Eleitor expurga político tradicional

Resultado do 1º turno mostra que candidatos que encarnaram o figurino de outsiders — mesmo que não o sejam de fato — levaram vantagem, o que certamente vai se repetir na etapa final do pleito

João Dória Júnior: afirmando-se como não político, ele ganhou no 1º turno em São Paulo | Foto: Rede Vida

João Dória Júnior: afirmando-se como não político, ele ganhou
no 1º turno em São Paulo
| Foto: Rede Vida

Cezar Santos

“Não sou político, sou um gestor, um empresário.”

Essa foi a mensagem massificada pelo maior vencedor dessas eleições no Brasil, o apresentador João Dória Júnior, que se tornou a grande surpresa do pleito ao vencer em São Paulo. Tanto mais que a vitória foi obtida no primeiro turno, o que nunca tinha acontecido na capital paulista, o maior colégio eleitoral do país.

Por tudo o que significou, o triunfo do tucano em São Paulo é o que os marqueteiros e cientistas políticos chamam de “case”. Dória partiu de meros 6% no início da campanha, enfrentando caciques de seu próprio partido que queriam outro nome, para sagrar-se vitorioso com mais de 53% dos votos válidos. E o adversário que ficou em segundo lugar era nada menos que o prefeito Fernando Haddad, com a máquina municipal nas mãos, que obteve 16% dos votos.

Contribuiu muito para o êxito de Dória o discurso do apolítico, de certa forma, do outsider em relação aos nomes que sempre mandaram na política brasileira. É um discurso que ressoa na população num momento em que grandes nomes da política estão enredados em escândalos; que uma presidente da República sofre impeachment por incompetência e também por ser conivente com irregularidades em seu governo. O eleitor expressa sua desilusão no voto de protesto.

Mas, além do protesto, o eleitor também se permitiu dar a chance de apostar no novo, no candidato sem experiência que pode traçar novos rumos e formular novos caminhos para resolver os problemas que afligem os cidadãos. A aposta se deu na alternativa ao tradicional, aos políticos “messias”, que prometem resolver tudo, os “paizões”, os doadores de benesses, enfim.

Alexandre Kalil: discurso apolítico em Belo Horizonte; ACM Neto: gestor aprovado pelos soteropolitanos | Fotos: Pedro Araújo/Atlético/MG (Kalil) e Divulgação

Alexandre Kalil: discurso apolítico em Belo Horizonte; ACM Neto: gestor aprovado pelos soteropolitanos | Fotos: Pedro Araújo/Atlético/MG (Kalil) e Divulgação

Além de João Dória Júnior, a aposta no novo se deu em figuras como ACM Neto (DEM), em Salvador; em Alexandre Kalil (PHS), em Belo Horizonte. ACM foi reeleito, é um político conhecido, mas seu sucesso se deve muito mais ao reconhecimento dos soteropolitanos de que ele é gestor capacitado, jovem e realizador. No caso de Kalil, que disputou pela primeira vez uma eleição em 2014 quando se candidatou a deputado federal pelo PSB (desistiu no meio da campanha), é o novo que o eleitor de Belo Horizonte mandou para disputar o segundo turno com o tucano João Leite.

Candidatos goianos que pregaram o novo

Há vários outros exemplos no Brasil, tanto de nomes que ganharam no primeiro turno quanto de outros que estão no segundo, de candidatos que pregaram o novo, que se apresentaram como não políticos e se deram bem. Gente que deu ao eleitor a opção de votar em quem se propõe a fazer diferente. Mas, e em Goiás, o eleitor correspondeu a quem acenou ou está acenando com uma prática política renovada. Temos candidatos com discurso de novidade, de apolítico, que priorizam a gestão?

Sem dúvida sim. Roberto do Órion (PTB), em Anápolis, está no segundo turno com o petista e atual prefeito João Gomes, que desde a pré-campanha liderava a disputa. Gomes foi o mais votado no primeiro turno, mas Roberto já saltou à frente na primeira pesquisa depois do dia 2 de outubro e dificilmente o petebista não vai fazer a virada em Anápolis.

Música

Roberto do Órion: sucesso do empresário em Anápolis | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Roberto do Órion: sucesso do empresário em Anápolis | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Empresário bem-sucedido do ramo de ensino, Roberto do Órion é jovem e se apresentou pela primeira vez ao eleitor. Seu discurso soou como música nos ouvidos dos anapolinos, destacando a gestão eficiente em que é possível fazer mais, gastando menos. Segundo ele, seu objetivo é fazer uma gestão qualificada, moderna, inovando sempre e melhorando a utilização do dinheiro público.

“Aqui não fizemos nenhum tipo de promessa no primeiro turno. Apresentamos as propostas com o cuidado de mostrar como fazer. Nossa linha de trabalho seguiu este rumo, falando de gestão. A população vê que na empresa privada é baixo o índice de desperdício de dinheiro e no poder público não é assim”, argumentou.

Por sinal, logo após o primeiro turno, Roberto do Órion disse que é da mesma linha de João Dória, prefeito eleito de São Paulo, e do candidato a prefeito de Goiânia Vanderlan Cardoso, do PSB (do qual se falará mais adiante).

Gustavo Mendanha: o novo contra a velha política em Aparecida | Foto: Divulgação

Gustavo Mendanha: o novo contra a velha política em Aparecida | Foto: Divulgação

Outro exemplo de jovem valor político em Goiás é Gustavo Mendanha (PMDB), que ganhou a eleição em Aparecida de Goiânia, com 122.122 mil votos (59,99% dos votos válidos), contra 42.966 de Marlúcio Pereira (PSB), o segundo colocado. Vereador e ex-presidente da Câmara Municipal, não se pode dizer Gustavo Men­danha seja um não político, mas não há dúvida de que ele representou o novo em relação aos adversários, principalmente a Marlúcio, o mais lídimo representante da velha política aparecidense.

Apoiado pelo prefeito Maguito Vilela, Mendanha pregou um discurso não só de continuação à gestão bem aprovada de seu tuto, mas de avanço. Ele tinha trabalho a mostrar e o eleitor deu ao jovem político peemedebista de 33 anos a chance de realizar seu projeto para Aparecida de Goiânia.

Jataí

Vinícius Luz: o novo contra a política endinheirada em Jataí | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Vinícius Luz: o novo contra a política endinheirada em Jataí | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Também é um exemplo de político novo com novas ideias o vereador tucano de Jataí Vinícius Luz. Ele disputou a Prefeitura contra um dos homens mais ricos de Goiás, o empresário Victor Priori (DEM), um dos reis da soja do Centro-Oeste. O milionário Priori foi apoiado pela velha política jataiense, e, como tal, fez a velha política de só aparecer em época de campanha. Os jataienses repudiaram essa estratégia antiga, “espertalhona”, e descarregaram voto no novo, na proposta focada em dinamicidade, em prioridade no bem-estar da população. Vinícius Luz venceu com 24.902 votos (51,48%), contra Victor Priori, que teve 20.744 votos (42,89%).

Outro jovem valor da política goiana é Valmir Pedro, vereador tucano em Uruaçu, no Norte do Estado. Valmir também disputou a Prefeitura contra um homem rico, Azarias Machadinho, do DEM, também apoiado pela velha política local. Machadinho despejou dinheiro na campanha, mas o contato direto com a população (veja entrevista) levou os eleitores a consagrarem o jovem tucano, que venceu com 8.632 votos (39,39%) — Machadinho teve 8.073, ou 36,84% dos sufrágios.

Mais do que promessas, Valmir fa­la de união com os demais prefeitos da região, como forma de ter mais força junto ao governo estadual e, assim, carrear mais benefícios. É ou não um discurso novo frente ao que as velhas oligarquias pregam?

Valmir Pedro: a novidade que prega união em Uruaçu | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Valmir Pedro: a novidade que prega união em Uruaçu | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Em Goiânia, cidade que a exemplo de Anápolis tem disputa em segundo turno, Iris Rezende (PMDB) e Van­derlan Cardoso (PSB) estão na corrida. Iris, que liderou a sucessão de Paulo Garcia desde a pré-campanha, já é por demais conhecido do eleitor. Ele faz a velha política do século passado e o eleitor sabe o que pode esperar: obras e muita demagogia.

Já Vanderlan Cardoso se apresenta como a possibilidade efetiva de política renovada. O pessebista, por sinal, tem serviço prestado nessa área, quando foi prefeito de Senador Canedo por duas vezes (2005 a 2010) e realizou gestões que marcaram a cidade.

Vanderlan vem fazendo uma campanha em que enfatiza o fato de ser empresário de sucesso e que é essa dinâmica que pretende implementar em Goiânia, caso seja eleito. Ele fala em dar nova configuração na economia da capital, em estimular os pequenos e médios negócios, para gerar emprego e aumentar a renda dos goianienses. Enquanto isso, Iris Re­zende fala em fazer mutirões e pavimentar ruas, tarefa que é da rotina de qualquer prefeitura.

Focado em gestão, Vanderlan Cardoso passa Iris Rezende

Iris Rezende e Vanderlan Cardoso em campanha: enquanto o peemedebista faz a política tradicional, o pessebista quer dinamizar a economia goianiense para gerar empregos e aumentar a renda dos goianienses | Fotos: Paulo José (Iris) e Reprodução Facebook (Vanderlan)

Iris Rezende e Vanderlan Cardoso em campanha: enquanto o peemedebista faz a política tradicional, o pessebista quer dinamizar a economia goianiense para gerar empregos e aumentar a renda dos goianienses | Fotos: Paulo José (Iris) e Reprodução Facebook (Vanderlan)

Certamente que a diferença dos discursos entre os dois finalistas da campanha à Prefeitura de Goiânia, Iris Rezende (PMDB) e Vanderlan Cardoso (PSB), está causando uma reviravolta no desfecho deste segundo turno. Enquanto Iris fala em Goiânia “encardida”, um conceito que Nion Albernaz usou há mais de 20 anos, Vanderlan prega a necessidade de desenvolver a capital. Iris terminou o primeiro turno na frente, é verdade, mas a situação começa a mudar, na medida em que os eleitores estão tendo condições de comparar as duas propostas.

Não é por outra razão que o candidato do PSB encostou e já supera o peemedebista. Na quinta-feira, 13, pesquisa do Instituto Veritá, divulgada pelo jornal “A Redação”, mostrou pela primeira vez Vanderlan Cardoso à frente de Iris Rezende nas intenções de votos. Conforme o levantamento estimulado, Vanderlan aparece com 50,1%, contra 49,9% do ex-prefeito peemedebista.

Na modalidade espontânea, em que não é dada a opção de nome aos entrevistados, Iris Rezende assume a liderança com 39,7% das intenções de voto, seguido por Vanderlan com 37,6%. No mesmo cenário, 17,5% dos eleitores não souberam responder em quem pretendem votar e 5% declararam que vão votar branco ou nulo.

Realizada entre os dias 8 e 12 de outubro, a pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo de GO-05733/2016. Foram ouvidos 1.054 eleitores e a margem de erro da pesquisa é de 3 pontos porcentuais para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.

Discurso do não político pegou, mas tem problema

Apresentar-se como um outsider da política, num momento em que eles, os políticos, sofrem com a maior taxa de rejeição já registrada desde a redemocratização, está rendendo dividendos… políticos.

Para o tucano João Dória Júnior a estratégia funcionou. Ele se apresentou como um gestor num momento em que o populismo fiscal do PT e da presidente Dilma Rousseff quebrou o país. E ao dizer que abriria mão do salário de prefeito, Dória mostrou que é “diferente” dos outros, uma vez que a população vê os políticos como sanguessugas do erário, interessados em enriquecimento na vida pública.

Negar a política já era um comportamento esperado nestas eleições, segundo profissionais ligados ao marketing eleitoral. Enfatizar ainda mais a figura pessoal do candidato e dar pouco destaque ao partido ou à sua trajetória partidária seriam formas de tentar atrair o eleitor que está decepcionado com a política.

Não foi por acaso que candidatos petistas esconderam o símbolo do partido, a estrela; a cor vermelha e até a sigla PT. Esse foi talvez o maior exemplo de negação da política nestas eleições. Os petistas evitavam falar de Lula, do PT e de Dilma, porque sabiam que isso tiraria votos. Em Goiânia, a candidata petista Adriana Accorsi assumiu essa estratégia, mas amargou um vexaminoso quarto lugar na eleição, com apenas 6,73% dos votos.

O jornal digital Nexo entrevistou o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da FGV, sobre essa estratégia. Reproduzimos a entrevista.

É possível um candidato não ser um político?

“Com certeza não, porque a disputa é política. No caso de Doria, por exemplo, para ele ganhar as prévias do PSDB, ele passou por um processo muito marcado pela política tradicional (houve articulação por apoio, troca de acusações entre os candidatos…).

Esse tipo de discurso [‘não sou político’] é muito mais para agradar uma plateia que tem restrições a políticos e, por mais paradoxal que seja, tentar passar uma mensagem de que, quem dá certo na política, é alguém de fora dela. É um discurso de negação da política.”

Quais os efeitos de se defender essa ideia?

“Para a atividade política tem um efeito nocivo. Política não é técnica, no sentido burocrático da palavra. Política é arte da negociação e da inclusão do outro, não da negação. O mais paradoxal de tudo é que se trata de um discurso antipolítico disputando um processo eminentemente político. É um discurso, como se costuma chamar, de ‘janela de oportunidade’, aproveitando o desgaste causado pela crise política.”

Qual a contradição entre esse discurso e a prática?

“Se um candidato com esse discurso for eleito, quando prefeito ele terá que negociar com a Câmara Municipal [para aprovar os projetos que deseja], terá que ouvir as demandas de diversos grupos de interesse, terá que fazer concessões, verá que ele não consegue fazer tudo que imagina. É um cotidiano político.

[Essa fala] acaba gerando uma falsa expectativa no eleitor. Ninguém consegue governar apenas com base em critérios e decisões técnicas. Tem que se negociar as decisões de governo também. Isso é fazer política. Fazer concessões ou negociar não significa, necessariamente, sucumbir a algum tipo de maldade, do ponto de vista do interesse público. Muito pelo contrário, é a forma que se tem de construir consensos, de acomodar divergências.”

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