Mercado de cervejas artesanais se reinventa e busca fortalecimento em Goiás

Em um cenário dominado por estados da Região Sul-Sudeste do Brasil, os cervejeiros goianos aparecem como destaque com crescimento de 15,5%

Apesar do domínio de estados da Região Sul-Sudeste, o mercado cervejeiro goiano está  no caminho de crescimento e o processo de adaptação que a pandemia da Covid-19 trouxe pode ajudar na fortificação da tradição no estado. O último Anuário da Cerveja divulgado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento mostra que foram 1.2091 cervejarias registradas em 26 estados, ou seja, o crescimento é constante nos últimos vinte anos, com uma taxa média de 19,6% por ano.

Goiás se destaca como o primeiro estado fora da região Sul-Sudeste com média de crescimento de 15,5%. São Paulo é o estado que apresenta maior número de cervejarias ultrapassando o Rio Grande do Sul, seguidos de Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná acima das 100 cervejarias. Depois vem Rio de Janeiro e Espírito Santo.

O mercado cervejeiro tem sofrido com a queda de vendas e fechamento de estabelecimentos na pandemia que teve início em 2020, e,  atualmente atinge a sua pior fase com a 2ª onda. Porém, os cervejeiros artesanais ouvidos pelo Jornal Opção mantém o otimismo para que o mercado que está longe da saturação seja ampliado e ganhe reconhecimento no cenário nacional.

Cenário

Marcas produzidas pelo cervejeiro, Marcus Junior em Goiás | Foto: reprodução

O cervejeiro artesanal,  Marcus Junior, dono de duas marcas em Goiás, a MJ Cerveja Artesanal que se fundiu a Cervejaria Seresta de Goiânia, aponta que as cervejas artesanais estavam indo bem no cenário goiano e nacional. “Antes da pandemia estava crescendo muito o cenário aqui em Goiás. Se não me engano a gente foi  a segunda cervejaria do estado, e antes da pandemia tinha mais 10 marcas diferentes, a pandemia veio e complicou tudo. Mas a cerveja está bem posicionada tanto em Goiás quanto no Brasil, estão bem respeitadas”, pontua.

O também cervejeiro e sócio proprietário da Cervejaria Lola e fundador da Associação dos Cervejeiros Artesanais de Goiás (Acerva Goiana) e sommelier de cervejas, Henrique Augusto Martins viu nesta semana a sua cerveja ganhar a medalha de ouro no Festival Brasileiro da Cerveja de Blumenau, o que fortalece o cenário goiano no mercado cervejeiro. Ele destaca o modelo cigano de produção artesanal adotado como modelo mundial nos ramos de bebidas e comidas.

Cerveja Lola, primeiro lugar no Festival Brasileiro da Cerveja de Blumenau | Foto: reprodução

“A Lola ganhou a sua primeira medalha de ouro no American Imperial Stout, um estilo de cerveja escura, alcoólica e complexa. Uma cerveja que a gente colocou castanha de baru de Pirenópolis, então tem uma pegada regional. Estamos lutando para ser reconhecido nacionalmente e a medalha é importante para esse reconhecimento do mercado regional”, destaca o cervejeiro.

“Aqui em Goiânia tem um trabalho bem consolidado de algumas cervejarias e eu falo pela Lola que é a cerveja que é minha, que é um modelo cigano, um modelo de negócio que é bem interessante, porque eu não tenho uma planta industrial, eu loco a capacidade ociosa de cervejarias aqui da região onde o rótulo é meu e a cerveja é minha e eu produzo e isso acabou ampliando o número de marcas que tem no mercado hoje”, completa.

Ampliação de mercado x saturação

Com a pandemia, os cervejeiros viram a oportunidade de migrar para o digital. “A gente que empreende no Brasil temos que estar sempre atentos a qualquer tipo de oportunidade. A primeira que a gente teve com a pandemia foi de fundir as duas marcas e com isso a gente aumentou muito o nosso portfólio e a operação ficou única se tornando melhor e mais barato, inclusive vamos passar nossas vendas todas para um plataforma digital, vamos vender pelo site e por aplicativo de mensagens  e estamos lançando uma linha nova de produtos que se chama beba em casa”, salienta o cervejeiro Marcus Junior.

“Antes da pandemia a gente já via essa necessidade de ir para o digital, e a nossa ideia hoje é que a nossa venda seja toda digital e quando acabar a pandemia, os pontos de vendas que reabrirem vão poder comprar pelo nosso site sem necessidade de um representante ir até o local”, reforça.

Mapa de símbolos pontuais proporcionais com a distribuição das cervejarias no Brasil | Fonte: Anuário da Cerveja

O cervejeiro não acredita na saturação do mercado. “É um mercado muito aberto. Hoje, no Brasil tem uma infinidade de mercados para ser adquirido pela cerveja artesanal, que é um produto um pouco mais caro, mas quando o consumidor conhece é difícil ele voltar para a cerveja comercial, por conta da qualidade.  Tem muito mercado para ser explorado ainda, hoje a situação é complicada não indico fazer um investimento agora, mas quando as coisas voltarem é um mercado para ser explorado ainda”, enfatiza.

Segundo ele, para que o mercado avance ainda mais falta apenas melhorar a situação econômica do país. “Já está tudo encaminhado fizemos o trabalho de casa. Estamos preparados para atender o consumidor para explicar a diferença e apresentar um produto de qualidade”, disse.

O cervejeiro Henrique Augusto destaca que o mercado teve que se adequar para sobreviver e reforça que não há saturação. “Eu diria que está muito longe da saturação, hoje no Brasil pelos dados da Abracerva que de todo mercado de cerveja 2% são de cervejas artesanais falando em total, então, a gente tem 98% de mercado para pegar, então estamos bem longe da saturação. Eu acredito que a gente tem muito o que crescer”, afirma.

A presidente da Associação dos Cervejeiros Artesanais de Anápolis (Anabeer), Karla Alves Tertuliano acredita que houve grande crescimento nos últimos três anos em relação a cerveja artesanal . “O mercado está promissor e acredito que a medida que essa questão da pandemia melhorar a gente vai voltar a ter um crescimento da produção. A produção caseira é impactada no sentido de que a produção de cerveja não é um hobby barato e é vista como superfula. Quando as pessoas tem essa queda de aquisição financeira é algo que a pessoa corta do consumo, então a pandemia acaba impactando nisso. As vezes as pessoas abrem mão da qualidade por causa da queda do poder aquisitivo”, ressalta.

“O mercado está aberto e a vantagem  é que as cervejas não são todas iguais, as cervejas são diferentes uma das outras e tem mercado para diversos gostos cervejeiros. Para produzir uma cerveja especifica sempre vai acabar encontrando um nicho. O mercado ele existe sim, e é um mercado que as pessoas descobrem que não é vender quantidade, é vender qualidade”, aponta a presidente da Anabeer.

“Tem mercado para crescer tanto para o caseiro, que é um hobby, quanto para aquele que pretende produzir para vender. Eu vejo que apesar do pesares a produção de cerveja artesanal em Goiás vai sobreviver a pandemia, acho que teria crescido bem mais, mas eu não vejo um declínio”, completa.  

Impactos da pandemia

Para o cervejeiro Marcus Junior, os dois principais impactos da pandemia é o fechamento e a queda do poder aquisitivo dos consumidores. “Todos os nossos clientes estão fechados e o segundo é a perca de poder aquisitivo da população, porque a cerveja por ser mais cara se torna um produto superfulo. A gente se preocupa com a qualidade da cerveja e não com o preço dela”, relata.

O cervejeiro caseiro desde 2014, proprietário da Casaria Do Malte, que foi a primeira loja de insumos e equipamentos para cerveja de Goiás e também  presidente da Associação dos Cervejeiros Artesanais de Goiás (Acerva Goiana), Dehilton Martins Arruda, pontua que no cenário atual é preciso que haja mais inserção das cervejas goianas. “Vinha crescendo muito, mas no ano passado com a pandemia deu uma diminuída nesse crescimento, eu como presidente da Acerva, vejo muitos cervejeiros que tiveram que sair da associação por conta da pandemia, então hoje o cenário não está favorável”, conta.

Além de ser presidente da Acerva, Dehilton ministra curso básico para quem quer aprender a fazer a sua própria cerveja caseira. Ele aponta a queda nas vendas e na adaptação que fez para conseguir manter as aulas durante a pandemia. “Antes da pandemia, quando eu dava o curso a turma tinha entre 7 a 10 alunos e hoje com a pandemia estou dando o curso somente individual, para a pessoa aprender e ter o primeiro contato com esse mundo da produção da cerveja”.

O cervejeiro e sócio proprietário da Cervejaria Lola, Henrique Augusto Martins pontua que a pandemia afeta muito o mercado. “Teve muitos fechamentos principalmente nesse segmento de bares e restaurantes e acaba nos impactando muito. Sobre o faturamento, falando pela Lola, a queda foi de 85% aproximadamente nos últimos 20 dias. A gente acaba se adequando a um novo modelo de negócio que é o via delivery, mas não tem uma aderência satisfatória. A gente trabalha muito com experiências de consumo, eu não bebo a cerveja, eu bebo a experiência da pessoa degustar um produto diferente do que ela está habituada”, conclui.   

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