Donni Araújo

Especial para o Jornal Opção

A bola já está rolando na 23ª Copa do Mundo da Fifa.

Durante as próximas semanas, bilhões de pessoas acompanharão jogos disputados em três países diferentes. Marcas globais investirão fortunas para associar seus produtos ao torneio. Redes de televisão, plataformas digitais e patrocinadores disputarão cada segundo da atenção de uma audiência espalhada pelos cinco continentes.

Mais uma vez, o futebol confirmará sua condição singular de maior espetáculo esportivo do planeta. Mas, em meio à festa, talvez valha a pena fazer uma pergunta incômoda.

O futebol ainda pertence aos torcedores?

A pergunta pode parecer absurda. Afinal, nunca tantas pessoas assistiram à modalidade. Nunca houve tantos jogos transmitidos. Nunca os clubes faturaram tanto dinheiro. Nunca o futebol alcançou uma audiência global tão ampla.

E, no entanto, algo parece ter mudado.

Pintura sde Ivan Cruz sobre futebol
Pintura de Ivan Cruz

O torcedor que durante décadas ocupou as gerais dos estádios, acompanhou partidas pelo rádio de pilha e ajudou a construir a identidade dos clubes vê hoje um futebol organizado por plataformas de streaming, fundos de investimento, contratos bilionários de transmissão e estratégias globais de mercado.

O jogo continua o mesmo. O campo mantém as dimensões estabelecidas no início. As regras permanecem quase intactas. No entanto, a relação entre o futebol e aqueles que o transformaram no fenômeno cultural mais popular do mundo talvez não seja mais a mesma.

Essa transformação não começou ontem. Tampouco é resultado de uma única decisão. Ela foi construída ao longo de décadas, atravessando revoluções tecnológicas, mudanças econômicas e profundas transformações sociais.

Entender como o futebol chegou até aqui talvez seja o primeiro passo para responder uma questão que se torna cada vez mais relevante, especialmente em tempos de Copa do Mundo.

Em que momento a lógica do mercado passou a disputar espaço com a lógica do pertencimento?

Futebol como identidade coletiva

Para entender as transformações que o futebol atravessou nas últimas décadas, é preciso voltar muito mais no tempo. Antes de se tornar uma indústria global bilionária, antes dos direitos internacionais de transmissão, das plataformas de streaming, dos naming rights, das SAFs e das experiências premium vendidas nos estádios, o futebol foi outra coisa. Foi, acima de tudo, uma expressão de pertencimento coletivo.

Futebol pintura de Cândido Portinari
Pintura de Cândido Portinari

Curiosamente, o futebol moderno não nasceu popular. Quando a Football Association foi fundada na Inglaterra, em 1863, o esporte estava associado às escolas de elite, às universidades e aos círculos sociais das classes mais favorecidas. O objetivo não era apenas recreativo. Dentro da lógica do chamado “Cristianismo Muscular”, bastante difundido na Inglaterra vitoriana, o esporte era visto como instrumento de formação moral e disciplinar dos jovens que ocupariam posições de liderança no Império Britânico.

Mas a história do futebol tomaria um rumo diferente.

A segunda metade do século XIX foi marcada pela consolidação da Revolução Industrial, pela urbanização acelerada e pela formação de grandes centros operários. Milhares de trabalhadores passaram a compartilhar os mesmos bairros, as mesmas fábricas e uma rotina marcada pela disciplina do relógio. Quando as conquistas trabalhistas começaram a garantir algumas horas livres aos sábados, surgiu uma necessidade nova, ou seja, ocupar coletivamente aquele tempo que antes pertencia inteiramente ao trabalho.

Foi nesse contexto que o futebol encontrou seu terreno mais fértil.

Diferentemente de modalidades que exigiam equipamentos caros ou instalações sofisticadas, o futebol podia ser praticado praticamente em qualquer lugar. Bastavam uma bola, um terreno disponível e alguns jogadores. Aos poucos, a modalidade foi sendo apropriada pelas comunidades operárias inglesas, transformando-se em elemento de identidade coletiva. Clubes surgiram ligados a fábricas, ferrovias, minas e igrejas. O que havia começado como atividade das elites passou a ser incorporado pelas massas urbanas.

Eric Hobsbawm, historiador britânico considerado um dos mais importantes estudiosos do mundo do trabalho e da formação das sociedades industriais modernas, identifica esse processo como parte da consolidação de uma cultura operária urbana. Para milhões de trabalhadores, o clube de futebol tornou-se muito mais do que um time. Representava um bairro, uma cidade, uma profissão, uma comunidade. O estádio era um espaço de encontro, reconhecimento e pertencimento. Não por acaso, Hobsbawm descreveu o futebol como uma espécie de “religião secular” das classes trabalhadoras.

O marco simbólico dessa transformação ocorreu em 1883, quando o Blackburn Olympic, formado por trabalhadores do norte industrial inglês, derrotou o aristocrático Old Etonians na final da FA Cup. Dois anos depois, em 1885, a Football Association legalizaria o profissionalismo. Era o reconhecimento formal de uma realidade que já existia, isto é, o futebol deixava de ser monopólio dos cavalheiros das escolas de elite para se tornar patrimônio cultural das massas urbanas.

Quando o futebol se tornou brasileiro

No Brasil, o processo seguiu trajetória semelhante, porém adquiriu características próprias.

Quando Charles Miller desembarcou em Santos, em 1894, trazendo bolas, uniformes e o livro de regras da Football Association, o futebol chegou ao país como um hábito das elites urbanas. Os primeiros clubes estavam associados aos setores mais ricos da sociedade paulista e carioca. Jogava-se em ambientes fechados, frequentados por famílias influentes, e o próprio vocabulário do esporte, repleto de expressões em inglês, funcionava como marcador de distinção social.

Charles Miller e o futebol
Charles Miller: pioneiro do futebol no Brasil| Foto: Reprodução

Entretanto, a realidade brasileira introduziria elementos que tornariam essa história muito mais complexa.

Além das barreiras econômicas, havia também as barreiras raciais. Em um país que havia abolido oficialmente a escravidão apenas seis anos antes da chegada do futebol, a participação de negros, mestiços e trabalhadores pobres era frequentemente desencorajada ou impedida pelos mecanismos sociais e institucionais da época. O amadorismo, assim como ocorrera na Inglaterra, funcionava como instrumento de exclusão. Exigia tempo livre, renda e condições sociais que a maior parte da população simplesmente não possuía.

Mas o futebol escapou rapidamente do controle de seus fundadores.

Clubes ligados a fábricas, como o Bangu, criado em 1904 por funcionários da Companhia Progresso Industrial do Brasil, no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro, e diversas agremiações surgidas em ambientes operários passaram a incorporar trabalhadores ao esporte. Ao mesmo tempo, o futebol de várzea florescia nas periferias urbanas, longe dos gramados impecáveis e dos códigos sociais dos clubes aristocráticos. Era um futebol improvisado, acessível, multicultural e profundamente conectado à realidade popular brasileira.

O ponto de ruptura ocorreu em 1923, quando o Vasco da Gama conquistou o Campeonato Carioca com uma equipe formada por negros, mestiços, operários e jogadores oriundos das camadas populares. A reação das elites foi imediata. Tentou-se excluir atletas sob argumentos burocráticos e exigências de “idoneidade” social incompatíveis com a realidade daqueles jogadores. A famosa Resposta Histórica do Vasco, em 1924, tornou-se um dos documentos mais importantes da democratização do futebol brasileiro.

Gilberto Freyre: o futebol brasileiro adquiriu características próprias ao incorporar elementos culturais das populações negras e mestiças | Foto: Reprodução

Ao longo das décadas seguintes, o futebol deixou de ser apenas um esporte importado para se tornar uma das mais importantes expressões da identidade nacional. Como observou Gilberto Freyre, um dos mais importantes sociólogos, antropólogos e historiadores do Brasil, o futebol brasileiro adquiriu características próprias ao incorporar elementos culturais das populações negras e mestiças, transformando-se em algo diferente do modelo inglês que lhe deu origem.

Ao longo da primeira metade do século XX, o futebol consolidou-se como uma das principais formas de identidade coletiva tanto na Inglaterra quanto no Brasil. Parecia uma relação sólida e permanente. Mas as transformações que começariam a surgir nas últimas décadas daquele século alterariam profundamente essa dinâmica.

Virada global

Se a história do futebol até meados do século XX foi marcada por sua popularização e apropriação pelas classes trabalhadoras, as décadas finais daquele século assistiriam ao início de uma transformação igualmente profunda. O futebol não deixaria de ser um fenômeno de pertencimento coletivo, mas passaria a ser também uma das mais lucrativas indústrias globais de entretenimento.

A mudança não ocorreu de forma repentina. Tampouco foi resultado de uma única decisão. Ela nasceu da convergência de fatores econômicos, tecnológicos e políticos que alteraram profundamente a lógica de funcionamento do esporte.

Durante grande parte do século XX, a principal fonte de receita dos clubes continuava sendo o torcedor local. Era ele quem comprava ingressos, frequentava os estádios e sustentava financeiramente as agremiações. Ainda que o rádio e, posteriormente, a televisão tivessem ampliado o alcance das partidas, o centro econômico do futebol permanecia nas arquibancadas.

Essa lógica começou a mudar de forma acelerada a partir dos anos 1980.

Pintura de Jessica Hitout
Pintura de Jessica Hitout

A televisão havia deixado de ser apenas um meio de divulgação do espetáculo para se tornar o principal ativo comercial do futebol. Quanto maior a audiência, maior o valor dos contratos publicitários e dos direitos de transmissão. Pela primeira vez na história, tornou-se possível gerar receitas muito superiores às da bilheteria sem depender fisicamente da presença do torcedor no estádio.

O ponto de inflexão ocorreu na Inglaterra.

Em abril de 1989, a tragédia de Hillsborough chocou aquele país. Durante uma semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest, disputada no estádio de Hillsborough, em Sheffield, um grave problema de controle de acesso provocou superlotação em um dos setores destinados aos torcedores do Liverpool. O resultado foi uma das maiores tragédias da história do esporte, na qual 97 pessoas morreram esmagadas e centenas ficaram feridas.

A resposta veio com o Relatório Taylor, publicado em 1990, que recomendou uma ampla reformulação dos estádios ingleses. Entre as principais medidas estava a eliminação dos tradicionais terraces — setores sem assentos, onde os torcedores assistiam às partidas de pé, em espaços que guardavam certa semelhança com as antigas gerais dos estádios brasileiros, embora possuíssem características arquitetônicas próprias — e sua substituição por áreas inteiramente compostas por assentos numerados.

As reformas trouxeram ganhos evidentes em conforto e segurança. Mas produziram também uma consequência social significativa, que foi o aumento dos custos de acesso e a gradual alteração do perfil econômico do público presente nos estádios. O futebol inglês começava a se afastar de suas raízes operárias justamente no momento em que se preparava para uma expansão sem precedentes.

Dois anos depois, em 1992, ocorreu a ruptura que mudaria definitivamente a economia do futebol.

Pintura de Peter Hodgkinson
Pintura de Peter Hodgkinson

Os principais clubes da primeira divisão inglesa romperam com a centenária Football League e criaram a Premier League, uma estrutura comercial independente voltada à exploração de direitos de transmissão e receitas de mercado. O acordo firmado com a BSkyB, empresa do grupo de Rupert Murdoch, garantiu cerca de 304 milhões de libras por cinco anos — um valor sem precedentes para a época.

Mais importante do que o montante foi a mudança de paradigma.

Pela primeira vez, o futebol de elite deixava de depender prioritariamente do torcedor presente no estádio para depender da audiência espalhada pelo país e, posteriormente, pelo mundo. O espectador diante da televisão tornava-se economicamente mais relevante do que o torcedor sentado na arquibancada.

A mesma lógica se espalhou pelo continente.

Também em 1992, a Uefa reformulou a antiga Taça dos Campeões Europeus e criou a Liga dos Campeões da Europa, a Champions League. O novo formato ampliou o número de partidas, introduziu fases de grupos, fortaleceu o calendário televisivo e garantiu maior presença dos clubes mais ricos da Europa nas etapas decisivas do torneio.

Não se tratava apenas de uma mudança esportiva.

A Champions foi concebida como um produto global. Seu público-alvo já não estava apenas em Manchester, Madri, Milão ou Munique. Estava também em Tóquio, São Paulo, Cidade do México e Pequim. O futebol europeu passava a ser consumido simultaneamente em escala planetária.

O sociólogo e historiador britânico David Goldblatt, um dos mais importantes estudiosos da história social do futebol, identifica esse período como o momento em que o esporte ingressa definitivamente na economia global do entretenimento. O clube deixa de ser apenas uma instituição comunitária e passa a operar também como uma marca internacional.

A transformação seria aprofundada em 1995 pela chamada Lei Bosman. Ao permitir maior liberdade de circulação para jogadores dentro da União Europeia, a decisão acelerou a internacionalização dos elencos e ampliou a concentração de talentos nos clubes mais ricos. O mercado de atletas tornou-se cada vez mais integrado, transnacional e dependente da lógica financeira global.

Ao final da década de 1990, o futebol havia passado por uma mutação histórica.

O futebol continuava mobilizando bairros, cidades e comunidades. Mas já não dependia exclusivamente deles para sobreviver.

Pela primeira vez em sua história, o centro de gravidade do esporte começava a migrar das arquibancadas para as telas.

E essa mudança produziria consequências que iam muito além da economia do futebol. Ela alteraria a própria forma como torcedores passariam a se relacionar com o jogo.

Futebol como espetáculo

A transformação econômica iniciada nos anos 1990 produziu uma consequência ainda mais profunda do que a simples globalização do futebol. Ela alterou a própria forma como o torcedor se relaciona com o esporte.

Guy Debord
Guy Debord: filósofo francês e autor de A Sociedade do Espetáculo

Para compreender essa mudança, é útil recorrer ao pensamento de Guy Debord, filósofo francês e autor de A Sociedade do Espetáculo, obra publicada em 1967 que se tornou uma das mais influentes análises da cultura contemporânea.

Debord formulou uma ideia aparentemente simples, mas de enorme alcance. Segundo ele, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens ou um produto da televisão. Trata-se de uma forma de organização social na qual as relações humanas passam a ser mediadas por representações. Em uma de suas passagens mais conhecidas, define o espetáculo como “uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”.

Aplicada ao futebol, a tese ajuda a compreender uma mudança que se tornou quase invisível justamente por ter ocorrido de forma gradual.

O futebol das origens era uma experiência essencialmente direta. O torcedor vivia o jogo no estádio, compartilhava o espaço físico com sua comunidade, cantava, protestava, comemorava e participava ativamente da construção do ambiente que cercava a partida. O estádio não era apenas o local onde o jogo acontecia; era parte fundamental da própria experiência futebolística.

Nas últimas décadas, porém, o futebol passou a ser organizado cada vez mais em função da sua reprodução audiovisual.

A mudança não significa que o jogo tenha perdido importância. Significa que ele passou a coexistir com uma segunda camada de realidade, que é a imagem do jogo.

O estádio moderno já não é apenas um lugar destinado ao público presente. É também um grande estúdio de produção de imagens para uma audiência global. Câmeras de alta definição, iluminação cênica, telões, plataformas digitais, transmissões simultâneas e conteúdos produzidos para diferentes telas passaram a integrar o próprio produto futebol.

Nesse novo contexto, o torcedor presente continua sendo importante. Mas sua função econômica mudou.

Durante mais de um século, a sobrevivência financeira dos clubes dependia diretamente das pessoas que atravessavam os portões dos estádios. Hoje, os balanços financeiros mostram uma realidade muito diferente.

Segundo levantamento da Deloitte, consultoria internacional responsável por um dos mais respeitados estudos anuais sobre as finanças do futebol mundial, os vinte clubes de maior faturamento do planeta geram aproximadamente 12,4 bilhões de euros por ano. Desse total, cerca de 5,3 bilhões vêm de atividades comerciais, 4,7 bilhões de direitos de transmissão e apenas 2,4 bilhões das receitas associadas à presença física do público nos estádios.

Em outras palavras, mais de 80% do dinheiro movimentado pelos maiores clubes do planeta está ligado à exploração da imagem do espetáculo — seja por meio da televisão, das plataformas digitais, dos patrocinadores ou do licenciamento de marcas.

O torcedor continua lotando estádios, mas já não ocupa a posição central de antes na estrutura econômica do futebol.

O fenômeno repete-se, em escala diferente, no Brasil.

Os balanços dos principais clubes da Série A mostram que a maior parte das receitas provém das cotas de televisão, dos contratos de patrocínio, dos acordos comerciais e das diversas formas de exploração das marcas. Bilheteria e programas de sócio torcedor permanecem relevantes, mas representam uma parcela muito menor do que aquela observada durante boa parte do século XX.

É nesse ponto que a reflexão de Debord ganha força. O espetáculo não elimina a realidade; ele a reorganiza. O jogo continua acontecendo. O estádio continua existindo. A paixão continua mobilizando milhões de pessoas. Mas a imagem do futebol passou a ter valor econômico superior ao próprio encontro físico que lhe deu origem.

A contabilidade do esporte moderno parece confirmar aquilo que o filósofo francês observava há mais de meio século. A representação tornou-se mais valiosa do que a experiência direta.

O torcedor permanece indispensável para a atmosfera do espetáculo. Mas sua presença passou a funcionar dentro de uma lógica diferente. Ele já não é apenas participante de um ritual coletivo. Tornou-se também parte do cenário que valoriza um produto destinado a uma audiência global.

Quando pertencimento vira consumo

Se Guy Debord ajuda a compreender como o futebol se transformou em espetáculo, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman oferece uma chave importante para entender outra mudança silenciosa: a transformação das relações de pertencimento em relações de consumo.

Zygmunt Bauman analisa a transformação das relações de pertencimento em relações de consumo | Foto: Reprodução

Ao analisar a passagem da chamada sociedade de produtores para a sociedade de consumidores, Bauman observou que muitas das instituições que estruturavam a vida coletiva perderam parte de sua estabilidade. Vínculos antes construídos sobre tradição, comunidade e pertencimento passaram a conviver com relações mediadas pelo mercado.

O futebol não escapou desse processo.

Durante grande parte do século XX, a relação entre torcedor e clube era essencialmente comunitária. O vínculo era herdado, transmitido entre gerações e profundamente associado ao bairro, à cidade, à origem familiar ou à condição social. O indivíduo não consumia apenas um espetáculo esportivo. Ele pertencia a uma comunidade.

Nada disso desapareceu. Basta entrar em qualquer estádio brasileiro para perceber que a paixão clubística continua viva. O que mudou foi a forma como essa paixão passou a ser organizada economicamente.

Os sinais dessa transformação estão espalhados por todo o futebol contemporâneo. O primeiro deles é o preço do acesso ao local do jogo.

Nas principais competições do país, o valor dos ingressos tornou-se progressivamente mais elevado. Em muitos casos, acompanhar uma partida em família passou a representar um gasto incompatível com a renda de grande parte da população. Ao mesmo tempo, programas de sócio torcedor criaram sistemas de prioridade que favorecem quem possui maior capacidade de consumo. O estádio continua aberto ao público, mas o acesso tornou-se cada vez mais condicionado pelo poder de compra.

A mesma lógica aparece nas transmissões.

Durante décadas, o futebol brasileiro foi consumido por meio de uma combinação relativamente simples de rádio e televisão aberta. Hoje, os direitos de transmissão estão distribuídos entre diferentes plataformas, canais e serviços de assinatura. O torcedor que deseja acompanhar seu clube em todas as competições da temporada precisa navegar por um ecossistema fragmentado de contratos, aplicativos e mensalidades. O futebol continua disponível, mas o acesso tornou-se um produto.

Pintura de Maria Lassing
Pintura de Maria Lassing

As próprias arenas refletem essa mudança.

Projetadas para atender exigências de conforto, segurança e exploração comercial, elas incorporaram camarotes corporativos, setores premium, restaurantes e experiências exclusivas. O estádio permanece sendo um espaço de encontro coletivo, mas passou também a funcionar como uma plataforma de serviços e consumo.

A transformação talvez seja ainda mais visível na governança dos clubes.

A expansão das SAFs introduziu novas estruturas de gestão, financiamento e tomada de decisão. Questões que antes se resolviam principalmente dentro das associações esportivas passaram a envolver fundos de investimento, credores, estruturas societárias complexas e disputas jurídicas que frequentemente ultrapassam as fronteiras nacionais. O torcedor continua sendo a razão de existir do clube, mas encontra cada vez mais dificuldade para compreender quem efetivamente exerce o poder sobre ele.

Há ainda uma dimensão simbólica dessa mudança.

Clubes que nasceram para representar bairros, fábricas, comunidades de imigrantes ou regiões específicas passaram a disputar mercados globais de audiência. O vocabulário do futebol incorporou expressões como branding, engajamento, ativação de marca e expansão internacional. O objetivo continua sendo conquistar torcedores, mas agora também consumidores, assinantes e clientes espalhados por diferentes continentes.

É nesse ponto que a reflexão de Bauman se torna particularmente útil. O pertencimento não desapareceu. O torcedor continua amando seu clube com a mesma intensidade que seus pais e avós. Mas esse vínculo passou a coexistir com uma estrutura econômica cada vez mais orientada pela lógica do consumo.

Talvez esteja aí uma das principais tensões do futebol contemporâneo. Os clubes continuam mobilizando paixões que nasceram em comunidades locais, mas operam em um ambiente global movido por contratos, audiências, plataformas digitais e estratégias de mercado.

A Copa do Mundo e o futuro do torcedor

Nada disso é necessariamente ruim.

O futebol cresceu. Tornou-se mais rico, mais profissional, mais seguro e mais acessível para milhões de pessoas que jamais poderiam estar fisicamente presentes em um estádio. As transmissões aproximaram continentes. A tecnologia ampliou o alcance do esporte. As receitas globais permitiram investimentos que seriam impensáveis há poucas décadas.

Mas todo ganho tem seu preço.

Ao longo deste percurso, o futebol deixou de ser apenas uma expressão comunitária para se transformar também em um produto global. Deixou de depender exclusivamente do torcedor local para depender de audiências espalhadas pelo planeta. Deixou de existir apenas nos bairros, nas arquibancadas e nas conversas de bar para existir também nos balanços financeiros, nas plataformas digitais e nas estratégias de mercado.

O futebol contemporâneo parece reunir um pouco de tudo isso.

Talvez por essa razão tantos torcedores tenham a sensação difusa de que algo mudou, mesmo quando o campo continua medindo os mesmos 105 por 68 metros e as regras permanecem quase intactas.

O que mudou não foi o jogo, foi o lugar ocupado pelo torcedor dentro dele.

O futebol continua sendo capaz de produzir pertencimento, memória, identidade e emoção coletiva. Continua sendo uma das raras linguagens verdadeiramente universais da experiência humana. Continua fazendo desconhecidos se abraçarem após um gol e transformando vitórias e derrotas em capítulos da biografia de milhões de pessoas.

Mas hoje ele também é uma indústria multibilionária, uma plataforma de entretenimento global e um ativo econômico disputado por conglomerados de mídia, fundos de investimento e corporações internacionais.

A pergunta, portanto, talvez não seja se o futebol ainda pertence ao torcedor.

Em um esporte cada vez mais organizado para atender aos interesses do mercado global, quanto espaço ainda resta para aquele torcedor que ajudou a construir sua história?

A resposta, provavelmente, será dada não pelos dirigentes, pelos investidores ou pelas plataformas de transmissão. Será dada pelas próximas gerações de torcedores.

Porque o futebol pode até ter se transformado em espetáculo, produto e negócio, mas continua dependendo de uma coisa que nenhum balanço financeiro conseguiu substituir, que é a capacidade humana de se reconhecer em uma camisa, em uma arquibancada e em uma paixão compartilhada.

Donni Araújo, compositor e jornalista, é colaborador do Jornal Opção.

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