Modernização da Arábia Saudita é verdadeira ou para inglês ver?

O príncipe herdeiro do reino anunciou que pretende trazer de volta o islã moderado ao país

Mohammad bin Salman ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump

A Arábia Saudita está situada na região onde, durante o Império Otomano, o erudito is­lâmico Muhamad ibn al-Wahhab’Abd se aliou ao militar Muhammad ibn Saud e, juntos, formaram, em 1744, o primeiro reino saudita (de “Saud”), ou Emirado de Diriyah, baseado no wahhabismo (de “Wahhab”). A guerra otomano-saudita (1811-1818) arruinou o Emirado de Diriyah e, com isso, o wahhabismo perdeu força, tendo sido retomada somente no entreguerras com a criação do Reino da Arábia Saudita, cujo governo, juntamente com sua ideologia, foi ascendendo no cenário internacional à medida em que se descobria petróleo e gás na região.

De acordo com Abdurrahman Wahhid, ex-presidente da Indonésia, o país com a maior quantidade de muçulmanos do mundo, a ideologia wahhabita pode ser definida como um “culto religioso fundamentalista e minoritário alimentado por petrodólares”, chamado de “islã errado” pelo político, que conclama pela união entre aqueles que praticam o “islã certo” e os não muçulmanos objetivando derrotá-lo.

O governo saudita patrocina mesquitas e madraças (escolas islâmicas) ao redor do mundo com o objetivo de promover o wahhabismo. Em países como França e Bélgica, onde boa parte da população estrangeira muçulmana vive em guetos, desintegrada da sociedade e sem muitas perspectivas de crescimento, essas pessoas acabam se tornado alvo em potencial de recrutadores. É bom ressaltar que os ataques de Paris e Bruxelas foram cometidos por cidadãos franceses e belgas. Na Bélgica, a propósito, clérigos sauditas se encontram no país desde a década de 60.

Recentemente, o wahhabismo passou a ter maior destaque na mídia uma vez que esta é a ideologia por trás Estado Islâmico. Não só o autoproclamado califado, mas outros grupos terroristas, como a al-Qaeda e o Boko Haram, invocam al-Wahhab para justificar suas atrocidades. O contraditório é que, ao mesmo tempo em que esses terroristas pregam a volta do “islã puro”, eles se utilizam de mecanismos da modernidade para propagar suas ideias, como vídeos muito bem produzidos difundidos nas redes sociais.

Ocidente

Ex-príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Muhammad bin Nayef bin Abdulaziz al Saud, que também exerceu a função de ministro do Interior até junho deste ano, foi condecorado pelo ex-presidente da França Fran­çois Hollande com a maior premiação francesa, a Legion d’Honneur, em março de 2016.

A Agência de Imprensa Sau­dita (SPA, na sigla em inglês), órgão de mí­dia oficial do governo local, relata que o prêmio foi concedido devido aos esforços de Nayef no combate ao terrorismo e ao extremismo. A jus­­tificativa é descabida, mas demonstra como, mesmo sendo acusada de financiar o terrorismo, a Arábia Sau­dita tem no Ocidente um grande parceiro.

Outra prova disso está no alto número de vendas de armas do Reino Unido para o país do Oriente Médio. Conforme aponta o Stockholm International Peace Research Institute, o governo britânico é o sexto maior exportador de armas do mundo, das quais 42% são destinadas à Arábia Saudita. Até mesmo o Brasil, segundo a Anistia Internacional, teria vendido munições cluster, proibidas internacionalmente, aos sauditas, que as utilizaram em bombardeios no vizinho Iêmen.

Modernização

Nayef foi destituído de todas as suas funções há pouco mais de quatro meses. No seu lugar, foi empossado o filho do rei Salman, Moham­mad bin Salman bin Abdulaziz al Saud, tam­bém conhecido pelo acrônimo MBS, de 32 anos, que deverá ser, em breve, o mandatário da Arábia Saudita.

O novo príncipe herdeiro sofre bastante resistência entre os líderes mais conservadores do reino. A sua iniciativa de autorizar mulheres a dirigir, por exemplo, não foi muito bem recebida. Vale mencionar que isso não se deu pelo fato do país estar supostamente se abrindo mais, e sim por questões econômicas. A economia da Arábia Saudita depende, quase que exclusivamente, do petróleo, e o seu preço baixo está obrigando o país a buscar alternativas. Inserir mulheres no mercado de trabalho é uma delas e essa é a verdadeira intenção ao deixá-las dirigir.

MBS, no entanto, parece mesmo estar disposto a mudar os rumos de seu país. Ele disse, durante a Future Investment Initiative (FII), realizada na quarta-feira, 25, em Riade, que visa eliminar ideologias extremistas a fim de trazer de volta o islã moderado à Arábia Saudita, que, para o sucessor do trono, tem sido “anormal” nos últimos anos.

Em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, MBS expressou que 70% dos sauditas têm menos de 30 anos e, portanto, estariam, de certa forma, contaminados pelo extremismo. “Não vamos gastar [mais] 30 anos de nossas vidas combatendo pensamentos extremistas. Vamos destruí-los agora e imediatamente.”

Além disso, o príncipe herdeiro espera conquistar apoio para pôr em prática suas políticas, haja vista que a Arábia Saudita é parte integrante do G20 e, consequentemente, uma das maiores economias do mundo. “Estamos no meio de três continentes. Mudar a Arábia Saudita para melhor significa ajudar a região e transformar o mundo.”

Pós-modernização

Ao declarar sua vontade de mo­dernização, Mohammad bin Salman acaba, sem querer, confessando que o governo saudita tem adotado posturas controversas. Ora, se deseja voltar ao islã moderado é porque, hoje, o que prevalece é o extremismo.

Não é muito fácil acreditar no país que se baseia na mesma ideologia do Estado Islâmico e da al-Qaeda, mas este é um exercício que se deve, no mínimo, tentar fazer. Atualmente, cinemas, teatros e bebidas alcoólicas são banidos. No entendimento de MBS, é preciso que se estabeleça um novo contrato social entre o Estado e os cidadãos e o entretenimento tem de ser uma opção para os jovens que se encontram entediados e entristecidos.

Sem variedade de recursos, pode ser que a Arábia Saudita se espelhe no que seus vizinhos, como os emirados de Abu Dhabi e Dubai, já se tornaram há algum tempo e passe a atrair sedes regionais de empresas internacionais, além de investir em turismo e companhias aéreas capazes de ligar um lado do mundo ao outro, o que viria a angariar ainda mais simpatia do Ocidente e, dessa forma, fortalecer sua imagem e influência no Oriente Médio. l

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