Goiânia e a figura fundamental do “flâneur” gari

Além do trabalho imprescindível para a manutenção da cidade, os garis ainda são observadores perspicazes da capital

A gari Elenir Rodrigues ou Paloma. Foto: Gabriella Oliveira

Para o filósofo e ensaísta alemão Walter Benjamin, ser um flâneur nada mais é do que ser um “explorador urbano, o conhecedor da rua”. Em Paris, no século XIX, o ato de flanar (andar pelas ruas) foi fundamental.

Naquela época, o ambicioso barão George-Eugène Haussmann estava demolindo a cidade inteira. Ele queria que Paris deixasse de ter aquele aspecto medieval e desse espaço para largas avenidas, para a modernidade. Os parisienses daquela época viram a cidade que conheciam desaparecer. Suas ruas, prédios, casas, lojas, foram demolidas para dar lugar a Paris que se conhece hoje.

Mas essas reformas não foram tão bem aceitas por todos. Durante esse período, muitos já praticavam a flânerie mesmo sem saber. O escritor francês Victor Hugo foi um deles. De tanto flanar, ele escreveu “Notre-Dame de Paris” numa tentativa de evitar a demolição da famosa catedral. Junto com a obra, ele fez uma carta chamada “Guerra aos Demolidores” para pressionar Haussmann a restaurar a igreja, ao invés de demoli-la. E deu certo. A popularização da obra fez com que os franceses conseguissem a renovação da igreja.  

Outro observador nato das ruas parisienses daquela mesma época foi o poeta “ranzinza” Charles Baudelaire, autor de “As Flores do Mal”. Ele viu sua cidade ir mudando aos poucos e registrou isso em seus poemas. Tudo o que ele via em seus caminhos, em seu ato de flanar pela cidade, era percebido. As pessoas, o jeito que elas estavam se vestindo, suas conversas, suas sujeiras, as ruas tortas, os buracos, as construções bonitas, aquilo que não funcionava mais naquela cidade e aquilo que sempre a faria bela. A rua era a casa de Baudelaire. Ele a conhecia tão bem quanto os cômodos de seu lar.

Flanar ainda é uma atividade recorrente no século atual. Apesar de hoje muitos cidadãos gastarem mais do seu tempo olhando o celular, existe uma profissão que se dedica exclusivamente ao cuidado com as ruas de Goiânia e que se assemelha muito com o flâneur: os garis. Além de limparem as ruas e garantirem a salubridade da cidade, eles observam tudo. Desde as pessoas até os buracos nas ruas. Os lixos, os olhares recebidos, o trânsito, as obras. Nada passa despercebido para quem passa o dia flanando.

Para chegar até a Praça Cívica, no setor central, é preciso saber por onde atravessar na imensa demolição que fizeram com o anel de dentro da praça. O buraco gigantesco é em nome da modernidade, dizem. Faz parte da construção do BRT Norte-Sul. Depois de conseguir atravessar e entrar na Praça Cívica, logo você identifica um dos “flanores” de Goiânia. Com seus trajes laranjadas, os garis estão sempre trabalhando incansavelmente, faça dia, faça sol, faça chuva ou faça poeira de tanta obra.

Sandra Balione, 48

Sandra Balione, de 48 anos, estava varrendo umas folhas secas da Praça Cívica quando cheguei para conversar com ela. Mãe solteira de dois filhos, virou gari aos 33 anos e já soma 15 anos nessa profissão da qual gosta muito. “Tenho orgulho demais da minha profissão. Tudo o que eu tenho hoje foi na base do meu trabalho. Consegui formar meus filhos, até hoje nunca me faltou o pão de cada dia. Então eu agradeço muito pelo trabalho que eu tenho.”

A gari, Sandra Balione. Foto: Gabriella Oliveira

Sandra é natural de Ituiutaba, Minas Gerais, mas veio para Goiânia aos 5 anos, por isso se considera nativa da cidade. “Eu até falo ‘uai sô’.” Para ela Goiânia é uma cidade ótima de se morar. Mas uma das coisas que tinham que ser resolvidas para ela é o asfalto. “Muito buraco”, informa.

Tantos anos limpando ruas mostrou a Sandra algumas constatações sobre ser gari. “A gente não é bem-visto, não. Passam como se nem vissem a gente. Eu sinceramente não sei o por quê”, conta. “Muitas vezes, a gente entra numa loja e as pessoas não atendem, porque acham que só vamos olhar. Tem hora que tem que chegar e dizer ‘oi, você pode me atender?’. Porque se não a gente não é atendida.”

Sandra não vê explicações para este tipo de tratamento. “Temos um trabalho honesto, ganhamos o nosso salário. O nosso dinheiro é o mesmo que o deles, a gente também dá conta de comprar, passo apertado aqui e ali, mas a gente vai enfrentando as coisas e consegue comprar do mesmo jeito.”

Roberto Ferreira da Silva, 46 anos

Recolhendo as sacolas numa lixeira na Avenida Goiás, o gari mato-grossense Roberto Ferreira da Silva, de 46 anos, também compartilha da mesma indignação de Sandra. Ele é gari há 22 anos e diz que “ainda tem preconceito, ainda é muito abusado”. Roberto já ouviu e viu todo tipo de coisa nas ruas de Goiânia. Desde pessoas dizendo que ele era obrigado a recolher o lixo delas, até indivíduos jogando sujeira propositalmente fora do local adequado, mesmo vendo ele recolhendo.

Os instrumentos de trabalho não são bons, segundo Roberto. Ele teve que comprar quase tudo, porque a vassoura que deram para ele é muito pesada, tem quase 5kg. Nas ruas, ele já teve que recolher até animal morto.

Durante os meses críticos da pandemia, Roberto conta que se sentiu muito exposto. Da prefeitura, só recebeu álcool em gel, mas nenhuma orientação de como teria que proceder com seu trabalho de forma mais segura. No início da vacinação, ele achava que os garis também seriam os primeiros da fila, já que o serviço deles não parou. “Como nós tínhamos de ficar trabalhando, eles tinham que fazer igual o pessoal da saúde, porque nós estávamos vindo todos os dias. Mas eles vieram dar vacina praticamente no final”, lamenta.

Mesmo sendo do Mato Grosso, Roberto enxerga Goiânia como sua cidade natal, porque veio criança pra cá. Ele teve que parar de estudar muito cedo para ajudar a mãe, e por isso buscou um concurso que lhe desse mais segurança do que o serviço de diarista. Apesar de achar a cidade um bom lugar de morar, ele acredita que segurança, educação e saúde nunca vão melhorar.

“No meu modo de pensar, se colocar uma educação pública boa as escolas particulares vão acabar e é onde os políticos são donos. E o plano de saúde? Eles não vão pôr uma saúde pública boa para acabar com plano de saúde porque a maioria é ligado a político. Por isso que eu falo para vocês: nunca vai mudar isso”, afirma, cético, Roberto.

Na sua profissão, então, ainda têm muita coisa que ele acredita que poderia ser melhorado. “Acho que deveriam nos valorizar mais — somos muito esquecidos.”

Jairo Rodrigues da Silva, 49 anos

Talvez por trabalharem nas ruas e não em um escritório, algumas pessoas tenham a arrogância de achar que os garis são obrigados a fazer-lhes suas vontades. O mineiro de 49 anos Jairo Rodrigues da Silva disse que até cocô de cachorro já falaram para ele recolher. “Eu acho que isso faz parte da cultura, da educação. Quando se tem uma boa cultura a educação ela é diferenciada”, constata o gari que trabalha no ramo há 16 anos.

Na Avenida Independência se encontra uma seção da Companhia de Urbanização do Município de Goiânia (Comurg). É em um desses locais que os garis comparecem para baterem o ponto, pegarem seu material de trabalho e irem para as ruas.

A sede da Avenida  Independência é uma casa bem sucateada. Muito simples, os sofás que tinham lá estavam todos com o estofamento saindo, alguns davam para ver até a madeira. O lugar é pequeno e abafado para tantos garis que se aglomeravam conforme iam chegando e ainda tinham vários instrumentos de trabalho.

Elenir “Paloma” Rodrigues, 55 anos

Entre tantos garis, está Elenir Rodrigues ou Paloma, como muitos a chamam. Ela está toda maquiada, de cílios postiços e batom vermelho. Alegre e comunicativa, começa a vestir seu uniforme para ir para as ruas. “Amo o que eu faço, amo a minha empresa, porque é daqui que eu tiro o sustento da minha casa”, afirma. Paloma tem 55 anos, é de Trindade, mas mora em Goiânia desde criança. Trabalha há 15 anos como gari e ainda não consegue entender porquê algumas pessoas os tratam tão mal. “Deve ser porque a gente mexe com lixo, só pode”, diz.

Paloma contou sobre um episódio que viveu certa vez, durante seu expediente. “Uma vez nós chegamos numa casa e pedimos água. Aí uma menina que era empregada doméstica veio com uma jarra e seis copos, e eu sempre tive vergonha fico mais é para trás. Na hora que nós fomos entregar os copos ela falou ‘não, não, não, pode jogar no lixo’. Aí nós pegamos o copo para nós.” Com o trabalho de gari, Paloma já conseguiu montar sua casa.

Wenderson Alves Ferreira, 43 anos

Apesar da maioria dos entrevistados ter concluído no máximo o ensino médio, houve uma exceção. Wenderson Alves Ferreira, de 43 anos, é professor de história, além de gari. Para ele é tranquilo conciliar os dois empregos, só o público que muda. Resolveu virar gari para auxiliar nas despesas de casa.

O gari, Wenderson Alves Ferreira. Foto: Gabriella Oliveira

Wenderson acredita que o preconceito com os garis existe até mesmo entre os colegas de profissão. “Às vezes é a gente mesmo que traz esse preconceito. Muito desse olhar que as pessoas dirigem aos garis, muitos garis também têm com eles mesmos”. Em suas andanças pela cidade, ele acredita que o trânsito é horrível, que o governo deixa a desejar até mesmo no transporte público. Em seus 15 anos trabalhando como gari, ele acha os materiais precários demais. “Deve ter 12 anos que a empresa não oferece uma pazinha, uma vassourinha, deixa muito a desejar.”

Luiza Soares de Melo Alves, 61 anos

“Nunca me envergonhei. Nunca escondi que sou gari.” Quem diz isto é a idosa Luiza Soares de Melo Alves, de 61 anos. Ela trabalha há 15 anos como gari e com esse trabalho ajudou a formar os três filhos na Universidade Federal de Goiás. Ela conta que hoje em dia a discriminação com a sua profissão diminuiu, mas já ouviu pessoas falando que ela ganhava muito pouco para um trabalho tão ruim. “Se pra ela é ruim para mim não é e me serve muito”, responde.

Ainda existe no pensamento coletivo a ideia discriminatória de que trabalhar como gari é algo vergonhoso, sinônimo de fracasso. Muitos dos que pensam assim talvez não tenham parado para refletir que sem o trabalho dos garis, das pessoas que varrem e recolhem os lixos das ruas, a cidade ficaria insalubre. Quem iria ter o cuidado e a educação de deixar Goiânia limpa? Como Goiânia seria vista nos seus 88 anos sem o trabalho dos garis? Será que ela teria conseguido chegar até aqui com as ruas imundas?

Apesar do trabalho exaustivo e muito pouco valorizado, os garis cumprem um trabalho muito digno que é o de cuidar da sua própria cidade. Varrer a sujeira, recolher lixos, cortar a grama, é algo que fazemos diariamente dentro de nossas casas e que os garis se dispuseram a fazer também, pela sua cidade, pelas pessoas.

Os garis são flâneur. Andam e veem tudo o que acontece em Goiânia, mas continuam sendo tão invisíveis aos olhos de quem passa. As observações que eles fazem sobre a cidade, suas constatações, suas queixas refletem a Goiânia idosa de 88 anos que ainda tem tanto para aprender.

Talvez a figura do gari nos tempos de hoje seja como Baudelaire disse em seu poema “O pintor do mundo moderno”: “Estar fora de casa, e, contudo, sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais que a linguagem não pode definir senão toscamente”.

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