Estigma associado às doenças mentais afasta pacientes do tratamento

Tema trazido à tona pelo Enem e pelo janeiro branco relembra a sociedade da necessidade de se debater a saúde mental

“Os psicólogos e médicos me dizem que a depressão é uma doença silenciosa, que não vai embora facilmente” | Foto: Reprodução/Agência EBC

Isadora Campos* tem 25 anos e desde a adolescência sofre com episódios depressivos graves. Apenas recentemente a estudante de Letras buscou auxílio profissional, mas até que compreendesse que seu caso deveria ser acompanhado por médicos e terapeutas, foram duas tentativas de suicídio que lhe renderam dias de internação hospitalar. Quando perguntada o porquê de não ter conversado sobre o tema anteriormente, a jovem responde que não queria incomodar parentes e amigos com seus problemas, que lhe pareciam pequenos. 

O estigma associado às doenças mentais – pauta em alta no debate público por ter sido tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste ano – é a razão pela qual muitas vítimas de transtornos mentais não recorrem à ajuda especializada. A incapacidade de perceber a natureza dos próprios sentimentos como patologia que merece atenção médica e terapêutica pode ter raízes na forma como os distúrbios são debatidos no senso comum. “Eu venho de uma família conservadora em que não se admite a possibilidade de transtornos mentais”, afirma Isadora. “Para meus pais, ir a um psicólogo era ‘coisa para doidos’”.

Isadora foi a primeira de sua família a confrontar essa perspectiva, com o auxílio do médico que lhe atendeu durante a internação decorrida da tentativa de suicídio. “A pessoa deprimida não vê saídas para sua situação, mesmo que as saídas pareçam banais para as outras pessoas. Na verdade, a aparente banalidade faz com que seja ainda mais difícil comunicar seus problemas. Eu não teria conseguido conversar com minha família a respeito da necessidade de tratamento psiquiátrico sem a ajuda do médico que me atendia. Por isso, é tão importante estimular o diálogo e derrubar os estigmas dos distúrbios mentais.”

Já fazem dois anos desde que Isadora começou a ser acompanhada por psiquiatra e psicólogo, e a estudante de Letras relata que sua qualidade de vida melhorou incomensuravelmente. “Na realidade, depois da adolescência, eu só voltei a ter qualidade de vida após iniciar o tratamento. Hoje, tenho uma rotina saudável, normal. Mas já passei por fases em que não conseguia comer ou me levantar da cama – coisas vistas como ‘preguiça’ ou ‘má vontade’ no senso comum. Não sei onde estaria se não tivesse criado a coragem para conversar sobre isso.”

Atualmente, a jovem frequenta um psicólogo com abordagem cognitivo-comportamental e faz uso de medicamentos prescritos pelo psiquiatra. A combinação de tratamentos permitiu que ela voltasse a ter uma vida funcional, embora ressalte que é importante manter a situação sob atenção constante. “Os psicólogos e médicos me dizem que é uma doença silenciosa, que não vai embora facilmente. Tenho de comparecer às minhas consultas, praticar exercícios, evitar substâncias que deprimem o sistema nervoso (como o álcool), me expor socialmente pelo menos um pouco por dia”, conta Isadora. 

Ansiedade infantil

A ansiedade infantil pode causar irritação, desespero e excesso de responsabilidade | Foto: Reprodução / Observatório do 3º Setor

O transtorno de ansiedade é outro distúrbio carregado de estigmas que prejudica a qualidade de vida de pacientes. Frequentemente confundida com simples traços de personalidade (timidez, irritabilidade, nervosismo), a ansiedade pode causar sintomas físicos, desconforto emocional e também comprometimento de atividades do dia a dia. O transtorno afeta até mesmo crianças, em uma variedade conhecida como ansiedade infantil.

De acordo com a psicóloga Gabriela Umbelino, a ansiedade infantil pode causar irritação, desespero e excesso de responsabilidade. “Também podem ser observadas retraimento social e diminuição do rendimento escolar”, explica. A especialista destaca que como a criança está em desenvolvimento é importante que os pais fiquem atentos caso o menor apresente algum sintoma que esteja acarretando prejuízo funcional imediato muito diferente do que observado naquela faixa etária, como por exemplo, comportamentos que interfiram na sua qualidade de vida, desconforto emocional e também comprometimento de atividades do dia a dia. 

Gabriela cita que algumas situações podem desencadear a ansiedade nas crianças, como quando estão sozinhas, causando sofrimento intenso e prejuízos significativos em diferentes áreas da vida da criança ou adolescente. “Como consequência demonstram um comportamento de apego excessivo a seus cuidadores, não permitindo o afastamento destes, na hora de dormir, resistindo ao sono, que para eles vivenciam como uma separação, ou perda do controle”, comenta a psicóloga. Além da ansiedade de separação há também o transtorno de ansiedade generalizada e as fobias específicas, como medo de cachorro, escuro, etc. 

Os casos de ansiedade infantil requerem intervenções multidisciplinares e articuladas, exigindo dos profissionais envolvidos no processo de cuidado com a criança, sensibilidade e conhecimento na área. É importante que a comunicação entre pais, professores, psicoterapeuta e demais profissionais da saúde envolvidos, seja constante e efetiva, a fim de potencializar as intervenções e auxiliar a criança diante do sofrimento que apresenta. 

O esporte como terapia

Atividades físicas são indicadas para crianças que sofrem de ansiedade infantil | Antonio Cruz/Agência Brasil

Atividades físicas são indicadas para crianças que sofrem de ansiedade infantil, além de desenvolverem a percepção do próprio corpo, também ajudam a diminuir o tempo de exposição dos pequenos às telas, como o computador e tv, criando possibilidades de expressão e sentimentos através dos movimentos. Os exercícios também promovem a socialização, senso coletivo, abertura para novas habilidades e também eleva a autoestima. 

Para a educadora física Marina Alfarano, sócia da Nômade Esportes, brincadeiras ao ar livre, como pular corda, passeios em parques e praças são seguras para as crianças. Ela recomenda também brincadeiras que os pais podem fazer em casa. “Circuito entre cadeiras ou móveis da sala, subir escadas ao invés de utilizar o elevador, brincar de bicicleta, patinete, bola de diferentes tamanhos e pesos, pular obstáculos são ótimas atividades. As possibilidades são múltiplas, basta usar a imaginação”, explica a professora. 

Atividades como natação podem ser inicializadas com bebês a partir de 6 meses desde que os estímulos sejam corretos a cada faixa etária, respeitando o desenvolvimento motor e a individualidade de cada criança. “A partir dos 4 anos: começam as iniciações esportivas, mas não indicamos o direcionamento para uma  modalidade específica, e sim atividades de desenvolvimento global: que explorem o correr, saltar, subir, descer e diversas possibilidades de movimento.

Para os pré-adolescentes  que geralmente já têm uma carga de estudos grande, atividades que melhorem a postura, respiração, e atividades que preparem o corpo para as mudanças corporais que ocorrem nessa fase, como a musculação ou e exercícios funcionais”, finaliza Marina.

Em tempos de pandemia

O isolamento, a perda de entes queridos e a incerteza quanto ao futuro passaram a fazer parte da vida das pessoas nos últimos meses | Foto: Reprodução

O isolamento, a perda de entes queridos e a incerteza quanto ao futuro passaram a fazer parte da vida das pessoas nos últimos meses. Segundo um estudo publicado na revista científica Psychiatry Research sobre os impactos da Covid-19 na saúde mental da população mundial, a incidência de ansiedade e de depressão foi, respectivamente, quatro e três vezes mais frequente quando comparada aos dados levantados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nos últimos anos. 

A psicóloga Natália Reis Morandi, da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, alerta para os efeitos deste aumento em médio e longo prazo. “Alterações na qualidade do sono e da alimentação, bem como a perda de interesse nas atividades cotidianas, além da dificuldade para lidar com problemas do dia a dia e tomar decisões, estão entre os sinais mais relatados entre os pacientes”, destaca.

A especialista ressalta que sintomas como estes podem evoluir para problemas mais graves e tendem a aumentar quando a pessoa deixa de procurar ajuda profissional. Natália explica que a mudança nos hábitos sociais pode afetar a forma como as pessoas se organizam no dia a dia e os efeitos disso são devastadores quando não há um acompanhamento. “A saúde mental pode gerar danos sérios à saúde de maneira geral, como doenças cardíacas, alterações na pressão arterial e problemas digestivos, por exemplo, impactando a qualidade de vida das pessoas”, alerta.

*Nome substituído a pedido da entrevistada

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