Empresários goianos aproveitam o otimismo econômico para expandir operações

Companhias nascidas em Goiás, e com reputação nacional, contam histórias de como acharam o segredo para crescer no passado em um cenário parecido com o atual

Fábrica de sorvetes Creme Mel começou no quintal de casa e hoje é a terceira maior do Brasil | Foto: Divulgação

As medidas adotadas pelo governo federal para desatolar o mercado econômico lembram o cenário dos anos 1990, em que empresários goianos acharam caminhos em meio a crise para crescerem seus negócios além das divisas de Goiás. O atual momento com baixa projeção do Produto Interno Bruto (PIB), pouca expectativa de geração de emprego e a alta taxa de desempregados no país se assemelha com o período chamado de “década perdida”, nos anos 1980.

Nos dez anos seguintes, entre 1990 e 2000, governantes do Palácio do Planalto tomaram atitudes de abertura da economia brasileira que favoreceram a explosão das atividades comerciais de empresas genuinamente goianas para outros estados e países, alastrando filiais que as tornaram conhecidas nacionalmente.

Com a tentativa de ter mais abertura política e econômica, e várias medidas empregadas pelo governo federal, como a Medida Provisória da Liberdade Econômica, empresários goianos buscam, como no passado, identificar caminhos que levem as empresas a patamares maiores.

A aposta da Neokoros, empresa goiana especializada no desenvolvimento de soluções que facilitam a identificação pessoal através da biometria (impressão digital), é disseminar seus serviços no continente europeu. Para isso, o proprietário da empresa, Marco César Chaul, vendeu 51% de suas cotas societárias para a ISG Participações S/A, há três meses. Novas oportunidades estão sendo abertas em Portugal, depois de começar a fornecer projetos de alta segurança de hardware para uma empresa alemã e assinar parcerias para a produção desses hardwares na Coréia do Sul.

“O objetivo dessa companhia para a qual vendemos parte da sociedade é ser a maior empresa na área de tecnologia até 2026. Com isso vamos alavancar muito a parte comercial e institucional da empresa”, explica Chaul, que também é presidente do Sindicato das Empresas de Informática em Goiás (Sindinformática) e vice-presidente da Federação do Comércio de Goiás (Fecomércio).

Os serviços, sistemas e equipamentos usados pela empresa são desenvolvidos com exclusiva tecnologia de identificação por impressões digitais 1: N, no padrão de comunicação TCP/IP, facilitando o tráfego de informações através da rede de uma empresa, dispensando o uso de cartões ou senhas de acesso, com aproveitamento por digitais cadastradas próximo a 100%.

Para Chaul, o governo federal tenta otimizar a parte burocrática do país, com a retirada de entraves jurídicos que dificultam o crescimento econômico. “Na área de tecnologia da informação, mais especificamente, a mão de obra influi muito no custo final do produto que se vai oferecer ao mercado”, esclarece.

Nascida em 2002, em Goiânia (GO), a Neokoros tem 5 mil distribuidores de seus softwares e produtos de identificação biométrica em todo o Brasil e fatura anualmente R$ 330 milhões. “O grande diferencial para o crescimento da empresa aconteceu quando decidimos produzir tecnologia de identificação para o grande fluxo de pessoas, como condomínios, clubes e outros”, conta Chaul.

Marco Chaul, da Neokoros, começou a empresa de identificação biométrica em Goiânia e hoje tem 5 mil distribuidores em todo o Brasil | Foto: Divulgação

A sorveteria Creme Mel é outra empresa goiana fundada nos anos 1980 pelo ex-motorista de ônibus Antônio Benedito dos Santos, e que expandiu sua participação no mercado brasileiro. A garagem da residência do empresário serviu como protótipo para o desenho da linha de sorvetes e picolés. E ano após ano, a Creme Mel se tornou a maior indústria de sorvetes do Centro-Oeste e está entre as mais importantes do seu segmento no Brasil.

No embalo da abertura econômica, a empresa adquiriu recentemente a Zeca´s Sorvetes, maior companhia do ramo no Nordeste brasileiro e a quinta do país – e se tornou a maior fabricante de sorvete genuinamente brasileira e um dos maiores players da América Latina.

Com a aquisição da Zeca´s Sorvetes, a Creme Mel consolidou a terceira posição no mercado, com vendas em 17 estados. Com presença em oito estados do Nordeste, o posicionamento geográfico da Zeca’s é complementar ao da Creme Mel, que é focada nas regiões Centro-Oeste, Norte e Sudeste. Com a união das empresas, ambas se beneficiarão de sinergias significativas ao longo dos próximos anos através de ganhos operacionais, logísticos e administrativos.

Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes (Abis), em 10 anos o mercado de sorvete cresceu 90,51% no Brasil. Em 2018, a produção do setor nacional beirou 800 milhões de litros de sorvetes fabricados por dia.

Atualmente, a empresa possui mais de 920 colaboradores e oito centros de distribuição (Goiânia, Uberlândia, Montes Claros, Betim, Palmas, Vitória da Conquista, Imperatriz e Brasília). “Marcamos presença nos estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Maranhão e Distrito Federal e contamos com estrutura completa e atualizada de laboratório de análise e acompanhamento, produção, armazenamento e transporte, sem falar de nossa equipe de profissionais altamente qualificados que seguem os padrões internacionais de qualidade e higiene”, conta o gerente de marketing da Creme Mel, Ranny Galli.

Da garagem de casa, Antônio Benedito dos Santos cresceu e conseguiu erguer um complexo industrial, em Goiás, para atender a demanda de 33 mil picolés por hora e 15 mil litros de sorvetes por hora. No fim do dia, a fábrica produziu 250 mil picolés e 45 mil litros de sorvete. O faturamento anual chegou a R$ 200 milhões. Atualmente, cerca de mil colaboradores compõem o quadro de mão de obra da empresa.

“Para garantir aos nossos clientes o sabor e a qualidade conhecida no mercado, contamos com câmaras frias para armazenamento do produto acabado que chegam a -37° e frota própria de caminhões com carrocerias de tecnologia italiana para a distribuição”, menciona Galli.

A Cremel Mel possui frota própria para distribuição dos produtos | Foto: Divulgação

Em 1987, Antônio Benedito pediu demissão da empresa de ônibus em que trabalhava como motorista e utilizou o dinheiro da rescisão para comprar uma máquina básica de fazer sorvete e picolés. A escolha foi baseada na possibilidade de ficar no controle da produção e venda dos produtos logo no início das atividades. E em 1996, Santos conseguiu comprar o prédio da atual fábrica da marca, com um investimento de R$ 1 milhão.

Laboratório Núcleo saiu de uma unidade para 48

Em 1986, o endocrinologista Syd de Oliveira Reis fundou o Laboratório Núcleo com um grupo de médicos endocrinologistas para desenvolver um serviço de atendimento a patologias endócrinas, principalmente diabetes. O nome Núcleo surgiu pela vontade de posicionar o laboratório como o centro de outros serviços relacionados a área dos então sócios. A primeira unidade foi aberta em Goiânia, na Rua 7 do bairro Setor Oeste, onde funciona a matriz até hoje.

Depois de 14 anos em funcionamento, o Núcleo passou por uma reestruturação, no ano de 2000, e o crescimento voltou a fazer parte da rotina da instituição com a permanência apenas de Syd no quadro societário da empresa.

Entre as mudanças houve a implantação da chamada política de seriedade e transparência, como conta Syd de Olveira, além do envolvimento direto de sua família nas decisões do laboratório. “O resultado foi a criação de um ambiente familiar e acolhedor, como é até hoje”, relata o médico.

Médico Syd de Oliveira Reis fundou o Laboratório Núcleo há 33 anos, em Goiânia; atualmente são 48 unidades | Foto: Reprodução

O Laboratório Núcleo empreendeu e abriu novos postos de atendimento depois dos 2000, chegando a total de 48 unidades. “Outro passo importante foi a compra direta de aparelhos que modernizaram o parque tecnológico da empresa. Hoje, o Laboratório Núcleo está entre os melhores laboratórios do estado de Goiás e é o único que possui equipamentos de ponta e faz 97% dos exames de sua unidade dentro do estado, agilizando o resultado”, diz Syd de Oliveira.

Para o empresário, o laboratório continuará crescendo nos próximos anos com a abertura de novas unidades e expansão para mais cidades do interior goiano. “A empresa cresceu 1.691% em poucos anos. Somos a única rede de laboratórios em Goiás que usa equipamentos adquiridos na Europa”.

Cristal Alimentos começou fabricando 60 quilos de arroz por dia

A história da Cristal Alimentos, mais conhecida por “Arroz Cristal”, tem início em 1956, na cidade de Tesouro no Mato Grosso. O dono da empresa, Walterdan Fernandes Madalena, ajudava a família em uma mercearia própria.

Aos 12 anos de idade, Walterdan comprou a primeira máquina de beneficiamento de arroz, de movimentos manuais e tinha capacidade para produzir um saco de 60kg de por dia. No ano seguinte, o pai de Walterdan resolveu se mudar com a família para a capital goiana, passando a ter uma mercearia na antiga Vila Operária, atualmente conhecida como Setor Centro-Oeste.

Em 1964, Walterdan firmou parceria com seu irmão Walton. Mais a frente eles conseguiram comprar uma máquina com capacidade para limpar quatro sacos de 60 quilos hora. A partir daí surgiu a primeira cerealista, que se chamou “Cerealista Madalena”, localizada na Rua Ipameri, em Campinas.

Walterdan vendeu sua parte da cerealista para o irmão Walton em 1965 e passou a comprar arroz em casca, pagando para ser beneficiado. Um ano depois montou a “Cerealista Amazonas” na Rua P-16, no Setor dos Funcionários, com capacidade para beneficiar oito sacos de 60 quilos por hora. Ainda no mesmo ano, seu irmão Waldir Madalena se tornou sócio da empresa. Seus principais clientes eram varejistas e feirantes.

O crescimento exponencial começou em 1974, período do governo militar, que estabeleceu que a comercialização do produto só poderia ser realizada em pacotes, com os dados do fabricante e do produto impressos na embalagem, momento em que surgiu o empacotamento e a marca Cristal.

Marcelo Madalena faz parte da terceira geração da história do Arroz Cristal e está na empresa desde os 12 anos de idade | Foto: Reprodução

No ano seguinte, os irmãos adquiriram uma máquina com mais capacidade de beneficiamento de arroz e aumentaram o portfólio de produtos criando três novas marcas: Mônica, Safra e Esmeralda.

Mas 10 anos depois, em 1984, surgiu o líder de mercado em Goiás, Arroz Cristal, com a chegada de um produto inexistente á época: o arroz agulhinha, que vinha importado do Rio Grande do Sul. E em 1986, a empresa inicia as propagandas de televisão e rádio.

Dois anos depois, em 1988, a empresa transferiu suas atividades para novas instalações na Avenida Perimetral, no Setor Parque Industrial Paulista. A produção aumentou para 50 sacos por hora até atingir a marca de 200 sacos por hora. Também foram criadas novas quatro marcas: Califórnia, Madalena, Sol e Pureza.

Em 1996, a empresa decidiu construir uma nova sede. E, depois de quatros anos de construção, as atividades da Cristal Alimentos foram transferidas para uma nova localização na BR 153, em Aparecida de Goiânia.

Novos produtos entraram no portfólio da empresa, em 2007, como feijão, óleo, açúcar, farinha de trigo, massas e recentemente copos descartáveis. A indústria atingiu recentemente a marca de 600 mil fardos de arroz produzidos por mês.

A Cristal Alimentos – tanto administração e indústria – funcionam no município de Aparecida de Goiânia com área total de 245 mil metros quadrados, sendo 37 mil de área construída e o parque industrial, segundo a administração da marca, utiliza a mais avançada tecnologia mundial de beneficiamento de arroz e as mais modernas máquinas.

Os produtos circulam estão em várias regiões do país, com representantes comerciais cobrindo a totalidade do Estado de Goiás e com distribuição para os mercados do Distrito Federal, Mato Grosso, Minas Gerais, Tocantins, Pará, Maranhão e Bahia. O quadro de funcionários dispõe de 800 colaboradores de forma direta e outras milhares de forma indireta.

Cerveja artesanal produzida em Goiás abre portas na Europa

Patrícia Mercês, dona da cervejaria Goyaz e da marca Colombina, espera crescer 20% em 2019 | Foto: Divulgação

A cerveja Colombina nasceu em Goiás há quatro anos e em 2018 conseguiu enviar seus produtos para a Europa, com a primeira abertura comercial com a Áustria. Inicialmente foram enviadas 6,5 mil garrafas (3,9 mil litros) dos 15 rótulos fabricados pela cervejaria Goyaz, dona da marca. Para a dona da cervejaria, Patrícia Mercês, a expectativa de faturamento para 2019 é fechar na casa de 20%, como já aconteceu em anos anteriores.

O representante comercial na Áustria possui o direito de levar a cerveja para mais três países: Alemanha, Suíça e o município alemão de Lichtenstein. Além do exterior, a cervejaria tem seus rótulos vendidos em Brasília (DF) e no triângulo mineiro (MG) e pretende expandir os negócios para os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro até dezembro deste ano.

Para 2020, Alberto Nascimento diz que a empresa prepara o envio de mais uma remessa de cervejas engarrafadas ao país europeu. “Como nosso representante comercial de lá possui uma estrutura pequena, as remessas também são pequenas. Mas a expectativa é que cresça ao longo dos anos. Quem está levando a nossa cerveja para lá é um austríaco casado com uma goiana”, revela o sommelier.

“Somos responsáveis pela primeira linha de cervejas especiais do Centro-Oeste. Temos uma pegada regional, utilizamos a rapadura Moça Branca, feita por pequenos produtores de Nerópolis, na composição. Nos orgulhamos disso. Tanto, que em nosso rótulo, desenvolvidos pelos artistas goianos Morbeck e WES, trazemos a inscrição ‘Orgulho de ser goiana’”, diz o sommelier da marca Colombina e diretor-geral da cervejaria, Alberto Nascimento.

A Cervejaria Colombina produz uma média de 40 mil litros mensais de bebidas, segundo Alberto Nascimento. Destes, 60% são de chopp, vendidos no atacado para empresas, e 40% de cerveja engarrafada. A cervejaria também oferece o serviço de growler, em que uma cliente pode levar uma garrafa retornável e comprar apenas a bebida numa empresa distribuidora.

A marca Colombina foi lançada oficialmente no mercado em 2014 como a primeira cerveja especial produzida em Goiás, em uma estrutura de 300 metros quadrados no bairro Jardim Guanabara, em Goiânia (GO).

Anos depois, em 2017, a cervejaria se instalou numa área de 1,2 mil metros quadrados em Aparecida de Goiânia, município vizinho a capital, sob o investimento de R$ 1 milhão na mudança e aquisição de maquinários. A fábrica conta com 24 funcionários.

A diretoria da empresa planeja

 

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.