Mãe acredita que Leide das Neves é a “santa” criada pela tragédia do césio

Lourdes das Neves, sobrevivente do acidente radiológico de Goiânia, afirma que sua filha parece acompanhá-la no dia a dia e que estaria fazendo milagres

Leide das Neves, a menina que morreu aos 6 anos, e sua mãe, Lourdes das Neves, que desfaz mitos | Fotos: Anne Ribeiro/ Reprodução

Yago Sales

“Quero recordar as vítimas fa­tais e mais de uma centena de pessoas atingidas pelo acidente radioativo de 1987 para que a sociedade ajude a superar seus problemas e que o Senhor os console em suas tribulações.” Lourdes das Neves, 65 anos, não se esquece dessas palavras. Sentiu-se “completa”, em frente à televisão de sua casa, ao ouvir, quatro anos depois do acidente do césio, o maior líder da Igreja Católica. As palavras que acalentaram o coração da mãe de Leide das Neves — uma das primeiras vítimas da tragédia que está completando 30 anos — são do papa João Paulo 2º. Ao escutar o religioso, que visitava Goiânia, em 1991, com atenção, Lourdes das Neves, que se percebia fragmentada, munida do máximo de resiliência, tornou-se, mais uma vez, “una”.

Lourdes das Neves havia perdido Leide das Neves, a filha de apenas 6 anos. A palavra do papa era aquilo que faltava, não para deixar de sentir saudade do ser que alegrava sua casa, e sim um conforto espiritual e existencial. Ante a falta de apoio do Estado, era um afago, uma carícia na alma.

Rememorar as agruras de Leide das Neves não faz exatamente bem a Lourdes das Neves. Mas lembrar da menina viva e ativa é uma alegria. Uma história de seis anos às vezes é como uma história de um século. A menina deixou uma história de felicidade estampada no olhar doce e esperto. Seu sorriso era quase uma fala. A mãe não esquece, não pode e não quer esquecê-la. Enterrá-la, em circunstâncias cruéis, com pessoas jogando pedras — inclusive o deputado estadual José Nelto, do PMDB —, é uma chaga na alma. Uma chaga que não fecha, mas sobre a qual é possível pensar e, sim, falar.

Era para ser apenas um jantar trivial. Leide das Neves comeu um ovo com as mãos sujas do césio e seu corpo foi “estilhaçado” por suas partículas. Seu pai, Ivo Ferreira, havia buscado o césio fatal na casa de um irmão, Devair Ferreira.

Este ano, quando o acidente completa 30 anos — tornando-se tristemente balzaquiano —, Lourdes das Neves, uma mulher inteligente e vivaz, naturalmente concedeu e concederá várias entrevistas. Nesta entrevista, decidiu falar, de maneira ampla, a respeito de sua filha, que teria, se viva, pouco menos de 40 anos. Leide das Neves foi enterrada no dia 26 de outubro de 1987, no Cemitério Parque, no Setor Urias Magalhães. Os gritos e ofensas dos que não queria que fosse enterrada lá ainda ecoam no cérebro de Lourdes das Neves. Mas o que mais lhe desagrada de verdade é o fato de que não teve tempo de se despedir da pequena Leide das Neves. “Era… é a minha filhinha.” Ao regar as plantas de sua casa, como se fosse uma metáfora, Lourdes das Neves afirma: “São minhas companhias”. Apresenta ao repórter cada uma delas, como se cada uma fosse um membro do corpo de Leide das Neves. “Olha o meu cajá-manga… tão bonitinho.”

De maneira perspicaz, Lourdes das Neves parece perceber que o repórter, cabisbaixo, sente-se intimidado. A força da mãe de Leide das Neves, a maneira como lida com a tragédia familiar — que trata como uma tragédia coletiva —, é de fato intimidatória. Ao relatar sua história um sorriso franco e acolhedor, de mãe, aparece de maneira pálida em sua face. Ao ser convidada a lembrar-se dos meses de setembro e outubro de 1987, o rosto, contrito, muda de repente. Ela parece outra pessoa. Transfigura-se.

Os olhos castanhos-claros de Lourdes das Neves, quando fala do “acidente” — é a palavra que usa para denominar a tragédia —, parecem prisioneiros de um passado longínquo mas que, ainda assim, é uma espécie de presente, o seu presente. Os fa­tos serão “límpidos” para a mãe de Leide das Neves, mas, depois de tantos dissabores e incompreensões, não quer se expor tanto. Nesta entrevista, ela explora um aspecto pouco co­mentado: a questão da fé. Lour­des das Neves conta histórias que nunca havia relatado antes so­bre Leide das Neves. A im­prensa não destaca, mas há uma ver­dadeira romaria ao túmulo da criança. Há notícias, segundo a mãe, de milagres feitos pela menina.

Ao contar uma história não-oficial, Lourdes das Neves acrescenta uma novidade à tragédia — uma espécie de redenção. É como se a personagem Leide das Neves tivesse voltado ao “palco” a partir do túmulo. Mas o que quer Lourdes das Neves? O que todos querem: ser feliz. Mesmo sem dinheiro para comprar medicamentos, e com a solidão sufocando, acredita que, sim, é possível ser feliz. O que a motiva? Lourdes das Neves acredita que Leide das Neves a pega pelas mãos e a leva por uma estrada que não é a da amargura e do ressentimento. É a estrada do amor e da compreensão.

Lourdes Maria é entrevistada pelo repórter Yago Sales, do Jornal Opção: “A Leide está ‘presente’” | Foto: Anne Ribeiro

Como a sra. reescreveria sua vida?
Apagaria o acidente de minha vida e retomaria a vida anterior. Eu voltaria, deste modo, ao que era antes. Reescreveram a minha vida, mas eu mesma não pude escrevê-la.

Além da sua casa, na Rua 26-A, no Setor Aeroporto, o que mais foi concretado em sua vida?
Minha vida toda. Toda. Minha identidade. Tudo.

O que sobrou daquilo que a sra. tinha em 1987?
Sobraram meus dois filhos e, por intermédio de minha filha, vieram meus netos e bisnetos. Só.

Qual o maior sonho da sra.?
Que meus netos e bisnetos sejam pessoas de bem.

Se pudesse rever Leide das Neves e falar com ela, o que diria?
Diria que me faz muita falta. [Lourdes silencia-se, como se estivesse ausente.] O que eu sou hoje, agradeço muito a ela. Iria relembrar tudo de bom que vivi com ela… [mais silêncio].

Qual a maior mentira que já ouviu sobre o césio 137 e o acidente?
São muitas. A Leide tinha 6 anos. Naquela época as crianças só iam para o colégio depois dos 7 anos, a não ser que fosse escolinha particular. Alguma coisa me dizia que ia acontecer algo muito ruim, por isso queria curtir a Leide o máximo. Os vizinhos falavam para eu colocá-la na escola, porque achavam que era muito inteligente. Mas eu queria curtir minha filha. Quando ela fosse para o colégio, não ia curtir tanto. Todo final de semana, pagava as fotografias que eu tirava dela. Queria registrar tudo. A Sueli [Lina Morais, presidente da Associação das Vítimas do Césio 137] me contou que tinha uma mulher que queria minha ajuda, porque a filha dela tinha estudado com a Leide e ela queria assistência igual a nossa. Pura mentira. Vizinhos falavam que brincavam com a Leide e vieram pedir ajuda para ter pensão. Isso não aconteceu.

Tentam usar a Leide das Neves…
Infelizmente, o que me deixa muito triste.

Como a sra. curtia a Leide das Neves?
A gente viajava, ia para Anápolis. Passeava, fazia as coisas que ela gostava. Levava-a ao Zoológico, à Pecuária, festas da Praça Cívica no final do ano.

O que faltou contar sobre a sua vida?
Meio retorcido, mas acho que falaram tudo.

“Retorcido” em que sentido?
Até dois ou três anos depois do acidente, saía matéria em jornal “informando” que a Leide era filha do Devair. Devair é tio, irmão do Ivo, meu marido e pai da Leide. Um dia, estava limpando o túmulo da Leide. Ele é muito visitado. Chegou uma turma. Um homem apontou para o túmulo e falou: “Olha, esse daqui é da menininha e aquele dali da mãe dela, a Maria Gabriela”. Aquele momento era meu. Eu estava curtindo a Leide. Fiquei calada. Tem a história de que a Leide comeu pão com ovo. Foi só ovo. Um dia teve uma palestra no colégio de uma das minhas netas. E se tem uma coisa que elas têm medo é de que na escola saibam que são filhas de vítima do acidente. Uma delas estava sentada no cantinho, lá no fundo. A diretora da escola disse que a Leide comeu uma banana com uma mão suja de césio. Ela chegou em casa chorando, mas não teve coragem de corrigir. Isso tem muito tempo, mas é um exemplo.

Suas netas e bisnetas não são reconhecidas como vítimas, mas sofrem o impacto até hoje do acidente.
Minha filha é do Grupo 3 e recebe apenas uma das pensões. A do governo federal. Recebia medicação na Fundação, agora é o Cara [Centro de Assistência aos Radioacidentados]. Só temos os médicos, que são muito bons, os carros que buscam a gente. Remédio não dão mais. Como o dinheiro das duas pensões que recebo não dá, a gente fica sem.
Hoje a senhora está sem remédio?
Eu deveria tomar seis medicações de uso contínuo. Estou com duas.

Quais são as consequências disso?
Não sei.

O que os médicos explicam?
Um cardiologista diz que preciso comprar porque se trata de um “investimento”. Mas eu não tenho condições.

Como a sra. sobreviveu às dores e à descontaminação? E como ficou ao ver sua filha sendo levada para longe, depois sendo enterrada, e tendo de lutar por justiça e, agora, ficar sem medicamentos?
Milagre de Deus. Muita força que a Leide me dá.

Qual sua relação com a história da Leide das Neves?
É uma força espiritual.

Acredita piamente nisso?
Acredito muito. Às vezes estou lá no fundo do poço, mas, de repente, me lembro dela. Penso: ela está segurando minhas mãos, Deus está comigo. Eu vou em frente, não vou fraquejar.

O que passa pelo seu coração quando sabe que o túmulo da Leide das Neves é visitado até hoje?
No início, pelo menos, foi muito complicado para mim; hoje, entendo. Quase não gosto de comentar isso. É a primeira vez que falo disso para um jornalista. Tem gente que acha que quero tirar proveito. Comentei com amigos apenas. Alguns criticam a gente, não acreditam. Nas primeiras semanas depois da Leide morrer, eu estava isolada no prédio da Febem e uma pessoa me ligou e disse que me acompanhava pela televisão e me achava uma pessoa muito simples, muito humilde. Um homem queria me contar o que tinha acontecido com ele e tinha medo de eu mudar o meu jeito de ser. Mesmo assim, ia me contar, mas eu tinha de continuar sendo humilde. Ele teve um problema de saúde muito sério na família e pediu para a Leide ajudá-lo. Não lembro, porque eu vivia dopada de remédio se era filha ou mulher dele. Ele se apegou com a Leide para que a enfermaria fosse tirada. Eu sei que ela foi curada. Foi o que ele disse. Depois teve outra história que envolve uma mulher e minha irmã Odete. Somos irmãs apenas de parte de mãe. Ela é negona. O Ivo passou o papel sujo do pó de césio no pescoço dela. E o Ivo disse que, quando o Kardec, o marido dela, chegasse, iria encontrá-la no escuro porque estaria brilhando. A mulher perguntou o que era aquela mancha no pescoço dela. Minha irmã contou sobre o acidente e a mulher começou a chorar. Ela disse para a minha irmã que seu maior sonho era me conhecer.

Por quê?
O médico falou que ela não podia engravidar. A sra. apegou-se à Leide. Ela disse que se ficasse grávida e, nascesse uma criança saudável, seu nome seria Leide. Então, nasceu uma menina. O pai, japonês, morava no Japão. Ela colocou o nome de Leide Yuri no bebê. Eu fazia unha com uma jovem que falava de maneira fanhosa: “A mulher do japonês está ‘doidinha’ para conhecê-la. Ela é chique, tem dinheiro”. Eu nem imaginava que era a mulher que havia se encontrado com minha irmã. O salão era pequeno e um dia eu estava sentada e entrou uma menina bonita, dona de um cabelão, e foi diretor padra o espelho. Ela virava e mexia o cabelo. A mãe começou a dizer: “Leide Yuri, você derruba o espelho!” A manicure me disse: “É a mulher que quer conhecê-la”. E me apresentou: “Esta é a Lourdes, a mãe da Leidinha”. A mulher me abraçava e chorava. Quando se acalmou, me contou a história. E a menina continuava se observando no espeço — igualzinha a Leide. A sra. tinha todas as reportagens que contavam a minha história.

Por que a senhora decidiu contar?
Preciso contar. Mesmo que tenha quem critique a gente. A mulher chamou a menina para me cumprimentar. Ela me falou: “Do jeitinho que você fala que a Leide era, a Leide Yuri também é. Inteligente, muito vaidosa”. Durante anos ela me ligava, cada degrau que a menina subia fazia questão de me contar. Morou aqui pertinho. Vinha aqui em casa. Ela morreu em 2016. A menina é formada em Biomedicina. Ela falava: “Te agradeço, sua filha deu muita inteligência para a minha filha”.

Isso é algo normal para a sra.?
Eu paro e penso: eu, uma pecadora… não sabia conduzir, viver.

A sra. estaria considerando Leide das Neves como uma “santa”?
Penso que sim. Nem gosto de comentar, mas é isso. Eu sou católica, às vezes vou à missa.

A sra. já contou esta história para um padre?
Ainda não. Talvez fosse bom para eu ter uma ajuda, entender.

E se a história chegar ao papa Francisco?
Fico emocionada só de pensar que o papa Francisco pode ficar sabendo disso algum dia. Eu pediria a ele para enviar uma mensagem para nós. Lembro-me o dia em que o papa João Paulo 2º desceu no Aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, e abençoou as vítimas do césio no Estádio Serra Dourada.

Como a sra. recebeu a bênção do papa João Paulo 2º?
Foi demais. Quase derreti de chorar. Eu acompanhava pela televisão. Era tanta gente que nem conseguiria chegar perto dele.

 

“Bravura dos policiais militares para salvar vidas foi esquecida”, diz subtenente da PM

O subtenente Santos Francisco e sua filha Kamila Tavares: enfrentando preconceitos

O subtenente da reserva remunerada Santos Francisco, de 55 anos, pega o bloco de apontamentos do repórter em frente à Faculdade de História da Pontifícia Uni­ver­sidade Católica de Goiás (PUC), onde estuda a filha Kamila Tavares, de 21 anos. Em uma pá­gina em branco, desenha o organograma dos batalhões da Polícia Militar do Estado de Goiás em 1987. Tenta explicar didaticamente co­mo ele mesmo fazia a escala de policiais que foram chamados para reforçar o policiamento da capital no período do Mun­dial de Motociclismo. Logo depois, segundo ele, um ofício da Defesa Civil manteria o re­forço: havia um vazamento de gás na capital.

Santos Francisco foi levado, numa Jardineira da Ford, da Polícia Militar, para um dos lugares mais contaminados pelo césio, no Ferro-Velho, na Rua 26-A, no Setor Aeroporto. Há 30 anos, mas a memória permanece alerta. Depois de alguns dias, o subtenente começou a perceber uma coisa estranha: policiais apareciam tontos, com enjoos e fragilizados. Com escalas de trabalho que variavam entre 6×18, 12×36 ou 24×24, os PMs não sabiam, mas se contaminavam quando tinham de cuidar das áreas isoladas apenas com cordas e galhos de árvores.

Inicialmente, sem o aparato dos técnicos da Cnen (Comissão de Energia Nuclear), eram os policiais que esvaziavam casas contaminadas, carregavam objetos e tinham contato com os radioacidentados. Santos Francisco culpa a falta de informação e o despreparo do Estado ao chamá-los para cuidar de locais contaminados mas sem oferecer-lhe a proteção adequada. Hoje, o subtenente é presidente da Associação dos Militares Vítimas do Césio (AMVC), mas não consegue esclarecer quantos dos 200 militares da associação são reconhecidos afetados pelo acidente. “Tenho amigos que trabalharam ao meu lado, que são doentes, mas não foram reconhecidas como vítimas”, ressalta.

Santos Francisco informa que “dá muito trabalho fazer este levantamento”. Sabe, contudo, o que todos precisam: “Queremos mes­mo que tenham promoção. Reivin­dicamos indenizações pelo ato de bravura dos soldados que perderam a saúde para tentar controlar o caos daquele setembro.”

O subtenente, reconhecido como pertencente ao Grupo III, compareceu às principais atividades realizadas durante a semana passada, em memória aos 30 anos do acidente. No auditório da Procuradoria da República em Goiás, exigiu atendimento médico de forma igualitária aos do Grupo I, que tiveram mais contato com a radiação. “Muita gente nos chama de vítimas políticas, de oportunistas. Trabalhamos salvando vidas, como heróis e hoje somos chamados de ‘oportunistas’. E muitos morreram sem respostas”, lamenta. Santos Francisco abre uma pasta com anotação de nomes de policiais que morreram nos últimos anos, muitos dos quais com câncer e problemas respiratórios.

“Os policiais que trabalharam nos meses sub­sequentes àquele setembro de 1987 foram esquecidos. Precisamos de apoio, de tratamento igualitário. Merecemos o mínimo de mérito por termos dado nossa vida para o controle da tragédia radioativa”, sugere Santos.

Ele não se esquece do preconceito. “Fui casado quatro vezes. A primeira mulher, mãe da minha primeira filha, me deixou com ela pequena. É que minha filha tem quase os mesmos problemas meus. A mãe dela foi embora e as outras mulheres queriam que eu deixasse minha filha. Eu tenho que cuidar dela e ela de mim”, diz, antes da filha sair da aula, no Setor Universitário.

A filha de Santos Francisco, Kamila Tavares, não sabe quantas vezes passou por cons­trangimentos. Sob efeito de remédios, não foi compreendida. Uma junta médica concluiu que é vítima do Grupo 3, de segunda geração, porque apresentava, desde criança, os mesmos sintomas do pai. Por isso, estudou em 12 escolas. “Eles não me entendiam. Não queriam saber se eu estava sob efeito de antide­pressivos, ou o motivo de eu ficar sempre calada, no meu canto.” Ela escreveu dois livros de poesia. Enquanto autografa um exemplar ao repórter, com mãos trêmulas e letra juvenil, lembra do maior constran­gi­mento, em uma sala de aula de jornalismo: “A coordenadora do curso me mandou pro­curar outra faculdade”. Mas ela não titubeia: quer concluir o curso de História. Quer ser professora e continuar escrevendo, sua grande paixão.

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