Iris Rezende deve explicações à memória de Goiânia

1969, 1986 e 2016: anos que marcam a busca para entender o que aconteceu com um dos monumentos mais importantes da capital

Monumento ao Trabalhador sumiu do mapa e, até hoje, não se sabe ao certo quem foi o responsável pelo ato

Monumento ao Trabalhador sumiu do mapa e, até hoje, não se sabe ao certo quem foi o responsável pelo ato

Pedro Célio Alves Borges e Mauro Rubem
Especial para o Jornal Opção

O retorno de Iris Rezende às eleições parece a volta de quem não foi. Descontada a simulação da aposentadoria, a esperada surpresa cai na conta do pitoresco eleitoral. O importante é que, como candidato, ele poderá ajudar a esclarecer a demolição do Monumento ao Trabalhador. A data e a responsabilidade política no episódio continuam fugidias ao registro historiográfico.

Antes, afirmamos que as colunas foram ao chão em 1987, por ordem de Joaquim Roriz, então interventor na Prefeitura de Goiâ­nia. Entretanto, duas entrevistas posteriores sugerem que 1986 pode ser a data correta. O ex-prefeito Daniel Antônio afirma que em sua posse no cargo, a 1º de janeiro de 1986, as obras da nova Rodoviária já estavam avançadas, afetando todo o entorno da Estação Fer­roviária.

Mesmo com a memória do fato difusa e imprecisa, Daniel recorda-se que as obras ficaram na alçada exclusiva do governo estadual. Nem ele nem Roriz poderiam ter tido acesso aos níveis decisórios dos projetos e intervenções. O poder do governador Iris Rezende era ultracentralizado, quase onipresente no estado. Naquela obra, então, a de maior visibilidade do mandato, nem se fala. Após deslocar-se para o ministério no Governo Sarney, o poder de Iris assim prosseguiu.

No segundo depoimento, o engenheiro Julio Cesar lembra-se com nitidez que, quando assumiu o comando das obras da Rodoviária, em janeiro de 1987, o monumento já não existia mais. Até os escombros haviam sido retirados da praça. O reavivamento de sua memória, que lhe dá segurança nesta declaração, vem em razão do seu escritório de trabalho ter sido instalado no prédio da Estação Ferro­vi­ária, exatamente em frente ao local do monumento.

Por ironia, o nome de Iris vinha atrelado à destruição do Monumento desde 1969. À ocasião, competia ao prefeito da cidade, ele próprio, limpar o piche derramado pelo Coman­do de Caça aos Comu­nistas sobre a pintura. Mas Iris nada fez, escudado no temor de represálias da ditadura. Um cuidado que alguns entenderam e compartilharam. Porém, um grupo de artistas procurou Iris, pedindo a recuperação ou restauração da obra de arte. Entre eles, Amaury Menezes e Siron Franco, que hoje integram o Movimento pela Reconstrução do Monumento (Relato de Amaury em Audiência Pública, a 6 de abril de 2016). O prefeito desdenhou e manteve o silêncio. De nada valeu, pois no mesmo ano os militares cassaram os seus direitos políticos e o retiraram do cargo à força.

Em 1986, em outra faceta do obscurantismo, tratores ceifam da Praça do Trabalhador as colunas que serviam de testemunha do crime cometido na ditadura. Foi o golpe definitivo contra o monumento. A se confirmar esta data e o seu contexto político, a responsabilidade pela destruição do Monumento ao Trabalhador recai sobre Iris. Ouvi-lo constitui tarefa necessária perante a verdade e a história.

Como costumam pensar os democratas, as campanhas eleitorais propiciam esclarecimentos e debates sobre os atos dos homens públicos. A arte e a cultura, sindicalistas e pesquisadores, a memória de Goiânia, enfim, aguardam, agora, a palavra de Iris.

Pedro Célio Alves Borges, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia – FCS, UFG
Mauro Rubem, presidente Regional da Central Única dos Trabalhadores-GO

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