Goiânia ainda tem jeito de interior? Aos 93 anos, capital enfrenta os desafios de uma metrópole
17 outubro 2026 às 21h00

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Goiânia chega aos 93 anos carregando duas cidades que convivem no mesmo território. Uma nasceu do desejo de construir uma capital moderna, com avenidas planejadas, edifícios monumentais, praças e áreas verdes. A outra foi sendo moldada pelo crescimento populacional, pela expansão dos bairros, pela verticalização e pelas necessidades de milhões de pessoas que passaram a encontrar na capital oportunidades de trabalho, estudo, moradia e uma nova vida.
Essa transformação está nas grandes avenidas, nos prédios que mudaram a paisagem urbana, nos parques que se tornaram pontos de encontro e também nos congestionamentos que atravessam a rotina de quem precisa se deslocar diariamente. Está nas lembranças de quem viu a cidade crescer e nas experiências de quem chegou de outros municípios em busca de oportunidades. Está, ainda, nas diferenças entre a Goiânia imaginada por seus idealizadores e aquela que os moradores experimentam todos os dias.
Para alguns moradores, Goiânia permanece um lugar acolhedor, com oportunidades, áreas verdes e uma qualidade de vida que merece ser preservada. Para outros, os congestionamentos, as dificuldades de atendimento na saúde pública, as condições de trabalho na educação e a necessidade de melhorar a segurança mostram que a capital ainda tem um longo caminho pela frente.
As avaliações não são necessariamente contraditórias. Elas revelam diferentes experiências de uma cidade que cresceu, recebeu novos moradores, modificou sua paisagem e passou a lidar com necessidades muito maiores do que aquelas previstas quando seu primeiro plano urbanístico foi concebido.
Nerivon Luis de Aguiar, de 43 anos, é um dos moradores que mantém uma relação afetiva com a capital. Natural de Santa Terezinha de Goiás, ele chegou a Goiânia aos 16 ou 17 anos e, há 24 anos, trabalha no mesmo ponto comercial, no Parque Areião. A trajetória profissional e pessoal construída nesse período ajuda a explicar a avaliação positiva que faz da cidade.
“A qualidade de vida de Goiânia sempre foi e sempre vai ser boa”, afirma.
Para Nerivon, a maneira como os moradores recebem quem chega de outras localidades é uma das principais características da capital. “Nós, goianos, somos muito acolhedores”, diz.
Ele acredita que a receptividade contribui para tornar Goiânia um lugar agradável tanto para quem nasceu na cidade quanto para aqueles que vieram em busca de trabalho e novas oportunidades. Depois de mais de duas décadas vivendo na capital, Nerivon demonstra gratidão pela trajetória que construiu e não esconde o orgulho de suas origens.
“Eu só quero agradecer a Deus por ter nascido goiano e quero falar também que no próximo [ano] eu quero ser goiano de novo”, afirma, em referência à relação que mantém com Goiás.

A experiência do comerciante representa uma das faces da capital: a cidade que acolhe, oferece oportunidades e permite a construção de vínculos. Mas há também o cotidiano de quem vê as dificuldades aumentarem à medida que a população cresce e a estrutura urbana precisa responder a demandas cada vez mais complexas.
A arquiteta, urbanista e pesquisadora da história de Goiânia, Narcisa Abreu Cordeiro, considera fundamental distinguir o crescimento físico de uma cidade do desenvolvimento que efetivamente melhora a vida de seus habitantes.
“Crescer significa ampliar a população, as construções e as atividades econômicas. Desenvolver-se significa também melhorar as condições de vida, garantir mobilidade, preservar o meio ambiente e proporcionar oportunidades mais equilibradas à população”, afirma.
A diferença entre essas duas dimensões ajuda a compreender a história de Goiânia e os desafios que a capital enfrenta aos 93 anos. A cidade ampliou sua estrutura econômica, consolidou serviços, ganhou novos bairros e se tornou referência regional. Entretanto, o crescimento também trouxe problemas relacionados à mobilidade, à distribuição de serviços públicos, à ocupação do território e à preservação ambiental.
“Minha preocupação é que o crescimento físico nem sempre foi acompanhado pela mesma atenção à qualidade de vida”, avalia Narcisa.
A observação encontra eco nas experiências dos moradores entrevistados. Enquanto Nerivon destaca o acolhimento e a qualidade de vida, Bruno Amaral, Elizaine Dias Silva e Georton Lopes apontam dificuldades que interferem diretamente na rotina. As falas mostram que avaliar Goiânia exige olhar para além de suas construções e de seus indicadores de crescimento. É preciso compreender como a cidade funciona para quem vive nela.
Uma capital criada para representar o futuro
A história de Goiânia começa antes da construção de suas primeiras avenidas. A transferência da capital de Goiás, até então sediada na antiga Vila Boa, atual Cidade de Goiás, era discutida desde o século XIX. Entre os argumentos favoráveis à mudança estavam as dificuldades de comunicação, as condições da antiga sede administrativa e a necessidade de estabelecer uma capital alinhada às transformações econômicas e políticas do Estado.
A proposta ganhou força depois da Revolução de 1930, quando Pedro Ludovico Teixeira assumiu o governo goiano como interventor. A construção de uma nova capital também representava uma tentativa de romper com estruturas políticas tradicionais e estabelecer um novo centro de decisões administrativas.
A região próxima ao povoado de Campinas foi escolhida para receber a cidade. Em 24 de outubro de 1933, Pedro Ludovico lançou a pedra fundamental de Goiânia, data que se tornou o marco histórico de sua fundação. A inauguração oficial ocorreu em 5 de julho de 1942, durante o chamado Batismo Cultural, quando a capital recebeu eventos e representantes de diferentes partes do país.

O projeto urbanístico inicial ficou a cargo do arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima. Posteriormente, Armando de Godoy contribuiu para a reformulação de partes do plano, especialmente na concepção do Setor Sul.
A nova capital foi idealizada para simbolizar a modernidade. A organização das avenidas, a disposição dos espaços cívicos e a concentração de edifícios administrativos expressavam o desejo de construir uma cidade planejada, capaz de representar uma nova etapa para Goiás.
As avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins ajudaram a estruturar o núcleo central e estabeleceram conexões com a Praça Cívica, onde foram implantados edifícios públicos importantes. A arquitetura Art Déco, presente em construções desse período, tornou-se uma das marcas mais reconhecíveis de Goiânia.
A concepção urbanística também incorporava preocupações com a circulação, a organização dos espaços residenciais e a presença de áreas verdes. A cidade deveria expressar modernidade não apenas pela aparência dos edifícios, mas também pela organização de seu território.
Jacira Rosa Pires, doutora em Teoria e História da Arquitetura pela Universidade Politécnica da Catalunha e pesquisadora da história urbana de Goiânia, estudou essa formação ao longo de sua trajetória profissional. Ela trabalhou no Instituto de Planejamento Municipal da Prefeitura de Goiânia entre 1974 e 1979 e voltou à instituição em 1998, quando assumiu a Diretoria de Planejamento Urbano. Também atuou na Companhia de Habitação de Goiás e foi professora de Arquitetura e Urbanismo na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás).
Ao analisar a concepção original da capital, Jacira explica que o planejamento expressava uma visão específica de cidade.
“O projeto de Attilio Corrêa Lima expressava uma concepção de capital na qual a geometria urbana, a monumentalidade dos espaços cívicos e a hierarquia viária contribuíam para afirmar o poder público e a modernidade”, afirma.

A urbanista também destaca a contribuição posterior de Armando de Godoy, que ampliou essa perspectiva no Setor Sul ao propor uma relação mais próxima entre moradia, jardins e espaços coletivos.
A história do planejamento de Goiânia, portanto, não se resume à construção de avenidas ou à escolha de estilos arquitetônicos. Ela envolve uma concepção sobre como as pessoas deveriam circular, morar e conviver. O projeto original estabeleceu referências importantes, mas não poderia prever integralmente as transformações econômicas, demográficas e sociais que ocorreriam nas décadas seguintes.
Com a expansão populacional, novos bairros surgiram e a ocupação urbana ultrapassou os limites inicialmente previstos. A capital passou a exigir uma infraestrutura muito mais ampla, com serviços de transporte, saneamento, saúde, educação e habitação capazes de atender a uma população crescente.
Para Jacira, o crescimento não deve ser interpretado simplesmente como uma negação do projeto original. A cidade conservou elementos estruturadores importantes, mas modificou profundamente a maneira como seus espaços se relacionam.
O crescimento de Goiânia não deve ser visto simplesmente como a negação do plano original. A cidade conservou elementos estruturadores de grande valor, mas modificou profundamente suas relações espaciais, ambientais e sociais, explica.
A urbanista identifica uma contradição nesse processo: “A grande contradição de Goiânia é que ela preservou parte da forma de uma cidade planejada, mas perdeu parcela importante da capacidade de realizar, de maneira integrada, os princípios que orientaram sua concepção”.
Essa análise ajuda a compreender por que a preservação histórica não pode se limitar aos edifícios antigos. A relação entre ruas, praças, parques, córregos, arquitetura e vida coletiva também faz parte do patrimônio urbano.
Jacira sintetiza essa ideia ao afirmar que preservar Goiânia exige uma visão integrada da cidade.
Preservar Goiânia significa, portanto, ir além da proteção de seus monumentos e de seu traçado histórico. Significa recuperar a compreensão da cidade como um sistema integrado, no qual a paisagem natural, a ocupação urbana, a mobilidade e os espaços de convivência devem participar de um mesmo projeto de qualidade urbana.
Para Jacira, os problemas que Goiânia enfrenta hoje precisam ser compreendidos a partir de sua trajetória. A cidade nasceu de um projeto de planejamento, mas sua expansão posterior passou a responder também a interesses econômicos, pressões imobiliárias, crescimento populacional e decisões políticas que nem sempre estiveram articuladas a uma visão de conjunto.
“Ao longo das últimas cinco décadas, a expansão dos loteamentos, a ocupação de áreas periféricas e a concentração de atividades em determinadas regiões contribuíram para uma cidade desigual. A localização da moradia passou a determinar, em grande medida, o tempo de deslocamento, o acesso aos serviços e as oportunidades disponíveis para cada cidadão”.
Na mobilidade, o crescimento territorial sem integração suficiente entre habitação, transporte coletivo e localização dos empregos ampliou os deslocamentos cotidianos. Na dimensão ambiental, a impermeabilização do solo, a pressão sobre os cursos d’água e a fragmentação das áreas verdes revelam os custos de uma urbanização que nem sempre considerou a estrutura natural do território e tão pouca a legistaçao.
A cidade que cresceu e mudou a rotina dos moradores
A transformação de Goiânia pode ser percebida nas grandes obras, na verticalização de bairros e na abertura de novas áreas residenciais. Mas também aparece em situações simples: no tempo gasto para chegar ao trabalho, na dificuldade de atravessar determinados corredores viários e na mudança das relações entre vizinhos.
Bruno Amaral, de 37 anos, nasceu em Goiânia e acompanhou as mudanças ao longo de toda a vida. Ao avaliar a administração municipal, reconhece avanços na infraestrutura viária, mas também manifesta insatisfação com questões relacionadas aos servidores públicos.
“Eu acho que avançou bastante, em alguns pontos, mas em outros deixou a desejar”, afirma.
Bruno considera que houve melhorias em determinadas vias, mas critica o que descreve como perseguição a servidores que fizeram críticas à gestão municipal.
A gente viu que melhorou a questão de infraestrutura, ele melhorou bastante a questão das estradas, ele fez a reformulação de várias vias em Goiânia, só que a gente teve uma decepção com ele em relação aos servidores públicos, relata.

A avaliação mostra que a percepção de progresso depende de diferentes dimensões da vida urbana. Uma obra pode melhorar determinado trajeto, mas não resolve necessariamente os problemas relacionados à gestão pública, à saúde, à educação ou à segurança.
Para Narcisa, a modernização também alterou a maneira como os moradores se relacionam com os espaços coletivos. Ao recordar a Goiânia de cinco décadas atrás, a pesquisadora destaca as conversas nas calçadas, as brincadeiras nas ruas mais tranquilas e a presença de moradores nas praças e nos jardins.
Ao recordar Goiânia de cinquenta anos atrás, penso nas relações de vizinhança, nas conversas nas calçadas, nas brincadeiras nas ruas mais tranquilas e na presença dos moradores nas praças e nos jardins. A cidade era vivenciada de outra maneira, e muitos espaços cotidianos favoreciam encontros espontâneos, afirma.
A pesquisadora pondera que essa lembrança não deve transformar o passado em um período idealizado.
Não quero idealizar o passado, pois Goiânia também enfrentava limitações e desigualdades. Entretanto, percebo que a modernização alterou profundamente a relação entre as pessoas e os espaços urbanos.
Na avaliação dela, a mudança no uso das ruas é um dos sinais mais evidentes dessa transformação.
Quando a rua passa a ser vista predominantemente como lugar de circulação de veículos, perde parte de sua função como ambiente de convivência. Quando uma praça deixa de fazer parte da rotina dos moradores, enfraquece-se também uma oportunidade de encontro entre gerações.
A expansão urbana e o aumento das distâncias contribuíram para que os deslocamentos motorizados ocupassem uma posição cada vez mais importante na rotina de parte da população. Em determinados lugares, caminhar e permanecer nos espaços públicos tornou-se menos confortável, enquanto os encontros espontâneos passaram a dividir espaço com uma dinâmica urbana mais acelerada.
Isso não significa que a convivência tenha desaparecido. Ela se reorganizou em parques, centros culturais, novos bairros e outros ambientes. O problema, segundo Narcisa, está na dificuldade de garantir que esses espaços sejam acessíveis a todos.
Defendo uma concepção de urbanismo que valorize a escala humana. Calçadas contínuas, arborização, travessias seguras, praças acolhedoras e equipamentos culturais próximos dos moradores não são detalhes secundários. São elementos que contribuem para a qualidade de vida, afirma.
Para a pesquisadora, recuperar a função social das ruas e dos bairros é uma maneira de aproximar a cidade de seus moradores.
Acredito que precisamos devolver à rua e ao bairro parte de sua função social. Uma cidade não deve ser apenas um lugar por onde passamos, mas um lugar onde podemos viver e estabelecer vínculos.
A discussão sobre a convivência urbana se conecta a outra questão recorrente nas entrevistas: a mobilidade. O crescimento da cidade aumentou o número de deslocamentos e tornou o trânsito um dos principais desafios do cotidiano.
Trânsito: o problema que acompanha a expansão
Entre os problemas apontados pelos moradores, o trânsito aparece de maneira recorrente. A expansão dos bairros, o aumento do número de veículos e as distâncias entre as regiões residenciais e os principais locais de trabalho contribuem para uma rotina em que o tempo de deslocamento interfere diretamente na qualidade de vida.
Bruno reconhece que algumas intervenções melhoraram a circulação em determinados pontos, mas considera que ainda existem gargalos importantes.
“A gente viu que melhorou um pouco a questão das vias. Poder virar livremente à direita em alguns pontos foi um acerto, mas, por exemplo, ali na Terceira Radial é um problema sério, junto com a BR, que não se resolve nunca”, relata.
O morador afirma que o congestionamento na região se intensifica durante a tarde e prejudica quem vive nas proximidades do Jardim Botânico.
“Congestionam ali a partir das 16h até chegar no Jardim Botânico e não resolve. Para quem mora naquela região ali, um problema sério é o trânsito”, diz.
Para Bruno, a solução não depende exclusivamente de novas obras viárias. Ele defende alternativas que reduzam a dependência do automóvel, como o incentivo ao uso da bicicleta e a melhoria do transporte coletivo.
“Em questão de mobilidade, eu incentivo o ciclismo e o transporte público de qualidade. Se fosse de mais qualidade, as pessoas usariamm e diminuiriam um pouco o uso do carro. Isso também seria interessante”, afirma.
Elizaine Dias Silva, de 40 anos, também considera o trânsito um problema importante. Ela veio de Chapadão do Céu para Goiânia e reconhece a hospitalidade que encontrou na capital, mas avalia que a dimensão da cidade e os congestionamentos dificultam a rotina.
“Eu não sei o que acontece com o trânsito daqui, porque uma cidade desse tamanho não precisava ter esse trânsito todo”, afirma.

A professora reconhece que as distâncias são uma característica de uma capital de grande porte, mas considera que deveria haver soluções para facilitar a circulação, especialmente nas regiões centrais.
“Porque além das coisas serem longe pelo tamanho da cidade e tudo, a gente enfrenta sérios problemas, principalmente nas regiões centrais”, relata.
Georton Lopes, de 52 anos, também cita o trânsito entre os principais problemas da capital. Ele chama a atenção para os trechos que considera perigosos, especialmente em vias de grande circulação de veículos pesados.
“Agora, o trânsito tem muito local ruim. Tem muito local perigoso. Por exemplo, Avenida Perimetral Norte, a própria BR-153, com trânsito de caminhões pesados passando por ali em diversos horários”, afirma, ao manifestar também preocupação com os acidentes envolvendo motociclistas
As experiências de Bruno, Elizaine e Georton mostram que a mobilidade não é apenas uma questão de engenharia viária. Ela influencia o tempo disponível para a família, o acesso ao trabalho e a possibilidade de aproveitar os espaços de lazer.
Narcisa relaciona essas dificuldades às escolhas acumuladas ao longo da história urbana. A expansão das moradias para regiões mais distantes, a distribuição dos serviços e a concentração de atividades em determinadas áreas contribuíram para aumentar as distâncias percorridas por parte da população.
“Quando uma família precisa percorrer grandes distâncias para trabalhar, estudar ou buscar atendimento, a organização urbana impõe custos que vão além do dinheiro: consome tempo, reduz oportunidades e interfere na convivência familiar”, afirma.
A pesquisadora defende que a mobilidade seja planejada em conjunto com as políticas de habitação e de distribuição dos equipamentos públicos.
“Na minha visão, o planejamento deve procurar aproximar moradia, emprego e serviços públicos, além de melhorar a integração metropolitana e distribuir os investimentos de forma mais equilibrada.”
A reflexão aponta para um desafio que ultrapassa os congestionamentos. Uma cidade pode ampliar suas avenidas, mas continuará impondo longos deslocamentos se os moradores precisarem percorrer grandes distâncias para trabalhar, estudar ou ter acesso a serviços essenciais.
Parques e áreas verdes: uma das marcas da capital
Apesar das dificuldades, os moradores também reconhecem qualidades que contribuem para a identidade de Goiânia. Entre elas, a presença de parques, a arborização e o clima durante parte do ano aparecem como aspectos positivos.
Bruno considera os parques um dos principais pontos fortes da capital. Ele destaca a quantidade de espaços disponíveis, embora avalie que alguns precisam de melhorias de infraestrutura e segurança. “Eu acho muito interessante os parques de Goiânia e o jeito que os moradores os consomem”, afirma.
O morador cita o Jardim Botânico, próximo de sua residência, como um local que poderia receber melhorias. “Tem vários parques em Goiânia, apesar que eu acho que há muito o que melhorar. O Jardim Botânico, por exemplo, que é o que eu moro mais perto, deve melhorar a questão da segurança, a iluminação que acho precária, mas eu acredito que os parques de Goiânia são os pontos positivos de Goiânia hoje em dia”, relata.
Georton também coloca os parques entre as vantagens da capital. Para ele, a paisagem e o clima contribuem para tornar a cidade agradável. “A cidade em si é bonita. O clima, uma parte do ano é agradável, outra parte é um pouco seca, mas boa parte do ano é agradável”, afirma.
Ao falar sobre o que considera positivo em Goiânia, ele acrescenta: “Segurança e os parques”.
A presença de áreas verdes faz parte da identidade urbana construída ao longo das décadas. Entretanto, a preservação ambiental exige mais do que manter parques conhecidos. Também depende da proteção de nascentes, córregos, matas e da arborização das ruas, além da distribuição desses espaços entre as diferentes regiões.
Jacira Rosa Pires defende que a paisagem natural seja compreendida como parte da estrutura urbana. Na visão dela, os espaços verdes não devem ser tratados como elementos isolados, mas como componentes de um sistema que envolve circulação, ocupação do solo e convivência.
Essa concepção também aparece nas respostas de Narcisa sobre as prioridades para o futuro da capital. A pesquisadora considera que Goiânia precisa proteger sua estrutura ambiental e reconhecer que a natureza deve participar do planejamento desde o início de cada projeto.
“Goiânia precisa valorizar suas nascentes, seus cursos d’água, seus parques, suas matas e sua arborização como elementos essenciais da infraestrutura urbana”, afirma.
Para ela, a natureza não pode ocupar apenas os espaços que restam depois da expansão das construções. “A natureza não deve ocupar apenas os espaços que sobram da urbanização; precisa participar da organização da cidade desde o início de cada projeto.”
A preservação das áreas verdes está ligada ao conforto ambiental, à qualidade dos espaços públicos e à possibilidade de os moradores encontrarem lugares de convivência próximos de suas casas. Por isso, não basta considerar apenas a quantidade de parques existentes. Também é necessário avaliar as condições de acesso, a manutenção e a distribuição territorial.
A presença do verde, reconhecida por Bruno e Georton como uma qualidade da capital, é também um patrimônio que exige planejamento para continuar fazendo parte da vida cotidiana.
Saúde pública: a demanda que preocupa os moradores
Se os parques aparecem entre as características positivas de Goiânia, a saúde pública está entre as áreas que mais preocupam os entrevistados. As avaliações variam conforme as experiências pessoais, mas as falas revelam uma preocupação com a capacidade de atendimento da rede pública e com as dificuldades enfrentadas por quem precisa de assistência.
Elizaine considera que a saúde deveria ser uma das prioridades da capital nos próximos anos. Para ela, o tamanho da cidade exige uma estrutura capaz de atender às necessidades da população. “Eu acho que para ela ser uma saúde de excelência, ela deveria atender todo mundo que precisa e nem sempre atende”, afirma.
A professora conta que, diante da necessidade de atendimento, muitas pessoas acabam recorrendo à rede particular, seja pela urgência de resolver um problema, seja pela dificuldade de encontrar uma resposta na rede pública.
“Assim, eu tenho um pouco a falar da saúde daqui, porque assim, como por ser uma cidade grande, toda vez que a gente precisa, a gente tem que correr para um particular ou alguma coisa assim”, relata.
Ela reconhece que a rede enfrenta uma demanda elevada, mas considera que a oferta precisa melhorar para atender a todos que dependem do serviço.
Georton também coloca a saúde entre os principais problemas da capital. Ao ser questionado sobre as áreas que mais precisam avançar, responde diretamente: “Saúde”.
O morador faz críticas ao atendimento nos Centros de Atenção Integrada à Saúde, os CAIS, embora reconheça melhorias que percebeu nos hospitais de urgência e emergência.
Georton diz que não utiliza regularmente o Sistema Único de Saúde, mas relata que, quando precisou recorrer ao serviço público, encontrou dificuldades. “Graças a Deus, não. Mas quando precisou, foi complicado”, afirma.

Na avaliação dele, a situação dos CAIS é diferente daquela que percebe nos hospitais de urgência e emergência, onde considera que houve avanços.
“Eu acredito que, graças a Deus, eu não utilizo, mas o atendimento, por exemplo, dos hospitais de emergência e de urgência, igual o Hugo e o Hugol, melhoraram bastante. Mas os CAIS ainda são bem precários.”
Bruno também demonstra preocupação com a assistência à saúde. Ele observa que moradores têm procurado serviços em Aparecida de Goiânia para realizar exames e conseguir atendimento.
“A gente vê que o pessoal tem ido muito fazer exames em Aparecida de Goiânia do que em Goiânia”, afirma.
O morador considera que esse movimento merece atenção porque pode indicar dificuldades na oferta de serviços na capital.
É uma preocupação, porque vê que o pessoal fala, que a gente tem um contato que em Aparecida tá melhor do que em Goiânia na questão do serviço público, tanto fazer exames como de atendimento do SUS mesmo, relata.
Nerivon apresenta uma avaliação um pouco diferente. Ele considera que a saúde tem aspectos positivos, mas reconhece que ainda existem problemas que precisam ser enfrentados.
Nerivon apresenta uma avaliação ambivalente sobre a saúde pública. Primeiro, reconhece que a área enfrenta dificuldades. “A saúde é uma situação mais precária um pouquinho”. Em seguida, ressalta que também identifica aspectos positivos no serviço. “Mas também a qualidade da saúde é boa, sim”. A diferença entre as duas declarações indica que sua percepção combina críticas e reconhecimento.
As declarações mostram que as experiências com a rede pública são diversas. Elas não substituem uma avaliação técnica dos serviços municipais, mas ajudam a compreender como o acesso à saúde interfere diretamente na percepção dos moradores sobre a qualidade de vida.
O crescimento urbano exige planejamento contínuo para distribuir unidades de atendimento, profissionais e equipamentos conforme as necessidades da população. Quando a expansão dos bairros não é acompanhada pela oferta de serviços, os moradores podem enfrentar deslocamentos maiores e dificuldades para conseguir assistência.
A questão também se relaciona à desigualdade territorial. O acesso à saúde pode variar conforme a localização das unidades e a disponibilidade de serviços em cada região.
Narcisa considera que a distribuição equilibrada dos equipamentos públicos precisa fazer parte do planejamento urbano. O desenvolvimento da cidade, nessa perspectiva, deve ser avaliado também pela capacidade de garantir acesso aos serviços essenciais, independentemente do endereço dos moradores.
Educação: a realidade de quem trabalha dentro da escola
Na educação, as avaliações também revelam experiências distintas. Nerivon considera positiva a qualidade do ensino público estadual em Goiás e relaciona sua percepção às mudanças que acompanhou nos últimos anos. Sua avaliação se refere à rede estadual, enquanto Elizaine relata a experiência de trabalho na rede municipal de Goiânia.
“Depois do Ronaldo Caiado, foi muito boa O Ronaldo Caiado deu um upgrade na educação aqui do nosso Estado. Então, muito boa, sim”, afirma.
Elizaine, por outro lado, fala a partir da experiência de quem trabalha diretamente em sala de aula na rede municipal de Goiânia. Professora contratada, ela reconhece aspectos positivos no ensino, mas considera que ainda existem problemas relacionados à organização do trabalho e às condições oferecidas aos profissionais.
Olha, por se tratar de um grande centro, digamos assim, é uma educação atenciosa. Mas eu acho que tem muito para melhorar também, afirma.
A professora destaca a quantidade de alunos nas salas e o volume de tarefas burocráticas que precisam ser cumpridas pelos profissionais. “Às vezes, por ser uma cidade numerosa, as salas muito cheias”, relata.
Para ela, a sobrecarga de atividades administrativas pode reduzir o tempo dedicado ao trabalho pedagógico.
Acaba que tem muita cobrança do burocrático, enquanto a educação em si acaba ficando um pouco de lado, porque é muito a papelada para preencher, é muito material estruturado, as coisas todas. A educação em si acaba ficando um pouco de lado”, afirma.
A crítica não se limita à quantidade de estudantes. Elizaine considera que é necessário rever as condições de trabalho dos professores e garantir que as exigências administrativas não prejudiquem a atividade em sala de aula.
Ela também chama a atenção para a situação dos profissionais contratados temporariamente, que, na sua avaliação, precisam receber melhores condições de trabalho, preparação e reconhecimento.
“Eu creio que eu buscaria uma melhora para os professores, uma valorização melhor, um treinamento para os professores que entram”, afirma.
A professora conta que atua como contratada, e não como concursada, e considera que esses profissionais não recebem a devida valorização.
“Hoje, sou professora contratada, não concursada, e sinto que falta valorização desses profissionais. A educação depende dos professores contratados para funcionar, mas, infelizmente, não recebemos o devido reconhecimento”, relata.
Ela afirma que, em determinadas situações, profissionais assumem turmas sem o preparo e o apoio que consideram necessários.
“Muitas vezes, falta a devida valorização e preparação. O professor é colocado em uma sala de aula sem estar devidamente preparado para aquela realidade e precisa encontrar uma forma de lidar com a situação por conta própria”, afirma.
Elizaine defende que os professores tenham condições de exercer suas funções e participem mais das discussões sobre a educação. “Eu estou pedindo melhores condições, que a gente tenha mais voz”, afirma.
A professora acrescenta que é necessário um olhar mais humano para os profissionais que estão diariamente em contato com os estudantes.
As declarações mostram que a qualidade da educação não depende apenas da estrutura física das escolas ou da disponibilidade de materiais. Também está relacionada às condições de trabalho, à formação dos profissionais e ao reconhecimento de quem atua diretamente com os estudantes.
A experiência de Elizaine acrescenta uma dimensão importante ao debate sobre o futuro de Goiânia: os indicadores gerais não são suficientes para explicar todas as dificuldades vividas dentro das escolas. É necessário considerar a rotina dos profissionais e as condições em que o ensino acontece.
Em uma capital que continua crescendo, a educação precisa acompanhar a distribuição da população pelos bairros. A abertura de novas áreas residenciais exige atenção à oferta de vagas, à estrutura das unidades e à disponibilidade de profissionais.
A mesma lógica vale para a saúde. Os serviços públicos precisam ser planejados de acordo com as necessidades reais dos moradores, e não apenas com base no crescimento físico da cidade.
Segurança e os espaços de convivência
A segurança também aparece entre as preocupações dos moradores, embora as avaliações sejam diferentes. Bruno afirma que ainda existe uma sensação de insegurança em Goiânia, apesar de considerar que a situação mudou em comparação há 15 anos.
“A gente ainda se sente um pouco inseguro em Goiânia, não como há 10, 15 anos atrás, mas ainda assim é um pouco inseguro”, relata.
O morador considera que ainda há espaço para melhorias na segurança municipal, embora reconheça que não acompanha diretamente todos os aspectos da área.
Georton, por sua vez, coloca a segurança entre as vantagens da capital. Ao falar sobre o que considera positivo em Goiânia, ele menciona os parques, a paisagem e a segurança.
A diferença entre as avaliações mostra que a experiência urbana não é igual para todos. O sentimento de segurança pode variar conforme a região, os horários de circulação e as situações vividas pelos moradores.
A questão também se relaciona à organização dos espaços públicos. Ruas bem iluminadas, calçadas conservadas, praças ocupadas e equipamentos próximos podem contribuir para uma experiência urbana mais acolhedora, embora não substituam as políticas específicas de segurança pública.
Narcisa defende que os espaços urbanos sejam planejados para favorecer a convivência. A rua, em sua concepção, deve permitir que as pessoas caminhem, encontrem vizinhos, utilizem o comércio local e participem da vida comunitária.
Essa perspectiva não elimina a necessidade de investimentos em segurança, mas amplia a compreensão sobre o que torna um bairro agradável e funcional.
A expansão dos condomínios fechados também modificou a maneira como parte da população organiza sua vida residencial. A procura por controle de acesso e ambientes protegidos se relaciona, entre outros fatores, à preocupação com a segurança. Ao mesmo tempo, o modelo levanta discussões sobre a integração entre bairros e a relação dos moradores com os espaços públicos.
A questão também aparece na entrevista de Antônio Carlos da Costa, presidente do SecoviGoiás, que acompanha as transformações do mercado imobiliário e da maneira de morar na capital. Nascido em Goiânia em 1959, ele vivenciou diferentes etapas da expansão urbana e considera que as escolhas residenciais acompanham as mudanças da sociedade.
Ao discutir a formação dos condomínios horizontais, Antônio Carlos relaciona esse modelo à preocupação com a segurança e à busca por ambientes de convivência.
O presidente relaciona a expansão dos condomínios fechados à preocupação com a segurança pública. Segundo ele, a busca por maior proteção levou parte da população a optar por empreendimentos com controle de acesso.
O dirigente defende que a análise desses empreendimentos considere também os serviços, os empregos e as relações econômicas que podem surgir no entorno. Na sua avaliação, condomínios e bairros planejados não devem ser examinados apenas como espaços residenciais isolados.
A questão da segurança, portanto, envolve tanto a proteção individual quanto a qualidade dos espaços coletivos e a integração entre as diferentes partes da cidade.
Habitação: morar também significa ter acesso à cidade
A expansão de Goiânia modificou não apenas a paisagem, mas também a localização das moradias, dos empregos e dos serviços. A abertura de novos bairros e a construção de empreendimentos residenciais ampliaram as possibilidades de habitação, mas tornaram mais complexa a tarefa de integrar as diferentes regiões.
Jacira Rosa Pires considera que a política habitacional precisa ir além da construção de unidades residenciais. É necessário pensar a moradia em relação à infraestrutura, aos serviços e às oportunidades existentes no entorno.
“O desafio contemporâneo consiste em superar a ideia de que a política habitacional se resume à produção de unidades residenciais”, afirma.
A urbanista defende que a habitação seja integrada à cidade existente, com aproveitamento de áreas dotadas de infraestrutura, ocupação adequada de terrenos vazios e ampliação do acesso aos espaços públicos.
Em sua análise, a localização da moradia influencia o tempo disponível para outras atividades e as oportunidades que uma família consegue acessar.
“Em síntese, a expansão de Goiânia demonstrou que a localização da moradia é também uma questão de justiça urbana. A distância entre a casa e os serviços não é apenas geográfica: ela representa diferenças no acesso ao tempo livre, às oportunidades de trabalho, à convivência social e aos benefícios da vida urbana”, afirma.
A reflexão aponta para uma questão central: não basta construir casas e apartamentos se os moradores continuam distantes dos serviços essenciais e das oportunidades de trabalho.
Antônio Carlos da Costa também aborda a questão a partir da dinâmica do mercado imobiliário. Ele considera que a expansão de Goiânia precisa ser planejada para que a ocupação residencial seja acompanhada pela implantação de infraestrutura e pela geração de empregos.
Ao discutir a criação de novas áreas urbanas, o dirigente destaca a importância de planejar o território antes da implantação dos empreendimentos.
Ao discutir a criação de novas áreas urbanas, Antônio Carlos defende que o planejamento seja feito antes da ocupação do território. Na avaliação dele, antecipar esse processo é fundamental para o desenvolvimento das regiões e para a implantação da infraestrutura necessária.
Antônio Carlos defende que a implantação de novos bairros considere os serviços que serão necessários para atender à população.
“Você acaba trazendo para aquele local uma demanda de serviços grandes e a Prefeitura precisa também encaixar esse nível”, afirma, ao discutir a implantação de habitações sociais e a necessidade de garantir educação, saúde e segurança para os novos moradores.
O dirigente acrescenta que é importante aproximar a moradia das oportunidades de trabalho.
“Se a gente também, juntamente, pensa na geração de serviços próximos ao emprego, seria ideal, porque a pessoa que está mudando e tem uma casa própria, o ideal é que ela tenha também os serviços dela muito próximos ao trabalho”, afirma.
A fala evidencia um ponto de convergência entre a análise do mercado imobiliário e as preocupações dos urbanistas: a localização da moradia influencia diretamente a qualidade de vida.
Narcisa defende que o direito à habitação seja acompanhado pelo direito de usufruir da cidade. “Entendo o direito à cidade como o direito de usufruir de suas oportunidades independentemente do endereço em que uma pessoa consegue morar”, afirma.

Essa perspectiva permite avaliar a expansão urbana não apenas pela quantidade de habitações construídas, mas também pelas condições oferecidas aos moradores. A localização das escolas, dos postos de saúde, do comércio e das oportunidades de trabalho interfere no cotidiano e no tempo disponível para a vida familiar.
A discussão se torna ainda mais importante quando Goiânia é considerada em conjunto com os municípios de sua região metropolitana. Os deslocamentos, a oferta de empregos e o acesso aos serviços ultrapassam os limites administrativos. Por isso, as decisões sobre mobilidade, habitação e desenvolvimento precisam ser articuladas.
Mercado imobiliário e a mudança na maneira de morar
As transformações do mercado imobiliário ajudam a explicar parte da mudança na paisagem de Goiânia. A expansão horizontal, a construção de condomínios e a verticalização de determinados bairros alteraram a forma de ocupar o território e as relações entre moradia, trabalho e lazer.
Antônio Carlos da Costa acompanhou esse processo ao longo da vida. Na entrevista, ele relaciona as mudanças na maneira de morar às transformações no perfil das famílias e às novas necessidades da população.
“A mudança das formas de ocupação de solo, ela vem com a mudança das necessidades das pessoas”, afirma.
O dirigente considera que os empreendimentos imobiliários procuram responder às mudanças da sociedade, oferecendo opções diferentes conforme as necessidades dos moradores.
“O crescimento de Goiânia abriu oportunidades para muitas pessoas e impulsionou o empreendedorismo, com a criação de grandes projetos. À medida que o perfil da sociedade muda, os empreendedores buscam acompanhar essas transformações, desenvolvendo projetos cada vez mais complexos e voltados às novas necessidades da população”, relata.
A verticalização, os apartamentos compactos e os condomínios horizontais fazem parte dessa transformação. As escolhas residenciais passaram a responder a diferentes expectativas, desde a busca por praticidade até o desejo de morar em ambientes com espaços coletivos e controle de acesso.
Antônio Carlos também chama a atenção para a necessidade de equilibrar diferentes formas de ocupação. Em sua avaliação, a cidade precisa discutir como combinar empreendimentos verticais e horizontais e como distribuir a densidade populacional.
Ao falar sobre a verticalização, ele defende que o adensamento seja orientado pelo planejamento urbano, com atenção à infraestrutura disponível e à capacidade de atendimento das regiões. “Porém, o plano deveria preocupar com o adensamento médio de uma região”, afirma.
O dirigente considera que a concentração de moradores precisa ser compatível com a oferta de serviços, a disponibilidade de água e as condições de circulação.
“Chega num ponto de saturação que compromete a questão de água que a gente tem e, principalmente, o impacto de trânsito”, observa.
A análise mostra que a expansão imobiliária não pode ser avaliada apenas pela quantidade de empreendimentos lançados. A ocupação precisa ser acompanhada pela infraestrutura necessária para atender à população e manter a qualidade de vida.
Antônio Carlos também considera que a forma de morar mudou com as novas gerações. Ao recordar sua própria infância, descreve uma cidade em que as ruas permitiam maior convivência entre vizinhos.
Quando a gente compara a cidade do passado com a cidade do presente, é lógico que a gente entendeu, vamos dizer assim, aquela lacuna que tinha lá atrás. Eu ia para a rua jogar futebol no bairro popular, porque passava um carro a cada meia hora, afirma.
O dirigente reconhece que a transformação da cidade modificou as relações sociais e as expectativas dos moradores. “Então, esse marco dessa interação com os vizinhos ali se perdeu um pouquinho da cidade formal”, relata.
Para ele, a maneira de morar acompanha as mudanças nas necessidades das famílias. Há pessoas que procuram imóveis compactos, valorizam a praticidade e preferem gastar menos tempo com a manutenção da casa. Outras buscam espaços que ofereçam maior interação entre vizinhos.
Essa diversidade de escolhas exige planejamento para que os diferentes modelos residenciais possam coexistir sem comprometer a infraestrutura e a integração urbana.
Desenvolvimento econômico e geração de empregos
Ao discutir as prioridades para o futuro de Goiânia, Antônio Carlos da Costa defende a ampliação das oportunidades econômicas e considera que a industrialização pode contribuir para a geração de empregos e renda.
Na avaliação dele, a capital precisa superar a ideia de que a atividade industrial não tem espaço em sua estrutura econômica.
Antônio Carlos defende a diversificação da atividade industrial, incluindo segmentos ligados à tecnologia, como uma forma de ampliar as oportunidades econômicas e fortalecer a economia de Goiânia e de Goiás.
O presidente do Secovi considera que a ampliação da atividade econômica pode contribuir para melhorar a distribuição de renda e ampliar as oportunidades para a população.
“A industrialização é um desafio grande”, afirma, ao defender que o tema seja discutido entre o poder público e as entidades representativas do setor produtivo.
O dirigente também destaca a importância de pensar a geração de empregos em regiões que concentram grande número de moradores. Para ele, a instalação de atividades econômicas em áreas mais distantes dos principais centros pode contribuir para aproximar trabalho e moradia.
Ao citar a região Noroeste, Antônio Carlos destaca a concentração de moradores e defende a criação de empregos e oportunidades de renda na própria região. A proposta, segundo ele, ajudaria a aproximar as oportunidades econômicas de quem vive longe de outras áreas de emprego.
A proposta se relaciona à discussão sobre mobilidade e desigualdade territorial. Quando as oportunidades de trabalho se concentram em determinadas regiões, os moradores de bairros mais distantes precisam percorrer trajetos maiores, gastando tempo e recursos para chegar ao emprego.
A geração de atividades econômicas próximas das áreas residenciais pode contribuir para reduzir parte dessas distâncias, desde que acompanhada de planejamento e infraestrutura.
Antônio Carlos também defende que a discussão sobre o desenvolvimento considere a integração metropolitana. A capital não funciona de maneira isolada, e as decisões sobre empregos, habitação, transporte e serviços afetam municípios vizinhos.
Essa perspectiva amplia o debate sobre o futuro de Goiânia. O desenvolvimento econômico não deve ser medido apenas pela quantidade de empreendimentos ou pelo crescimento do mercado imobiliário, mas, também, pela capacidade de gerar oportunidades e melhorar as condições de vida da população.
Os próximos 50 anos: o que Goiânia precisa preservar e transformar
Às vésperas de completar 93 anos, Goiânia reúne conquistas, contradições e desafios que não podem ser compreendidos apenas pela comparação entre fotografias antigas e a paisagem atual. A cidade mudou porque sua população cresceu, a economia se transformou e as necessidades de quem vive nela se tornaram mais complexas.
Para Narcisa Abreu Cordeiro, as próximas décadas exigirão três compromissos fundamentais: equilíbrio ambiental, integração social e preservação da identidade histórica.
Ao definir as prioridades que considera essenciais, a pesquisadora destaca a proteção dos recursos naturais, a integração entre moradia, transporte e serviços públicos e a preservação do patrimônio arquitetônico e urbanístico.
“Se eu pudesse contribuir para a definição das três grandes prioridades de Goiânia para os próximos 50 anos, escolheria uma cidade ambientalmente equilibrada, socialmente integrada e consciente de sua identidade histórica”, afirma.
A primeira prioridade, segundo ela, é proteger e recuperar a estrutura ambiental da capital.
Goiânia precisa valorizar suas nascentes, seus cursos d’água, seus parques, suas matas e sua arborização como elementos essenciais da infraestrutura urbana.
A segunda é promover uma cidade mais acessível, com melhores condições de circulação e maior integração entre as regiões. “Quero uma cidade na qual os moradores tenham mais tempo para viver, conviver e participar da vida cultural”, afirma.
A terceira prioridade é preservar a identidade urbanística e arquitetônica da capital, preparando-a para o futuro. “Considero fundamental proteger seu patrimônio Art Déco, suas referências históricas, seus espaços públicos e a memória de seus idealizadores”, diz.
A pesquisadora ressalta que a preservação não deve ser confundida com a interrupção do desenvolvimento.
“Preservar não significa impedir a transformação. Significa reconhecer o que tem valor, compreender por que foi criado e encontrar maneiras de mantê-lo vivo em uma cidade que continua crescendo.”
Jacira Rosa Pires também considera necessário recuperar a compreensão da cidade como um sistema integrado. Sua trajetória no planejamento urbano reforçou a convicção de que habitação, transporte, saneamento, proteção ambiental e uso do solo precisam ser tratados de maneira articulada.
Antônio Carlos da Costa, por sua vez, aponta a mobilidade, a industrialização e os serviços prestados por concessionárias entre as questões que considera prioritárias para o futuro da capital.
Ele menciona a implantação do anel viário, que associa à melhoria da mobilidade e à criação de condições para novas oportunidades econômicas.
Na sequência, defende a industrialização como uma prioridade. O presidente do Secovi avalia que a falta de maior industrialização limitou a criação de empregos e oportunidades econômicas em Goiânia.
Antônio Carlos também defende maior diálogo e fiscalização na prestação de serviços por concessionárias e empresas monopolistas. Na avaliação dele, quando o consumidor não dispõe de alternativas, é necessário garantir canais de cobrança e proteção dos usuários.
As perspectivas dos três especialistas mostram que o futuro de Goiânia depende de decisões que ultrapassam uma única área de governo. Mobilidade, habitação, saúde, educação, segurança, desenvolvimento econômico e preservação ambiental precisam dialogar entre si.
Narcisa chama a atenção para a importância da continuidade administrativa. Uma cidade que depende de planejamento de longo prazo não pode abandonar suas prioridades a cada mudança de governo sem avaliar os resultados.
Defendo a continuidade do planejamento, acompanhada de transparência, participação social e avaliação dos resultados, afirma.
O planejamento precisa orientar investimentos, corrigir problemas e permitir que a população acompanhe o que está sendo feito. A existência de boas propostas não garante, por si só, que elas sejam executadas ou produzam os resultados esperados.
A história de Goiânia mostra que a cidade não é um projeto encerrado. É um território que se transforma continuamente e exige decisões capazes de conciliar necessidades imediatas com objetivos de longo prazo.
Uma cidade construída por quem vive nela

As diferentes experiências dos moradores mostram que Goiânia não pode ser definida por uma única avaliação. Para Nerivon, a capital é um lugar de acolhimento, trabalho e pertencimento. Para Bruno, é uma cidade que avançou em algumas áreas, mas ainda enfrenta congestionamentos e dificuldades relacionadas aos serviços públicos. Elizaine destaca os problemas da saúde e as condições de trabalho na educação. Georton reconhece dificuldades no atendimento público, mas valoriza os parques, a paisagem e a segurança.
Essas diferenças não diminuem a importância das falas. Pelo contrário: mostram que a cidade é vivida de maneiras distintas e que as decisões urbanas precisam considerar a diversidade das experiências de seus habitantes.
As análises de Jacira Rosa Pires e Narcisa Abreu Cordeiro ajudam a compreender como a história do planejamento continua presente nos desafios atuais. A concepção original de Goiânia permanece visível em parte do traçado urbano e do patrimônio arquitetônico, mas a expansão exige novas respostas para a mobilidade, a habitação e a preservação ambiental.
Antônio Carlos da Costa acrescenta a perspectiva do mercado imobiliário e da atividade econômica, destacando a necessidade de criar condições para a geração de empregos e para a ocupação planejada das novas regiões.
O aniversário da capital é uma oportunidade para reconhecer suas conquistas e discutir o que ainda precisa melhorar. Goiânia cresceu, ampliou sua estrutura econômica e consolidou sua importância regional. Mas o desenvolvimento não pode ser medido apenas pela quantidade de edifícios, avenidas ou empreendimentos construídos.
É preciso observar se os moradores conseguem chegar ao trabalho sem perder horas no trânsito, se encontram atendimento quando precisam, se têm acesso a escolas de qualidade e se podem usufruir dos parques e dos espaços públicos de maneira segura.
Também é necessário garantir que a preservação da história não se limite à proteção de alguns edifícios. A identidade da cidade está nas construções, nas praças, nas ruas e nas relações que os moradores estabelecem com esses lugares.
Goiânia nasceu de uma ideia de futuro. A concepção de Attilio Corrêa Lima e as contribuições de Armando de Godoy expressaram a intenção de organizar uma capital moderna, com espaços públicos e uma estrutura urbana planejada. Ao longo de nove décadas, a cidade se transformou, ganhou novas dimensões e passou a abrigar necessidades que seus idealizadores não poderiam prever integralmente.
O desafio atual não é voltar à Goiânia de seus primeiros anos, mas compreender sua história para tomar decisões melhores. Isso significa reconhecer o valor do planejamento original, preservar o patrimônio e, ao mesmo tempo, adaptar a cidade às necessidades de quem vive nela hoje.
Às vésperas de completar 93 anos, Goiânia continua sendo uma cidade de possibilidades. Seu futuro dependerá da capacidade de transformar o crescimento em qualidade de vida, aproximar as regiões e garantir que o desenvolvimento alcance também quem enfrenta as maiores dificuldades no cotidiano.
Nerivon resume sua relação com a capital a partir da gratidão por ter construído sua trajetória em Goiás. Bruno, Elizaine e Georton mostram que o carinho pela cidade pode coexistir com a cobrança por serviços melhores. Os especialistas, por sua vez, apontam que a história e o planejamento precisam orientar as escolhas das próximas décadas.
Goiânia continua em construção. A cidade que nasceu planejada precisa agora demonstrar que é capaz de planejar também seu crescimento, preservar o que tem valor e enfrentar problemas que atravessaram diferentes gerações.
Como afirma Narcisa: “Goiânia precisa continuar crescendo, mas precisa, sobretudo, aprender a crescer melhor”.
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