E se o PT ruir?

Desgaste provocado pela corrupção e pela gestão inoperante da presidente Dilma faz Lula querer “esconder” a sigla nas futuras eleições

Militantes petistas em ato pró-governo Dilma Rousseff: na defesa de uma gestão reprovada por 64% dos brasileiros | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Militantes petistas em ato pró-governo Dilma Rousseff: na defesa de uma gestão reprovada por 64% dos brasileiros | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Cezar Santos

Dois fatos importantes ocorreram na semana passada relativos ao PT, que por muito tempo representou para milhões de brasileiros a esperança de uma prática política diferente, ética, e que hoje, atolado na corrupção, se mostra igual ou pior que os outros partidos. Os dois fatos: 1) o aumento da desaprovação do governo Dilma Rousseff; e 2) a proposta de Lula da Silva de formar uma Frente Ampla liderada pelo PT para disputar as futuras eleições.

Explica-se cada um desses fatos para que o leitor se situe no contexto. A desaprovação ao governo Dilma Rousseff vem aumentando a olhos vistos, o que foi constatado mais uma vez com a divulgação, pela Confe-deração Nacional da Indústria (CNI), de pesquisa Ibope: 64% dos entrevistados consideram a atual administração “ruim” ou “péssima”.

A pesquisa mostrou que três meses após ter assumido seu segundo mandato, Dilma bate novo recorde de rejeição, sendo aprovada por apenas 12% da população brasileira. De dezembro do ano passado para cá, o porcentual de pessoas que consideram o governo “bom” ou “ótimo” caiu 28%.

Os números da pesquisa mostram uma realidade que ficou ex­pressa nos cartazes “Fora Dilma” e “Fora PT”, carregados por centenas de milhares de pessoas nas manifestações do dia 15 de março, em dezenas de cidades brasileiras.

Esse inconformismo com o go­verno de Dilma Rousseff e seu partido foi estampado por muitos que não concordam com uma gestão e com um partido que no poder aparelhou a máquina pública a um nível só imaginável em regimes centralizados do tipo comunista e/ou socialista. E mais do que nos cartazes, o “fora PT” está nas redes sociais. A militância digital antigoverno e anti-PT é ativa.

Sobre a proposta de Lula da Silva relativa a tal Frente Ampla, o PT estuda formar uma coalizão de centro-esquerda com outros partidos, sindicatos e movimentos sociais para disputar as eleições de 2018. Segundo reportagem da “Folha de S.Paulo” na semana passada, o ex-presidente é um dos entusiastas da ideia, que tem a simpatia ainda do presidente do PT, Rui Falcão, e do assessor especial Marco Aurélio Garcia.

A ideia seria inspirada na uruguaia Frente Ampla, que elegeu os presidentes José Mujica e Tabaré Vázquez. Na verdade, essa coalizão é vista como uma saída para a atual crise política brasileira e o desgaste do PT com a opinião pública, no rescaldo das denúncias diárias de corrupção relacionadas à operação Lava-Jato — antes o mensalão.

Por esse sistema, os partidos manteriam-se autônomos, mas os candidatos seriam lançados em nome da coalizão, que também abrangeria outras organizações sociais. O assunto será tratado no 5º Congresso Na­cional do partido, que será realizado entre 11 e 14 de junho, em Salvador. Sim, o leitor entendeu bem: a proposta nada mais é que tentar dar ao PT a condição de disputar as eleições sem usar o desgastado nome PT na campanha.

“Fim” do partido pode ser uma mudança de práticas

Historiador Marco  Antonio Villa: “É difícil que  o PT mude. Ele vai expulsar os corruptos que o integram?” | Foto: Demian Melo

Historiador Marco Antonio Villa: “É difícil que o PT mude. Ele vai expulsar os corruptos que o integram?” | Foto: Demian Melo

O repúdio ao Partido dos Tra­balhadores — e aqui se fala de quem não tem alinhamento ideológico, os não militantes — pode passar a ideia de que muitos querem a sigla fora do espectro partidário brasileiro. Mas não há como falar em fim do PT, por mais que seus adversários desejem que isso aconteça. O que pode ocorrer é uma “suavização” das práticas, embora muitos radicais tenham voz ativa nos rumos do partido.

É lícito falar em “fim” do PT? O partido pode mudar suas práticas à medida que o repúdio popular se intensifique?

O historiador Marco Antonio Villa diz que a conjectura é improvável e que os maiores partidos, o PMDB, o PSDB, e especialmente o PT, permanecem nesse quadro partidário atual. Segundo ele, o PT vai continuar, embora esteja vivendo uma séria crise, que começou com o mensalão, em 2005.

Por conta dessa crise, diz Villa, muitos petistas saíram, migraram para o PSol, outros abandonaram a vida pública, foram se afastando. Lembra que a senadora Marta Suplicy (SP) já anunciou saída, o deputado Paulo Paim (RS) está de malas prontas para sair também. “O PT passa pela mais grave crise na sua história.”

Sobre a tal “frente ampla” proposta por Lula e Marco Aurélio Garcia, Marco Antonio Villa considera bobagem. Explica que não tem nenhum paralelo com o Uruguai, onde foi criado em 1978 por agrupamento de pequenos partidos de esquerda, que não tinham espaço no bipartidarismo local, dividido entre o Blanco e o Nacional. “Não é caso de pensar em frente ampla no Brasil com o PT sendo o único partido. Isso é piada. O PT iria afogar os outros integrantes dessa união.”

Ferino, Villa diz que a ideia é um delírio de Lula: “Acho que no dia que propôs isso dele deve ter tomado umas a mais, porque é bobagem imaginar que o eleitor não sabe quem é petista. Essa discussão não vai levar a nada. O PT vai continuar sendo o PT. O que o partido deveria fazer é uma revisão de seus postulados, da sua forma de fazer política”.

Lembrando que Marta Suplicy disse que ou o PT muda ou acaba, Marco Antônio Villa põe em dúvida essa mudança, referindo-se ao aparelhamento da máquina estatal perpetrado pelo partido: “O PT se acostumou a mamar nas tetas do Estado.”

Ele indaga a razão que poderia levar o PT a mudar: “Para ser uma sigla social-democrata? Para ser um partido que expulse os corruptos que o integram? É difícil. Milhares de militantes estão em cargos comissionados nas prefeituras, nos governos estaduais e federal, nos bancos e empresas estatais, autarquias. O PT virou um partido que não sobrevive longe da estrutura do Estado, é dependente dessa estrutura.”

O historiador diz que se criou uma burguesia petista que se locupleta com o controle do partido, de seções municipais, regionais ou da direção nacional. Dificilmente esse pessoal vai querer que o PT volte às origens, a 1980, na ideia de que todos tenham a mesma participação, que o dinheiro da campanha tem de ser dividido igualitariamente entre todos os candidatos.

“Aquela perspectiva revolucionária para a época, hoje é descartável. Hoje o PT tem caciques como tem o PMDB, o PSDB, todos os outros. É um partido idêntico aos outros ou pior, porque o desvio de recursos públicos patrocinado pelo PT é certamente caso único no mundo. Hoje, ele é pior que os outros partidos, porque o processo de se locupletar da coisa pública que ele cometeu é inédito no Brasil”, diz.

Pode vir um PT melhor, social-democrata

Cientista político Paulo Kramer: “Quadros com visão democrática perderam espaço no PT” | Foto: Glaucio Dettmar

Cientista político Paulo Kramer: “Quadros com visão democrática perderam espaço no PT” | Foto: Glaucio Dettmar

Se não há a possibilidade de o PT acabar como agremiação partidária, pode sim ruir um determinado projeto hegemônico da legenda, baseado na manutenção do poder a qualquer custo, passando por cima das mais comezinhas regras éticas. Se isso acontecer, poderia ser muito benéfico para a sociedade brasileira, para o espectro político-partidário, talvez até pelo caráter pedagógico que isso poderia significar.

O cientista político Paulo Kramer, professor da Universidade de Brasília (UnB), consultor e conferencista em marketing político-eleitoral, avalia que outras definições poderiam advir de uma hipotética “virada” do PT enquanto partido. Por exemplo, a aceitação do regime de independência do Banco Central, que se coaduna mais com uma economia capitalista, e um inequívoco compromisso com a defesa da propriedade privada, sobre o que muitos integrantes do partido deixam dúvidas.

Segundo ele, se emergir um PT dos ex-ministros Antonio Palocci e Paulo Bernardo, tudo tranquilo, é um PT aparentemente social-democrata, moderno. Mas se for um PT do ministro Miguel Rossetto, aí já surgem dúvidas. “Todas as ambiguidades, incertezas e angústias do sistema político brasileiro nesta última década têm a ver com a indefinição do PT. A gente nunca sabe se o PT que se manifesta é o dos movimentos sem terra, clandestinos, ilegais, portanto, ou se é o PT mais moderno que apoia o agronegócio, por exemplo.”

Falar em mudança no PT, segundo Kramer, é muito improvável, num cenário de pelo menos curto prazo, de uma social-democratização da sigla. Kramer pergunta: o que aconteceria com os radicais? Eles teriam de ser expurgados, exatamente como fizeram o PSOE na Espanha, o PS em Portugal, o Partido Socialista francês, o Trabalhista inglês.

“Os setores radicais, que não aceitam a democracia representativa, têm de ser expurgados e aí vão para as franjas do sistema, para partidos que não têm nenhuma chance de ganhar eleição”, afirma Paulo Kramer.

Tendências

O cientista político tem localizado no tempo os problemas do PT, lembrando que é muito fácil perceber a mudança na sigla, porque está tudo documentado no site do partido — pt.org.br —, que é muito completo e, do ponto de vista da pesquisa histórica, muito valioso também. Lá estão os documentos de todas suas tendências e facções, desde a fundação do partido, há 35 anos.

O professor avalia que tem ali algo preocupante: há uma única facção do partido que assume compromisso inequívoco com a democracia representativa como um valor permanente e não apenas um estágio tático para se chegar ao poder e depois destrui-la. Essa facção nem existe mais, era a Democracia Radical (DR), então liderada por José Genoino (SP).

“As facções do PT se dividem entre as que nutrem uma franca hostilidade à democracia representativa — aquilo que eu e outros filósofos liberais chamamos de cláusulas pétreas do sistema representativo — e as que guardam um silêncio oportunista em relação a isso, o que é preocupante”, diz.

Paulo Kramer diz que é uma pena que ao longo da história recente do PT, depois de chegar ao Palácio do Planalto, alguns quadros tenham perdido espaço. Seriam os poucos quadros com o descortino, a visão e a maturidade intelectual e política de estimular a transição do partido no sentido da social-democratização, como ocorreu com outros partidos de esquerda da Europa.

“Foi um azar do Brasil e do PT que um quadro como Antonio Palocci tenha se inviabilizado ética e politicamente neste momento, em função das besteiras que fez. Ele tinha uma compreensão não só correta do funcionamento de uma economia de mercado, capitalista, como também tinha um preparo suficiente para entender que uma democracia precisa de um partido de esquerda forte, mas democrático”, diz Kramer.

“José Genoino não roubou para si”

Ex-deputado José Genoino: condenado no do mensalão, mas “honesto“ | Foto: Antônio Cruz/ABr

Ex-deputado José Genoino: condenado no do mensalão, mas “honesto“ | Foto: Antônio Cruz/ABr

O depoimento do cientista político Paulo Kramer mostra opinião nuançada sobre o que ele considera petismo em contrapartida a um petista específico, no ca­so o ex-deputado José Genoi­no, condenado no caso do mensalão.

“Considero-me amigo pessoal do José Genoino, a quem sempre convidei para falar a meus alunos sobre filosofia política, direita e esquerda, e ele sempre me atendeu com a maior atenção, com o maior carinho. Lamentei muito o que aconteceu com ele, porque to­dos sabem que se ele roubou, não foi para enriquecimento pessoal.

“Genoino rigorosamente mora na mesma casinha de sobrado no Butantã, em São Paulo, onde já morava há 40 anos com a família. Uma das filhas dele, para sair da pressão do mensalão, foi estudar na Espanha, fazer um mestrado, e Genoino e a mulher tiveram de vender o único carro da família para custear. Ele é honesto, pode ter cometido alguma desonestidade para o partido, mas não em benefício pessoal. Claro que isso não o isenta, porque se roubou, tem de ser punido.

“E lamento ainda, entre outras coisas, é o fato de que há muito tempo a tendência liderada por Genoino desde a década de 90, a Democracia Radical, tenha se diluído na Articulação, depois Campo Majoritário, hoje a Construindo um Novo Brasil. Ao se complicar ética, política e também juridicamente, Genoino precisou cada vez mais se agarrar ao núcleo duro radical do partido, esquerdista, já que a tendência era ele ser abandonado pelos eleitores de classe média moderada, na medida em que a situação dele se complicava com a opinião pública.

“Situação parecida viveu outra pessoa de perfil moderado como o José Genoino, embora de outra tendência, o ex-deputado e atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Por conta disso, tenho até dúvida se ele conseguiria se reeleger se tivesse tentado nos últimos tempos. É um cara com perfil de classe média moderada, academicamente bem-preparado e que por isso fala sem assustar as pessoas. Ele não é ‘faca na boca’.

“Mas em função do isolamento que quadros do partido vieram sofrendo na onda da corrupção, tal como Genoino e outros, Cardozo teve de se agarrar ao pessoal do núcleo duro do PT, o pessoal ‘faca na boca’, sem adesão às cláusulas pétreas do sistema representativo.”

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