Estados Unidos ou China, quem é melhor para o Brasil?

O Governo Federal tenta se aproximar dos Estados Unidos, mas a China compra o dobro das exportações brasileiras em relação aos americanos

Jair Bolsonaro quer apoio de Donald Trump para entrar na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico | Foto: Isaac Nobrega/PR

A visita do presidente Jair Bolsonaro ao colega norte-americano Donald Trump, em março, foi o primeiro passo do brasileiro na tentativa de estreitar laços comerciais, em queda nos últimos anos, e garantir apoio dos americanos para entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um clube de países ricos. Em outro cenário, a relação comercial com a China cresce ano após ano. O volume de exportações brasileiras para os dois países é desigual, mas as relações comerciais são bem peculiares.

O interesse entre dois países vai além de um governo vender ou comprar de outro. A ligação se completa quando os dois encontram pontos de interesse comum, como parcerias e cooperações para desenvolvimento econômico, pesquisas para avanços tecnológicos, medicinais e outros.

Depois de Bolsonaro visitar Trump, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, vai à China, em maio, para tratar das exportações brasileiras e de possível liberação de novos estabelecimentos para exportação de carne e de relatório pedido por autoridades sanitárias do país com essa finalidade.

“O Brasil exportou para a China no ano passado 88% do total das vendas externas de soja. Nós somos parceiros confiáveis, temos qualidade, nossa soja tem mais proteína. Então, precisamos dizer que continuamos e queremos continuar sendo parceiros. É fundamental ir lá e afirmar isso”, argumentou Tereza Cristina, em entrevista coletiva, após reunião com líderes do setor agropecuário em São Paulo, na segunda-feira, 22.

Exportações para os EUA despencaram a partir de 2015

Os índices de exportações de produtos básicos para os Estados Unidos começaram a cair a partir de 2015, quando desabou para US$ 4,2 bilhões no ano. Variação negativa de 32,7% se comparado com 2014 (US$ 6 bilhões). Em 2016 caiu mais 25,9%, com US$ 3,17 bilhões exportados. Nos dois anos seguintes, 2017 e 2018, a balança voltou a reagir com variações positivas de 50,1% e 5,8%, respectivamente.

O Brasil vende uma quantidade menor de produtos para os Estados Unidos ao comparar com a China e, consequentemente, recebe menos dinheiro. Mas, o comércio brasileiro vende um produto mais caro para os americanos: os manufaturados.

De acordo com dados do Ministério da Economia, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), o Brasil exportou US$  28,77 bilhões para os Estados Unidos em 2018. Os produtos com maior presença no carrinho são óleos brutos de petróleo (11%), produtos semimanufaturados de ferro e aço (11%) e aviões (6,8%).

Esses produtos trazem mais retorno financeiro ao Brasil por envolver mais tecnologia na produção, como explica a professora de Economia da Universidade Federal de Goiás Andreia Lucena, doutora em Economia e Relações Internacionais. “Exportar produtos de maior valor agregado, como aeronaves, é melhor para o País”, avalia.

Em 2018, 58% dos produtos exportados para os Estados Unidos foram manufaturados. Enquanto isso, 88% dos produtos enviados à China são básicos, como soja e minério de ferro, de acordo com o Mdic. Os dados mostram uma parceria qualitativa entre brasileiros e americanos, diferentemente dos produtos básicos exportados aos chineses: do campo ao transporte.

O Brasil importa derivados dos mesmos produtos exportados para os Estados Unidos, mas a um preço mais alto. Enquanto os americanos compram do Brasil US$ 3 bilhões em petróleo bruto por ano, o Governo Federal importa a gasolina e etanol já refinados por US$ 7,1 bilhões. E produtos derivados do petróleo estão no topo da lista de importações brasileiras dos Estados Unidos. Outros bens importados são inseticidas, adubos, sangue humano e animal e medicamentos. O Brasil importou US$ 28,9 bilhões dos americanos em 2018.

A parceria comercial com os norte-americanos é mais antiga do que com os chineses e ultrapassa os limites de importação e exportação. A relação com os Estados Unidos trouxe fábricas de automóveis para o Brasil e centenas de empresas e linhas de produção e montagem há mais de 50 anos. Investimentos do tipo com os chineses são mais recentes. Porém, colocaram a China na primeira linha de importação e exportação para o Brasil nos últimos anos. E os Estados Unidos caíram para o segundo lugar.

“Se analisar apenas o volume de exportação, a China tem uma importância maior. Os números comerciais com os chineses têm crescido nos três últimos anos. Se olharmos esse dado para os Estados Unidos, as exportações brasileiras têm diminuído, em média, 2% ao ano”, explica Andreia Lucena. Informações do Mdic revelam aumento de 16% nas exportações para a China entre 2016 e 2017. De 2017 para 2018 o aumento foi de 26%.

É cada vez maior a entrada de “dólares chineses”

A professora de Economia da UFG, Andreia Lucena, explica que a diferença de exportação entre Estados Unidos e China é no tipo de produto | Foto: Divulgação

Os dados do Comércio Exterior mostram uma disparidade das exportações em 2018: US$ 64 bilhões para a China e US$ 28,7 bilhões aos Estados Unidos. “A quantidade de dólares que entra no Brasil proveniente da China é maior e crescente. Mas ainda é preciso analisar o tipo de produto que se exporta para eles. Quase 15% de tudo que o Brasil exporta vão para os EUA e 27%, para a China. A grande questão é como negociar com esses parceiros. Os americanos também produzem bens que interessam à China. Nessa seara, os americanos concorrem diretamente com o Brasil na produção de soja, açúcar e milho”, alerta Lucena.

A professora da UFG revela que 98% das importações brasileiras da China são de produtos manufaturados, como plataformas de exploração de petróleo, gás, mineração e circuitos eletrônicos para telefonia. “A gente importa bens que não produzimos. As nossas importações dos Estados Unidos são diferentes: etanol, gasolina, medicamentos e óleos em geral”.

Política externa
A orientação da política externa do governo Jair Bolsonaro é estreitar relações com vários países e os Estados Unidos estão no topo da lista, segundo Andreia Lucena. “O que abre para questionamentos se o Brasil vai se esforçar da mesma forma para atuar nos pontos de intercessão com os chineses”.

O impacto da visita do presidente Bolsonaro aos Estados Unidos será sentido em médio e longo prazos. “Se a decisão do Brasil de conseguir o apoio dos americanos para entrar na OCDE vai se concretizar, qual preço o Brasil vai pagar por isso? A gente precisa avançar nesse debate. Ainda não dá para estimar possíveis ganhos do país com a OCDE”, esclarece Lucena.

A política externa é um cenário de avanços e retrocessos. Os países vivem num sistema de interdependências. O que um faz afeta o outro. “Isso é complexo porque são múltiplos interesses. Espera-se que a política externa avance para manter boas relações com vários países. Isso foi demonstrado pelo lado da China. Eles não esperam se sentirem afetados de alguma forma e já querem negociar”, explica a professora.

O administrador de empresas com expertise em mercado internacional Edival Lourenço Júnior trabalhou oito anos para o governo chinês, entre 2011 e 2019, e afirma que o presidente norte-americano, Donald Trump, está correto em algumas posições sobre a guerra comercial com a China. “O que o Trump está fazendo na guerra comercial com a China é ousado, mas não errado. A China se beneficiou muito com políticas externas dos Estados Unidos. Uma briga do presidente norte-americano é reindustrializar os Estados Unidos”.  (Leia a entrevista completa ao final da matéria).

Presidente da CNI, Paulo Afonso Ferreira, entende que aproximação com americanos não pode arrefecer relação com os chineses | Foto: Reprodução

Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Paulo Afonso Ferreira, os dois países são de extrema importância para o Brasil, cada um no seu mercado específico de importação. Estados Unidos consomem produtos mais industrializados, enquanto a China é a grande player mundial na importação de commodities, segundo Afonso Ferreira.

“Temos que ter habilidades para que esses dois grande players de negócio do mundo estejam próximos do Brasil. Hoje, a China é um grande mercado brasileiro e temos que quebrar algumas barreiras para melhorar. Por isso, defendo a negociação bilateral entre os países, especialmente com os Estados Unidos”, diz o presidente da CNI, reforçando que o Governo Federal não pode arrefecer a relação com a China para se aproximar dos americanos.

Couro bovino é mais valorizado na China, segundo exportador

Emílio Bittar diz que a China mantém as maiores indústrias do mundo | Foto: Reprodução

Um dos sócios da empresa Coming, produtora de couro bovino com sede em Trindade (GO), Emílio Bittar afirma que já exportou para os Estados Unidos, mas a China tornou-se sua principal aliada nos últimos anos.

“Meu produto, o couro bovino, é mais valorizado na China porque eles concentram as maiores indústrias de sofás, bancos para automóveis, bolsas, sapatos e cintos. Enfim, produtos que utilizam muito couro. Os chineses são os principais produtores do mundo”, comenta Bittar. O empresário também exporta para outros países, como Índia e Vietnã.

Bittar diz que a China é o maior destino das exportações goianas como um todo, mas os americanos são a principal origem, o que diferencia as relações comerciais do Brasil com os dois países. “As conversas podem ser melhoradas e aproximadas cada vez mais. É isso que o empresariado espera dessa nova etapa do governo”, comenta o empresário.

Fieg teme aproximação entre Estados Unidos e China

Na cesta de relações brasileiras com os dois países, a Federação da Indústria de Goiás (Fieg) teme uma aproximação entre Estados Unidos e China após a guerra comercial que os dois disputam desde o ano passado.

“Essa aproximação irá tirar muito mercado brasileiro e, principalmente, dos produtos goianos, visto que os EUA são concorrentes mundiais em várias commodities e produtos produzidos em Goiás”, avalia o gerente do Centro Internacional de Negócios da Fieg, Plínio Viana.

O gerente acrescenta que “uma guerra comercial entre ambos não interessa a ninguém. Nesses casos, a reação do mercado mundial é de retração. Até que se estabeleça a normalidade, todos perdem”.

“Aproximação entre Estados Unidos e China pode tirar parte do mercado internacional brasileiro”, avalia Plínio Viana | Foto: Divulgação

A aproximação política e comercial do Brasil com os Estados Unidos, fortalecida pela visita recente do presidente Jair Bolsonaro a Donald Trump, não pode resultar em um distanciamento com a China, segundo Viana. “Há espaço para se aproximar de ambos e essa briga não é nossa”.

Goiás teve superávit de US$ 3 bilhões

A balança comercial de Goiás fechou o ano de 2018 com saldo positivo em US$ 3 bilhões. As exportações fecharam em US$ 7 bilhões e as importações, em US$ 3 bilhões. Em a 2017, as exportações cresceram 8,75% e as importações, 10,58%.

Os destaques das exportações goianas em dezembro de 2018 foram para o minério (US$ 183 milhões), o complexo da soja (US$ 111 milhões) e o complexo da carne (US$ 107 milhões).

Em 2018, Goiás exportou principalmente para a China, 23,87% de todos os produtos; Índia (6,80%); Bulgária (6,643%); Itália (4,73%) e Estados Unidos (4,2%). Juntos, esses seis países totalizaram 52,53% das exportações goianas.

No ranking das exportações por unidade da Federação, Goiás ocupou a 11ª posição, mesma posição de dezembro de 2017, com participação de 2,5% das exportações do País. Os primeiros colocados foram São Paulo, Minas Gerais e Rio de janeiro.

Os municípios goianos que lideraram as exportações em 2018 foram: Rio Verde US$ 853 milhões (16,40%), Alto Horizonte US$ 439 milhões (8,44%), Mozarlândia US$ 391 milhões (7,53%), Barro Alto US$ 378 milhões (7,27%), Goiânia US$ 352 milhões (6,78%), Itumbiara US$ 305 milhões (5,87%) e Ouvidor US$ 270 milhões (5,20%). Esses municípios corresponderam sozinhos a 57,5% das exportações do estado.

Em termos da Classificação por Grandes Categorias Econômicas (CGCE), 78,3% das exportações goianas foram de bens intermediários e 20,22% de bens de consumo, em dezembro de 2018.

Quanto às importações por município, Anápolis e Catalão foram responsáveis por 67,66% das importações ou US$ 2,4 bilhões no ano passado. Os principais itens foram adubos com 30,76%, produtos farmacêuticos (30,5%), reatores nucleares, máquinas (13,41%). Os principais países de origem são Estados Unidos (US$ 62 milhões), Alemanha (US$ 38), China (US$ 35), Rússia (US$ 22), Suíça (US$ 14) e Argélia (US$ 13). Juntos, esses países responderam por 61% das importações do Estado.

Em fevereiro deste ano, as exportações goianas totalizaram US$ 421 milhões e as importações, US$ 334 milhões. As vendas para o exterior apresentaram alta de 4,48% em relação a fevereiro de 2018 (US$ 403 milhões) e aumento de 1,24% em relação ao resultado apresentado em janeiro de 2019. Nesse período, Goiás exportou US$ 416 milhões.

Rio Verde sedia negociações bilionárias no agronegócio brasileiro

O município de Rio Verde (GO) tornou-se referência nacional no setor do agronegócio. A feira TecnoShow, sediada na cidade, movimentou R$ 3 bilhões em negócios, segundo o presidente da Assembleia Legislativa de Goiás, Lissauer Vieira (PSB), que tem base eleitoral e produz grãos no município.

“Acredito que o aumento significativo da exportação de Rio Verde para China se deve, sobretudo, ao fato de que o município concentra um dos maiores processos de industrialização e comercialização de alimentos do Brasil, tanto de soja quanto do milho, e isso acaba influenciando bastante”, explica o parlamentar.

Uma das características principais de Rio Verde, segundo Lissauer, é a possibilidade de expansão da produtividade para o mercado internacional. “Podemos avançar ainda mais, principalmente na produção de frangos e suínos e isso contribuirá muito para o crescimento das nossas exportações”, espera Vieira.

Lissauer Vieira diz que Rio Verde pode exportar mais se o Brasil tiver menos entraves comerciais | Foto: Fernando Leite | Jornal Opção

Outro fator importante apontado pelo deputado é a constante atualização e modernização dos processos industriais e da produção rural de uma forma geral. Os altos investimentos e a implementação da tecnologia no campo são também grandes influenciadores para o aumento nos índices de produtividade e de exportação.

Sobre os obstáculos para vender mais produtos ao exterior, Lissauer diz que a logística é uma das principais dificuldades na exportação, incluindo o alto custo com transporte, as altas tarifas alfandegárias cobradas em portos e aeroportos e as más condições das estradas brasileiras.

Atualmente, o escoamento da produção de Rio Verde, especialmente de grãos, é realizado por meio da malha rodoviária e muitas delas estão em situações caóticas, segundo o deputado. “Por isso é de extrema necessidade a realização de melhorias na infraestrutura logística do País, expandindo os investimentos em ferrovias, desburocratizando os procedimentos de despacho e diminuindo a carga de tributação”.

Entrevista | Edival Lourenço Júnior

A tendência da China é exportar tecnologia de informação, segundo expert em mercado internacional

O administrador de empresas Edival Lourenço Júnior tem expertise em relações comerciais com a China. Diplomado pela Universidade de Pequim, morou oito anos no país asiático e trabalhou na estatal CRRC, que atua na exportação de produtos ferroviários. Lourenço Júnior era o único brasileiro na empresa de 185 mil funcionários, que tem planos de expansão na América Latina.

Em mesas chinesas de negociação senta-se um de frente para o outro, cada ala de interesse de um lado, quase como uma guerra, porém, num jantar, os chineses sentam-se em mesa redonda para celebrar a união e a proximidade, explica Lourenço Júnior.

Após anos de experiência no gigante asiático, o jovem goiano se tornou uma das maiores referências no Brasil em “negócios da China”. Leia abaixo a entrevista concedida por ele ao Jornal Opção.

Edival Lourenço Junior diz que os chineses tem enorme capacidade de execução | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Como é a relação comercial entre Brasil e China?
A relação é antiga, mas em 2009 a China se tornou o principal parceiro do Brasil numa relação de complementariedade. A gente exporta matéria-prima para os chineses e importa produtos industrializados, basicamente. Ao longo do tempo, os bens industrializados foram evoluindo. Anteriormente importávamos bugiganga, os chamados produtos “xing-ling”. Inclusive o produto chinês ainda sofre com essa má fama. Porém já faz um tempo que não é bem verdade. O produto Made in China evoluiu. A China hoje exporta tecnologia e maquinário de alto padrão.

Quando aconteceu essa mudança de importar produtos de baixo valor para tecnologia de alto padrão?
Esse processo ainda acontece. Um cidadão comum, que não vive a realidade comercial entre Brasil e China, tem uma grande possibilidade dele associar o produto chinês com algo de baixo valor agregado. A empresa Sany, por exemplo, produz máquinas para construção civil, pavimentação e abertura de estradas e hoje compete igualmente com a Caterpillar (empresa norte-americana do mesmo ramo). Houve uma onda de trazer veículos chineses para o Brasil, mas não pegou na primeira. Neste momento acontece um novo processo. Não tem necessariamente uma virada de chave, isso é um processo. A Chery, Lifan, Jac Motors estão fortalecendo presença em solo brasileiro.

O Brasil também não é um país fácil de fazer negócio e os chineses estão acostumados com a maneira de negociar na China. Na empresa em que trabalhava, tive conversas homéricas com um executivo chinês. Falava para ele que não existem duas Chinas no mundo. É preciso que eles parem de comparar tudo com a China. Tudo lá é muito grande e feito para muita gente. A população deles é de 1,4 bilhão. Uma diferença entre Brasil e China é o tempo de conversa e tomada de decisão. Os chineses têm apenas um partido político dominante, então é tudo muito rápido. O ponto fraco da democracia é o tempo que se perde discutindo. Quando precisa construir uma ponte, por exemplo, os chineses gastam um dia decidindo onde e como será a ponte. No outro dia começam as obras e seis meses depois ela está pronta e operando. No Brasil passa-se seis anos discutindo onde será a ponte e depois acabou o dinheiro. Não tem mais ponte. A China tem muito a exportar para o mundo a sua capacidade de execução.

A China é referência mundial em transporte ferroviário. Eles não quiseram participar do leilão da ferrovia Norte-Sul no Brasil?
A China segue sondando esse projeto por muito tempo, mas não participou porque tinha um gargalo muito forte que beneficiava quem já estava operando, no caso a VLI e a Rumo. Um já tinha saída para o Norte e outro para o Sul. Se outra empresa que não fosse a VLI ou a Rumo tivesse ganhado a licitação, ficaria ilhada. A empresa não conseguiria chegar ao porto Norte ou Sul. A licitação beneficiava essas duas empresas. Mas, vejo com normalidade porque licitação de uma ferrovia não é igual comprar uma marca de café. Quantas empresas no Brasil operam ferrovias? Três: MRS, Rumo e VLI. Não é um mercado de livre concorrência. Como o mercado é muito específico, a China preferiu ficar de fora. Teve outra empresa russa chamada TMH que olhou também e outra empresa do leste europeu, mas não foi para frente. Nessa licitação ninguém quis participar.

Para quais outros países a China exporta tecnologia e produtos ferroviários?
Pra diversos países, em especial na Ásia, África e América do Sul. Neste última área o melhor exemplo é na Argentina. A ex-presidente Christina Kirchner abriu as portas para a China em seus mandatos. O atual presidente da Argentina, Maurício Macri, até tentou restringir um pouco o comércio, mas já era tarde. Atualmente, quase 100% da frota argentina é composta de veículos ferroviários chineses comprados nos últimos sete anos. Os argentinos usam muito a malha ferroviária. Totalmente diferente do Brasil, que não tem esse costume. O metrô de Buenos Aires é o mais antigo da América da Sul.

A especialidade da China é produzir e vender equipamentos ferroviários, mas não operar os trilhos?
Em território chinês, empresas locais operam, mas em outros países não. Os chineses ainda não conseguiram exportar expertise de operação para muitos países. Tem alguns trechos operados na Indonésia e Vietnã e estão negociando operação ferroviária com a Malásia. Isso demanda um tempo maior para entender as regras locais de cada país. Mas já começaram operar portos, por exemplo, a China Communications Construction Company, chamada de CCCC, outra empresa estatal, comprou o porto de São Luís, no Maranhão. Outro exemplo é a participação da China Merchants Group no porto de Paranaguá.

Como funciona a participação das empresas Estatais na China?
Funcionam como tentáculos do governo. Alguns setores considerados estratégicos são dominados por estatais. O transporte é pensado pela quantidade de cidadãos. A mídia, em função do partido único, sofre o controle do que será publicado. O setor de energia, óleo e gás, também é controlado. Assim como o sistema financeiro, segurança pública e etc. O sistema público de saúde funciona bem, apesar de a população pagar uma pequena parte no atendimento médico. A população confia mais no setor público do que no privado porque o governo opera bem todas essas áreas.

Quais Estados brasileiros têm uma presença chinesa grande?
Com certeza São Paulo, que funciona como um para-raio do Brasil. Tudo cai lá primeiro. O bairro Liberdade, antigamente japonês, hoje já tem mais chinês. As ruas do Brás e a 25 de março são dominadas por chineses. O Estado tem essa capacidade para internacionalização forte. Atualmente, a cidade de São Paulo está na lista das mais cosmopolita no mundo.

O foco dos chineses está em São Paulo?
Nâo necessariamente. Depende do setor. É sim verdade que lá já tem um ecossistema grande para receber chineses, restaurantes e hotéis originalmente chineses. Outro bom exemplo é o Instituto Confúcio, que divulga o mandarim e a cultura chinesa. Há a câmara de comércio Brasil-China e a Associação Brasileira das Empresas Chinesas (Abec), que reúne grande parte do empresariado no Brasil

Muitas pessoas acreditam que a 25 de Março, em São Paulo, representa a forma chinesa de fazer negócios. Funciona dessa forma mesmo?
Absolutamente não. A 25 de Março ainda representa a China de 15 anos atrás. Diga-se de passagem, se você olhar com calma os produtos vendidos lá, vai observar que não são mais produzidos na China. Os traders chineses passaram a dominar a cadeia, mas a produção migrou para outros países por causa do custo de mão de obra. Migrou para Bangladesh, parte do Camboja, Índia e Vietnã, lugares onde a mão de obra é consideravelmente mais barata que a chinesa. A Nike tirou toda a produção da China ainda em 2014.

A China não é mais o país com a mão de obra mais barata do mundo?
Com certeza, não. Morei os últimos sete anos no interior da China. A mão de obra de um operário nível iniciante numa fábrica chinesa é maior que o salário mínimo brasileiro. Eles ganhavam R$ 1,3 mil, já fazendo a conversão da moeda. Mas, R$ 1,3 mil lá compram mais que no Brasil. O poder de compra deles é maior e vem aumentando consideravelmente. A China não é mais competitiva em função de valor de mão de obra. Eles são imbatíveis em função de escala. Se algum empresário quiser comprar, por exemplo, 10 cadeiras de escritório, eles não são competitivos. Mas se quiser comprar 1.000, ninguém vai conseguir competir. Eles têm indústrias que vão entregar rapidamente uma enorme quantidade de qualquer produto.

A China tem um ecossistema incrível para fazer protótipos, que é muito importante na indústria. Tem uns makers chineses em Shenzheng, na divisa com Hong Kong, onde foram as zonas econômicas especiais promovidas por Deng Xiaoping em 1978 no processo de reabertura da China para o mundo. Naquele lugar tem um ecossistema para atender essa demanda. Um protótipo que levaria semanas ou até meses para ser finalizado nos Estados Unidos ou na Europa, os chineses conseguem terminar em horas ou dias. Aquele protótipo gera o molde que já vai para a indústria e já produz milhares de produtos em poucas semanas.

Qual o grande diferencial dos chineses?
A capacidade de execução de alto volume. Isso não acontece em nenhum outro lugar do mundo.

O que eles exportam além de produtos?
A China virou um berço de unicórnios, empresas com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão. Atualmente eles estão beirando 170 empresas. O Brasil, se você espremer muito, consegue tirar quatro ou cinco unicórnios. E a China chegou nesse patamar de unicórnios devido à liberdade de atuação, desde que não seja nas áreas dominadas pelas estatais. Eles têm um ambiente muito frutífero. Algo interessante também é que quase não circula mais papel-moeda no país. Tudo é feito pelo celular usando aplicativo WeChat Pay. Desde comprar um café até um carro. Essa realidade faz três anos para eles, ao ponto que, se alguém usar uma cédula vão achar que é um alienígena.

O partido é comunista apenas no nome?
A China não é comunista. É um comunismo nos moldes chineses. Na verdade, é um capitalismo agressivo. O Partido Comunista governa o país e ainda há resquícios de comunismo na forma como o governo opera as estatais. Aquele comunismo como Mao Tsé-Tung gostava. Depois do processo de abertura, no final da década de 1970, o processo foi gradual. Mas, ainda tem um pouco de comunismo no interior onde as pessoas plantam e dividem. Ao olhar de pessoas ocidentais essas pessoas são vistas como pobres, mas eles não se sentem assim. Para eles é normal.

É muito diferente da percepção que os brasileiros tem de comunismo, como o cubano, por exemplo.
É muito complexo entender o comunismo chinês. A melhor forma de explicar é sobre a ótica da filosofia confucionista, que tem várias relações hierárquicas. A relação mais alta é entre império e súdito. O império está muito alto, se comparado com o súdito. A figura do imperador na cabeça de um chinês vem de cinco mil anos de história. Eles têm orgulho disso. A filosofia confucionista é presente até hoje. Essa forma do Confúcio de organizar a sociedade foi muito importante. A ordem é de cima para baixo: imperador e súdito, pai e filho, marido e mulher, irmãos mais velho e mais novo e os amigos, únicos que estão iguais na escala.

O chinês não vê de forma negativa um governo tão forte, com tantos poderes. Uma frase do Deng Xiaoping é muito presente na cabeça deles: “Não interessa se o gato é branco ou preto, desde que o gato cace rato”. Para eles não interessa se é comunismo ou capitalismo, o povo não pode ser pobre. A população chinesa quer enriquecer e por isso o país facilita tanto o empreendedorismo. Não há uma percepção no chinês de liberdade restringida. Tudo se pode fazer na China, menos falar mal do governo.

Como é a política na China?
O Partido Comunista Chinês vai se moldando automaticamente. Diferente do que muita gente pensa, o sistema político chinês é o que mais passou por reformas nos últimos 40 anos. Porém segue sendo um partido único. O presidente é eleito de dentro do partido. As cidades têm prefeitos e vice-prefeitos, assim como as províncias tem governadores e seus vices. Mas, tudo sai do partido comunista, por meritocracia. Um sistema onde seus pares de avaliam.

Existem regras claras. Um político não chega à prefeitura de um grande município sem antes ter passado por administrador de bairro, depois prefeito de pequenos municípios. Só depois disso que se pode pensar em ser governador e também precisa observar a questão da idade. Dentro deste sistema, um presidente como Xi JinPing , para chegar lá já foi muito testado. É uma forma de reduzir a margem de erro onde pessoas despreparadas ocupam cargos de muita responsabilidade.

A população não participa da escolha dos políticos?
Não. A população não vota. É muito mais difícil um homem chegar ao topo no sistema político chinês do que no brasileiro. No Brasil tem a velha prática de compra de voto por a população ser tão pobre. Um cara se elege vereador em uma cidade pequena trocando tijolo por voto. Na China são os pares avaliando. Para subir de determinado cargo, um chinês tem que ser melhor do que os outros. Para um político chinês chegar a governador de uma província relevante foi muito testado, passou por prefeito e outros cargos. Obrigatoriamente. Ele não pula a escada. O sistema tem regras e elas são claras.

Os chineses não falam em eleição direta?
Não. Pode ter uma ala, que eu não convivi, mas o voto não está na lista de desejos de um cidadão comum. Para o chinês, o processo de eleger quem vai estar no poder é para quem vive de política, não para o cidadão comum. A política na China é feita por profissionais. Políticos profissionais. Inclusive já testemunhei chineses debochando do sistema político eleitoral. Dizem que é um ciclo vicioso entre a esperança e o arrependimento.

O governo influencia a economia e as relações exteriores?
A China não é um país onde todas as decisões são tomadas de cima para baixo. Posso dizer com tranquilidade que as decisões são tomadas de baixo para cima, ao ponto de ter bancos de financiamento municipal. Os prefeitos têm recursos para fazer obras e não dependem do governo federal. Para exemplificar, temos o porto seco de Anápolis e se outro município construir outro porto seco vai ser concorrente. Isso é o que mais acontece na China: municípios competindo uns com outros.

O protecionismo deles é em cima da indústria nacional?
Exatamente. A China é muito liberal no discurso. Porém, na prática, é extremamente protecionista. Na área automotiva, por exemplo, uma fabricante só entra no país se um parceiro chinês for dono de 50% da empresa. A Ford tem 50% e outra empresa chinesa tem 50% da sociedade. Está acontecendo algo interessantíssimo neste sentido com a Tesla. O presidente da empresa, Elon Musk, está conversando diretamente com o alto escalão do partido chinês para conseguir ser exceção à essa regra. A Tesla está em negociação adiantada para abrir uma fábrica em Xangai, que inicialmente seria de baterias. Vamos ver se o Musk vai ser o primeiro a conseguir essa exceção o Partido Comunista Chinês.

O que Goiás exporta para a China?
Produtos primários. Muita soja. Há uma discussão interessante no sentido de melhorar o nível de industrialização da soja e vender os produtos decorrentes do processo, como óleo de soja e outros derivados. Deixar a soja com mais valor agregado e depois vender. Mas, basicamente, exportamos minério de ferro e produtos agropecuários, em particular a soja. Na balança comercial de exportações de março, o Estado de Goiás exportou mais do que 40% para China. É um nível de concentração perigoso.

O que ainda pode frutificar da aproximação entre a China e o Brasil no futuro?
Principalmente tecnologia. Essas starups consideradas unicórnios ainda não aprenderam a operar fora da China. Quando eles aprenderem a operar esses aplicativos dentro do Brasil, nós vamos ver uma enxurrada de investimentos chineses. Isso é um processo. A Tencent (dona do WeChat) investiu recentemente no Nubank. Foi a última rodada de investimentos da Tencent que transformou o Nubank num unicórnio. Outro exemplo é o aplicativo DiDi Chuxing que comprou a 99Pop e a transformou num unicórnio. O que a gente vai ver de agora para frente é esse perfil de investidor mais jovem e indústrias mais novas. Essa é a tendência.

Com a melhoria na distribuição de renda e uma ascensão de centena de milhões de chineses a classe média, outra grande tendência é a busca por melhores produtos e serviços como por exemplo alimentação, vestuário e turismo. Isso abre uma oportunidade gigantesca para empresas Goianas.

 

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