Goiás está se desindustrializando? Bilhões em investimentos e novos projetos mostram cenário oposto
05 setembro 2026 às 21h00

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O debate sobre uma possível desindustrialização de Goiás ganhou espaço no ambiente político nestas eleições de 2026, mas os investimentos anunciados e em negociação para os próximos anos apontam para um cenário mais complexo. Enquanto Marconi Perillo (PSDB) e Wilder Morais (PL) levantam questionamentos sobre a perda de força da indústria no Estado, o governo estadual contabiliza uma série de novas fábricas, ampliações de plantas existentes e projetos ainda em fase de negociação.
Em entrevista ao Jornal Opção, o secretário de Indústria, Comércio e Serviços (SIC) Joel Sant’Anna Braga afirmou que Goiás tem mais de R$ 30 bilhões em investimentos previstos até 2030, considerando projetos da indústria, mineração e outros segmentos. O secretário, no entanto, indicou que o volume pode ser ainda maior.
“A gente tem, até 2030, entre mineração e outras áreas, mais de R$ 30 bilhões de investimentos previstos para Goiás”, afirmou. Um relatório encaminhado pela SIC à reportagem reúne investimentos realizados, anunciados e em implantação em diferentes períodos.
A lista inclui projetos de grande porte nos setores automotivo, farmacêutico, agroindustrial, energético, de mineração, logística e materiais de construção. Um dos setores que mais chama atenção é o automotivo. Em Catalão, a HPE Automotores, responsável pelas marcas Mitsubishi e Suzuki no Brasil, anunciou R$ 4 bilhões em investimentos até 2032.
O projeto, portanto, ultrapassa o horizonte de 2030. O relatório da SIC também registra a intenção de ampliar as exportações de veículos produzidos em Goiás para o mercado latino-americano. Em Anápolis, a CAOA anunciou R$ 5 bilhões, em parceria com a chinesa Changan, para ampliar a produção de veículos na unidade instalada no município.
Na entrevista, Joel Sant’Anna acrescentou que a GAC também negocia uma operação em Goiás em parceria com a Mitsubishi, em Catalão. “A GAC está fazendo parceria com a CAOA para poder implantar na fábrica da Mitsubishi na cidade de Catalão. A CAOA também está recebendo mais de RS 3 bilhões de investimentos da Changan e Chery”, disse.
Segundo o secretário, a presença crescente de montadoras chinesas está relacionada também às regras tributárias para o setor automotivo. “Na área de automóveis é por conta da Reforma Tributária. Goiás, junto com a Bahia, ficou com o regime automotivo preservado, então tem um valor melhor na questão do IPI”, afirmou.
A estratégia, de acordo com Joel Sant’Anna, é resultado também das missões internacionais promovidas pelo governo estadual. “Nós fomos à China buscar as empresas que vieram para cá, como a Changan, a Weichai e outras empresas. Nós também conseguimos fazer com que a Mitsubishi e a Caoa trouxessem novas plantas para o Estado de Goiás, através do Pró-Goiás”, afirmou.
A chinesa Weichai já iniciou operações em Goiás. A empresa investiu cerca de R$ 100 milhões na implantação de uma fábrica em Itumbiara, voltada à produção de motores e máquinas agrícolas. A unidade começou a operar em dezembro de 2024, depois de tratativas iniciadas durante uma missão do governo goiano à China.
Segundo Joel Sant’Anna, a empresa prepara uma nova operação. O setor automotivo, portanto, aparece como um dos principais vetores da nova rodada de investimentos industriais em Goiás, combinando a expansão de empresas já instaladas com a chegada de novos fabricantes.

Laboratórios ampliam parques industriais
Outro segmento que aparece com força é o farmacêutico, tradicionalmente concentrado em Anápolis. O relatório da SIC registra R$ 100 milhões previstos pelo Laboratório Teuto para modernização e ampliação da unidade industrial no DAIA. O projeto inclui aquisição e instalação de máquinas e equipamentos para ampliar a capacidade produtiva.
A Geolab, por sua vez, prevê R$ 94,2 milhões para ampliar sua estrutura industrial em Anápolis, incluindo construção, aquisição de máquinas e equipamentos e um novo galpão de armazenamento. Joel Sant’Anna afirma que o movimento é mais amplo e envolve praticamente todo o polo farmacêutico de Anápolis.
“Todos os laboratórios de Anápolis, Vitamedic, Neoquímica, Hypera, Teuto e Geolab estão dobrando seus parques. Se a gente pensar em cada laboratório, só a Vitamedic está investindo mais de R$ 1 bilhão, a Geolab mais de R$ 300 milhões em ampliação, e agora a EMS, que é o maior laboratório da América Latina, instalando em Anápolis”, afirmou.
O secretário apontou a EMS como um dos maiores investimentos ainda não anunciados oficialmente. Segundo ele, o projeto envolve mais de R$ 1 bilhão. Joel Sant’Anna explicou ainda que a empresa já adquiriu uma unidade em Anápolis. “A EMS comprou inclusive um laboratório aqui em Anápolis chamado Fresenius, que é alemão, e já está em processo de implantação”, disse.
A Votorantim Cimentos também aparece entre os grupos que ampliam a presença em Goiás. O relatório da SIC registra R$ 200 milhões para a ampliação da fábrica de Edealina, com a construção de uma nova linha de moagem de cimento. A capacidade da unidade deverá passar de 1 milhão para 2 milhões de toneladas por ano.
Joel Sant’Anna afirma, entretanto, que haverá um novo investimento além desse projeto. “A Votorantim, que já redobrou a capacidade de cimento esse ano trazendo um novo moinho, vai construir uma nova fábrica de argamassa, a primeira do Centro-Oeste, em Edealina”, afirmou. O novo projeto, segundo o secretário, terá investimento superior a R$ 300 milhões.

Agroindústria mantém aportes bilionários
A indústria ligada ao agronegócio também está entre os principais destinos dos investimentos. A Inpasa aparece no relatório da SIC com R$ 2,224 bilhões para implantação de uma operação em Rio Verde, envolvendo biocombustíveis e processamento de cereais. É o maior investimento individual listado na base do ProGoiás apresentado no documento.
A Comigo tem R$ 1,15 bilhão previstos para ampliar sua estrutura de armazenamento, processamento e logística agroindustrial em Palmeiras de Goiás. Em Jataí, a Raízen anunciou R$ 1,2 bilhão para a primeira planta de etanol de segunda geração de Goiás. A tecnologia permitirá produzir o combustível a partir do bagaço da cana-de-açúcar.
O projeto deve gerar mais de mil empregos diretos e indiretos durante a implantação. Já a São Salvador Alimentos prevê R$ 900 milhões até 2028 para expansão do complexo de Nova Veneza. O investimento deverá elevar a capacidade de abate para 720 mil aves por dia.

Mineração pode ganhar força com ouro e terras raras
A mineração é outro setor apontado pelo secretário como potencial receptor de grandes volumes de recursos nos próximos anos. Questionado sobre a possibilidade de a mineração concentrar uma parcela significativa dos novos investimentos, Joel Sant’Anna respondeu sobre as potencialidades do Estado.
“O ouro também está sendo reativado em todas as minas pela valorização no mercado internacional, principalmente por causa da China.” Segundo ele, Goiás também tem potencial relacionado à exploração de terras raras e nióbio. O secretário atribui parte da atratividade do setor às reservas minerais existentes no Estado.

DAIA Norte e novas áreas industriais
Além das grandes empresas, o governo estadual aposta na criação de novos polos industriais. Joel Sant’Anna afirma que o Distrito Agroindustrial de Anápolis – Expansão Norte (DAIA Norte), em Anápolis, já possui mais de 60 empresas cadastradas para instalação. “Nós estamos com mais de 62 empresas já homologadas para o novo polo industrial, que nem foi entregue ainda e as empresas já estão cadastradas para se implantar”, afirmou.
Segundo o secretário, a primeira etapa prevê 60 empresas e 30 mil novos empregos, enquanto uma segunda etapa deverá ser executada posteriormente. Em Anápolis, o DaiaPlam também aparece como uma nova frente de expansão. O relatório da SIC registra a instalação da IBG Gases, que investe R$ 140 milhões em uma unidade destinada à produção de gases industriais e medicinais.
As obras começaram em maio de 2025, e a expectativa inicial é de 60 empregos diretos. Joel Sant’Anna afirma que a nova etapa do polo industrial de Anápolis poderá gerar 20 mil empregos. “Os investimentos estão criando não apenas novas fábricas, mas empregos e cadeia de fornecedores também”, relatou ao Jornal Opção.

A Companhia de Desenvolvimento de Goiás (Codego) administra atualmente 27 distritos agroindustriais em 21 municípios de Goiás, que concentram mais de 600 empresas e aproximadamente 30 mil empregos diretos, segundo dados envidos ao Jornal Opção.
A estratégia da companhia para os próximos anos está baseada na ampliação da oferta de áreas para novos investimentos, na regularização e melhor utilização dos distritos existentes e na modernização dos processos de seleção de empresas. Entre as iniciativas está um novo sistema de pré-cadastro por QR Code, que permite mapear a demanda empresarial e identificar setores, portes dos empreendimentos e necessidades futuras de infraestrutura.
Entre os principais projetos de expansão estão Anápolis e Aparecida de Goiânia. No Distrito Agroindustrial de Anápolis Plataforma Comercial (DAIAPLAM), expansão do DAIA, 35 empresas já demonstraram interesse em áreas, enquanto três foram assentadas e outras dez estão em processo de assentamento, com previsão conjunta de mais de R$ 100 milhões em investimentos e mais de 700 empregos diretos.
Já o Distrito Agroindustrial Norberto Teixeira (DIANOT), em Aparecida, possui mais de 2 milhões de metros quadrados e 359 lotes. O empreendimento recebeu 119 propostas, teve 84 empresas classificadas e 67 homologadas. Com mais de R$ 120 milhões em investimentos públicos em infraestrutura, o distrito poderá receber cerca de 200 empresas quando estiver plenamente ocupado e gerar milhares de postos de trabalho.
A expansão também alcança outras regiões de Goiás. Em Caldas Novas, um novo distrito, previsto para ser lançado ainda em 2026, poderá receber mais de 69 empresas e gerar mais de 700 empregos diretos. Em Luziânia, dois empreendimentos em processo de assentamento somam previsão inicial superior a R$ 100 milhões em investimentos, enquanto Pires do Rio deverá receber mais de 40 empresas de pequeno e médio porte.
Em Rio Verde, a Codego trabalha na ampliação da infraestrutura para acompanhar o crescimento industrial. A estratégia é descentralizar os investimentos para além do eixo Anápolis–Aparecida, aproveitando as diferentes vocações econômicas dos municípios goianos.
ProGoiás é usado como instrumento de atração
Para o secretário, os incentivos fiscais continuam sendo uma das ferramentas utilizadas para convencer empresas a escolherem Goiás. O ProGoiás, segundo Joel Sant’Anna, possui vigência até 2032. “Ajuda porque dá um desconto de 66% no ICMS, desde que a empresa gere emprego e tenha algumas características para poder industrializar o Estado de Goiás”, afirmou.
O relatório da SIC apresenta uma lista de empresas enquadradas em programas como Fomentar, Produzir e ProGoiás, incluindo novas operações, migrações e ampliações. Entre os maiores projetos da base do ProGoiás estão Inpasa, Comigo, Heinz, Can Pack, Avícola Santa Vitória e Frico.
A tabela completa também registra operações de empresas como Nutriza, Goiás Bioenergia, Solubio, Adubos Araguaia, IBO, Crown, SKA Logística e Camil. Somados os valores especificados para os projetos destacados na tabela, o montante chega a aproximadamente R$ 4,64 bilhões.

Goiás está se desindustrializando?
É justamente nesse ponto que os investimentos entram no debate político. Questionado sobre quais números poderiam ser utilizados para contestar a tese de desindustrialização, Joel Sant’Anna citou a evolução do emprego, o número de empresas e o desempenho da produção industrial.
“É só ver os números. Se pegarmos os números de emprego e número de empresas que vieram para Goiás nos últimos sete anos e comparar com o passado, veremos que essa história não existe”, afirmou. O secretário fez, porém, uma distinção entre o cenário nacional e o goiano.
“Agora, o Brasil está se desindustrializando. Goiás, por outro lado, teve um crescimento da indústria no ano passado de 15%”, declarou. Segundo ele, o percentual é baseado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do governo federal e da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg).
O próprio relatório apresenta outros indicadores de atividade empresarial. Segundo dados da Junta Comercial de Goiás (Juceg) reunidos no documento, Goiás registrou 106.981 novas empresas no semestre, com capital social declarado superior a R$ 10,35 bilhões. O levantamento, entretanto, engloba todos os tipos de negócios, e não apenas empresas industriais.


Uma nova fase da indústria goiana?
A avaliação do secretário é que o Estado está entrando em uma nova etapa de industrialização, sustentada por investimentos que devem se estender pelos próximos anos. Além da atração de novas companhias, Joel Sant’Anna destaca a infraestrutura como fator para sustentar a expansão.
“Nós conseguimos fazer oferta de energia em Anápolis para aumentar a capacidade de instalação das indústrias”, disse. O movimento, segundo ele, não se restringe a novos empreendimentos. Grandes empresas instaladas há décadas no Estado também estão ampliando sua capacidade. É o caso da John Deere, que anunciou R$ 700 milhões para ampliar sua fábrica de Catalão, acrescentando mais de 20 mil metros quadrados aos 62 mil metros quadrados existentes.
Também estão nessa lista empresas como Ambev, que anunciou R$ 150 milhões para a unidade de Anápolis; Softys, que prevê US$ 123 milhões para ampliar operações em Anápolis e Senador Canedo; e Grupo José Alves, que informou investimentos de R$ 1,365 bilhão entre 2020 e 2024 em expansão, construção e aquisição de máquinas industriais.
O quadro, portanto, não é de uma indústria homogênea. Há setores mais tradicionais, como alimentos, bebidas e automóveis, recebendo grandes aportes; segmentos tecnológicos e farmacêuticos ampliando capacidade; novas operações de logística e energia surgindo no interior; e a mineração sendo apontada pelo governo como uma das fronteiras de crescimento.

Os principais investimentos citados pela SIC:
- CAOA/Changan — R$ 5 bilhões: expansão da produção automotiva em Anápolis;
- HPE Automotores/Mitsubishi — R$ 4 bilhões até 2032: expansão da fábrica em Catalão;
- Inpasa — R$ 2,224 bilhões: nova operação em Rio Verde;
- Raízen — R$ 1,2 bilhão: planta de etanol de segunda geração em Jataí;
- Comigo — R$ 1,15 bilhão: expansão agroindustrial em Palmeiras de Goiás;
- São Salvador Alimentos — R$ 900 milhões até 2028: expansão em Nova Veneza;
- John Deere — R$ 700 milhões: ampliação da fábrica de Catalão;
- EMS — mais de R$ 1 bilhão, segundo o secretário: projeto ainda não anunciado publicamente pela empresa;
- Votorantim — mais de R$ 300 milhões, segundo o secretário: nova fábrica de argamassa em Edealina, além da expansão da produção de cimento;
- Softys — US$ 123 milhões: expansão das operações em Anápolis e Senador Canedo;
- Granel Química — R$ 170 milhões: terminal em Santa Helena de Goiás;
- IBG Gases — R$ 140 milhões: nova fábrica em Anápolis.

Tecnologia entra no mapa da industrialização
Se a indústria goiana tradicional tem pela frente uma nova rodada de investimentos, o governo também tenta ampliar o conceito de atividade produtiva com a aposta em tecnologia. Segundo a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), o Distrito de Inovação e Inteligência Artificial (GO.IA), em Goiânia, ocupará uma área de 91 hectares e terá investimentos superiores a R$ 300 milhões.
A proposta é concentrar empresas de tecnologia, centros de pesquisa, startups, formação profissional e infraestrutura voltada à inteligência artificial. A primeira empresa a se instalar no distrito será a Semantix, multinacional brasileira especializada em dados, big data, analytics e inteligência artificial.
Em 2022, a empresa chegou à Nasdaq e, naquele momento, foi avaliada em aproximadamente US$ 1 bilhão, segundo a Secti. A secretaria informa ainda que Goiás possui atualmente 212 startups em 19 cidades. O ecossistema foi fortalecido, entre outras iniciativas, com a criação do Hub Goiás, que recebeu R$ 30 milhões para apoio e criação de novos negócios.
Em três anos, mais de 150 startups foram apoiadas pelos programas do Hub. O Epicentro da IA acrescentou outra frente à estratégia. O programa, desenvolvido em parceria com o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), destinou R$ 2 milhões a dez startups, das quais oito eram de outros Estados e se instalaram em Goiás.
Para o secretário da Secti, José Frederico Lyra Netto, a implantação do GO.IA começa a sair do papel ainda em 2026. “Nós lançamos o Master Plan, que foi a pedra fundamental. Vamos receber as primeiras empresas já neste semestre”, afirmou. Segundo ele, o governo está adaptando uma estrutura para receber as primeiras empresas.
Na sequência, será reformado um prédio da Secretaria de Administração (Sead), que deverá ampliar a capacidade de recepção. “De maneira concreta, as primeiras chegam ainda esse semestre, com a adaptação que a gente está fazendo do HUB Goiás”, disse. José Frederico afirma que existe procura de empresas interessadas em se instalar no distrito, mas que os nomes ainda não podem ser divulgados.
“Eu não posso revelar porque a Semantix foi a única que assinamos memorando de entendimento. Mas estamos construindo novos memorandos. Então deve sair muito em breve, talvez nas próximas semanas”, afirmou. Além da Semantix, o CEIA deverá ter presença no local.
“O CEIA UFG vai ter uma presença no Hub já nas próximas semanas”, disse. A Goiás Tecnologia (GO Tech) também deverá ocupar uma estrutura vinculada à Juceg, segundo o secretário. O secretário afirma que a expectativa é de crescimento significativo da força de trabalho.
“Com o distrito, nós temos um dimensionamento de alguns milhares de força de trabalho para os próximos cinco anos”, afirmou. Para ele, Goiânia já possui uma base tecnológica que deverá ser consolidada pelo novo distrito. “Goiânia já é um polo. Agora, com o distrito, vai se consolidar”, disse.
José Frederico cita o CEIA como uma das estruturas que já colocam Goiás no mapa da pesquisa em inteligência artificial. “Nós já temos o centro de pesquisa, que é o maior de IA no Brasil”, afirmou. O objetivo, segundo ele, é transformar a capital também em referência na atração de empresas.
“Agora, nós queremos se tornar também o principal polo em termos de empresas”, disse. A estratégia da Secti não se resume a aumentar o número de startups. A expectativa é que algumas delas cresçam e alcancem maior escala. “Nós queremos aumentar a quantidade de startups, ou seja, a quantidade de negócios inovadores. Mas também queremos ter startups de maior tamanho”, afirmou.
José Frederico cita como meta de longo prazo a criação do primeiro unicórnio goiano, startup avaliada em pelo menos US$ 1 bilhão. “Acho que o sonho, em algum momento de repente, na próxima década, é termos o primeiro unicórnio goiano”, disse.

Por que empresas de tecnologia estão vindo para Goiás?
Na avaliação de José Frederico, a capacidade de formar mão de obra é um dos principais fatores para atrair empresas de tecnologia. “É uma combinação de fatores. O fator talentos, o capital humano, é um fator decisivo”, afirmou. Ele cita o bacharelado em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (UFG) e a expansão de cursos de graduação e formação técnica na área.
O secretário também destaca programas estaduais de formação tecnológica desde os primeiros anos da educação. Outro componente seria o ambiente regulatório. “Goiás, saindo na frente, é pioneiro também em uma lei de regulamentação da IA, uma lei bastante moderna. Isso cria um ambiente de negócios favorável para o pessoal vir para cá”, afirmou.
Na avaliação dele, a combinação é formada por “um esforço de formação de talentos, um esforço de ambiente de negócios, e um governo muito presente e apoiador, que definiu a IA como prioridade”. A presença de startups, centros de pesquisa e empresas de inteligência artificial também coloca uma questão para o debate sobre industrialização.
É possível falar em uma nova indústria que não depende de grandes galpões, linhas de montagem e máquinas? Para José Frederico, sim. Ele pondera, entretanto, que isso não significa abandonar a indústria tradicional. “Primeiro, o Estado deve muito o seu crescimento às indústrias tradicionais. E acho que isso vai continuar”, disse.
A mudança, segundo ele, está na modernização dessas próprias empresas. “A ideia agora é que as indústrias sejam cada vez mais modernizadas”, afirmou. O secretário considera que o principal passo está no investimento em pesquisa e desenvolvimento.
“Nós estamos avançando em pesquisa e desenvolvimento na indústria”, disse. “É ter pessoas que estão pesquisando para inovar. Seja inovar no processo ou um produto diferente.” Nesse contexto, o GO.IA funcionaria como uma das estruturas para aproximar pesquisa e empresas.
“O distrito vai ser um grande lugar de pesquisa e desenvolvimento focado em IA. Mas você pode ter pesquisa e desenvolvimento em outras áreas. E eu entendo que esse é o próximo passo. Nós chamamos de a nova fronteira da indústria”, afirmou.

Arrecadação industrial cresce 225% em nove anos
Um dos indicadores mais expressivos da atividade industrial goiana é a arrecadação de ICMS. Segundo dados da Secretaria da Economia, o imposto recolhido pela indústria passou de R$ 3 bilhões em 2016 para R$ 9,75 bilhões em 2025, crescimento nominal de aproximadamente 225%. Apenas entre 2024 e 2025, a alta foi de 7,5%.
Para a secretária da Economia, Renata Noleto, o resultado está relacionado ao crescimento da atividade econômica de Goiás e, particularmente, da indústria. “O PIB goiano cresce acima da média nacional. A atividade industrial também no Estado de Goiás cresce acima da média”, afirmou ao Jornal Opção.
Na avaliação da secretária, o desempenho é resultado de uma combinação entre crescimento econômico, estabilidade e políticas de incentivo. “Você percebe uma aceleração da atividade industrial no Estado e, para mim, acho que isso é fruto de um cenário de segurança jurídica, de condições econômicas mais favoráveis e estáveis”, disse. Renata Noleto destaca ainda a mudança na política de incentivos fiscais promovida pelo Estado com a criação do ProGoiás, em 2020.
Segundo ela, o modelo reduziu o tempo necessário para uma empresa ingressar no programa. “A entrada no programa tinha um trâmite que levava um ano, às vezes, porque ele percorria a Secretaria de Economia, a Secretaria de Indústria e Comércio e a Agência de Fomento, que é a Goiás Fomento. Você elimina todas essas etapas burocráticas, coloca a indústria para poder operar, faturar e usar o benefício em um mês”, explicou.
O programa também teria ampliado o acesso de pequenas empresas aos incentivos. “Esse programa abriu as portas para o pequeno negócio, a pequena indústria. Nós eliminamos, por exemplo, a necessidade de assinatura de um economista no projeto”, disse. Renata Noleto explica que o antigo projeto de viabilidade econômica e financeira foi simplificado e passou a permitir o envio da documentação pela internet.
“Você pode fazer o upload de toda a documentação pelo site. Então, você não precisa de um consultor, não precisa de um economista”, afirmou. De acordo com a secretária, atualmente mais de mil indústrias estão enquadradas no ProGoiás. “Muitas vieram desses programas anteriores e outras são novas indústrias”, afirmou.
Ela também relaciona o crescimento da arrecadação à ampliação da atividade das empresas que já estavam instaladas em Goiás. “De 2020 para cá, eu atribuo muito a esse novo programa de incentivo à indústria, que inclusive contemplou as de pequeno porte, porque facilitou enormemente o ingresso dela no programa”, disse.
“Isso é refletido na arrecadação. Quando você cresce a arrecadação, está crescendo o faturamento. Nós crescemos o faturamento por um número maior de indústrias, a atividade industrial acelerou, o PIB do Estado também”, acrescentou. O crescimento também aparece no comércio exterior.
Segundo a Secretaria da Economia, as exportações da indústria de transformação passaram de US$ 3,68 bilhões em 2016 para US$ 6,39 bilhões em 2025, alta de 73,4%. Na indústria extrativa, o avanço foi de US$ 457,6 milhões para US$ 609,9 milhões, aumento de 33,3%.
Somados os dois segmentos, Goiás exportou aproximadamente US$ 7 bilhões em produtos industriais em 2025, maior valor da série histórica. Para Renata Noleto, o resultado não pode ser explicado apenas pela exportação de produtos primários. “Não exportamos só in natura. Nós somos fortes exportadores, por exemplo, de carne. Então, você tem uma agroindústria atrás disso, uma cadeia”, afirmou.
A secretária destaca ainda o crescimento da produção agrícola como um dos fatores que impulsionaram as exportações goianas. “O quanto crescemos em produção de milho e de soja nesse período. Então, as commodities, essas culturas, nós crescemos enormemente”, disse.
Para ela, o avanço não ocorreu apenas pela abertura de novas áreas agrícolas, mas também pelo aumento da produtividade. “Não foi só uma expansão de fronteira agrícola, mas foi muito mais um ganho de eficiência e de produtividade”, afirmou. Renata Noleto relaciona esse desempenho à incorporação de tecnologia pelo agronegócio.
“O agro tem muita tecnologia aplicada. Ganhou muito em eficiência e produtividade ao longo desse período”, disse. “Basta olhar a produção como ela cresceu nesse período e, consequentemente, as exportações”, completou. Outro dado da Secretaria da Economia é o número de inscrições estaduais vinculadas à atividade industrial.
Na posição cadastral de 1º de setembro de 2026, Goiás tinha 72.720 inscrições estaduais ativas relacionadas ao setor. Desse total, 55.449 estavam enquadradas como Microempresa, Empresa de Pequeno Porte, Simples Nacional ou SIMEI. Outras 17.271 estavam no regime normal.
Para Renata Noleto, a predominância de pequenos contribuintes não é uma característica exclusiva da indústria. “Você vai ver isso não só na indústria. Se você estratificar e olhar por segmento, se você olhar o comércio varejista, se você olhar o atacadista, isso não é também só um cenário aqui de Goiás”, explicou. Segundo ela, é natural que os cadastros estaduais sejam compostos majoritariamente por pequenos contribuintes.
Ela ressalta, entretanto, que a quantidade de empresas não significa necessariamente equivalência em faturamento. “Você não tem um universo muito amplo de grandes contribuintes. Os contribuintes de ICMS estão sempre em maior número, independentemente do segmento: seja ele indústria, comércio, tanto varejo quanto atacado, enquadrados como pequenos, no Simples Nacional, MEI, Simples ou EPP, em relação ao normal”, disse.


Logística e mão de obra são desafios
Se os indicadores apontam crescimento, a manutenção desse ritmo dependerá, segundo Renata Noleto, de fatores que vão desde segurança jurídica até infraestrutura. A secretária separa os desafios que estão sob controle do Estado daqueles relacionados ao cenário internacional.
“O cenário internacional, o risco de retração, de desaceleração, de recessão, isso o Estado não controla. Embora sejamos realmente um Estado que foge um pouco desse cenário geral, tem fatores que você não controla, como conflitos internacionais, altas de preços, juros, política fiscal, política monetária”, afirmou.
Dentro daquilo que o governo consegue influenciar, a prioridade é manter previsibilidade para as empresas. “Nós buscamos ter um diálogo muito forte e o próximo com o setor produtivo, ter o maior cuidado em não desestabilizar o setor produtivo”, afirmou. Segundo ela, a razão é direta:
“Ele gera receita, faturamento, arrecadação e crescimento econômico para o Estado”. Renata Noleto também cita a simplificação de regras e a segurança jurídica como fatores que precisam ser preservados. “É nosso dever manter regras claras, estáveis, segurança jurídica, desburocratizar, simplificar e prestar um serviço de excelência para o cidadão, para o contribuinte, para as empresas, para toda a coletividade”, afirmou.
Outro desafio apontado por ela é a infraestrutura. “A logística, porque você precisa ter boas condições para trazer matéria-prima, para levar o produto acabado para mercados consumidores”, disse. Na avaliação da secretária, a posição geográfica de Goiás pode se transformar em vantagem competitiva justamente se houver infraestrutura adequada para conectar o Estado aos mercados.
“Se eu tiver condições de escoar a minha produção, eu vou sair na frente, eu tenho um diferencial competitivo”, afirmou. Ela também coloca a formação profissional entre os fatores determinantes. “Oferta de mão de obra qualificada, tenho trabalhado fortemente nisso. Oferta de infraestrutura de uma malha rodoviária, de uma logística bem desenvolvida. Esses também são fatores adicionais aos que eu comentei anteriormente, extremamente relevantes para posicionar o Estado de Goiás”, disse.

Indicadores do IMB mostram avanço da indústria goiana
Além dos investimentos descritos, os indicadores econômicos do Estado mostram uma evolução da atividade industrial em Goiás nos últimos anos. Dados enviados pelo Instituto Mauro Borges (IMB) ao Jornal Opção apontam crescimento em diferentes indicadores.
Os números compilados pelo IMB são a partir de bases do IBGE, PNDA, Cadastro Central de Empresas (CEMPRE), da Secretaria de Economia de Goiás e do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC/Comex). Eles mostram que a indústria goiana apresentou expansão em diferentes indicadores nos últimos anos.
O Valor Adicionado da Indústria Geral, indicador que mede a contribuição do setor para a formação do valor adicionado da economia, passou de R$ 39,178 bilhões em 2019 para R$ 66,780 bilhões em 2023, em valores constantes.
O salto representa crescimento nominal de aproximadamente 70% no intervalo, embora a comparação entre os anos deva considerar que a série está expressa em valores constantes. A participação da indústria no Valor Adicionado Total de Goiás ficou entre 21% e 24% no período. Em 2019, representava 21%; chegou a 24% em 2020 e ficou em 22% nos três anos seguintes.
O indicador de crescimento do volume de produção industrial mostra uma trajetória de oscilações, mas com quatro anos consecutivos de expansão entre 2022 e 2025. O setor cresceu 3,5% em 2022, 3,6% em 2023, 5,8% em 2024 e 1,6% em 2025. Em 2021, havia registrado retração de 1%, enquanto em 2020 o avanço foi de 0,4%.
O dado de 2024 é particularmente relevante para o debate: naquele ano, a produção industrial goiana teve o maior crescimento da série apresentada pelo IMB, de 5,8%. O mercado de trabalho também apresenta crescimento no período. O número de ocupados na indústria, considerando trabalhadores formais e informais, passou de 418.271 em 2019 para 505.961 em 2025.
São aproximadamente 87,7 mil pessoas a mais, aumento de cerca de 21%. A evolução não ocorreu de forma linear. O número de ocupados chegou a 429.334 em 2020, caiu para 412.990 em 2021 e voltou a crescer nos anos seguintes, alcançando 467.360 em 2022, 446.649 em 2023, 453.594 em 2024 e 505.961 em 2025.
Quando considerado apenas o emprego formal, o movimento também é de alta. Os ocupados formais na indústria passaram de 260.029 em 2019 para 370.875 em 2025, acréscimo de aproximadamente 110,8 mil trabalhadores, ou 42,6%. O crescimento do emprego formal é um dos indicadores mais relevantes para a discussão sobre a força da indústria.


Massa salarial industrial também aumenta
A massa salarial da indústria acompanhou a expansão do emprego. Considerando trabalhadores formais e informais, a massa salarial passou de R$ 1,080 bilhão em 2019 para R$ 1,632 bilhão em 2025, em valores correntes. Entre os trabalhadores formais, a massa salarial saiu de R$ 810,438 milhões em 2019 para R$ 1,349 bilhão em 2025.
Os números indicam que a indústria não apenas emprega mais trabalhadores formais como também movimenta uma massa maior de salários. A comparação em valores correntes, porém, deve ser interpretada levando em conta a inflação do período. Outro indicador apresentado pelo IMB é o número de estabelecimentos industriais.
Em 2019, Goiás tinha 16.716 estabelecimentos industriais. O número passou para 17.117 em 2020 e 18.181 em 2021. Em 2022, houve salto para 28.514 estabelecimentos, seguido por 30.018 em 2023 e 31.019 em 2024. Em cinco anos, portanto, a quantidade registrada passou de 16,7 mil para 31 mil estabelecimentos, aumento de aproximadamente 85%.
Os números do IMB acrescentam uma informação importante ao debate. Não há, na série apresentada, um movimento contínuo de retração da indústria goiana. Ao contrário, entre 2019 e 2025 houve aumento do número de ocupados na indústria, crescimento ainda maior do emprego formal, expansão da massa salarial e, até 2024, aumento do número de estabelecimentos industriais.
A produção também apresentou quatro anos consecutivos de crescimento entre 2022 e 2025. Portanto, quando os indicadores são colocados ao lado dos investimentos anunciados, é possível concluir que a indústria cresceu em vários indicadores e, ao mesmo tempo, passa por transformação.
Há uma indústria tradicional recebendo bilhões em novos aportes, como automóveis, alimentos, farmacêutica, cimento e biocombustíveis. Há empresas migrando operações para Goiás e plantas existentes sendo ampliadas. E há, paralelamente, uma tentativa de criar uma nova frente industrial baseada em tecnologia, inteligência artificial e pesquisa e desenvolvimento.


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