Empresas goianas em recuperação judicial conseguem fôlego para soerguer

Administradores judiciais de casos emblemáticos em Goiás afirmam que as contas podem sair do vermelho e afastam risco de falência

O Empório Piquiras segue o plano de recuperação aprovado pelos credores e o administrador judicial do caso afasta possibilidade de falência | Foto: Reprodução

Empresas famosas em Goiás sofreram com a crise financeira acentuada em 2015 e algumas precisaram de suporte judicial para sair das contas negativas, como os restaurantes Kabanas e Empório Piquiras. Além do setor de alimentos, outros também caíram nas mãos do Judiciário buscando ajuda, como o frigorífico JJZ e a montadora de geradores de energia Stemac, com unidade fabril na cidade goiana de Itumbiara.

O advogado Leonardo Paternostro atua como administrador judicial em três empresas citadas: Kabanas, Empório Piquiras e o frigorífico JJZ. Destas, apenas o Piquiras teve o plano de recuperação judicial homologado há um ano e meio pelo juiz do caso e até o momento paga rigorosamente em dia os débitos acordados no documento.

O resultado positivo do Empório Piquiras foi citado pelo juiz da 7ª Vara Cível de Goiânia que conduz o caso: “Ora, várias são as demonstrações de restabelecimento das recuperandas, diante dos acordos informados em processos apartados, e sobretudo, diante do Relatório Mensal de Atividades apresentado no Evento 70, em que demonstrou, o douto Administrador Judicial, estarem as recuperandas obtendo resultados considerados satisfatórios no caminho da recuperação financeira; isso, no período de julho a dezembro de 2016, com clara menção de melhora para o primeiro semestre de 2017”, escreveu o magistrado Péricles DI Montezuma em sentença datada de 14 de agosto de 2017.

O restaurante Piquiras está aberto no mercado goianiense há mais de 30 anos e acumulava dívidas de R$ 20 milhões com bancos e outros espécimes de credores.

Já o restaurante Kabanas apresentou o plano de recuperação à juíza da 5ª Vara Cível de Goiânia, Iara Márcia Franzoni de Lima Costa, em agosto de 2016. No entanto, aguarda um embargo de declaração ser julgado para entrar em vigor e os sócios da empresa iniciarem o pagamento dos credores conforme o plano. As maiores dívidas do restaurante são de empréstimos bancários com o Safra e o Bradesco, que chegaram aos R$ 7 milhões.

Administrador judicial de empresas famosas de Goiás, Leonardo Paternostro, afirma que os restaurantes Piquiras e Kabanas apresentam melhoras na saúde financeira após a recuperação judicial | Foto: Arquivo pessoal

“Todos os setores em Goiás foram afetados pela crise financeira que passamos nos últimos anos. Todo mundo sentiu o efeito na perda de faturamento. As empresas que entraram na recuperação judicial e que eu atuo como administrador judicial [Piquiras, Kabanas e JJZ] mostram avanços e queremos que se recuperem. Os credores também querem para receber seus pagamentos”, conta Leonardo Paternostro.

A montadora de geradores de energia Stemac acumulou R$ 650 milhões em dívidas de várias naturezas. O administrador judicial do caso, advogado Dyogo Crosara, explica que a empresa teve uma queda muito grande nas vendas industriais. O pedido de recuperação foi aceito pelo Judiciário há oito meses e está em fase de processamento. “A Stemac vai apresentar a segunda lista de credores em breve e até agora a empresa apresenta bons sinais de recuperação. É a maior recuperação judicial de Goiás”, afirma Crosara. A empresa ainda não se desfez de nenhum bem para pagar dívidas.

O Tribunal de Justiça de Goiás publicou levantamento acerca dos pedidos ingressados entre 2015 e 2017. No primeiro ano estudado, 37 empresas pediram socorro a Justiça. No ano seguinte, foram 80. Os pedidos caíram para 38 em 2017. Os meses com mais registros de recuperações foram agosto, outubro e novembro de 2016. Em abril de 2017, os pedidos bateram recordes: 29. Quase um por dia.

“Os dados do TJ-GO demonstram a recuperação da economia. Minha expectativa é que esse número de ajuizamento de recuperação judicial caía mais a partir do ano que vem. Tenho conhecimento de que grandes empresas industriais e agropecuárias no Estado que desejam ingressar com pedido na Justiça. Mas, se a economia voltar a aquecer, o mercado volta a vender e essas empresas talvez não precisem entrar com o pedido”, sublinha Leonardo Paternostro. Ele acrescenta, ainda, que as empresas Kabanas e JJZ preparam caixa para cumprir o plano de recuperação quando for homologado.

Advogado Dyogo Crosara administra judicialmente a produtora de geradores de energia Stemac há oito meses. A empresa apresenta a segunda lista de credores à Justiça | Foto: Arquivo

Plano de recuperação do Kabanas

O restaurante Kabanas apresentou o plano de recuperação judicial sustentando a viabilidade de recuperação da empresa. Os dois sócios, Ricardo Netto Siqueira e Bolívar Gonçalves Siqueira, faturam em média R$ 10 milhões por ano. O dado foi apresentado para o período de 2013 a 2015. Os ambientes dos restaurantes recebem em média 12.900 clientes por mês, divididos em 5.200 na unidade do Parque Vaca Brava e 7.700 na unidade do Shopping Flamboyant.

O restaurante Kabanas aguarda decisão para homologar plano de recuperação judicial e iniciar pagamento dos credores. As dívidas chegaram a R$ 7 milhões | Foto: Reprodução

Os sócios apontaram a crise brasileira como causa do desequilíbrio financeiro. Apesar dos restaurantes registrarem aumento no faturamento, a empresa não conseguiu evitar que momentos de turbulência os afetassem. “Desta forma, o Kabanas passou a apurar excessivo aumento de seus custos financeiros e falta de liquidez financeira, crescentes a cada dia, de modo que, nem com todas as medidas administrativas, financeiras e de gestão tomadas, tais como reduções de custo e melhorias nos processos, vislumbrou-se como possível a superação das adversidades”, contaram os sócios no plano de recuperação.

Em 2007, os sócios precisaram comprar o lote onde funciona a unidade do Setor Bueno por R$ 700 mil. Posteriormente, houve uma ação fiscal da Secretaria de Fazenda no valor de R$ 1,6 milhão, que acentuou ainda mais a crise.

O grupo Kabanas adotou medidas austeras para sair da crise. Em 2016, reduziu o quadro de pessoal para 32 trabalhadores, o que gerou uma economia mensal de R$ 57 mil.

O quadro de credores na recuperação judicial foi divido basicamente em três grupos: trabalhistas (R$ 1.566,13), quirografários (R$ 7.187.837,33) e microempresas (R$ 162.082,35).

Os créditos trabalhistas serão pagos com seis meses de carência, a partir da homologação do plano, em seis parcelas mensais. Os credores quirografários serão pagos após a carência de um ano e sofrerão deságio de 65% sobre o valor do crédito, conforme consta no plano. O pagamento será feito em quatro parcelas trimestrais e obedecerão ao prazo máximo de dez anos para serem quitados. Já os credores de microempresas receberão imediatamente após a homologação do plano. No entanto, vão sofrer deságio de 20% sobre o valor real.

O passivo tributário do grupo era de R$ 720 mil em 2016 e os donos prometeram rever os débitos visando a redução dos mesmos.

Greve dos caminhoneiros levou empresas à recuperação judicial

A DUX Administração Judicial, escritório especializado no tema em Goiás, trabalha em casos advindos da greve dos caminhoneiros no Brasil. O sócio do escritório Diogo Siqueira Jayme explica que algumas empresas tiveram suas atividades paralisadas naquele período e, mesmo com o fim da greve, não conseguiram recuperar as vendas perdidas. “Muitas empresas perderam produtos e vendas tanto no início da paralisação como na volta e não conseguiram fazer caixa para se manter”, ressalta Diogo Jayme.

O advogado Diogo Siqueira Jayme explica que a greve dos caminhoneiros também afetou empresas goianas que acabaram pedindo ajuda no Judiciário | Foto: Arquivo Pessoal

O advogado especialista no tema explica que as empresas em dificuldade financeira não devem segurar o ingresso com a recuperação na Justiça para não atrapalhar a recuperabilidade da mesma. “O empresário tenta evitar ao máximo usar este tipo de instrumento por medo da ideia de que a empresa fique dependente da autorização de credores. Eles poderiam ter feito a recuperação judicial num momento onde se tinha estrutura mais robusta para sobreviver. Porque é normal quando a empresa entra em recuperação que os bancos fechem as portas. Aí o empresário acaba vendendo a prazo, mas o pagamento para ele é sempre à vista. Existem casos de empresas que não vendem para outras empresas em recuperação, mesmo com pagamento à vista”, ressalta Diogo Jayme sobre a parte difícil no processo de RJ.

O advogado conta que a volatilidade do mercado nacional e internacional afeta diretamente a realidade das empresas. “Tivemos um caso de uma indústria que, aparentemente viável para se recuperar, encontrou percalços devido a um fator internacional. Essa fábrica trabalhava com produtos químicos produzidos na Europa e no mundo inteiro existem apenas sete fábricas deste produto. Destas sete, três pegaram fogo. Então a escassez desse produto químico no mundo afetou esta empresa em Goiás”, destaca Jayme.

 

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