” era o nome dado a quem carregava o feixe em cerimonias oficiais antes da passagem de figuras da magistratura, no período do império romano).

Não por acaso também, há um machado no interior do símbolo – o povo unido em torno do poder, representado por uma força central que legislaria sobre a vida e a morte. Curiosamente, o símbolo que marca o fascismo está presente no brasão do Senado americano e aparece como emblema da República Francesa. Como organização política, o principal mentor do fascismo propriamente dito foi Benito Mussolini – embora o nazismo de Adolf Hitler seja um modelo aprofundado do terrorismo desse regime. Mussolini, o “Duce”, conduziu a Itália de forma populista por duas décadas (de 1923 a 1943), culminando em uma aliança com a Alemanha e o Japão e a derrocada do trio na Segunda Guerra Mundial.

Como ocorre geralmente às ideologias perdedoras, a partir de então chamar alguém de fascista tornou-se uma forma de insulto. Nada muito diferente do que ocorre hoje, no Brasil, quando alguém leva a pecha de “petista”, neste período pós-Dilma. Em uma forma aberrante de tomar o todo pela parte, quem se mostre com pensamento crítico à economia de mercado se torna automaticamente, para os mais radicais, um “petista”, “petralha” ou, ainda, um “esquerdopata”. Não há nuances.

O símbolo do fascismo, com um feixe de varas envolvendo um machado: dolorosa (mas necessária) lembrança de tempos aterrorizantes

Embora nem todo acusado de fascismo seja de fato fascista e nem todo “petista” seja obrigatoriamente petista, é exatamente pela falta de matizes que proliferam o autoritarismo e o totalitarismo. Emilio Gentile, uma das maiores referências do tema e discípulo de Renzo de Felice – biógrafo de Mussolini –, assim define o fascismo: “um movimento de massa de adesão multiclasse em que prevalecem, entre os líderes e os militantes, os setores médios, em grande parte novos na atividade política, organizados como uma milícia partidária, que baseiam sua identidade não em hierarquia social ou origem de classe, mas em um sentido de camaradagem; acredita-se investido de uma missão de regeneração nacional, considera-se em estado de guerra contra adversários políticos e visa conquistar o monopólio do poder político por meio do terror, política parlamentar e acordos com grupos maiores, para criar um novo regime que destrói a democracia parlamentar”.

No Brasil, houve um preocupante acirramento da disputa político-ideológica desde a campanha presidencial de 2014. Embora de partidos que não podem ser considerados extremos de nenhuma corrente, Aécio Neves – do PSDB, um partido originado na centro-esquerda, mas guinado ao centro ou centro-direita desde sua aliança com o PFL (hoje DEM), em 1994 – e Dilma Rousseff – do PT, que governo não indo além da centro-esquerda – polarizaram naquele ano sentimentos opostos. Pelo ponto de vista dos grupos radicalizados, o eleitor de um passou a ser tachado de “reacionário” e o de outra, “comunista”. As consequências do discurso se estenderiam, de forma ainda mais aprofundada, às manifestações de rua que se seguiram às eleições, primeiramente contestando seu resultado e depois se tornando ao mesmo tempo atos anti-PT, pelo impeachment de Dilma e contra a corrupção.

A grande imprensa sempre tratou essas manifestações como “festas da democracia”. Ressaltava principalmente o aspecto “pacífico” delas, bem como sua espontaneidade – o que é contestável, já que as multidões vestidas de amarelo foram lideradas por grupos geralmente ligados ao liberalismo de mercado e o conservadorismo de costumes, como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua. Muitas vezes, os eventos se assemelhavam mais a passeios do que a passeatas, mais a uma torcida a caminho do estádio do que a um povo resoluto em mudar sua história de forma inequívoca: os sintomas disso eram observados desde as camisas da seleção da corrupta CBF às selfies mais do que amigáveis com policiais, passando por pseudocelebridades querendo se promover, entre outros pontos questionáveis.

Pensando nesses acontecimentos de acordo com a definição a que se refere Gentile, estariam presentes neles os “setores médios” da sociedade, em “um movimento de massa de adesão multiclasse”, com sua “camaradagem”, seguros de participarem então de uma “missão de regeneração nacional” e mostrando-se em “estado de guerra contra adversários políticos”. Obviamente – e ao contrário do que os mais apressados poderiam concluir ao ler o período anterior – as manifestações “Fora Dilma” ou “Fora PT” não podem se caracterizados como fascistas por apresentar essas características comuns à descrição de um movimento totalitário por um estudioso.

Por outro lado, não se pode negar que traços perigosos das ideias do fascismo já se delineiam em meio às multidões desde as chamadas jornadas de junho de 2013: um deles era a repressão – em atos que em tese seriam abertos e universais – à presença de bandeiras e símbolos de partidos políticos. “Sem partido! Sem partido!”, gritou, muitas vezes, o conjunto da massa, ao avistar algum suposto “aproveitador” da marcha. É exagerado dizer que, nas manifestações que se seguiram, isso tenha sido o germe da intolerância a pessoas com quem a turba cruzasse e estivessem com alguma alusão a símbolos de esquerda ou mesmo vestindo uma simples camiseta vermelha? Nem tanto. Mas o que ficou cada vez mais evidenciado foi a presença de um discurso coletivo evidentemente violento por trás de uma aura de movimento pacífico.

Banalização do termo

Manifestações em 2013 execravam a presença de partidos políticos – um indício totalitarista que já sinalizava que algo não ia bem com a democracia

A banalização do uso do termo “fascista” é um desfavor à identificação de algo que realmente mereça essa caracterização. Boa parte dos contrários ao atual governo federal insistem em tachá-lo dessa forma. Usam o adjetivo como sinônimo de autoritário ou impositivo. Um fator imprescindível para que um governo possa ser considerado fascista é que consiga mobilizar as massas em seu favor, estabelecendo assim uma base popular forte. Portanto, o que a contestada gestão Michel Temer (PMDB) menos tem, nesse sentido, é um teor fascista. No caso, o fato de um vice impor medidas abruptas de descontinuidade em relação ao governo a que dava base meses antes pode ter muito mais indícios de golpe – em relação à escolha democrática de um programa de governo da chapa que o vice integrou – do que de genética fascista.

De modo geral, pode-se dizer que o discurso fascista prolifera quando há a união de uma massa em torno de líderes que se arvoram como detentores do patrimônio da ética e da moral e promovem, por meio de seu viés populista, a aniquilação de ideias contrárias. Muito além da concentração nas ruas, a internet tem sido ponto de encontro para uma massa que “decide” o que é certo e se autoriza a destruir o que lhe parece errado sem chance de defesa ou alguma forma de modalização do discurso.

Instaura-se uma avalanche de certezas. Não se abre espaço para o contraditório. Aquilo que de certa maneira se afasta, ainda que não muito, do que o grupo pensa já deve ser contestado prontamente. Dilma e Aécio, ou Lula e José Serra, sempre estiveram muito mais próximos ideologicamente do que pretenderam atiçar o grupo que defende um em relação ao outro, na guerra entre “petralhas” e “coxinhas”: como exemplo, se o petrolão teve suas bases aperfeiçoadas nos governos petistas, vai ficando mais claro de que isso ocorreu porque elas foram criadas ainda durante a gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso.

Na semana passada, nas redes sociais, o acidente vascular cerebral (AVC) sofrido pela ex-primeira-dama Marisa Letícia foi recebido com comentários que traziam menos lamentações do que aleluias. O fato de ser mulher de Lula, hoje a referência básica tanto para a direita como para a esquerda na polarização que tomou conta do País, a fez ser menos uma enferma em uma UTI do que uma entidade a ser vilipendiada ou protegida. É mais uma das características do fascismo: retirar o que há de humano nos adversários, de modo com que seu linchamento – virtual ou real – se legitime.

Pode-se dizer com segurança que ideias fascistas correm na exata contramão do pensamento de Voltaire. A abertura à liberdade de expressão defendida pelo mestre francês do iluminismo levou a inglesa Evelyn Beatrice Hall a cunhar uma frase para sintetizar o que pensava o filósofo: “Posso não concordar com nenhuma palavra do que você disse, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” — um trecho que é erradamente atribuído a Voltaire, mas que não deixa de ser dele de alguma forma, já que Evelyn, como sua biógrafa, a escreveu como uma espécie de resumo de suas crenças, em “The Friends of Voltaire” [“Os Amigos de Voltaire”, tradução livre].

O antídoto para o momento de crise atual talvez seja o entendimento de ambos os lados de que há mais no mundo do que as próprias opiniões impostas goela abaixo. Tem faltado Voltaire e sobrado Maquiavel.

4 respostas para “Na terra onde falta Voltaire e sobra Maquiavel, as sementes do fascismo já dão seus perigosos frutos”

  1. Avatar Erik Jubé disse:

    Quando o PT estava voando baixo em matéria de corrupção e vilipêndio não lembro de nenhuma matéria do jornalista acima criticando a forma belicosa como os vermelhos tratavam seus adversários (que consideravam inimigos!!!). O projeto petista de poder e roubo foi desmontado mas as viúvas do Foro de São Paulo ainda choram… Acalmem-se 2018 está bem aí e brasileiro esquece rápido talvez vocês voltem sangrar a República.

  2. Avatar Paulo Roberto Barros disse:

    É sempe proveitosa a leitura dos textos de Elder Dias. Além da acuidade das suas observações, ouso acrescentar que as manifestações dos últimos anos mobilizaram grande número de participantes descontentes com os partidos políticos, decepcionados com os vícios inerentes ao atual sistema representativo. Daí a rejeição aos políticos: ampla, geral e irrestrita; a maioria dos detentores de mandatos foi repudiada. Mais: a “camisa da seleção”, para milhões de brasileiros amantes do futebol, simboliza a “seleção brasileira”, o “time do Brasil” – e não a “entidade” CBF. É esta uma associação equivocada? A “seleção nacional” não representa “o Brasil” – e sim, a CBF? Sim. Mas também é verdade que há décadas, desde a antiga CBD, meios de comunicação e governos “venderam” a idéia de que a “seleção” é “nacional”, é “brasileira”. Logo, associar quem veste essa camisa à ignorância sobre os desvios da CBF pode ser descabido. Para muitos seria o mesmo que cobrar do cidadão repúdio a “bandeira do Brasil”, ou ao “brasão da República”, por conta dos incontáveis e recorrentes desvios de tantos que chefiaram as instituições desde a proclamação da República. Como diria um “futebolista”: ‘uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa’.

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