Iris Rezende: o político que, parado no tempo, tem pouco mais que carisma para mostrar

Chega a ser assombroso descobrir que o Iris dos anos 60 permanece praticamente o mesmo, incólume, no Iris do século 21

Iris Rezende, no início de sua carreira política e nos tempos atuais: um fenômeno que usa seu carisma para suprir a falta de evolução para o exercício de uma função pública  | Fotos: Arquivo/Jornal Opção

Iris Rezende, no início de sua carreira política e nos tempos atuais: um fenômeno que usa seu carisma para suprir a falta de evolução para o exercício de uma função pública | Fotos: Arquivo-Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias

Já faz mais de meio século desde que Iris Rezende assumiu a prefeitura da capital pela primeira vez. Mais precisamente, o fato histórico ocorreu no dia 31 de janeiro de 1966. Tinha o então jovem gestor apenas 32 anos e já demonstrava ser um político de muito carisma. E também expunha o que seria principal característica: deixar “marcas” (obras físicas que levam pessoas/eleitores a se lembrarem de quem as fez). Foi assim que, em poucos anos – até perder o mandato, cassado pelo regime militar a quem, de fato, não se opunha tão ferrenhamente –, havia conseguido imprimir sua “marca” pela cidade em várias obras: a duplicação da Avenida Anhanguera; a construção da Praça Universitária (de acordo com o projeto de Attilio Correia Lima nos anos 30); o erguimento de novos bairros, como a Vila Redenção e a Vila União; o asfaltamento de outros, como Vila Nova, Campinas e Setor Coimbra.

Porém, foi o Parque Mutirama, inaugurado em 1969, o equipamento público mais original e emblemático de seu governo, dedicado à recreação, principalmente às crianças, e com seu nome fazendo referência a uma forma particular do trabalho do então prefeito: os mutirões, frentes de trabalho às quais a população era convocada para ajudar o poder público. Por mais crítico que seja alguém, há de reconhecer, ainda que de forma relativa e com ressalvas, o papel protagonista que Iris teve naquele momento da história goianiense.

De 1966 a 2016, são 50 anos de espaço no tempo. Mas não são 50 anos “comuns”. São cinco décadas em que o mundo “virou de ponta cabeça”, como diriam os mais antigos. Houve mudanças drásticas em todos os aspectos – dos costumes à demografia, dos transportes à comunicação, da tecnologia à geopolítica – como jamais havia ocorrido em nenhum outro da história humana. Com a industrialização e o fenômeno do êxodo rural, a população deslocou-se do campo para as cidades em todas as partes do globo; entre um e outro lado do planeta, uma mensagem entre duas pessoas, que poderia demorar meses até ser recebida, hoje ocorre em tempo real, instantânea e interativa; não há mais guerra fria, mas existe a guerra do terror; em vez de crise do petróleo, hoje inicia-se uma crise da água.

Muito pouco do que existia no mundo em 1966 permaneceu sem grandes alterações até os dias de hoje. E talvez uma dessas coisas seja a forma de fazer política de Iris Rezende. Já daria um bom “case” para qualquer pós-graduando de sociologia, antropologia ou ciência política entender como um político pode se credenciar a voltar a ocupar o mesmo cargo à frente de uma cidade 50 anos após sua primeira passagem – se não for inédito, isso deve ser algo extremamente raro na história. O assombro é maior ao identificar, sem muita dificuldade, que o Iris dos anos 60 permanece praticamente incólume no Iris do século 21.

O perfil tocador de obras que faz questão de ressaltar é algo para o que Iris talvez tenha tido inspiração em Juscelino Kubitschek. Certamente, o ex-governador que ergueu mil casas (de placas, diga-se) em um dia guarda traços daquele JK que fez em cinco anos o que se faria em 50. Mas, outra comparação se torna inevitável: o Juscelino de hoje repetiria o Juscelino que criou Brasília? A resposta é não. De espírito empreendedor, JK compreendia que era preciso estar sempre à frente de seu tempo – e esse foi o motivo de seu grande sucesso como político.

Com Iris Rezende ocorre exatamente o contrário. O peemedebista poderia encarnar com facilidade algum personagem do realismo fantástico de Gabriel García Márquez: um senhor que passou décadas sobrevivendo às custas da mesma promessa e, mesmo assim, obtendo grande aprovação popular.

Viaduto da T-63: uma das “marcas” de Iris, que sempre apostou mais na aparência do que no conteúdo

Viaduto da T-63: uma das “marcas” de Iris, que sempre apostou mais na aparência do que no conteúdo | Divulgação

Qualquer pessoa isenta de envolvimento e conhecimento do debate goiano que encontrasse Iris em algum momento e tivesse 15 minutos de conversa com ele não o imaginaria como um dos principais nomes ativos da política do Estado. Ouvir Iris é “vintage”, é como voltar no tempo. Ou escutar as histórias de outras gerações, como as que descortinava o personagem Pantaleão, de Chico Anysio, ao contar sempre casos que se passavam em 1927, sentado em sua cadeira típica e sentenciando, ao fim do relato, à mulher e cúmplice: “É mentira, Terta?”

O problema é que Goiânia não é “vintage”. Há cidades que são, como Pirenópolis, mas ganham dinheiro com isso (e por isso). Hoje em dia, não deveria bastar prometer mais viadutos, mais escolas, mais asfalto e Cais 24 horas para ganhar votos. E as soluções para uma cidade do porte de Goiânia não podem ser um conjunto de promessas expelidas pela boca, como a melodia de antigos cantos de sereia.

O problema é que, a despeito de toda lógica e racionalidade, Iris Rezende é hoje um fortíssimo candidato a estar na cadeira principal do Paço Municipal em 2017. Parece difícil de explicar, mas talvez não seja: é que é preciso ir além do trato meramente frio da matéria. Iris sobrevive graças a seu carisma. Por isso, uma eleição de Iris seria a prova de que não há um projeto político suficientemente forte que consiga contrabalancear e competir com o excesso de carisma com que conta – e sempre contou – o candidato do PMDB.

Um excesso de carisma que se alia à falta de projetos. Quem presta atenção ao horário político de Iris Rezende tem impressão de que os cofres da Prefeitura estão abarrotados: da TV listam-se obras e mais obras, em todas as áreas – infraestrutura (pavimentação, pontes, viadutos), saúde (Cais abertos 24 horas), escolas (novas unidades, reforma de outras). O veterano candidato promete construir tudo o que for preciso e “o quanto for necessário”.

É o que, em texto publicado na edição da semana passada do Jornal Opção, chamamos de “planeta campanha”. Para aperfeiçoar a metáfora, não ficaria tão destoante criar um “planeta Iris”, onde tudo estará imediatamente resolvido: o asfalto chegará ao bairro de todos os que ainda não o tenham; o ônibus será novo e respeitará britanicamente o horário acertado com seus usuários; pais de alunos não padecerão com a falta de vagas em escolas e centros de educação infantil (Cmeis); os pacientes dos Cais serão atendidos e medicados com presteza, não importa a hora em que se dirijam às unidades de saúde.

Alguém poderia dizer que esse tipo de promessa é feita por qualquer político. Ou quase todo aquele que se candidate. E não estaria errado. O problema é que alguns parecem ter mais “credibilidade” para receber o voto de confiança do eleitor quando enveredam por essa linha de discurso. É que Iris já mostrou sua “marca” e sua propaganda repetitiva mas eficaz incutiu, nesses eleitores e eleitoras mais carentes de obras e pouco exigentes em crítica, que “ninguém faz” o que Iris faz. Nem “como” Iris faz.

E é essa uma questão muito importante. O “como”. Iris aposta sempre em um eleitor menos crítico. E aposta certo. Seu reduto cativo – e “cativo” é uma palavra bem interessante para usar aqui – são aqueles que se consideram eternamente comprometidos por terem recebido dele o asfalto na porta de casa, ou por terem essa casa como sua, ainda que seja uma casa de placas.

O que esse eleitor não entende – e quem sabe nunca entenderá – é que políticos como Iris Rezende o aprisionam nesta situação para dela nunca escaparem. Não é interessante que as pessoas beneficiadas tenham, um dia, a consciência de que foram muito mais usurpadas do que respeitadas em seus direitos. É o caso, por exemplo, de quem conseguiu um “lugar para morar” no Residencial Orlando Morais, região norte de Goiânia, ou no Jardins do Cerrado, no limite oeste do município. Ao mesmo tempo em que são contempladas com a “casinha”, elas perdem contato com praticamente todos os equipamentos básicos também importantes para sua qualidade de vida: posto de saúde, escola, delegacia, centro comercial, rede de serviços, esgoto, linha de ônibus. Ao “ganharem” o lote, perdem muito mais. Mas não conseguem fazer a ligação direta com quem lhes fez o suposto benefício, com efeitos colaterais danosos. Só enxergam a “marca”: “Essa casa foi o Iris quem me deu.” E aquilo que você perdeu, quem foi que cometeu?

Em sua última passagem pela Prefeitura, entre 2005 e 2010, nunca se construiu com tanta avidez e de forma tão descontrolada. Iris Rezende abriu as portas para os construtores, retirou os limites à atuação do mercado imobiliário, a partir de um Plano Diretor que nada proibiu de fato. Dessa forma, o interesse público acabou subordinado ao interesse privado e de pequenos grupos.

Jardins do Cerrado: um dos bairros criados na gestão de Iris Rezende e que segregam a população longe da cidade

Jardins do Cerrado: um dos bairros criados na gestão de Iris Rezende e que segregam a população longe da cidade

Da mesma maneira, depois de dizer que resolveria o problema do transporte coletivo “em seis meses”, o então prefeito Iris Rezende conduziu o novo contrato de licitação para a operação dos serviços em Goiânia. Isso seria, de fato, uma ótima oportunidade para dar início – “resolver” era muita pretensão – à resolução dos problemas do setor. O que se viu foi mais do mesmo. O resultado é que, por coincidência ou não, o serviço piorou nos últimos anos, já com o contrato renovado. A promessa do candidato peemedebista agora é de frota zero quilômetro e horários respeitados. Mas quem acredita? Muita gente, pode crer.

Uma novidade a ser implantada em uma eventual gestão de Iris foi colada do que fez seu rival político na disputa à cadeira do Paço. Vanderlan Cardoso (PSB) tem como proposta implantar oito regionais administrativas na capital, como fez em Senador Canedo. Na verdade, houve uma proposta dessas, com o nome de “subprefeituras”, durante a última administração do peemedebista Iris, mas ele não deu prosseguimento. Alguns dizem que foi por pressão dos vereadores, temendo ataques a suas bases; outros, que Iris não queria descentralizar poder.

Um dos orgulhos do ex-prefeito é dizer que não há favelas em Goiânia. Ao mesmo tempo, uma de suas maiores indignações foi ver a cidade receber, em 2008, o título de “mais desigual da América Latina”, corroborado em 2012. Em seu pensamento conservador, Iris Rezende não consegue admitir que a favelização não se mostra somente na forma física das construções. As favelas de Goiânia não são como as do Rio. Mas, assim como na capital carioca convivem, lado a lado, o bairro de São Conrado, com um dos metros quadrados mais caros do País, e a favela da Rocinha. Na capital goiana, de um lado da BR-153 se ergueu o Aldeia do Vale, local de maior concentração de renda per capita da cidade; do outro, o Residencial Vale dos Sonhos, um de seus bairros mais carentes.

Iris continua a pensar Goiânia como a cidade que ele se orgulha de ter percorrido quase que “de casa em casa” para conseguir seus primeiros mandatos, como vereador, deputado e prefeito. Só que em 1960 a capital tinha 150 mil habitantes; hoje, tem dez vezes mais. Não dá para manter a mesma cabeça, centrada em atividades populistas, como mutirões e abertura de frentes de trabalho.

Asfalto, ônibus, escolas, viadutos, pontes, enfim, todos os equipamentos urbanos são de muita importância para uma cidade. Mas tudo isso, vindo de um Iris Rezende que continua o mesmo, parece saído da cabeça de alguém sem a mínima organização e planejamento. Pior, sem a devida e verdadeira preocupação com a dignidade e o futuro das pessoas que, ironicamente, são as que lhe dão o maior suporte eleitoral.

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