Muita areia, pouca água: o que é bonito aos olhos também mata o Araguaia

Preocupação da comunidade científica é saber se não chegou o ponto em que seriam irreversíveis os danos à bacia do maior rio de Goiás

As praias formadas pelos sedimentos trazidos da bacia do Alto Araguaia servem para o lazer dos turistas, mas também são motivo de preocupação com a sustentabilidade do rio

Elder Dias

Chegou julho. A cidade grande perde muito de seu ritmo, freado por boletins escolares preenchidos de azul e vermelho e cartões de ponto ausentes da máquina de coleta. Em Goiás, especialmente, o mês tem significado particular: é temporada de Rio Araguaia, certamente a maior entre as muitas belezas naturais do Estado. As estradas lotam no rumo oeste e turistas contam minutos até a hora de reencontrar as praias fartas e belas.

Talvez uma das composições mais bonitas que as retinas de um goiano pode registrar seja formada pela junção de céu, sol, mata, areia e água no crepúsculo às margens do rio. Uma imagem que passaria de mística a mórbida se o leito do Araguaia falasse: é que a mesma praia farta que atrai o turista é a prova de sua degradação.

O Araguaia, no alto de sua bacia, tem uma formação única entre os grandes rios, por conta do terreno de rocha sedimentar que o constitui. É de lá que vem a bela areia branca que encanta quem o conhece mais abaixo. São milhares e milhares de metros cúbicos de sedimentos carregados por dia pelas águas. Essa é outra particularidade do rio: ele leva tanto sedimento em suspensão na água como em seu fundo.

Ocorre, porém, que o velho Araguaia já não é mais o mesmo. É que, para carregar tanta areia até cumprir sua missão, ao desaguar no Rio Tocantins – seu parceiro de conexão com o grande Amazonas –, ele precisa de muita, muita água. É exatamente aí que está a questão: por conta da redução do volume de chuvas e de outros fatores – como a irrigação desregrada feita com a exploração de seus afluentes ou o desvio imoral e até ilegal de seu fluxo, o Araguaia está fraco para sua tarefa. O resultado é o aumento do volume de areia ao longo de seu curso, o que causa o alargamento do leito e o torna cada vez mais raso, “espalhando” a água.

Professor Maximiliano Bayer, em expedição pelo Araguaia: “O rio está ficando mais largo e menos profundo”

Esse é um resumo básico – e com viés leigo – do que explica o professor Maximiliano Bayer, um argentino que veio para Goiás para fazer pós-graduação na Universidade Federal de Goiás (UFG). Geólogo de formação, ele teve no Araguaia seu objeto de pesquisa tanto para o mestrado em Geografia (dissertação intitulada “Diagnóstico dos processos de erosão/assoreamento na planície aluvial do Rio Araguaia, entre Registro de Araguaia (GO) e Cocalinho (MT)”) como para o doutoramento em Ciências Ambientais (com a tese “Transporte e geoquímica dos sedimentos do Rio Araguaia e evolução quaternária da planície aluvial: implicações ambientais”), este já como professor do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da UFG. Em ambos os trabalhos, Bayer foi orientado por Edgardo Manuel Latrubesse, seu compatriota e um dos maiores especialistas do mundo em grandes rios e ex-professor do Iesa, hoje integrante dos quadros da Universidade do Texas (EUA) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

A primeira pergunta para Bayer volta à polêmica afirmação de Luziano Carvalho, titular da Delegacia Estadual de Crimes contra o Meio Ambiente (Dema), em entrevista na edição anterior do Jornal Opção: então, como projeta o delegado, o Rio Araguaia pode realmente secar?

Com a cautela de cientista, o professor ressalta que seria preciso ter mais dados até chegar mais perto de uma afirmação como essa. “Em princípio, poderíamos dizer que, se o fluxo depende da chuva se no Cerrado é improvável que vá parar de chover, a água não deve acabar. Porém, é preciso ver as respostas que, sem nenhuma dúvida, o Araguaia começa a dar diante de todos os seus problemas: por um lado, a redução do volume de água e, por outro, o acúmulo exagerado de sedimentos, produzido pelas áreas de erosão no alto de sua bacia.”

Fica simples de entender: quando o Araguaia tem água em bom volume, consegue transportar esses resíduos adiante. Mas, no caso de meses com volume baixo – como é o período do inverno, especificamente –, o rio vai deixando esse material pelas praias, assoreando os canais secundários e sedimentando as bocas dos lagos que se conectam a ele.

Uma consequência terrível desse assoreamento dos canais – e que escancara a dificuldade que o Araguaia tem tido para se manter – é o destino da Ilha do Bananal, que até tempos atrás era considerada a maior ilha fluvial do planeta. A palavra “ilha” não é mais apropriada. “Deixou de ser ilha, como era até décadas atrás, como consta nos registros. Apenas por 15 ou 30 dias no ano ela é uma ilha de fato. No restante do ano o braço constituído pelo Rio Javaés, assoreado, fica seco”, explica Bayer. “A grande preocupação da comunidade científica que trabalha com o Araguaia é saber se já não passamos do umbral a partir do qual não teríamos mais como restabelecer as condições naturais da bacia.” Um dificultador é a complexidade do bioma Cerrado, extremamente difícil de restaurar áreas alteradas. “Isso afeta de forma direta ou indiretamente todo o sistema fluvial, inclusive o do Rio Araguaia. São consequências visíveis.” A posição externada por Maximiliano Bayer é semelhante à de outro estudioso respeitado – o arqueólogo Altair Sales Barbosa, que já decretou o Cerrado como iminentemente extinto.

Ilha do Bananal, no trecho tocantinense do Araguaia, já deixou de existir como tal: braço que a forma só dura um mês no ano

Bayer aproveita para fazer também uma afirmação categórica, que, diante do quadro traçado, seria de óbvia constatação. “A possibilidade de utilizar o Araguaia como hidrovia é nula, não há como ter navegação de carga com o leito que o rio possui. Não faz sentido algum pensar nisso”, sentencia. O mesmo parecer ele dá em relação à construção de usinas hidrelétricas, também pela quantidade de sedimentos que as águas carregam. A recomendação que ele faz é de consolidar a vocação turística e de lazer da bacia.

O professor do Iesa enfatiza a lacuna grave provocada pela falta de interesse da Agência Nacional das Águas (ANA) em aprimorar a base de dados sobre o Rio Araguaia. “Se isso ocorresse, poderíamos fazer algum tipo de modelagem sobre como proceder”, afirma. Nesse período do ano, diz ele, as bacias dos afluentes do Araguaia – como os rios do Peixe, Vermelho, Caiapó e outros – ficam repletas de pontos de alerta. “São muitíssimas situações que mostram que tudo está desequilibrado e que vamos ter problemas se não tomarmos algum tipo de atitude. E não temos muito tempo para isso.”

As praias de areia branca, portanto, além de sua beleza, acabam por refletir também o sofrimento do rio. Mantida a atual dinâmica, a tendência é de que, em algum ano vindouro, o turista chegue ao Araguaia, observe o belo cenário e, então, acabe por constatar, com tristeza e talvez remorso, a ausência de um componente. Céu, sol, areia e mata. Mas, e a água?

Luta entre a preservação e a degradação desde os anos 90

Procurador Demóstenes Torres: “Passei três dias no Araguaia sem praticamente pegar nenhum peixe” | Foto: Fernando Leite

É muito mais fácil destruir do que construir, obviamente. Nesse sentido, o processo de degradação do Rio Araguaia – a destruição – tem como antídoto um custoso viés de conscientização. A construção do que seja a real sustentabilidade do principal manancial goiano começou, por parte do poder público, por meio da ação de um procurador que começava a se destacar, chamado Demóstenes Torres.

À frente da Procuradoria-Geral do Estado, ele instaurou a Promotoria Ecológica Móvel em 1998, com o apoio de quatro promotores: Wânia Marçal (hoje na comarca de Aragarças), Alencar Vital (em São Miguel do Araguaia), Wilson Nunes Lúcio (em Porangatu) e João Teles (em Goiânia). O objetivo era evitar caça e pesca predatórias e fazer um trabalho que servisse como mecanismo de pressão para a execução de políticas públicas voltadas para o rio e sua bacia. “Chegamos a contratar caçadores, que ‘mudaram de lado’ para nos ajudar com sua experiência”, lembra Demóstenes.

O hoje ex-senador – que recentemente conseguiu na Justiça sua reabilitação para exercer seu trabalho no Ministério Público – lembra da intensidade da atuação. “Queríamos fazer com que todo o Araguaia tivesse saneamento básico, água tratada e esgoto, para assim evitar a destruição do rio”, relembra. O objetivo geral do trabalho, batizado de “Mapeando para Proteger” era “proteger o Rio Araguaia por meio da realização do cadastramento de imóveis rurais da Bacia do Alto Araguaia, delimitando-se as áreas de preservação permanente (APPs) e reservas legais, a fim de exigir o cumprimento da função social da propriedade rural”.

Algumas ações, lembra o procurador, foram obtidas como efeito da ação e depois também por sua passagem como senador. Foi o caso de uma emenda para o esgoto de Aruanã. De qualquer forma, Demóstenes entende que é muito complexo o processo de salvamento de um patrimônio como o Araguaia. E os desafios estão por toda a região. “Temos plantações à beira dos rios, criação de gado, uso de agrotóxicos. Tudo isso contamina e destrói. Como resultado, direto ou não, recentemente passei três dias no Araguaia e não peguei nenhum peixe, a não ser um pequeno aruanã”, lamenta.

Um dos companheiros de Demóstenes durante os primeiros tempos de ação do Ministério Público no Araguaia foi o promotor Wilson Nunes Lúcio, hoje na comarca de Porangatu.

Ele ainda se lembra da primeira missão. “Fizemos um trabalho com dois barcos modestos, saindo de Santa Rita do Araguaia até a ponta sul da Ilha do Bananal. Era um corpo a corpo de educação ambiental, com orientação sobre pesca predatória, extração de madeira das matas ciliares e outras questões. Também aprendemos muitas redes, tarrafas e espinhéis”, conta.

O promotor é até hoje um assíduo frequentador do rio. Uma vez por mês ele se desloca para o Araguaia e aprendeu a notar detalhes que dão a dimensão de que as coisas não vão bem. “Hoje está difícil pescar, simplesmente porque os botos ‘roubam’ a isca de peixe que colocamos. Isso mostra que há alguma coisa muito errada.” Sim, há: muito provavelmente o comportamento dos botos se alterou por conta da escassez de peixes no rio. Nesse ponto, a falta de recursos humanos (“a fiscalização é muito deficitária”) faz com que a tecnologia trabalhe contra. É que, por meio de uma simples comunicação por WhatsApp, pode-se avisar sobre o deslocamento de um cardume. Basta a informação se espalhar para que pescadores inescrupulosos acorram até o local onde estão os peixes. “Tive notícias de que foram retirados 60 pintados somente por uma dessas turmas”, diz Wilson, completando: “Antes, na época de nosso trabalho com a Promotoria Ecológica, quem depredava o fazia por ignorância; hoje é por má-fé, aproveitando-se da frágil fiscalização.”

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Fabiano Oliveira

Não há fiscalização sobre pesca em cardumes, nem sobre a retirada ( pra não dizer roubo ) de água para irrigação e nem muito menos sobre a questão do saneamento básico, já que em cidades como ARUANÃ, é cobrado da população na conta de água, a taxa do esgoto, e o que vemos, é grande parte do esgoto ser lançado “in natura” no ARAGUAIA.

MANOEL TELMO MARQUES PINTO

NÃO HÁ RESPEITO POR PARTE DE FAZENDEIROS E OUTROS, TAMBÉM NÃO HÁ FISCALIZAÇÃO E TAMPOUCO O RESPEITO NA RETIRADA DE SUAS NATIVAS E NASCENTES, RETIRADA DE ÁGUA PARA PROJETOS, VAMOS ACORDAR AUTORIDADES AINDA DÁ TEMPO DE REVERTER ISSO.

Marilda Mendonça

Parabéns professor, Dr. Maximiliano.
Essa materia precisa ser extremamente divulgada por sua desmensirada utilidade pública.

José Olegário

Tenho propriedade rural às margens do rio dos bois, município de Vajao-Go. A pesca predatória nesse rio é livre, não há fiscalização, é triste presenciar isso.

Nilson Almir Pereira do Nascimento

As embarcações em época de temporada provocam pequenas ondas que, de encontro às barrancas nas margens do rio, vão aos poucos derrubando terra/areia, assoreando e levando junto a mata ciliar, árvores caindo e o rio se alargando, consequentemente entupindo o leito do rio. Qualquer observação minuciosa revela isso. As autoridades não vêem porque na verdade são os maiores provocadores desta destruição, são os que mais navegam com barcos, jets e lanchas!