Em tempos de recessão econômica empresas goianas buscam novos mercados fora do Brasil

A exemplo do poderoso JBS, que se tornou o maior do mundo em sua área, outras empresas goianas vão ao mercado externo, até como alternativa ao momento ruim da economia brasileira

Foto: Empresas de Goiás miram o mercado externo como alternativa à recessão econômica no Brasil / Foto: Equiplex

Foto: Empresas de Goiás miram o mercado externo como alternativa à recessão econômica no Brasil / Foto: Equiplex

Frederico Vitor

Nos últimos anos, graças ao surto de expansão da economia brasileira, algumas empresas de Goiás foram buscar fora dos limites territoriais do País novos negócios por meio de filiais, escritórios, unidades produtivas ou representações. Alguma delas chegaram a adquirir empresas locais ou inauguraram grupos em associação ao capital estrangeiro. No momento em que o Brasil entra em um processo de estagnação econômica causado pelo baixo crescimento, novos empreendedores goianos miram para fora como alternativa ao período turbulento em que vive o Brasil.

Tempos atrás, era tímida a presença de empresas e empresários goianos no estrangeiro. Contudo este cenário nublado foi se abrindo a partir do momento em que se tornou mais fácil investir fora. O grupo pioneiro que se lançou na aventura de se estabelecer no exterior foi o JBS, a holding comandado pelo clã dos Batistas que engloba a Friboi, Bertin, Swift, Vigor, Lego dentre outras. A empresa é um gigante mundial, líder absoluto no processamento e comercialização de proteína animal.

Odilon Santos: Grupo mantém negócios em Angola desde 2004 / Wilder Pedro Morais: Construtora atua na Ásia e na América Latina  / Vanderlan Cardoso: Pontos de distribuição no Panamá e Angola / Foto: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Odilon Santos: Grupo mantém negócios em Angola desde 2004 / Wilder Pedro Morais: Construtora atua na Ásia e na América Latina / Vanderlan Cardoso: Pontos de distribuição no Panamá e Angola / Foto: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

A JBS tornou-se a primeira companhia do setor frigorífico no Brasil a negociar suas ações na bolsa de valores a partir de março de 2007. Com mais de 200 mil funcionários ao redor do mundo, a companhia possui 340 unidades de produção e atua nas áreas de alimentos, couro, biodiesel, colágeno, embalagens metálicas e produtos de limpeza. Presente em 100% dos mercados consumidores, a JBS é a maior exportadora do mundo de proteína animal, vendendo para mais de 150 países.

A origem da JBS remonta o ano de 1953, quando seu fundador, José Batista Sobrinho, iniciou as operações de um pequeno matadouro com capacidade de processamento de cinco cabeças de gado por dia, na cidade de Anápolis. No mesmo ano e no mesmo município foi fundado a Casa de Carnes Mineira. De 2001 a 2006 o grupo passou a operar 21 plantas no Brasil e cinco na Argentina e aumentou sua capacidade de abate para 19,9 mil cabeças por dia. Em 2005, a companhia inicia seu processo de internacionalização e adquiriu 100% do capital social da Swift-Armour, maior produtora e exportadora de carne bovina na Argentina.

Em 2007, a companhia expande suas operações por meio da aquisição da empresa norte-americana Swift Company, representando seu ingresso nos mercados de bovinos e suínos nos EUA e na Austrália. No ano seguinte, a empresa adquire a Tasman Group, na Austrália, a Smithfield Beef, divisão de bovinos da Smithfield Foods, nos Estados Unidos, e os confinamentos da Five Rivers, com capacidade para engordar 2 milhões de animais por ano. Em 2009 a JBS incorporou o frigorífico Bertin, até então segundo maior no Brasil, e adquire o controle acionário da Pilgrim’s Pride, ingressando no mercado norte-americano de aves.

O grupo continuou a se expandir tanto na Austrália quanto nos Estados Unidos e desembarcou na Europa por meio da aquisição do Grupo Toledo, da Bélgica. Recentemente, a empresa adquiriu a Seara Brasil e se consolida como líder global no processamento de aves. Não é segredo que, além de visão estratégica e ousadia nos negócio que possibilitaram a empresa que nasceu em Goiás a deter números e cifras fabulosas, o grupo contou com auxílio do governo federal, que autorizou vários empréstimos de capital via Banco Nacional de Desen­volvimento Econômico e Social (BNDES).

Avanço de empresas goianas sobre os Estados Unidos
Foto; Heribaldo Egídio: “Farmacêuticas goianas têm se internacionalizado”  / Foto: Equiplex

Foto; Heribaldo Egídio: “Farmacêuticas goianas têm se internacionalizado” / Foto: Equiplex

A cidade de Aparecida de Goiânia abriga uma importante empresa do ramo de medicamentos que conhece bem o mercado externo. A Equiplex Indústria Farmacêutica, do empresário Heribaldo Egídio da Silva, que também preside o Sindicato das Indústrias Farmacêuticas no Estado de Goiás (Sindifargo), começou suas operações em 1986. Inicialmente, produzindo produtos descartáveis, passando à produção de injetáveis e antissépticos, tem industrializado cerca de 150 milhões de unidades ao ano de pequenos e grandes volumes. A companhia tem 440 funcionários.

Presente em todo o País, a Equiplex chegou a exportar seus produtos para os países do Mercosul e Comunidade Andina. Mas, atualmente, a holding tem-se voltado ao mercado interno e tem importado insumos, sobretudo dos Estados Unidos, China e de Israel. Para tal, o empresário goiano mantém na cidade de San Leandro, no Estado americano da Flórida, uma empresa — KP Corporation —, que conta com cinco funcionários, entre brasileiros e americanos, que se dedicam a captar matérias-primas a serem enviadas para o Brasil.

O escritório também auxilia outras empresas a entrarem no mercado americano, como a Vascafé, do empresário goiano Vanderlan Alcântara Júnior, que depois de dez anos está voltando para os Estados Unidos por meio da KP Corporation. A empresa de café, que tem uma fábrica em Quirinópolis e escritório em Goiânia, chegou a comercializar seus produtos no mercado americano por vários anos. Naquele período, a empresa mantinha um centro de distribuição na Flórida, mas fechou as portas em 2005 por conta da baixa cotação do dólar, que inviabilizou os negócios, forçando o radar da empresa a mirar em direção do mercado nacional.

Agora em 2015, a Vascafé quer reconquistar os Estados Unidos e cerca de cinco toneladas de café especial em grãos para máquinas de expresso e em pó já estão à disposição dos consumidores da Flórida — por enquanto o único Estado a homologar a comercialização do produto goiano. Heribaldo Egídio afirma que não só a Vascafé tem sido auxiliada pela KP Corporation, a Ardrak, líder nacional na industrialização e comercialização de produtos à base de gengibre, também está adentrando o mercado americano com auxílio do escritório do empresário goiano.

Segundo Heribaldo Egídio, a Equiplex, que iniciou suas operações em 1986 e dois anos depois se expandiu para um holding — o grupo integra também a Transplex, que transporta os medicamentos —, deve crescer neste ano de incertezas da economia brasileira. A empresa que está voltada para os consumidores internos enxerga no País um grande potencial, já que cerca de 40% dos brasileiros ainda não têm acesso a medicamentos industrializados. “Apesar de importarem muita matéria-prima, as empresas farmacêuticas de Goiás têm se internacionalizado via América Latina.”

Tradicional grupo local de transporte rodoviário conquista o mercado angolano
onibus

Com frota superior a 200 ônibus, Grupo Odilon Santos atua no transporte urbano na capital de Angola / Foto: otmeditora.com.br

 

Outro grupo goiano que obteve uma experiência positiva ao se lançar em terras estrangeiras foi o Odilon Santos. Há quase dez anos com atividades em Angola, país da costa ocidental da África, opera no transporte urbano e rodoviário de passageiros na capital Luanda e em cidades das províncias do interior do país. No mercado angolano, o grupo atua por meio de uma empresa chamada SGO Empreendimentos & Participações.

As perspectivas para os próximos anos são de crescimento contínuo, principalmente considerando que existem também outras áreas de atividade que a empresa planeja explorar. Uma delas é o crescente mercado interno turístico que demanda ônibus com mais conforto e requer programas de viagens mais customizadas. A empresa tem atualmente uma frota local de 290 ônibus, dos quais 55% são usados em linhas interprovinciais. O restante da frota cumpre contratos de fretamento e circula nas linhas urbanas.

A frota do Grupo Odilon Santos em Angola é composta, predominantemente, por veículos importados da China — da marca King Long. Porém veículos de fabricação brasileira rodam no país africano, e a garagem da empresa conta com cerca de 40 ônibus fabricados deste lado do Atlântico. A renovação da frota é feita anualmente por conta das severas condições de operação que os carros são submetidos em decorrência da infraestrutura deficitária do país africano.

Desde 2004, quando desembarcou em Angola, dois anos após do fim da guerra civil que devastou o país, o grupo já transportou milhares de passageiros. Somente em 2014, foram cerca de 780 mil bilhetes vendidos. A empresa goiana chegou ao país africano para suprir a necessidade de ofertar naquele mercado serviços regulares de transporte urbano e rodoviário. O grupo opera no transporte entre Luanda e a cidade de Lobito, além de suprir as linhas da capital para 13 cidades. Paralelamente ao transporte de passageiros, a empresa atua em atividades ligadas à sustentabilidade. A SGO Ambiental, um dos braços do grupo em Angola, faz o recolhimento de resíduos sólidos urbanos na área metropolitana da capital angolana.

Dois empresários goianos que ocupam espaço de destaque na política goiana têm angariado negócios no exterior. Wilder Pedro Morais, senador pelo DEM goiano e proprietário da empresa Orca Construtora, tem fechado contratos no ramo da construção civil na América do Sul, América Central e Ásia. A empresa, com sede em Goiânia, é uma das poucas construtoras brasileiras, com exceção de gigantes do ramo como Odebrecht e Andrade Gutierrez, que atuam para além das fronteiras nacionais. Anos atrás foi anunciado que a construtora iria construir vários shoppings centers na Índia e centenas de casas populares no Panamá. Na Colômbia, a empresa entregou um centro comercial em Medellín e mais cinco lojas Atacadão para a rede Carrefour em Bogotá, Medellín e Villavicencio.

Vanderlan Cardoso, empresário do ramo alimentício e presidente estadual do PSB, tem estudado abrir pontos de distribuição de seus produtos fabricados no Brasil — biscoitos e salgadinhos — em dois países diferentes. Um deles poderá ser instalado na zona livre do Panamá, que abasteceria os mercados do Caribe e América Central. O outro ponto logístico ficaria em Angola, que vai cobrir o mercado africano. O ex-prefeito de Senador Canedo pontua que a grande vantagem de empreender no exterior é a baixa carga tributária. “Quando exportamos somos livres de toda cadeia de impostos, portanto nos tornamos mais competitivos lá fora”, ressalta.

A exemplo da KP Corpo-ration, do empresário Heri-baldo Egídio, que tem auxiliado a Vascafé a voltar a se estabelecer nos Estados Unidos, Vanderlan tem recebido apoio do Grupo Odilon Santos para empreender em Angola. “Es-tamos buscando parceiros tanto de lá quanto daqui, e o Odilonzinho tem sido um dos maiores incentivadores desta empreitada.”

“É diferente exportar e abrir negócio fora”
Helenir Queiroz: “Impostos altos derrubam competitividade nacional” / Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Helenir Queiroz: “Impostos altos derrubam competitividade nacional” / Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Segundo a empresária e presidente da Associação Comercial e Industrial do Estado de Goiás (Acieg), Helenir Queiroz, o primeiro passo para se estabelecer lá fora é pela exportação de produtos ou serviços. A expansão dos negócios acaba acontecendo pela necessidade de abertura de um escritório ou filial de apoio, com o objetivo de dar suporte aos clientes estrangeiros. Outra opção é a parceria com empresas locais.

Por meio de sua empresa (Grupo Multidata), Helenir Queiroz mantém negócios no exterior na área de software — ela fornece programas de computadores para multinacionais. Mesmo bem estabelecida no mercado, a empresária chama a atenção para as medidas da nova equipe econômica do governo federal, que recentemente anunciou a elevação de impostos que vão onerar ainda mais o setor produtivo nacional. Segundo ela, quanto maior for a tributação em cima do empresariado brasileiro, pouco competitivo se tornam os produtos e serviços nacionais em relação à concorrência externa. “Um produto feito aqui acaba tendo baixa competitividade lá fora por conta do custo agregado muito elevado.”

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.