E se o planeta explodisse? Professor alerta sobre as consequências das mudanças climáticas

Virar poeira cósmica poderá ser o destino da Terra, caso a temperatura continue a se elevar. Antes disso, viriam muitos cataclismos com o aquecimento global que Donald Trump nega existir

Antônio Pasqualetto, professor da PUC-GO: “O planeta é integrado, qualquer alteração afeta seu todo” Foto: Divulgação

Elder Dias

O mês de junho começou com a notícia da retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, o tratado firmado na 21ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-21), realizado na capital francesa. Pelo documento, cada país signatário se compromete a reduzir sua emissão de gases de efeito estufa a partir de 2020.

Trabalhar contra a redução da emissão de gases foi uma das principais bandeiras de campanha de Donald Trump, desde quando ainda não se imagina que sua candidatura fosse viável. Hoje ele é presidente dos Estados Unidos, a maior potência mundial e a segunda maior poluente – atrás apenas da China – e, não se sabe se por estratégia ou real crença, trata como balela o tema das mudanças climáticas.

A preocupação dele, bem como parece ser com seu eleitorado, não é com o futuro do planeta, mas com o presente dentro de suas fronteiras. “Fazer a América grande de novo” – “América” mostra bem a noção de “continente” que os estadunidenses têm – é uma visão aparentemente desconexa para quem entende o drama do meio ambiente global.

Desde a revolução industrial, no século 18, a Terra já aqueceu 1 grau Celsius em relação à média do planeta. Parece pouco, mas não é. O professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG) Antônio Pasqualetto, estudioso dos recursos hídricos e doutor pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), dá um exemplo comparativo bem simples para fazer a conexão dos leigos no assunto: “Pense na temperatura normal do ser humano, em torno de 36,5 a 37 graus. Acrescente um grau a isso e já temos um estado febril e preocupante.”

A tragédia de Fukushima, no Japão teve um tsunami seguido de desastre nuclear e seus dejetos chegaram até a costa dos EUA de Donald Trump, que insiste em negar o aquecimento global | Fotos: Reprodução e Casa Branca

A previsão, caso não haja medidas urgentes – as que foram estabelecidas pelo Acordo de Paris – é de que a “febre” da Terra suba dois graus até o fim do século. As consequências são várias, mas muitas ainda podem ocorrer de forma ainda não totalmente assimilada pela ciência. Pasqualetto tem uma hipótese interessante e ao mesmo tempo bastante assustadora. Por ela, em última instância, o planeta iria pelos ares. Ou seja, da mesma forma que a ciência diz que a Terra veio do “big bang” – a explosão que deu origem ao universo –, o professor tem como dedução que seu fim poderia ser com outra explosão. “Baseio-me em alguns conceitos. Estamos tentando conter a temperatura da Terra em 1,5ºC. Com menos que isso, já temos febre. Da mesma forma, a natureza também busca seu equilíbrio quando a temperatura se eleva: o planeta tende a fazer o tamponamento disso, seja pela água, pela vegetação ou pela dissipação de energia. Num primeiro momento, viriam tempestades, maremotos, tornados ou maiores erupções vulcânicas. Isso já seria um cataclismo”, diz. “Mais do que isso, em longo prazo, os vulcões e as placas tectônicas não mais seriam capazes de dissipar esse calor e o mecanismo funcionaria como uma panela de pressão: uma elevação muito grande da temperatura interior da Terra – porque a da superfície já estaria elevada e sem se dissipar – aumentaria a pressão de tal forma que o planeta voaria pelos ares. Viraríamos poeira cósmica.”

Sem explosão, se pode ser essa uma boa notícia, o Cerrado é tido como lugar a salvo das grandes catástrofes climáticas que viriam, mas só em teoria. Em verdade, o Planalto Central – justamente por ser “plano” e “alto”, como ressalta o professor da PUC-GO –, estaria protegido contra maremotos e tempestades tropicais, ao contrário da região costeira. Mas não é apenas por aí que poderiam vir os efeitos para o Centro-Oeste e, mais especificamente, Goiás.

O bioma Cerrado é interdependente com o da Amazônia e o regime de chuvas já vem sendo afetado pelo desmatamento que ocorre na Região Norte. “O Cerrado dá origem a águas de quatro bacias hidrográficas, tem um papel importantíssimo no ciclo hidrológico do País. Mas ele é abastecido com os chamados ‘rios voadores’, as massas de ar úmidas que vêm da Amazônia. Com o desmatamento, esses ‘rios’ perdem seu volume e chove cada vez menos e de forma cada vez mais concentrada no Centro-Oeste. A consequência, no futuro, será a transformação do Cerrado em algo semelhante ao que é hoje a Caatinga, que, por sua vez, está virando deserto”. O avanço da fronteira agrícola e a perda da vegetação natural também cumprem um papel negativo, já que, sem as árvores do Cerrado, a água não se fixa no subsolo e o lençol freático não é reabastecido a contento.

O exemplo é claro para entender como tudo na natureza se interliga. “O planeta é integrado, qualquer alteração afeta o todo. Veja o que aconteceu após o tsunami do Japão, em 2011, que levou dejetos até a costa dos EUA”, cita. O derretimento das geleiras acabaria com as praias brasileiras por causa do aumento do volume do oceano, apesar dos milhares de quilômetros de distância entre os polos e a região tropical. Como disse Raul Seixas, há mais de quatro décadas, quando o mundo ainda vivia a crise do petróleo e o início da preocupação ambiental: “Buliram muito com o planeta / E o planeta como um cachorro eu vejo / Se ele já não aguenta mais as pulgas / Se livra delas num sacolejo” (“As Aventuras de Raul Seixas no Mundo de Thor”, álbum “Gitâ”/1974). Por mais que Trump ache que a América deva ser grande e poderosa, a natureza sempre será maior e mais forte. Seria de bom tom não desafiá-la.

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