Insegurança assusta motorista e clientes de aplicativos

Casos recentes mostram que os dois lados da relação estão em situações semelhantes: mas o que pode ser feito para que ambos fiquem mais seguros?

Wendel, motorista, foi espancado. Fabiane, passageira, foi constrangida | Foto: Arquivo pessoal

Em setembro de 2017, a jornalista Fabiane Fagundes viveu uma experiência da qual não se esquece. Preparando-se para uma viagem a Porangatu, pediu um carro por aplicativo para se deslocar de casa, no Setor Faiçalville, ao trabalho, no Setor Sul, em Goiânia. Embarcou no banco de trás por volta das 7h30 para um trajeto de 10 quilômetros, mas percebeu que havia algo de errado no caminho e tentou ver a rota traçada pelo GPS. “Quando me desloquei para olhar o GPS no celular dele, percebi que ele dirigia com apenas uma mão, porque estava se masturbando”, relata.

Várias coisas passaram pela cabeça de Fabiane, que não soube como reagir. Solicitou que o motorista parasse, mas não foi atendida. Aproveitando-se de que o veículo estava em baixa velocidade para fazer uma curva, conseguiu descer e procurou abrigo em uma padaria, de onde ligou para o irmão. O motorista havia estacionado logo à frente e só acelerou quando o irmão de Fabiane o interpelou.

A jornalista denunciou o motorista por assédio sexual na sede do aplicativo em Goiânia. Fabiane não teve tempo de registrar a ocorrência em uma delegacia, foi cumprir o compromisso em Porangatu e, na volta, sofreu um acidente de avião e teve de ser hospitalizada. Duas semanas depois, recebeu uma intimação: o assediador a havia denunciado por calúnia.

Na delegacia, resolveu registrar queixa por assédio. Durante audiência de conciliação, o motorista exigiu ser indenizado, o que Fabiane recusou. Porém, nem sua denúncia nem a dele teve prosseguimento até hoje. Mas a jornalista mudou seus hábitos. Depois de algum tempo sem usar o serviço, voltou a recorrer aos aplicativos, mas com mais cuidado: “Não ando à noite sozinha, porque tenho medo. Hoje tenho mais malícia, olho quantas viagens a pessoa já fez, as recomendações em relação a ela. Uso muito, vale a pena, é mais econômico, mas acredito que os aplicativos deveriam ser mais criteriosos ao aceitar quem vai presar o serviço”, diz.

Espancamento

Quem também mudou seus hábitos foi Wendel Rocha. No dia 2 de março, o motorista de aplicativo estava em frente ao Clube Jaó, onde havia sido realizada uma festa de formatura do curso de Direito. Ele conta que já foi assediado diversas vezes no trabalho, mas dessa vez a situação seria muito pior.

Na porta do clube, um grupo de cinco homens insultava outro motorista, um senhor, que havia cancelado a chamada. “Disse a eles para pararem com aquilo e que pedissem outro carro”, conta. A coincidência é que a chamada caiu exatamente para Wendel. “Quando disse a eles que cinco eu não levaria, um se alterou e me deu um chute nas costas. Caí e bati a cabeça. Não me lembro de mais nada, mas me disseram que fui pisoteado por cerca de dez minutos até a Polícia Militar me salvar”.

Wendel foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Médio de Urgência (Samu) e levado para um hospital, que ele acredita ser o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), mas que não consegue se lembrar ao certo pois perdera a consciência. Desde então, mudou parte da rotina de trabalho. “Coloquei fitas leds no meu carro para iluminar mais, fico mais atento à nota dos passageiros, isso influencia muito. E, dependendo do lugar, nem aceito a chamada”, relata.

Problemas se multiplicam com popularização do serviço

Os casos de Fabiane e Wendel são duas faces da mesma moeda: à medida que os serviços de viagens por aplicativo se popularizaram em velocidade meteórica, os problemas também aumentaram. E as vítimas estão tanto ao volante quanto como no banco de passageiros.
“Todos os dias, ao menos quatro ou cinco motoristas são assaltados [na Região Me­tropolitana de Goiânia”, estima o presidente da Associação dos Motoristas de Aplicativo de Goiás (Amago), Leidson Alves. Esses casos rotineiros acabam se diluindo diante de fatos mais rumorosos. Em outubro, dois motoristas de aplicativos morreram na Grande Goiânia: Fábio Júnior Oliveira Santos, de 38 anos – em um caso em a polícia suspeita que o motorista fazia parte de um grupo de assaltantes –, e Carlos Augusto dos Santos Lopes, de 25 anos, baleado durante uma tentativa de assalto.

Os dois lados dessa relação de prestação de serviço estão expostos a riscos. De acordo com o presidente da Amago, os motoristas estão “no escuro”, pois as informações que têm dos passageiros são consideradas por ele como insuficientes. Leidson Alves cobra das empresas o uso de reconhecimento facial, a filtragem de contas fake e proibição de chamada para terceiros.

“A voz ativa é sempre do passageiro. O que ele diz tem sempre um peso maior, não é fácil bloqueá-lo”, afirma. Segundo o dirigente classista, os aplicativos são facilmente enganados por informações incorretas de passageiros, como CPF e Carteira de Identidade falsos.
Leidson Alves conta que esteve reunido com representantes da Uber e que, na próxima semana, estará com executivos da 99 Pop – as duas maiores empresas do setor. A categoria tem se encontrado, ainda, com representantes da Segurança Pública, solicitando mais segurança.

Leidson, presidente da Amago: “Voz ativa é sempre a do passageiro” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Seleção dos motoristas é falha

Por parte dos passageiros, apesar da aprovação do serviço, a seleção de motoristas não é totalmente confiável. Nos sites de classificados, por exemplo, é comum encontrar ofertas de compartilhamento de carros, no sistema de rodízio. Assim, um mesmo veículo pode ter três motoristas diferentes – em esquema semelhante ao que ocorre com os táxis. Dessa forma, quem solicita o serviço não tem certeza de que o condutor é o responsável pelo veículo. “É fácil encontrar ofertas de venda de cadastros na internet”, diz o presidente da Câmara de Vereadores de Goiânia, Romário Policarpo.

Responsável pela investigação sobre a morte do motorista Fábio Junior Santos, o delegado André Fernandes alerta para um comportamento que pode colocar em risco tanto os profissionais quanto os usuários. “O pessoal roda fora do aplicativo. O motorista que faz isso deveria ser excluído”, diz. Para o delegado, a criação de um sistema de fidelidade que classificasse o passageiro pelo número de viagens (semelhante ao que ocorre com o motorista) seria uma ferramenta útil para melhorar a segurança.

André Fernandes, delegado: “Há criminosos que usam os aplicativos como fachada” | Foto: Arquivo pessoal

Fernandes cobra que os aplicativos tenham ferramentas que garantam que o motorista é o legítimo possuidor do veículo ou que tenha algum documento que o vincule como responsável pelo carro, além de um controle maior da idoneidade dos mesmos. Ele acredita que um pente fino mais rigoroso na documentação seria outra medida interessante. “Há criminosos usando os aplicativos como fachada”, alerta.

Porta-voz da Polícia Militar de Goiás, o major Lucas Antônio de Morais explica que não é possível contabilizar os casos em que motoristas de aplicativos são vítimas ou agentes de ocorrências. “A PM atende a toda a sociedade goiana sem distinção de categorias, assim sendo, uma ocorrência de ameaça envolvendo um motorista ou usuário desses aplicativos é registrada como ‘ameaça’. O mesmo vale para qualquer outra modalidade criminosa, como furto, roubo, etc”, diz.

Uber lança novas ferramentas com foco na segurança

As empresas do setor não abrem dados regionais. A Amago estima que há 40 mil pessoas cadastradas em algum dos aplicativos de transporte na Região Metropolitana de Goiânia – entre 8 mil e 12 mil rodam diariamente.
Na última semana, a Uber, a maior delas, realizou o evento global Uber Destinos, que foi acompanhado pelo Jornal Opção. No evento, o diretor global de produtos de segurança Sachin Kansal anunciou medidas de segurança para os motoristas e passageiros.
“Minha equipe tem a missão de elevar o padrão da segurança dos nossos usuários, motoristas e colaboradores. Temos centenas de funcionários no mundo inteiro que pensam na segurança daqueles que usam a Uber todos os dias”, disse Kansal. Entre os recursos anunciados estão a gravação de áudio das viagens, o Doc Scan, a selfie em movimento, a checagem de rota, a verificação de viagem e o reporte durante a viagem.

A pedido do Jornal Opção, a PM deu as seguintes dicas de segurança

Para motoristas de aplicativos:

1. Confirme a identidade do passageiro antes do embarque e não realize viagens para “terceiros”, especialmente a noite e em lugares pouco movimentados.

2. Não realize viagens “por fora” da plataforma. Essas são as situações onde ocorrem a maioria dos crimes.

3. Em caso de forte suspeita rejeite a corrida.

4. Não aguarde passageiros em locais ermos, especialmente à noite. Dê voltas até que o passageiro apareça. Use o chat para comunicar-se com ele.

5, Não transporte “encomendas” sem passageiros. Você pode estar transportando drogas ou produtos ilícitos.

6. Uma chamada de uma conta recém-criada, em um local sem testemunhas nem câmeras durante a noite é uma combinação arriscada.

7. Evite expor grandes quantias em dinheiro, joias ou eletrônicos de alto valor agregado.

Para usuários:

1. Confirme a identidade do motorista e o veículo antes de iniciar a viagem;

2. Se a mulher se sente insegura em entrar em um carro conduzido por um homem existem aplicativos que trabalham somente com motoristas e passageiros do sexo feminino. A escolha é sua.

3. Se alguma mulher ou homem se sentir assediado deve reportar à empresa para que providências sejam tomadas. Em casos de cometimento de algum crime acione imediatamente o 190 e peça uma viatura da Polícia Militar.

4. Ao aguardar o seu motorista procure estar acompanhado, em locais iluminados, com presença de testemunhas e câmeras de segurança.

5. Se estiver em casa permaneça próximo à porta ou portão. Se alguém suspeito aparecer entre imediatamente, antes que se aproxime. O fato de você sair de uma casa ou de um condomínio no ato da chegada do motorista aumenta sua segurança e também do condutor.

6. Não faça viagens “por fora” da plataforma. As viagens não registradas impedem qualquer tipo de avaliação; não vale a pena abrir mão de sua segurança por alguns reais.

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