A última semana em Goiânia foi a verificação, na prática, do que é o “novo normal” das grandes cidades brasileiras diante dos desafios complexos trazidos com as mudanças climáticas. Temporais diários seguidos desabaram sobre a zona urbana da capital, causando transtornos, bagunçando o trânsito, derrubando árvores, arrancando pavimentação asfáltica e normalizando o alagamento de pontos recorrentes – o da Rua 87, no Setor Sul, já poderia estar entre atração turística e local de concentração vespertina de canoas e jet skis.

Há pouco menos de um ano, a entrevista da semana do Jornal Opção teve como personagem a professora Gislaine Cristina Luiz, do Laboratório de Análise da Interação da Atmosfera e da Paisagem (LAP) da Universidade Federal de Goiás (UFG). À época, a região litorânea de São Paulo ainda contava as vítimas da tragédia que se abateu sobre a cidade de São Sebastião e Goiânia vivenciava temporais de grande monta, como os que ocorreram na semana passada, praticamente todos os dias a partir de terça-feira.

Com doutorado em Geotecnia Ambiental pela Universidade de Brasília (UnB), Gislaine é docente e pesquisadora do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) e sua área de atuação é a climatologia urbana, com foco em eventos extremos associados a alagamentos, inundações e ilhas de calor. Não por acaso, portanto, Goiânia, também sua cidade natal, se tornou um interessante objeto de estudo, com o interessante adendo característico de estar em uma área territorial, o Cerrado, onde há também períodos longos de estiagem longos e com altas temperaturas.

No que diz respeito às consequências das chuvas, em um ano nada mudou no que passa e sente a população da capital. Os transtornos são os mesmos e os pontos de alagamento seguem da mesma forma. As cenas inusitadas, como as citadas no primeiro parágrafo, estão cada vez mais constantes – pode ser que chegue o momento em que mesmo andar de jet ski ou canoa nas vias urbana não cause mais espanto.

Os dados mostram que nos últimos anos, em todo o Brasil – e, obviamente, também na região do bioma Cerrado – houve uma mudança significativa e rápida no padrão de chuvas, com eventos pluviométricos tornando-se mais intensos, em contraste com o “invernar”, como se acostumou a chamar os períodos outrora tradicionais de chuvas intermitentes durante dias ou até semanas. “Havia longos dias de chuva mais fina, que às vezes parava, mas continuava nublado ou abria um sol tímido e depois voltava a chover. Era aquela chuvinha ‘de molhar bobo’, como se diz. Pois os mesmos estudos que nos mostram que está havendo um aumento da intensidade das chuvas também nos revela que está havendo uma redução do número de dias com chuva. Isso quer dizer que está chovendo em menos dias, mas quando chove é um ‘pancadão’”, como ressalta Gislaine Luiz.

Professora e pesquisadora Gislaine Luiz, do Iesa/UFG: “Eventos extremos vão estar cada vez mais no dia a dia das pessoas” | Foto: Elder Dias / Jornal Opção

No fim, a quantidade final de água que cai ao fim de cada mês é basicamente a mesma, seja com tempestades ou com chuva fina; a diferença está na distribuição. Pesquisadores e meteorologistas estão unidos na explicação desse fenômeno: os fatores alarmantes estão relacionados às mudanças climáticas, as quais afetam diretamente o comportamento das precipitações.

Para a população leiga – mesmo quem não seja abertamente negacionista –, é um tanto complexo entender (e então, “acreditar”) que os fenômenos naturais que observou durante toda a vida possam ser alterados drasticamente por conta de fatores humanos. Por exemplo, o aumento das temperaturas globais devido ao aquecimento do planeta pela emissão de gases, um dos principais motivos apontados pelos cientistas. Os climatologistas explicam: com o calor mais intenso, há uma evaporação mais rápida da água dos oceanos, formando nuvens carregadas de vapor d’água. Esse aumento na umidade atmosférica contribui para chuvas mais intensas, uma vez que as nuvens acabam por ter uma capacidade maior de armazenar água antes de liberá-la. Nas regiões beira-mar isso ocorre em uma intensidade e frequência ainda maior, daí as ocorrências graves em regiões litorâneas.

Outra situação que provoca alterações no regime das chuvas são as mudanças nos padrões de ventos atmosféricos. O aquecimento desigual da atmosfera gera alterações nas correntes de vento, favorecendo a formação dos chamados “sistemas de baixa pressão”. Esses sistemas, por sua vez, resultam em chuvas mais intensas e concentradas, rompendo com os padrões climáticos tradicionais.

Mas o que pode contribuir diretamente para o aumento dos temporais em áreas altamente urbanizadas, como a Grande Goiânia, por exemplo? Como explica Gislaine, as ilhas de calor que se formam nas cidades são outro fator a ser considerado. O concreto e o asfalto absorvem e retêm calor, elevando as temperaturas locais. Essa modificação microclimática pode intensificar as tempestades, pois a diferença de temperatura entre áreas urbanas e rurais influencia a formação de nuvens, provocando chuvas mais intensas e rápidas nas proximidades das áreas habitadas.

Os cientistas também alertam para as mudanças sazonais nos sistemas climáticos globais que também desempenham um papel crucial, como os fenômenos como o El Niño e La Niña. Apesar de naturais – embora ainda os estudos sobre sua origem e dinâmica estejam em modo ainda insuficiente –, eles têm se manifestado de maneira mais intensa e frequente, provocando desequilíbrios climáticos em diversas regiões do mundo. Isso contribui para a ocorrência de eventos extremos, incluindo chuvas mais intensas e prolongadas. No momento, o Brasil ainda vive sob a influência do El Niño.

Chuvas intensas sempre ocorreram. O que a dinâmica da natureza do Cerrado, especialmente a dos solos, não está acostumada é com a frequência com que elas têm ocorrido. Isso causa sérias consequências para o meio ambiente e a sociedade, com prejuízos econômicos diversos, que vão da destruição de infraestrutura, obras e propriedades, que precisarão ser reconstruídas, até danos às lavouras, com prejuízo direto à colheita e à safra nacional como um todo.

Todos os pesquisadores são unânimes em alertar para a necessidade urgente de medidas mitigadoras e adaptativas para lidar com as mudanças climáticas e seus impactos nas chuvas, buscando proteger comunidades vulneráveis e preservar ecossistemas cruciais, como o próprio Cerrado. O que não se pode admitir é a acomodação diante do cenário.

Ainda na entrevista do ano passado ao Jornal Opção, a mesma professora Gislaine Luiz alertava para que a questão não se tornasse banalizada. “Parece que as pessoas agora se assustam momentaneamente com as chuvas fortes. Mas o que não podem se acostumar, o que não pode acontecer, é achar que esses temporais sejam banais ou normais. A perda de casas ou mesmo de vidas é uma decorrência desses eventos e isso não pode jamais ser banalizado. O que está havendo é que há uma frequência tão maior desse tipo de ocorrência que as pessoas estão fazendo com que isso entre na própria rotina”. Em palavras mais diretas: o “novo normal” das cidades precisa ser assimilado para ser entendido e enfrentado, jamais para ser aceito.