Mercado recebe Plano Guedes com bons olhos enquanto aguarda medidas que desamarrem investimentos

Analistas e setor produtivo nutrem boas expectativas com equipe econômica do governo, focam nos anúncios do ministro e ignoram declarações do presidente

Paulo Guedes ACRJ - Foto Tânia Rêgo Agência Brasil

Pacote de medidas de curto, médio e longo prazo da equipe do ministro Paulo Guedes, que ganhou nome informal de Plano Guedes, é bem recebido pelo mercado, que clama por desburocratização dos investimentos | Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O chamado Plano Guedes tem previsão de atingir a cifra de R$ 4,59 trilhões em medidas anunciadas, em estudo e outras que começam a ser aplicadas pelo Ministério da Economia e Banco Central. Ao comentar os detalhes dos itens incluídos no pacote de mudanças e liberação de recursos da equipe do ministro Paulo Guedes, analistas e empresários preferem separar as figuras técnicas do governo federal da personalidade polêmica do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Enquanto os louros ficam com aqueles que trabalham para apresentar paliativos e políticas de médio e longo prazo que possibilitem um cenário de aumento dos investimentos nacionais e estrangeiros da iniciativa privada na produção brasileira, o ônus de atrapalhar a construção de uma segurança política é todo debitado na conta do chefe do Executivo e sua boca incontrolável, mesmo antes da eleição em outubro de 2018.

No final de julho, o governo anunciou a liberação de um total de R$ 42 bilhões em dois anos das contas inativas e ativas do FGTS [Fundo de Garantida do Tempo de Serviço] e do PIS-Pasep. O calendário de saques será conhecido em detalhes na segunda-feira, 5, mas já sabe-se que os trabalhadores serão divididos pelos meses dos aniversários e o limite é de R$ 500 que podem ser retirados por conta. “A decisão com relação ao FGTS é algo pequeno demais para ser comentado. É um passo, não pelo dinheiro liberado, mas por ser um procedimento para acabar com o roubo dos trabalhadores”, diz o economista Nathan Blanche.

Na visão do economista, a lógica do FGTS como financiamento de grandes empresas é de uma poupança forçada. “O bom é o desmonte de um dinheiro retido dos trabalhadores, que o governo Temer liberou 50% e o Paulo Guedes irá liberar 100%.” Para Blanche, o que começa a ser feito com o Fundo de Garantia segue o que pode ser posto em prática com privatizações de estatais como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]. “Não existe dinheiro subsidiado, apenas se for para objetivo político, não para benefício do País, mas de quem o distribuía”, comenta.

Blanche destaca que não houve protecionismo nas primeiras privatizações e concessões realizadas pelo governo federal em 2019, como no caso de aeroportos. “Estamos vendo medidas sendo adotadas na distribuição de gás e na venda de parte da BR Distribuidora. É uma transferência para a iniciativa privada, não só de parte das ações, mas a operação. É algo que, no caso do gás, pode gerar redução no preço de 30% a 50%.” De acordo com o economista, o acerto está em realizar o desmonte do que Blanche define como “Estado Empresário do Brasil” para fugir da ideia de que “é dando que se recebe”. “O resultado esperado é a quebra dos monopólios.”

O fim do chamado corporativismo trabalhista no Brasil é visto como positivo pelo economista, com ações como a Medida Provisória da Liberdade Econômica. Blanche compara o crescimento de 3,8% da economia de outros países emergentes enquanto o Brasil cresceu apenas 0,9% entre a década de 1980 e 2018. “Precisamos quebrar a lógica de quem falava em nome do povo enquanto saqueava o País.”

Depois dos considerados avanços vindos da Reforma Trabalhista, houve uma redução das ações trabalhistas no Brasil. “Há hoje um livre comércio. A pessoa pode tratar como pessoa jurídica sem onerar a contratação naquela vaga.” Blanche defende que a livre negociação entre empregado e empresa seja feita sem que o governo intervenha nesta relação. “Hoje a produtividade brasileira é de um quinto dos trabalhadores americanos. A Coreia do Sul triplicou a nossa marca de produtividade”, destaca. O economista afirma que se o trabalhador tiver a liberdade de negociar seu contrato com o empregador, o funcionário terá condições de receber melhor.

Na semana passada, a taxa básica de juros do Brasil, a Selic, foi reduzida de 6,5% para 6%, a menor na medição histórica desde 1986. “A taxa de juros e a inflação baixas é são só fatores nacionais, mas também internacionais. Houve uma deflação do mundo globalizado.” A Selic chegou a ser de 14,25% ao final do governo Dilma. “Com a queda do PIB, a deflação trouxe a queda da taxa de juros. Não é o Banco Central inventando moda. É o Banco Central atendendo a realidade do mercado nacional e internacional”, destaca.

Reformas

Na foto Nathan BlancheCrédito: Fernando Leite

Para o economista Nathan Blanche, Brasil precisa quebrar lógica do protecionismo para que iniciativa privada assuma o controle de empresas importantes, como ocorreu com as ações da BR Distribuidora | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Para Blanche, a Previdência Social da forma como está pode promover uma quebra da economia brasileira. Mas não basta a reforma no setor de aposentadorias para saltar as finanças do País. “Temos uma expectativa de que daqui três a quatro anos, mesmo que a economia da Reforma da Previdência seja de R$ 900 bilhões, equilibre a Previdências, mas não a dívida pública.” O economista diz que é preciso frear que o déficit chegue a mais de R$ 300 bilhões até o fim do ano.

“Enquanto a relação dívida-PIB de outros países não chega a 40%, a situação brasileira é de 78% pelo tamanho da estrutura do governo.” E uma das medidas que a equipe econômica pensa em apresentar a partir de 2020 é uma reforma do funcionalismo público que aproxime as regras da carreira à da iniciativa privada.

Sobre a mudança na questão dos impostos, a volta da CPMF, estudada pelo ministro Paulo Guedes, o economista diz ser contra. “É uma forma de o governo intervir na moeda. Tributar de quem ganha ou perde dinheiro é um erro.” Blanche afirma que concorda mais com a lógica do IVA [Imposto Sobre Valor Agregado]. “Me dê um exemplo de algum país civilizado ou não civilizado que tenha CPMF?”, questiona.

Blanche concorda com grande parte das medidas apresentadas pela equipe econômica do governo federal, apesar de mostrar desconforto com itens como a possível volta da CPMF. Mas separa o corpo técnico do governo da visão que tem sobre Bolsonaro. “Ele não é um homem preparado para ser um grande presidente. Não é. Muita gente votou em Bolsonaro para derrotar a lógica do presidencialismo de coalizão.”

Mas vê avanços no não fatiamento dos cargos no governo com o Congresso. “O presidente eleito não tinha partido. Foi eleito contra a realidade existente. A parte técnica do governo foi entregue a gente competente.” Para Blanche, o Brasil como um país civilizado não precisa ter mais do que quatro ou cinco partidos políticos. “Hoje o País tem um grande parceiro das reformas que é o Congresso Nacional. Os políticos chegaram à conclusão de que precisam apoiar as reformas porque para fazer política é preciso ter dinheiro. E o governo está quebrado”, pontua.

“Paulo Guedes fala a linguagem que esperamos há muito tempo”

Paulo Afonso Ferreira 10 - Foto Fábio Costa Jornal Opção editada

Vice-presidente executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o empresário goiano Paulo Afonso Ferreira diz que ministro da Economia acerta nas medidas que anunciou até o momento | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

“Os planos de Paulo Guedes são bons para o Brasil. O ministro fala a linguagem que esperamos há muito tempo.” Para o empresário goiano Paulo Afonso Ferreira, vice-presidente executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as propostas da equipe econômica do governo federal vão ao encontro do que o setor produtivo brasileiro quer. “O Brasil tem de trabalhar unido para que tudo isso seja transformado em realidade”, defende.

Paulo Afonso lembra que os juros seguem em queda, uma das medidas que vê como positiva. “Precisamos concluir a Reforma da Previdência, fazer a Reforma Tributária e acima de tudo a Reforma do Estado, que é fundamental.” O vice-presidente executivo da CNI diz entender que as privatizações devem ser encaradas como uma necessidade, mas é preciso criar segurança jurídica para tocar esse processo.

Para o empresário, o índice de competitividade é algo que mostra um atraso que precisa ser superado pelo País. “Há 50 anos, o Brasil tinha 2% do mercado mundial. Hoje, um país do tamanho do Brasil tem pouco mais de 1% do mercado mundial.” Paulo Afonso afirma que é necessário ter coragem para fazer as mudanças profundas que urgem no País. “Problemas nós temos em todo lugar no mundo inteiro. Precisamos dar um enfoque naquilo que é positivo, que é bom para o País, o que é preciso fazer.”

De acordo com o vice-presidente da CNI, o momento é de estimular o que o Brasil tem de bom e buscar união para tocar as reformas e mudanças que são necessárias. “O processo de modificação da legislação trabalhista é muito importante. O mundo mudou isso e ficamos com regras arcaicas pautadas no corporativismo.” Paulo Afonso observa que não é tão fácil de ser implementada uma política transformadora, mas há a necessidade de se fazer esforços para que as medidas apresentadas se tornem realidade.

“Não se faz geração de emprego por decreto, mas com investimento e atividade econômica.” O goiano diz que trata-se de um processo que deve ser implementado por etapas para superar o desemprego, a subutilização dos trabalhadores e a situação dos desalentados. “Tem de fazer investimento na infraestrutura. O governo não tem dinheiro. É preciso garantir segurança para que os investimentos na infraestrutura sejam feitos.”

Paulo Afonso voltava de evento da CNI em São Paulo na noite de sexta-feira, 2, quando conversou com o Jornal Opção. Em reunião com mais de 200 lideranças empresariais, o setor produtivo brasileiro discutiu a necessidade de se inovar e investir para concorrer com mercado internacional. “Mas para competir precisamos investir maciçamente na produtividade do trabalhador brasileiro. Isso ocorre no mercado mundial. Precisamos fazer isso no Brasil”, destaca.

Trazer capital estrangeiro para que investimentos sejam feitos no Brasil é um dos pontos que o vice-presidente executivo da CNI vê como primordial para que o País volte a gerar mais empregos. “Não trazer produto fabricado lá fora, mas sim fabricar aqui e vender para outros países.”

Propostas tributárias

“Temos quatro propostas diferentes de reforma tributária. Temos a do deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), a proposta do economista Bernard Appy, uma do governo federal e uma de um grupo de empresários. É preciso aglutinar as vontades e encontrar o melhor caminho.” Paulo Afonso explica que a CNI tem se reunido com empresários experiente na questão tributária e profissionais que discutem a carga de impostos do Brasil para unir as várias propostas e fazer a melhor reforma para o Brasil.

O empresário diz que não faz sentido pagar imposto para comprar uma máquina que será usada para gerar emprego e produzir. “É um dos poucos países que cobram imposto para se comprar uma máquina para investir. O imposto deveria ser cobrado no produto final.” O caminho, de acordo com o vice-presidente da CNI, é fazer a reforma possível. Para Paulo Afonso, os erros devem ser corrigidos ao longo do percurso.

Sobre a possível recriação da CPMF, Paulo Afonso diz não ser favorável a “imposto em cascata”. “O governo quer fazer apenas uma pequena dosagem. Não acredito que seja a melhor das alternativas.” Mas o vice-presidente da CNI vê como positivo o fato de o ministro Paulo Guedes querer ousar, mesmo que dê errado, ao propor algo diferente que pode ser modificado se de fato não dê certo. “Pagar imposto sobre a transação financeira pode incentivar o crescimento do mercado das moedas virtuais.”

De acordo com o empresário, a liberação de R$ 500 por conta do FGTS e PIS-Pasep pode não significar nada para quem tem muito no Fundo de Garantia. “Para quem tem pouquinho, R$ 500 ajuda na economia.” Paulo Afonso diz que para o setor de infraestrutura e da construção civil, a medida não se apresenta como a melhor alternativa para o financiamento de imóveis. “Por outro lado, vemos que uma pessoa que está com dificuldade, o dinheiro ajuda um pouco. Não é o caminho ideal, mas como processo emergencial é uma alternativa que o governo encontrou para colocar um pouco de dinheiro no mercado”, observa.

Crescimento tímido do PIB

Paulo Afonso destaca que o crescimento do Produto Interno Bruto brasileiro tente a ficar em 2019 dentro do que está previsto, de 0,83% para baixo. E observa que não há milagres quando se investe em novos negócios. “Tem de se traduzir a intenção de investir na consolidação do investimento até começar a produzir para ver o resultado. E o mercado internacional e nacional hoje aguarda o resultado das reformas, qual será a segurança jurídica oferecida.” O vice-presidente da CNI afirma que o Brasil é visto como um excelente mercado, um país atrativo, mas a coragem do investidor vem do cenário oferecido.

“Precisamos colocar um pouco de autoestima na população.” Como Paulo Afonso enxerga uma expectativa positiva do mundo em relação ao Brasil, o empresário diz que é preciso parar de olhar apenas para o retrovisor e começar a observar as potencialidades e oportunidades que o Brasil oferece e pode proporcionar se “fizermos o dever de casa”.

O vice-presidente da CNI diz preferir não entrar nas questões políticas do governo federal, mas avalia que a equipe econômica da gestão é muito boa. “As declarações do presidente atrapalham em alguns momentos. Como estadista, muitas vezes são falas que atrapalham. Bolsonaro fala a linguagem de quem o elegeu. Mas prefiro analisar o que há de positivo que é a condução da área econômica.”

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