Muito além de Maradona e Messi: a Argentina que conquistou Goiás pela fé, gastronomia e negócios
01 agosto 2026 às 21h00

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A Argentina costuma chegar ao imaginário brasileiro pelos grandes personagens que ajudaram a construir sua identidade. Foi o país de José de San Martín, o libertador que liderou a independência de parte da América do Sul; de Eva Perón, a Evita, transformada em símbolo político; de Jorge Luis Borges, que reinventou a literatura; de Carlos Gardel, que fez do tango uma marca nacional; de Diego Maradona e Lionel Messi, gênios separados por gerações, mas unidos pela capacidade de transformar uma bola em patrimônio cultural. Entre Brasil e Argentina, porém, a lembrança mais recorrente quase sempre passa pelos 90 minutos de uma partida de futebol.
Fora das quatro linhas, a rivalidade perde força. Dá lugar ao churrasco de domingo, ao vinho compartilhado, às conversas demoradas ao redor da mesa, ao costume de receber amigos sem hora para ir embora e a um jeito caloroso de viver que aproxima brasileiros e argentinos muito mais do que costuma separar.
Em Goiânia, onde a presença da comunidade argentina cresceu silenciosamente ao longo dos anos, essas semelhanças aparecem em histórias de quem cruzou a fronteira em busca de uma nova vida e encontrou, no coração do Cerrado, um lugar para chamar de casa.
Foi o que aconteceu com o padre Rafael Magul, da Igreja Ortodoxa de Goiânia.
Nascido em Santiago del Estero, considerada a cidade mais antiga da Argentina, ele desembarcou em Goiás em 2008 para reorganizar a Igreja Ortodoxa Antioquina na região. Quase duas décadas depois, fala de Goiânia com o mesmo afeto de quem descreve sua terra natal.
Cheguei aqui em 2008 e nós nos sentimos em casa. Primeiro, pela hospitalidade goiana. Eu acho que Goiás tem uma característica muito bonita de acolher as pessoas que vêm de fora. Podemos dizer tranquilamente que Goiânia e Goiás foram formados por muitos migrantes.
A percepção dele nasce tanto da experiência religiosa quanto da convivência diária com diferentes nacionalidades. À frente da igreja, Padre Rafael acompanha não apenas a comunidade árabe ligada à tradição ortodoxa, mas também argentinos, haitianos, sírios, bolivianos e peruanos que encontraram na instituição um ponto de apoio para recomeçar.
“Acho que o grande desafio de quem chega é justamente se integrar e também saber integrar os outros. A integração é muito importante”, afirma. “Vivemos em um mundo carente de identidade e pertencimento. Eu acho que a identidade goiana é muito bonita.”
A comparação entre Brasil e Argentina surge naturalmente durante a conversa. Para ele, as diferenças aparecem muito mais na arquitetura ou na formação histórica do que na maneira como as pessoas vivem.
“Além da comida, nós temos muitas coisas em comum. Na Argentina temos o churrasco, e aqui também. Gostamos dos encontros, das confraternizações, da amizade. Temos muitas coisas em comum. E também o bom futebol”, diz, antes de fazer uma observação que costuma surpreender brasileiros.
Eu sempre digo que a rivalidade da Argentina com o Brasil existe apenas no futebol.
O sacerdote lembra de uma pesquisa realizada durante uma Copa do Mundo em que perguntaram ao técnico da seleção argentina, Lionel Scaloni, para quem torceria caso a Argentina fosse eliminada.
Ele respondeu que torceria pelo Brasil, recorda.
Outra pesquisa, segundo ele, mostrou um sentimento parecido entre torcedores argentinos.
Perguntaram para quem os argentinos torceriam se o Brasil jogasse contra a Espanha. De 150 pessoas entrevistadas, 147 responderam que torceriam pelo Brasil. Porque somos latino-americanos. Queríamos que um país latino-americano vencesse um europeu. Esse é o pensamento de grande parte dos argentinos.
Na igreja comandada por Padre Rafael, a integração acontece de maneira prática. Ali já funcionaram consulados itinerantes do Peru e da Bolívia, refugiados sírios receberam acolhimento e uma creche atende gratuitamente mais de 200 crianças, entre elas cerca de vinte haitianas.
“Nós fazemos um verdadeiro trabalho de inclusão”, resume.
Foi também naquele salão paroquial que a comunidade argentina se reuniu durante a final da Copa do Mundo.
Enquanto muitos planejavam assistir ao jogo em um restaurante argentino da capital, ameaças contra alguns estabelecimentos fizeram os torcedores mudarem os planos.
“Mais de 200 pessoas acompanharam a partida conosco. Dessas, cerca de 150 eram argentinas”, lembra.
Embora estime que a comunidade argentina em Goiânia não seja numerosa, ele garante que ela é bastante unida.
Sempre fazemos atividades juntos. Preparamos choripán, tomamos chimarrão e promovemos encontros. A comunidade argentina acaba se reunindo aqui.

O padre evita falar em política. Prefere falar de pessoas. “O importante não é se alguém é de esquerda, de direita ou de centro. O importante é que sejam boas pessoas. Jesus nos ensinou justamente isso: acolher o próximo.”
Essa ideia de acolhimento aparece até quando fala da própria missão. Entre os momentos mais marcantes do sacerdócio, ele não cita grandes celebrações religiosas, mas a criação do Centro Educacional Infantil mantido pela igreja e as ações realizadas durante a pandemia.
“Conseguimos levar alimentos para pessoas em situação de rua e também para trabalhadores que não conseguiam sequer pagar os custos para manter seus veículos funcionando”, recorda. “A maior alegria é sentir-se útil ao próximo.”
Depois de 17 anos em Goiás, Padre Rafael ainda tem irmãos vivendo na Argentina, acompanha de perto a situação econômica do país e mantém a esperança de dias melhores. Mas, quando perguntado se mudaria alguma decisão da própria vida, responde sem hesitar.
Eu diria para seguir exatamente esse caminho. Eu me realizei dentro da Igreja. Graças a Deus por estar exatamente onde estou.
Gastronomia argentina em solo goiano
Se a igreja se transformou em um ponto de encontro para argentinos em Goiânia, outro endereço da cidade passou a cumprir papel semelhante por um caminho diferente: o da gastronomia. Entre o cheiro da carne na parrilla, centenas de empanadas produzidas diariamente e o sotaque espanhol que recebe os clientes logo na entrada, um restaurante no Setor Oeste passou a servir muito mais do que comida argentina — passou a oferecer, todos os dias, uma pequena viagem cultural sem que ninguém precise sair de Goiás.
No restaurante argentino em Goiânia, Don Diego, as paredes contam histórias antes mesmo de o cardápio chegar à mesa. Camisas da seleção argentina dividem espaço com revistas antigas, referências a Mafalda, lembranças de Maradona, garrafas de vinho de Mendoza e objetos trazidos de diferentes regiões do país. Em algumas noites, o ambiente ganha o som do tango. Em outras, a música muda de endereço e apresenta ao público ritmos folclóricos ou a cúmbia, mais popular no interior argentino do que o tango eternizado por Carlos Gardel.

A proposta nunca foi reproduzir apenas uma cozinha. O objetivo sempre foi transportar um pouco da cultura argentina para Goiânia.
Para Diego Martín, chef nascido em Mendoza, a história do restaurante começou de forma despretensiosa, dentro de um apartamento, durante a pandemia.
O restaurante foi crescendo aos poucos, dia após dia. Começamos vendendo uma empanada, depois dez, depois cinquenta… Hoje produzimos entre 400 e 500 empanadas por dia. Foi um crescimento muito natural, resume.
Antes de trocar definitivamente a cozinha pela churrasqueira, Diego percorreu um caminho pouco comum. Trabalhou como policial na Argentina, decidiu mudar completamente de vida, viajou pelo Brasil quase como um mochileiro e passou por diferentes estados até chegar a Goiás.
Foi em Catalão que conheceu a cineasta goiana Carol Breviglieri. Ela estava na cidade gravando um longa-metragem. A equipe decidiu jantar em um restaurante onde Diego era chef.
“Ela estava gravando um filme lá. Eu era chef de cozinha em um restaurante onde a equipe foi jantar. Foi assim que nos conhecemos”, lembra.
Carol ri da objetividade do marido e faz questão de completar a história. “Ele está resumindo demais a parte romântica”, brinca. “Eu pedi um risoto. Foi ali que ele me conquistou.”
O namoro evoluiu rapidamente. Vieram a mudança para Goiânia, o casamento e, logo depois, a pandemia. Enquanto restaurantes fechavam as portas e produções audiovisuais eram interrompidas, os dois precisaram reinventar a própria profissão.
Foi Carol quem fez a pergunta que mudaria a trajetória do casal.
Eu perguntei: ‘O que você sabe fazer?’. Ele respondeu: ‘Cozinhar. Fazer empanadas’. Eu falei: ‘Eu sei filmar, editar e cuidar das redes sociais. Então vamos criar um Instagram e vender’.
Nascia ali o embrião do Don Diego.
As primeiras vendas eram feitas por delivery. Empanadas, massas artesanais, chimichurri e outros produtos saíam da cozinha do apartamento para conquistar os primeiros clientes. Quando as restrições da pandemia diminuíram, o casal abriu um pequeno quiosque no Setor Oeste.
“Os próprios clientes passaram a dizer: ‘Vocês precisam abrir um restaurante'”, conta Carol.

O plano inicial era modesto.
“Achávamos que trabalharíamos apenas dois ou três dias por semana e que seria um lugar pequeno. Mas começou a lotar. Foi crescendo rapidamente.”
Se Diego representa a tradição gastronômica argentina, Carol acabou assumindo outro papel: o de traduzir essa cultura para os brasileiros.
Ela explica, por exemplo, que muita gente chega confundindo empanada com empada ou esfiha.
Na verdade, a empanada é um salgado típico da Argentina. É como o pão de queijo para os brasileiros. Você encontra empanadas em praticamente todo lugar
No Don Diego, a receita não foi adaptada a partir de livros de culinária nem de vídeos na internet.
“Nós escolhemos fazer exatamente a receita da mãe do Diego. É uma receita típica de Mendoza, bem tradicional. Inclusive trouxemos o irmão dele, que é mestre empanadeiro, para produzir nossas empanadas aqui. Tudo é feito com farinha argentina e seguindo a receita original. Isso faz toda a diferença.”
A autenticidade virou um dos pilares do restaurante. Parte da farinha, dos temperos, do doce de leite e de outros ingredientes é importada da Argentina. Ainda assim, algumas adaptações foram necessárias para conversar com o paladar brasileiro.
Diego reconhece isso com naturalidade.
Se eu preparasse algumas receitas exatamente como são feitas na Argentina, talvez o brasileiro estranhasse. Então demos uma pequena adaptação. Nosso chimichurri ficou mais fresco. Também servimos os vinhos um pouco mais gelados, porque Goiânia é muito quente. Tudo foi pensado para o clima e para o paladar daqui.

A adaptação aconteceu também no caminho inverso.
Quando chegou ao Brasil, o cozinheiro demorou a entender uma combinação que, para qualquer brasileiro, parece inseparável.
“Eu não conseguia comer arroz e feijão. Sentia falta do pão. Na Argentina normalmente comemos pão durante as refeições. Demorei um tempo para me adaptar. Hoje gosto muito de arroz e feijão”, conta, entre risos.
Carol lembra que a mudança foi tão grande que o restaurante levou quase um ano para incluir arroz no cardápio.
Apesar das adaptações, o restaurante faz questão de preservar aquilo que chama de “comida afetiva”.
“Quem vem aqui quer comer uma boa empanada, uma milanesa, um choripán ou uma panqueca com doce de leite. Não adianta inventar demais. O argentino procura justamente aquela comida afetiva”, afirma Carol.
Mais do que clientes, o casal passou a receber histórias.
Argentinos que moram em Goiânia encontram no restaurante um pedaço da própria memória. Latino-americanos de diferentes países passaram a usar o espaço como ponto de encontro. E brasileiros descobriram que a Argentina vai muito além dos estereótipos.
Às vezes chegam falando espanhol e dizem: ‘Hoje eu só queria comer uma comida argentina’. É uma comida afetiva. Às vezes querem conversar no idioma deles, tomar um mate e matar um pouco da saudade de casa. Já tivemos funcionário argentino que chorou quando entrou aqui pela primeira vez. Fazia muito tempo que não voltava para casa e o ambiente trouxe muitas lembranças, relata Carol.
Diego também relativiza uma das maiores marcas da relação entre os dois países.
É uma rivalidade saudável do futebol. Acaba quando termina o jogo. Quando você conhece as pessoas, percebe isso. No interior da Argentina as pessoas recebem muito bem. Assim como acontece aqui em Goiás.
Quem confirma essa impressão é a argentina Camila de Assis.

Depois de viver quase três décadas em seu país de origem, ela encontrou em Goiânia um lugar onde decidiu permanecer.
“Eu cheguei, conheci um pouco da cultura brasileira e me apaixonei demais. Goiânia é um lugar muito lindo, muito seguro, muito cálido. As pessoas são muito de boa. Eu estou feliz e achei o lugar perfeito para trabalhar”, conta.
O encantamento foi além da cidade. Tornou-se parte da rotina.
Já sou torcedora do Vila Nova. Gosto demais de Goiânia. Acho muito lindo para morar. O povo tem que conhecer porque a galera daqui é muito positiva. Qualquer lugar que você vá, todo mundo recebe muito bem
As histórias de Padre Rafael, Diego, Carol e Camila seguem caminhos diferentes, mas desembocam na mesma conclusão: entre argentinos e goianos, a afinidade costuma falar mais alto do que a rivalidade. Em comum, há o churrasco, o vinho, os encontros em família, a hospitalidade e a disposição para abrir espaço ao outro. É justamente sobre essa aproximação — que extrapola a gastronomia, a fé e as experiências individuais para ganhar dimensão institucional e econômica — que a próxima parte desta reportagem se debruça.

Relações comerciais Goiás-Argentina
A mesa onde Diego Martín serve empanadas em Goiânia e o salão da Igreja Ortodoxa onde Padre Rafael Magul reúne argentinos aos domingos contam apenas uma parte da história. Enquanto clientes descobrem que o chimichurri vai muito além de um tempero e conterrâneos compartilham um chimarrão para aliviar a saudade de casa, outra ponte entre Goiás e Argentina é construída silenciosamente por empresários, diplomatas, comerciantes e gestores públicos. Ela não é feita de concreto nem de aço. É feita de contratos, rodadas de negócios, investimentos, turismo e relações que resistem às mudanças de governo.
A Argentina talvez já não ocupe o posto de principal parceiro comercial do Brasil, mas continua sendo um dos países mais estratégicos para quem acredita que desenvolvimento econômico também passa pela integração regional. Essa percepção é compartilhada por quem acompanha diariamente as negociações entre os dois lados da fronteira.
Coordenador da Câmara de Comércio Exterior (Fecomex) da Fecomércio-GO, Marcelo Gomes costuma dizer que a relação entre brasileiros e argentinos não pode ser medida apenas pelo volume das exportações.
“A Argentina não figura entre os principais parceiros comerciais em volume, mas tem outro perfil. A China compra basicamente commodities. A Argentina nos permite vender produtos de maior valor agregado, maquinário, carne processada, serviços e tecnologia. É uma relação completamente diferente”, explica.
A distinção ajuda a compreender por que, mesmo representando um mercado menor, o país vizinho continua despertando tanto interesse entre empresários goianos.
Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e Argentina ultrapassou US$ 31 bilhões, com superávit brasileiro superior a US$ 5 bilhões. Apenas no primeiro semestre de 2026, o intercâmbio comercial entre os dois países já superava US$ 13,7 bilhões.
Em Goiás, os números aparecem em escala menor, mas revelam uma relação consolidada. O Estado exporta principalmente equipamentos mecânicos, medicamentos, carne bovina, café e máquinas agrícolas, enquanto importa motores, malte, trigo, insumos industriais e equipamentos para atender diferentes cadeias produtivas.
Para Marcelo Gomes, no entanto, reduzir essa parceria aos números seria ignorar aquilo que a sustenta.
Para além da relação comercial, nós temos uma relação muito próxima. Como eles dizem em espanhol, somos hermanos. A gastronomia argentina é muito querida em Goiás. Temos restaurantes, degustações de vinho, doce de leite, empanadas, chimichurri. O imaginário do goiano em relação à Argentina é muito positivo, afirma.

Essa aproximação cultural, segundo ele, acabou abrindo espaço para iniciativas que vão além da culinária.
Todos os anos, a Fecomércio promove rodadas de negócios entre empresários goianos e argentinos. A instituição também abriga a Câmara de Comércio Goiás–Argentina, criada para ampliar as oportunidades de intercâmbio econômico e empresarial. Nos últimos meses, recebeu representantes do turismo argentino para apresentar aos agentes de viagens goianos destinos ainda pouco conhecidos pelos brasileiros.
“Quando o goiano pensa em Argentina, normalmente pensa em Buenos Aires ou Bariloche. Mas existe Mendoza, Ushuaia, Jujuy, praias, montanhas, enoturismo. É um país muito mais diverso do que imaginamos”, observa Marcelo.
A iniciativa faz parte de um projeto maior: ampliar a circulação de pessoas entre Goiás e Argentina. Um dos sonhos da Fecomércio é estabelecer um voo direto entre Goiânia e Buenos Aires.
Nós sabemos das dificuldades por causa da proximidade com Brasília, mas seguimos trabalhando para criar uma alternativa que conecte diretamente os goianos à Argentina, diz.
Em tempos de polarização política, Marcelo faz questão de separar governos das relações comerciais.
Os governos passam, mas o relacionamento fica. Nenhum brasileiro deixa de visitar a Argentina porque o Lula falou uma coisa ou porque o Milei falou outra. O empresário compra vinho porque o produto é bom. Compra máquinas porque são competitivas. O setor produtivo continua trabalhando.
Essa visão é compartilhada pelo superintendente de Comércio Exterior e Atração de Investimentos Internacionais da Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços de Goiás (SIC), Plínio Vianna.
Para ele, Goiás construiu uma política de relações internacionais baseada muito mais em resultados do que em posicionamentos ideológicos.
“Nosso governo trabalha de forma técnica e amistosa. Independentemente das questões políticas, buscamos manter boas relações diplomáticas e comerciais. O goiano recebe muito bem quem vem de fora, e isso também acontece com a Argentina”, afirma.
Plínio lembra que a proximidade com Brasília transformou Goiás em um Estado com forte interlocução diplomática, favorecendo a aproximação com diversos países.
A Argentina é um país muito querido por Goiás. Nós temos uma Câmara Goiás–Argentina ativa, realizamos rodadas de negócios e vemos um interesse crescente de empresários dos dois lados, diz.
E complementa:
Não deixamos a política interferir nas questões comerciais. Temos um relacionamento bom com todos os países graças a proximidade e presença em Brasília. Fazemos a divulgação de produtos e empresas goianas com constância, com apoio importante da Fieg, Acieg e Fecomércio.

Embora o primeiro semestre de 2026 tenha registrado déficit de pouco mais de US$ 5,4 milhões na balança comercial entre Goiás e Argentina, o superintendente avalia que o resultado está ligado muito mais às características das economias do que a um enfraquecimento da relação bilateral.
“A economia argentina e a goiana são parecidas. Os dois produzem carne, grãos e produtos agropecuários. Além disso, a Argentina passou por um período de retração econômica e agora começa a recuperar o consumo. Isso explica boa parte dessas oscilações”, explica.
Ele também chama atenção para um desafio histórico: a distância entre Goiás e os países do Mercosul.
“Nossa logística não é simples. Ou transportamos por rodovia durante milhares de quilômetros ou seguimos até os portos para depois descer de navio até a Argentina. Mesmo assim, acreditamos que existe espaço para ampliar esse comércio”, observa.
Para Marcelo Gomes, essa ampliação depende menos dos governos e mais da mudança de mentalidade do próprio empresariado goiano.
O empresário brasileiro olha muito para Estados Unidos e Europa e esquece dos nossos vizinhos. A Argentina está aqui do lado e representa uma oportunidade enorme para exportarmos tecnologia, softwares, serviços e produtos industrializados, afirma.
O coordenador cita exemplos concretos. Goiás abriga empresas de tecnologia reconhecidas internacionalmente, um polo farmacêutico entre os maiores do país e soluções voltadas ao agronegócio capazes de aumentar produtividade e reduzir custos no campo.
Por que exportar apenas soja se podemos exportar a tecnologia que permite produzir mais soja? Goiás desenvolveu soluções em bioinsumos, irrigação, softwares e agricultura de precisão que podem interessar muito aos argentinos, defende.
Plínio segue a mesma linha. Para ele, o crescimento da indústria goiana será determinante para ampliar a presença do Estado no mercado argentino.
“Se quisermos aumentar nosso superávit, precisamos vender produtos com maior valor agregado. Quanto mais industrializado for o produto, maior será a competitividade de Goiás no exterior”, afirma.
No fim das contas, a relação entre Goiás e Argentina parece repetir aquilo que os personagens da primeira parte desta reportagem já haviam mostrado. Antes dos números, vieram as pessoas. Antes dos contratos, vieram os encontros. Um padre que encontrou acolhimento no Cerrado, um chef que transformou receitas de família em ponte cultural, uma cineasta que descobriu na gastronomia uma nova forma de contar histórias e uma argentina que escolheu Goiânia para viver ajudam a explicar por que empresários continuam apostando nessa aproximação.
As estatísticas da balança comercial mostram quanto circula entre os dois países. As histórias mostram por que essa relação continua fazendo sentido. Entre vinhos, máquinas agrícolas, empanadas, softwares, chimarrão e churrasco, Brasil e Argentina seguem provando que a integração pode começar em uma mesa, atravessar fronteiras e terminar fortalecendo economias inteiras.
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