Medicina na internet representa risco iminente a pacientes

Cerca de 25 casos são apurados mensalmente. Segundo Cremego, diversos médicos já foram apenados este ano pelo uso indevido do WhatsApp, Instagram, Facebook e outras ferramentas

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Foto: Reprodução/Internet

Com a emancipação das redes e o consumo desenfreado da internet, o marketing nas mídias digitais tem se tornado ferramenta essencial para atrair clientela e fechar negócios. Acontece que, ao se tratar da medicina, o assunto se torna automaticamente mais delicado.

Antes de vender o peixe na internet, é preciso se ater às diversas recomendações destinadas aos profissionais da área. O problema é que, alguns, pouco importam; extrapolam os limites e fisgam pacientes.

Toda e qualquer divulgação feita por médicos deve seguir as resoluções do Conselho Federal de Medicina. “Os médicos até podem fazer publicidade, mas elas devem ser sóbrias e não sensacionalistas como comumente vemos”, explica o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), Leonardo Mariano Reis. “A intenção por trás do Código de Ética é proteger os pacientes vulneráveis à propagandas enganosas e divulgação de falsos resultados nas redes.”

Em Goiás, os indícios e denúncias são apurados pelo Cremego por meio da Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos (Condame). Havendo qualquer princípio de irregularidade, o Conselho convoca o médico e o orienta sobre as normas corretas. “Se a infração persiste, é instaurada uma sindicância e o profissional pode ser punido de acordo com as penas previstas. Elas vão da advertência confidencial à cassação do registro”, ressalta o presidente.

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Leonardo Mariano Reis: “Os médicos até podem fazer publicidade, mas elas devem ser sóbrias e não sensacionalistas como comumente vemos” / Foto: Reprodução

As apurações tramitam em sigilo. Ao todo, são cerca de 25 casos por mês. “Este ano já tivemos diversos médicos apenados pelo uso indevido do WhatsApp, Instagram, Facebook e outras ferramentas para divulgação ilegal da medicina. Normalmente as denúncias são feitas por outros médicos e a maioria absoluta dos casos estão ligados à dermatologia ou cirurgias plásticas”, destaca o presidente.

Atuação preventiva

Para alertar a população sobre falhas no uso de redes sociais, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Regional Goiás (SBPC-GO) desenvolve, desde 2016, uma campanha de orientação aos médicos e pacientes. A ideia é alertar sobre os perigos na busca de informações médicas na internet.

Segundo a Sociedade, o que muitos integrantes desses grupos ignoram é que, ao buscar informações nas redes sociais sobre cirurgias e tratamentos, os pacientes podem estar expostos a graves riscos. “A SBPC-GO tem se deparado com um grande número de grupos criados por pessoas leigas e, muitos deles, associados a médicos sem o conhecimento ou autorização destes profissionais”, expõe a instituição por meio de comunicado.  

“Nos grupos formados quase sempre por mulheres, pacientes que já se submeteram a cirurgias plásticas trocam informações e indicações de médicos, procedimentos e até medicamentos com pessoas que pretendem passar pela operação”. A SBPC-GO reforça que por meio do compartilhamento de imagens supostamente registradas antes e depois das cirurgias, administradores e integrantes de diversos grupos “exibem o sucesso de suas operações”.

Segundo o presidente da SBCP-GO, Sérgio Augusto da Conceição, o que pode parecer uma inocente troca de informações entre essas mulheres, na verdade, pode induzir a candidata a paciente à escolha inadequada do médico, da técnica e até na sequência do tratamento pré e pós-cirúrgico.

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Sérgio Augusto da Conceição: “O resultado alcançado por uma paciente poderá não ser atingido pela outra” / Foto: Reprodução

“Somente o médico, após uma detalhada consulta e exames, pode dizer qual o melhor tratamento para cada paciente”, alerta. Para ele, nem sempre o que é bom para uma pessoa, será para a outra. A norma vale também para os resultados exibidos em fotos. “O resultado alcançado por uma paciente poderá não ser atingido pela outra e escolher o médico confiando nestas fotos é um grande erro, além de ser constrangedor a exposição íntima das pacientes”, afirma.

A participação direta ou indireta de médicos nestes grupos fere a ética médica. A criação de grupos de WhatsApp de um determinado profissional da medicina também fere o sigilo ao expor as pacientes. Por isso, a SBCP-GO tem atuado para coibir o problema de maneira a monitorar as publicações por meio de sua Comissão de Mídias Sociais, orientando os cirurgiões plásticos e encaminhando denúncias de indícios de irregularidades ao Conselho de Medicina.

“Ao escolher um médico, verifique se ele é especialista em cirurgia plástica, procure esclarecer suas dúvidas nas consultas presenciais e converse com outros pacientes, mas não se deixe enganar por publicações de pessoas [possíveis agenciadoras] que podem estar levando vantagens para promover determinado profissional”, orienta o presidente.

Procedimento fracassado

A morte da bancária Lilian Calixto, após ser submetida a um procedimento estético no Rio de Janeiro, ganhou atenção da grande mídia no ano passado. Ela, que foi operada por Denis Cesar Barros Furtado, popularmente conhecido como Doutor Bumbum, morreu com suspeita de uma embolia pulmonar após uso excessivo de polimetilmetacrilato (PMMA) para aumentar os glúteos.

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Mensagem divulgada no perfil de Denis Furtado, popularmente conhecido como Doutor Bumbum / Foto: Reprodução/Internet

Furtado tem vida ativa nas redes sociais. Seus perfis na internet chegaram a registrar mais de um milhão de seguidores. Após o fracasso do procedimento estético em Calixto, acabou preso.

Segundo o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro, Furtado não tinha autorização para exercer medicina na cidade. Sua mãe, Maria de Fátima, também foi presa. Ela, que também era médica, teve seu registro cassado no ano de 2015. Ela foi acusada de fazer propaganda enganosa nas redes, divulgando métodos com resultados desconhecidos pela medicina.

Discussão do tema

O Cremego também tem se dedicado a orientar e prevenir infrações como: divulgação irregular de conteúdo, anúncios de especialidades médicas não registradas ou não reconhecidas, promessa de resultados, autopromoção e outras atitudes comumente identificadas.

As orientações são feitas em audiências ou por meio de trabalhos educativos. No dia 16 de maio, às 19 horas, o Conselho promoverá uma reunião plenária para debater o assunto. Na ocasião, serão discutidas as divulgações realizadas por estes profissionais, seja em cartão de visitas, na fachada de consultórios, em guias médicos, em painéis internos de hospitais e, claro, nas postagens das redes.

O objetivo do encontro será  esclarecer dúvidas e orientar a classe médica sobre o que pode e o que não pode ser divulgado, os limites das interações com pacientes, publicações em sites e anúncios, exigências para a identificação do profissional nestas publicações e outros temas relacionados às resoluções vigentes. O encontro ocorrerá na sede da Cremego, localizada na Rua T-27, 148, no Setor Bueno. A entrada é franca e todos podem participar.

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