Com origem etmológica no grego antigo, de acordo com Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a palavra vereador vem de “verea”, que quer dizer caminho, vereda. Ou seja, vereador seria, portanto, aquele que trilha ou orienta o caminho, que vereia. No bom Português, verear é o verbo que indica a ação de exercer o cargo e a função de vereador.

Nos municípios, o parlamentar é quem liga o povo ao governo, ouvindo as demandas dos eleitores. “Todo mundo tem acesso ao vereador, tem o telefone dele e consegue falar com ele a qualquer momento”, destacou o presidente da União dos Vereadores de Goiás (UVG), Francisco Carlos de Carvalho (sem partido, mas a caminho do PSB), mais conhecido como Chiquinho. Para ele, inclusive, a vereança tem desafios próprios, mas gratificantes. “É como o pequi de Goiás. Os espinhos são muitos, mas o sabor da vitória é maior”, poetizou.

De fato, é papel do vereador propor, discutir e elaborar leis que tratem de temas da cidade. Um bom exemplo disso é a Lei Orçamentária Anual, responsável por definir, todos os anos, a quantidade e onde será aplicado o dinheiro arrecadado com os impostos pagos pelos cidadãos. Parte fundamental do Poder Legislativo, os vereadores decidem sobre todo e qualquer tipo de legislação que envolva temas como impostos, educação, transporte, saneamento ou qualquer outra questão no âmbito da cidade.

Por abrigarem os representantes do povo, as Câmaras Municipais são – ou pelo menos deveriam ser –um microcosmos da sociedade, um recorte diverso da população de uma cidade, uma colcha de retalhos do tecido social. Não é à toa que lideranças classistas e gente com bandeira de toda cor e partido costuma ocupar cadeiras nos parlamentos.

Nas últimas eleições municipais, Goiás elegeu seis vereadores quilombolas, de acordo com a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). E Cavalcante, município no Norte de Goiás que tem 80% da população quilombola, é a cidade que concentra a maioria deles: quatro dos nove parlamentares são lideranças negras.

Domingas Quilombola e Chiquinho são vereadores e Uruaçu | Fotos: reprodução

Em seu terceiro mandato como vereador na Câmara Municipal de Uruaçu, Chiquinho reforçou a importância dos parlamentares de buscarem informação e conhecimento para garantir a qualidade de seu trabalho. “Precisamos qualificar nossos vereadores para que eles entendam o que a função exige, que é legislar, fiscalizar e ajudar o prefeito nas demandas”, afirmou.

Quantos vereadores uma cidade pode ter?

De acordo com a UVG, Goiás tem hoje 2.596 vereadores espalhados pelos 246 municípios goianos. O que define a quantidade de vereadores em cada Câmara Municipal é a Lei Orgânica dos municípios, que deve sempre respeitar o artigo 29 da Constituição Federal.

“O quantitativo é estabelecido considerando o número de habitantes de cada cidade e segue ordem de proporcionalidade, podendo variar entre 9 e 55 vereadores, a depender da população”, detalhou o advogado eleitoralista Julio Meirelles.

Goiânia é a cidade em Goiás que tem mais: 35 parlamentares. Para as próximas eleições, já foi aprovada a adição de mais duas cadeiras, saltando então para 37. No entanto, são encontradas algumas discrepâncias interior a fora.

Por exemplo: Anhanguera, cidade que tem 924 moradores, segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem nove vereadores, um a menos que Jataí, município com mais de 105 mil habitantes. E, pela regra definida por lei, a cidade do Sudoeste goiano poderia ter 17 parlamentares na Câmara Municipal. “Um ou outro caso pode ser revisto. Essa defasagem precisa de revisão”, reconheceu o presidente da UVG.

Como é ser mulher no parlamento municipal?

Em 2020, na terceira vez em que foi candidata a vereadora, com 2.378 votos, Camila Rosa (PSD) conquistou sua cadeira na Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia, sendo a 10ª mais votada entre 660 candidatos. De família de feirantes, hoje concilia a atividade parlamentar com os trabalhos na Cooperativa dos Agricultores Familiares de Aparecida de Goiânia (Coomag) – entidade que fundou -; no Sindicato Rural de Aparecida, do qual é vice-presidente; e na Associação dos Feirantes de Aparecida de Goiânia (Afag), onde hoje é conselheira.

No entanto, em 2 de janeiro de 2022, a parlamentar teve seu microfone cortado enquanto falava sobre as cotas de gênero nas eleições proporcionais. A atitude do presidente da casa legislativa, André Fortaleza (MDB), fez com que a vereadora ficasse bastante abalada a ponto de não segurar as lágrimas por não conseguir dizer o que gostaria naquela ocasião. O caso foi parar na Polícia Civil, que, após investigação, entendeu que o caso se tratava de crime de violência política de gênero.

Vereadora Camila Rosa dá voz às mulheres na Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia | Foto: reprodução/ Instagram

No entanto, a Justiça Eleitoral decidiu arquivar o inquérito policial por entender que a ação de desligar o microfone seria algo rotineiro na Câmara Municipal de Aparecida. A decisão seguiu o entendimento do Ministério Público Eleitoral (MPE). “Eu fiz o que podia ser feito. Mas a nossa Justiça entendeu que o caso não teria que ter seguimento. De vítima, virei a vilã. O promotor chegou a dizer que eu fiz aquilo pra ganhar mídia. Quem convive comigo sabe que não foi isso o que aconteceu”, comentou a vereadora.

Para Camila, as cotas de gênero foram apenas um pontapé inicial para que as mulheres começassem a ser inseridas na política. “Antigamente, quem participava das campanhas? Só homens, brancos, héteros e ricos. Mas esse perfil está mudando. A sociedade tem muitas pessoas que a representam e nada mais justo do que termos mais mulheres na política”, avaliou a parlamentar.

Mas apesar da regra das cotas de gênero valer desde 2009, a vereadora critica que, ainda hoje, os partidos, em sua maioria, são “dirigidos por homens que não querem dividir espaço com as mulheres”. “Isso tem mudado com as punições, fazendo valer a lei. Mas a punição não deveria ser restrita apenas à perda do mandato do vereador. Tinha que punir também o partido e o presidente da legenda”, pontuou Camila. No seu partido, o PSD, ela acredita que a política de incentivo de participação feminina, inclusive, ajudou não só ela, mas também outras mulheres a terem voz e mais conhecimento sobre política.

Em Jataí, primeiro vereador homossexual assumido eleito luta por respeito

Jataí, na região Sudoeste de Goiás, tem 71.896 eleitores, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No último Censo, em 2022, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabilizou 105.729 habitantes na cidade. Pela legislação em vigor, o município poderia ter até 17 vereadores, mas a Lei Orgânica Municipal prevê apenas 10. Se fizer uma média, é como se cada parlamentar fosse “responsável” por mais de 10 mil moradores.

Nas últimas eleições, o vereador Carlinhos Canzi (Cidadania) foi eleito com 1.099 votos para ocupar uma das cadeiras no Palácio das Abelhas – que é como o prédio da Câmara dos Vereadores é chamado. “O nome é por causa da abelha Jataí”, explicou o estudante de Odontologia de 32 anos.

Vereador Carlinhos Canzi: “estou aqui pra quebrar tabu” | Foto: reprodução Instagram

Em seu primeiro mandato, o parlamentar ocupa o gabinete 10, que foi seu local de trabalho por anos. Isso porque, por cerca de oito anos, ele trabalhou como chefe de gabinete de um ex-vereador. “Entrei na Câmara Municipal como assessor parlamentar. Nesse tempo, aprendi muito e consegui entender o que era o papel de um vereador”, lembrou.

Na sua equipe, o parlamentar tem cinco assessores que ele garante que trabalham de forma integrada para atender as demandas jurídicas, da agenda, de atendimento à comunidade e de comunicação e marketing. “É muito trabalho. Sou um vereador meio blogueiro, posto muita coisa. Passo meu celular na rádio. Então as pessoas têm muito acesso. O trabalho aumenta, mas eu gosto”, garantiu.

Desde muito novo, Carlinhos era um “fanático por política”. Seu primeiro emprego, aos 16 anos, foi como cabo eleitoral de um candidato a vereador da cidade. “Eu estudava de manhã e resolvi trabalhar na campanha à tarde”, recordou. Mas foi o trabalho no gabinete de um ex-vereador que confirmou sua vocação. “Meu ex-patrão decidiu que não seria mais candidato e me disse que tinha chegado a minha vez”, contou.

No início de setembro, o vereador denunciou que foi vítima de preconceito durante o exercício parlamentar. Em sessão solene, todas as esposas de vereadores foram convidadas para tribuna de honra, mas seu marido foi o único a não receber o convite. “Foi uma falta de respeito. Precisamos respeitar as pessoas em todas as situações, independentemente de qualquer coisa. Já imaginava que isso poderia acontecer no meu mandato, mas estou aqui pra quebrar tabu”, reforçou Carlinhos, que está casado há três meses.

Na época, em nota, a Câmara Municipal de Jataí negou se tratar de um caso de homofobia. No entanto, em ofício enviado aos vereadores, o presidente da Câmara, Abimael Silva (PTC), assumiu “falhas na organização” e que jamais houve intenção de ofender ou diminuir a relevância do papel dos companheiros dos parlamentares na comunidade. “Pra mim ficou tudo certo. E que isso sirva de lição. Porque hoje eu estou aqui, mas amanhã eu não posso estar”, declarou Carlinhos, que é o primeiro vereador homossexual assumido a ser eleito em Jataí.

O parlamentar lembra que trabalha pela comunidade LGBTQIA+ de seu município, mas o tema não é sua única bandeira. “Nunca tive uma bandeira. Nem saúde, nem educação ou segurança pública. Meu lema é política com respeito. E eu trabalho em prol de toda a sociedade”, garantiu.

Fé, política e parlamento

Na capital da fé, em Trindade, o presidente da Câmara Municipal é o vereador Pastor Zeca Silva (PP). Apesar da força da tradição católica no município, o parlamentar explicou que entre os moradores da cidade a fé evangélica tem tanta força quanto. “O público maior, por incrível que pareça, são os peregrinos, o pessoal que vem de fora. Aqui em Trindade, o número de igrejas evangélicas é muito grande”, comentou.

Pastor Zeca, que é da Igreja de Deus no Brasil do Setor Renata Park, disse também que, apesar de não abrir mão de sua fé, em seu trabalho como vereador, trabalha por todo o município e não apenas para os evangélicos. “Sou evangélico. Essa é minha fé, minha crença. Mas como membro do parlamento, sou também vereador do católico, do espírita. Respeito todos os segmentos”, pontuou.

Pastor Zeca é presidente da Câmara Municipal de Trindade: “trabalho por todos” | Foto: reprodução/ Instagram

Para além da fé, o pastor afirmou que luta incessantemente para trazer de volta a credibilidade ao poder legislativo. E, justamente por isso, o vereador cobra que a comunidade acompanhe mais de perto o trabalho do Poder Legislativo. “O pessoal tem uma visão de que o vereador não faz nada. Tenho procurado demonstrar que somos um poder paralelo, independente e importantíssimo”, frisou.

E o parlamentou justificou dizendo que o Executivo não caminha sem a parceria com o Legislativo. “Para que o prefeito execute seu trabalho no decorrer do ano, primeiro tem que passar pelos vereadores para autorizar. É o futuro da cidade que passa nas nossas mãos. Analisamos se a verba destinada à saúde e educação, por exemplo, será suficiente”, justificou.

Juventude na política

Em Mimoso de Goiás, cidade localizada na região do Entorno de Brasília, José Costa, mais conhecido como vereador Zezinho, foi eleito em 2020 pelo PSL com 65 votos. Com a fusão de sua antiga legenda com o DEM, que originou o União Brasil, agora o parlamentar pertence ao mesmo partido do governador Ronaldo Caiado.

A cidade tem 2.614 habitantes, de acordo com último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas 3.023 eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No município, 9 vereadores têm cadeira no parlamento da cidade. Dos eleitos no último pleito, Zezinho foi o que precisou de menos votos para assumir uma cadeira na Câmara Municipal.

Vereador Zezinho durante sessão na Câmara Municipal de Mimoso: defesa da juventude | Foto: reprodução/ Instagram

Em seu primeiro mandato, hoje com 27 anos, o vereador se considera um representante da juventude. “Grande parte dos jovens caminha com a gente. Fui o único vereador que votou contra um projeto que proibiu o som automotivo na cidade”, destacou.

O parlamentar também critica a falta de políticas públicas que mantenham a juventude no interior. “Nossos jovens estão indo embora para procurar emprego e novos ares em outros lugares. E é por falta de investimentos que possam gerar emprego e renda no município”, afirmou.

Mas, apesar de gostar desde sempre de política – seu trabalho final de curso na faculdade de Jornalismo foi sobre a emancipação política de seu município -, se tornou candidato na tentativa de conseguir um emprego. “Estava desempregado e vi uma oportunidade. Foi como juntar a fome com a vontade de comer”, confessou o jornalista formado que agora cursa o 7º período de Pedagogia na Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Para Zezinho, a melhor parte de ser vereador é o reconhecimento. “A gente chega em qualquer lugar e é tratado de forma diferente. Também gosto de conseguir ajudar as pessoas”, revelou. No entanto, ele se queixa do ônus que a função traz. “A cidade é pequena e a gente fica muito visado. A gente recebe muita pedrada, às vezes, sem ter culpa de nada”, reclamou.