Em meio à luta por salários e contra cortes, greve de professores na UFG expõe fissura no movimento por questões ideológicas

Movimento reflete na universidade a cisão entre duas federações, uma ligada à CUT
e a outra de viés esquerdista. Presidente da Adufg Sindicato critica “assembleísmo”

Em aula pública como ato de greve, professores e alunos ouvem fala do militante e mestrando Fernando Viana | Renan Accioly/jornal Opção

Em aula pública como ato de greve, professores e alunos ouvem fala do militante e mestrando Fernando Viana | Renan Accioly/jornal Opção

Elder Dias

Uma classe desvalorizada pelo governo e, por causa de posições ideológicas, dividida entre si. Este é um resumo da situação dos professores da Universidade Federal de Goiás (UFG), que se encontram em greve desde 1º de agosto e ainda não tem previsão de retorno às atividades. Por serem protagonistas da atividade fim (ensino e pesquisa), em um mês a paralisação causa mais repercussão do que a que é movida há mais de cem dias (a marca foi alcançada na sexta-feira, 4) pelos servidores técnico-administrativos da mesma instituição.

Mais do que o prejuízo em termos de atraso do calendário letivo e transtornos vindouros, na hora da reposição das aulas, o atual momento leva à constatação de que a UFG, bem como as demais instituições federais de ensino superior (Ifes) de todo o País, não passa mais pelos dias de bonança que viveram a partir do segundo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Foi o período de expansão física e de cursos das universidades federais, o que ficou marcado especialmente por meio do Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Quem conheceu a estrutura dos campi da UFG até meados da primeira década do século e hoje a reencontra fica espantado com o crescimento. Os números são mesmo impressionantes, tanto no que diz respeito à multiplicação de vagas para alunos como no aporte considerável de professores e na constituição de novos cursos.

Professora Miriam Bianca, do Comando Local de Greve: críticas à forma de condução adotada pela Adufg | Renan Accioly/jornal Opção

Professora Miriam Bianca, do Comando Local de Greve: críticas à forma de condução adotada pela Adufg | Renan Accioly/jornal Opção

O cinto começou a arrochar a partir do ano passado, mas se agravou de vez em 2015. Por isso, o anúncio do agudo corte de verbas para as instituições federais este ano não chegou a ser uma surpresa. Mas, ao mesmo tempo, fazia vir ao pensamento o duro cenário de décadas passadas. E o temor do sucateamento da instituição, como ocorreu nos anos 90, voltou a pairar. Com um agravante: a estrutura para se cuidar hoje é muito maior.

Obviamente, o que ocorreu com o orçamento da UFG e das outras federais vem em decorrência do cenário de crise e do arrocho — chamado eufemisticamente de “ajuste fiscal” — promovido pelo governo de Dilma Rousseff. Só isso já seria motivação mais do que suficiente para aniquilar as condições de trabalho para os professores. Mas uma greve se convoca e ganha adesão prioritariamente por conta da questão salarial. É a preocupação com o bolso o carro-chefe de toda reivindicação em um movimento paredista.

Em meio a toda a negociação para minorar perdas ou até ob­ter algum ganho, um obstáculo interno causa, senão uma total cisão, uma clara discórdia de planejamento da mobilização entre os docentes: a Associa­ção dos Do­centes da UFG (Adufg Sindicato), que oficialmente é quem pode negociar, tem sua forma de conduta contestada pelo Co­mando Local de Greve (CLG), composto majoritariamente por docentes que se opõem à atual direção da entidade.

A professora Miriam Bianca Amaral Ribeiro, da Faculdade de Educação (FE), é uma das integrantes do CLG. E ela situa diretamente qual a problemática envolvida: a divisão nacional entre duas federações sindicais — a Federação de Sindicatos de Pro­fessores de Ins­tituições Federais de Ensino Superior (Proifes) e o Sin­di­cato Nacional dos Do­centes das Ins­tituições de Ensino Superior (Andes-SN). O Proifes é ligado à Cen­tral Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT; e o Andes-SN tem conexão com a Central Sindical e Popular Conlutas (CSP Conlutas), cuja militância tem ligação com partidos de esquerda como Psol e PSTU.

Um sinal da fragilização da unidade nacional da categoria e que pode ser atribuído em parte a essa divisão ideológica está na abrangência da greve, a que aderiram basicamente unidades das regiões Norte, Nor­deste e Centro-Oeste (com exceção da Universidade de Brasília/UnB), mas não alcançou sucesso no Sul-Sudeste: entraram no movimento apenas a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e a Uni­ver­si­da­de Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que já voltou às atividades.

Flávio Alves, presidente da Adufg: “Não podemos fazer greve para resolver todos os problemas da UFG. O assembleísmo está vencido” | Arquivo Pessoal

Flávio Alves, presidente da Adufg: “Não podemos fazer greve para resolver todos
os problemas da UFG.
O assembleísmo está vencido” | Arquivo Pessoal

A professora Miriam Bianca considera que o Proifes atua como um sindicato governista, “tanto nacional quanto localmente”. “A Adufg adota uma posição de ‘chapa branca’. No comando local, a maioria das pessoas não concorda com o Proifes.” Ao ser questionada sobre o papel do sindicato na greve, ela é contundente. “O movimento acontece apesar da Adufg. Pelo sindicato, nada aconteceria. Veja que a greve nacional começou no fim de maio e o sindicato marcou seu início aqui para agosto”, lembra Miriam.

O argumento de finalizar o calendário do primeiro semestre foi utilizado para que se retardasse a adesão, segundo ela. “Se for para pensar nisso, melhor seria não fazer greve. Muitas universidades suspenderam seu calendário. Na própria UFG, os professores que aderiram vão ter um calendário e os que ‘furaram’ a greve, outro. Muitos alunos vêm até do interior com dificuldades imensas para se manter, por causa de uma só matéria e terão de ficar também durante o calendário estendido. Estes serão ainda mais prejudicados.”

Para Miriam Bianca, é a maior greve que já houve na universidade. “Há uma inanição absoluta em curso na instituição, por conta do corte de recursos. Então, não é uma greve só salarial, o que já seria em si só motivo.” A proposta do governo é rechaçada por ela e a maioria das lideranças: dividir o total de 21,3% de reajuste em parcelas por 4 anos, a partir de 2016 — uma oferta padrão com que o Planalto tem acenado a todas as categorias de servidores públicos.

“Ora, só a inflação prevista para este ano é de 12%”, rebate Miriam. Para a professora, a prevalecer esse pacote (que, como para as demais categorias, inclui também pequenas melhorias em benefícios como os auxílios alimentação, pré-escolar e seguro saúde, além de compromisso de restruturação da carreira), a tendência é que o CLG defina para não haver acordo. A discussão no fim da semana passada era se o governo colocaria em discussão o mesmo reajuste, mas dividido em apenas dois anos.

Mais do que isso: mesmo que uma proposta do governo agrade à categoria e seja aceita em assembleia, a professora, lotada na Faculdade de Educação, pensa que de nada adiantará voltar às salas de aula se forem mantidos os cortes nos recursos da instituição. A UFG sofreu um corte seco de 10% no custeio e 50% na verba para obras e aquisição de equipamentos. É uma perda considerável para quem já estava “no fio da navalha” para o controle de gastos –basta lembrar que a Reitoria teve de usar parte do orçamento deste ano para quitar pendências de 2014. “Mesmo se tivéssemos um reajuste de 100%”, hiperboliza Miriam, “hoje a UFG não teria como funcionar com os cortes que sofreu.”

Adufg

O presidente da Adufg Sin­dicato, Flávio Alves da Silva, chama para si a responsabilidade da greve. “É o sindicato que conduz a greve. O CLG foi proposto para auxiliar o sindicato.” O professor não se surpreende com as críticas que a gestão vem recebendo de pessoas ligadas ao comando. “Na UFG existe uma oposição ao sindicato, a qual ocupou o CLG majoritariamente. São ligados ao Andes-SN e não concordam conosco. Usam esses mo­mentos como forma de provocar o sindicato. Mas a diretoria está presente no CLG e participando do que é decidido no Ministério da Educação”, argumenta.

Para ele, existe divergências políticas, mas isso não compromete o movimento. O que ele lamenta é a baixa participação de seus colegas. “Basta dizer que mais da metade das unidades não indicou membros para o comando de greve. É difícil. Nota-se que o assembleísmo está vencido, que essa condução está desgastada. O professor não gosta mais de participar assim, até porque tem hoje outros meios para obter os informes. Esse modelo que uma ala sindical ainda insiste em pregar é das décadas de 70 e 80, recheados de conceitos trotskistas e marxistas. As assembleias servem para que esse pessoal discurse. De dez falas, oito ficam com eles. E seis delas são da FE”, alfineta.

Flávio faz questão de salientar, no entanto, que a causa é convergente: a pauta é evitar os cortes no orçamento e lutar por melhorias salariais. Mas ele lança outra indireta: “Não podemos fazer greve para resolver todos os problemas da UFG. Temos de focar, a greve precisa ser por salários, por restruturação de carreira, pela restrição dos cortes.”

O presidente da Adufg refuta o risco de a UFG parar de funcionar, como alerta Miriam Bianca. “O reitor já deixou claro que não há chance de isso acontecer. Estão sendo negociados repasses com cada instituição e isso será o suficiente para a UFG se manter aberta.” Outra comparação que tem sido feita por críticos dos cortes é de que a situação pode estar voltando ao que havia no período de Fernando Henrique Cardoso, considerado o pior para o funcionalismo — foram oito anos sem reajuste para o servidor federal. “O governo do PT pode ter muitos problemas, mas o investimento que houve nas universidades foi muito grande.

Mesmo com todos os cortes, não há comparação. Precisamos lutar contra a terceirização e a precarização do trabalho docente.”

Reitor não vê risco de “pane” na universidade
Reitor Orlando Amaral: “Corte gerou angústia, mas não vamos retroceder” | Fernando Leite/Jornal Opção

Reitor Orlando Amaral: “Corte gerou angústia, mas não vamos retroceder” | Fernando Leite/Jornal Opção

A UFG viveu tempos difíceis de meados dos anos 90 até o início dos anos 2000. Além da falta de valorização salarial, era grave a restrição de recursos para pesquisas, investimento em estrutura e até mesmo custeio. Foi a fase em que se cristalizou o termo “sucateamento” para definir a situação das universidades públicas.

O oposto se viveu com o governo Lula, especialmente a partir de 2007, com a implantação do Reuni, que trouxe uma política de investimentos visando a expansão de cursos da estrutura física das instituições e, consequentemente, das vagas. O fantasma da volta ao passado começou a rondar o pensamento de alguns mais críticos e mais céticos. Não é o caso do reitor da UFG, professor Orlando Afonso Valle do Amaral. “Não vejo esse risco de termos um cenário tão restritivo e de tão poucas perspectivas como na década de 90. Estamos passando por uma situação muito difícil, mas, mesmo com a crise, mesmo com o corte drástico nos recursos de investimento e custeio, o valor é muitíssimo maior do que tivemos no passado.”

O panorama desfavorável, no entanto, vai perdurar e Orlando admite que não há como fazer qualquer previsão no momento. Mas confessa-se otimista. “As universidades cresceram muito, de 2007 a 2013. A UFG deu um grande salto nesse período. A inclusão social e a expansão não têm como retroceder. Passando a crise, a tendência é de estabilidade e depois voltar a crescer”, diz.

O reitor admite que o corte “gerou muita angústia” em todas as universidades. A instância que elas têm para “recorrer” da medida é a Associação Nacional dos Dirigentes das Ins­tituições Federais de Ensino Superior (Andifes), que congrega os reitores. “A Andifes está tentando todas as formas de negociação com o MEC. O que vemos é que não foi uma opção do governo, mas uma falta de opção, por ter vivido uma situação de descontrole de suas contas. De fato, o ajuste tem sido muito duro.”

Na UFG, o corte de 10% aparentemente pareceria administrável. Mas, além de já ter havido restrição no orçamento de 2014, algumas tarifas se elevaram muito, em particular a da energia, o segundo item de maior despesa, depois do serviço de vigilância. Essa conjunção de fatores tornou a situação particularmente difícil, explica Orlando.

Técnicos passam de cem dias de greve
João Pires Júnior, do Sint-Ifesgo: “Teremos uma semana decisiva” | Divulgação

João Pires Júnior, do Sint-Ifesgo: “Teremos uma semana decisiva” | Divulgação

Na sexta-feira, 4, contabilizou-se uma centena de dias desde o início da paralisação dos trabalhos dos técnico-administrativos da UFG, ocorrido em 28 de maio. As últimas greves da categoria têm se caracterizado pela longa duração, o que reflete diretamente o desinteresse do governo em negociar — executando uma atividade meio, a ausência dos servidores causa prejuízo às atividades da instituição, mas não inviabiliza totalmente a maioria delas.

A semana que se inicia será decisiva para a categoria, como lembra João Pires Júnior, dirigente do Sin­dicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Instituições Federais de Ensino Superior do Estado de Goiás (Sint-Ifesgo). É que até sexta-feira o governo precisa enviar ao Congresso as medidas provisórias (MPs) a respeito do detalhamento da Lei Orçamentária Anual (LOA). “Temos esta semana para digladiar pela inclusão de nossos pleitos no orçamento de 2016. Depois, sem conseguir resolver esse dilema, só em 2017”, diz.

A categoria analisa a proposta básica do governo ao funcionalismo federal: 21,3% em 4 parcelas até 2019, além de benefícios e um único diferencial — uma melhoria de 0,1 ponto porcentual no “step” (índice de progressão salarial) a cada item da tabela da carreira. O grande gargalo da categoria segue sendo a falta de pessoal. Enquanto abriram-se mais vagas para alunos e chegaram professores, houve estagnação e até redução do número de técnicos em várias unidades — no fim do reitorado de Edward Madureira, em 2013, a carência de servidores já era de 900 vagas.

Uma resposta para “Em meio à luta por salários e contra cortes, greve de professores na UFG expõe fissura no movimento por questões ideológicas”

  1. Em que planeta vivem essas pessoas, caro jornalista Elder Dias?
    Além da “redoma” em que vivem intelectualmente, eis-nos agora diante de uma outra de nível prático: filhos, sobrinhos e netos sem aula a 100 dias…
    Dêem-lhes metas e que sejam medidos pelo desempenho; dêem-lhes aulas magnas de realidade; que deambulem um pouco pelo país, pelo bairro, pela cidade e saibam que são privilegiados em meio aos tempos adversos em que vivemos todos os brasileiros.
    Acho incrível as “flores de plástico” dos sindicalistas. Em qual das 5 opções abaixo enquadrar-se-iam os grevistas e a universidade pública?
    Senão, vejamos, caro repórter: “Precarizar: v.t. tornar precário./adj.
    1. Inseguro, não estável.
    2. Pobre; difícil; minguado; estreito.
    3. Frágil; débil; delicado.
    4. [Jurídico, Jurisprudência] Que não é nosso, que se possui por mercê ou empréstimo.
    substantivo masculino
    5. Indivíduo sem vínculo de trabalho permanente.
    [fonte: “precário”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/prec%C3%A1rio [consultado em 06-09-2015].

    Abraços,
    Beto.
    http://betoqueiroz.com

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