Dilma é a criatura de Lula, mas não a sua imagem e semelhança

Assimetria da capacidade política entre os dois principais nomes da sigla que governa o Brasil se evidencia em um momento de crise institucional e instabilidade econômica

Presidente Dilma Rousseff governa um País que passa por momentos de crise institucional e econômica | Foto: Roberto Stuckert Filho

Presidente Dilma Rousseff governa um País que passa por momentos de crise institucional e econômica | Foto: Roberto Stuckert Filho

Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos presidentes mais populares da história do Brasil. Detentor de um amplo carisma e grande poder de comunicação, ele conseguiu levar o PT, quase 20 anos depois de sua fundação, ao cargo máximo da República. Dilma Vana Rousseff Linhares tem perfil técnico, uma tecnocrata de pavio curto e de trato duro. Sem a mesma popularidade de seu padrinho político e desfalcada do dom da palavra que arrebata multidões, nunca antes na história deste País houve um governante que amargasse tamanho índice de rejeição (64% de reprovação). Ainda que recém- vitoriosa nas urnas, apesar do triunfo eleitoral ter sido apertado, a presidente está sozinha neste turbulento período em que o povo foi às ruas na maior marcha desde as Diretas Já.

Lula e Dilma têm mais diferenças que semelhanças. São essas diferenças que que ficaram evidenciadas neste início de governo, em que uma ala rebelde do PMDB, o principal aliado do PT no Congresso Nacional, tem se fortalecido e pode estremecer ainda mais os pilares da governabilidade do Palácio do Planalto. Em um ano em que se prevê o estouro do índice do teto estipulado para inflação (7% ao ano), em que o desemprego já bate às portas dos trabalhadores e as famílias já não têm o mesmo poder de compra de antes, a sobrevivência do governo está nas mãos da base aliada no Congresso, a quem cabe aprovar de projetos de interesse do Executivo.

Em breve será encaminhado à Câmara dos Deputados o pacote de medidas econômicas elaborado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O projeto de austeridade que prevê cortes profundos nos gastos públicos é encarado pelo governo como fundamental para que as contas públicas retomem seu equilíbrio. Somente assim os investimentos governamentais poderão ser retomados com o objetivo de alavancar novamente a economia brasileira.

Para tentar achar uma saída para a crise política que atinge seu governo, a presidente Dilma recentemente se encontrou com o ex-presidente Lula e o principal tema tratado foi a difícil relação com o PMDB. Há informações de que Lula vai aconselhá-la a promover, neste momento de crise política, uma troca de ministros para acalmar os ânimos peemedebistas. Na avaliação do ex-presidente trazer o partido do vice-presidente Michel Temer de volta para a base significa não somente a aprovação do projeto de ajuste fiscal, mas uma governabilidade tranquila e com força para realizar as reformas necessárias. Mas, domar o grupo peemedebista sob o comando do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), não será tarefa fácil.

Dilma coleciona um histórico espinhoso nas relações entre o Executivo e Legislativo. Apesar de o governo insistir na contraditória estrutura composta por 39 ministérios, justamente para repartir cargos de primeiro escalão com seus aliados, o Palácio do Planalto nunca teve total controle de sua base no Congresso. O fisiologismo do PMDB sempre se mostrou insaciável, e Dilma nunca obteve sucesso em ter apoio pleno do heterogêneo partido que é seu principal aliado. O poder dos peemedebistas no Congresso se tornou imprescindível para a estabilidade do governo.

Ex-presidente Lula ajudou a eleger sucessora que enfrenta dificuldades com tradicionais aliados políticos | Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Ex-presidente Lula ajudou a eleger sucessora que enfrenta dificuldades com tradicionais aliados políticos | Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Ele vem do sindicalismo; ela, do brizolismo

Mas afinal, quais são as raízes das grandes diferenças entre Lula e Dilma? Quais os elementos que os fazem tão diferentes e semelhantes no estilo de governar? A trajetória política percorrida por ambos pode ser uma das explicações para essa diferença de atitude, principalmente com a lida com a base aliada no Congresso. Talhado para a atividade política no meio sindical, em que o intenso uso da retórica e a relação direta com os trabalhadores são peça-chave para sobrevivência do líder, Lula levou para a Presidência tais característica. As longas horas em que passava à mesa com patrões discutindo termos para pôr fim à greves no ABC Paulista, o fez um exímio negociador, um talento que muito o serviu quando presidente.

No exercício do poder e em meio a regras protocolares não era incomum Lula se misturar à multidão a fim de cumprimentar as pessoas. Improvisava discursos, recorria às expressões muito comum ao cotidiano para se fazer compreendido. Além disso, o ex-presidente já havia sido deputado federal, disputou eleição ao governo do Estado de São Paulo e três eleições presidenciais consecutivas. Com todo este histórico Lula sabia qual seria o caminho das pedras para que o PMDB e demais aliados de primeira ordem pudessem compartilhar  seu governo. Mesmo que o preço a  pagar significasse a cooptação de velhos caciques regionais — aos quais o PT sempre dizia combater antes de chegar ao poder —, como o ex-senador José Sarney (PMDB-AP) e os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Fernando Collor de Mello (PTB-AL).

Perfil técnico

Diferentemente de Lula, Dilma é herdeiro do brizolismo, ou seja, de matiz trabalhista habituada a confrontos e embates ideológicos. Sua história de vida também a moldou como uma “dama de ferro” que, ao contrário de Lula, nunca esbanjou simpatia e popularidade com as classes trabalhadoras que tiveram corações e mentes arrebatadas pelo seu padrinho político.

Dilma é filha de um empresário búlgaro que se estabeleceu em Belo Horizonte (MG). Criada numa família de classe média alta, quando estudante, ingressou na Organi­zação Revolucionária Marxista Política Operária (Polop). Presa em 1970 pela repressão do regime civil-militar foi barbaremente torturada no cárcere. Após deixar a prisão, mudou-se para Porto Alegre (RS), onde se formou em Economia, casou-se e teve uma filha.

Considerada de perfil técnico, Dilma disputou seu primeiro cargo eletivo apenas nas eleições presidenciais de 2010. Até então sua experiência pública se limitava a cargos de primeiro escalão na Prefeitura de Porto Alegre e no governo do Rio Grande do Sul. Filiada ao PDT de Leonel Brizola — seu primeiro mentor político — foi secretária municipal de Finanças da capital gaúcha. Com a eleição de Olívio Dutra (PT) ao Palácio Pira­tini (sede do Executivo rio-grandense) em 1998, Dilma foi nomeada para titularidade da Secretaria Estadual de Minas e Energia, pasta que já tinha comandado na gestão do ex-governador Alceu Collares (PDT), de 1993 a 1994.

Nos dois mandatos de Lula, Dilma foi ministra-chefe da Casa Civil, sucedendo o então eminência parda do partido, o ex-deputado José Dirceu, condenado no esquema de corrupção conhecido como mensalão. Ela ainda não tinha experimentado uma disputa eleitoral que a expusesse publicamente e exigisse habilidade de retórica e de relacionamento com os mais diferentes estratos sociais.

Mesma política social e diferentes conduções da área econômica

Quando a comparação recai sobre as decisões de governo, tanto as similaridades quanto algumas diferenças se fazem presentes. Nos campos das políticas econômicas, por exemplo, Lula era a continuidade de seu antecessor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Quando a inflação ameaçava subir, o Banco Central (BC) chefiado por Henrique Meirelles aumentava os juros. Dilma no poder alterou essa lógica. Ela trouxe quadros técnicos forjados na Unicamp, que passaram a ter papel de formuladores da política econômica. O BC perdia sua linha mais liberal do mercado financeiro, como o de Meirelles, para ser gerido por um burocrata como Alexandre Tombini.

Com Lula, havia um conflito entre BC e Fazenda. Quem ganhava era o BC. Nos governos Dilma houve uma inversão. A política econômica foi conduzida por Guido Mantega e, atualmente, é comandada por Joaquim Levy. O pensamento econômico do primeiro governo Dilma foi muito mais à esquerda do que na época de Lula. Com Dilma, no primeiro mandato, predominava a ideia de forte intervenção do Estado na economia. Com Lula também havia fortes doses de intervenção estatal, porém o mercado operava mais solto.

No campo das políticas sociais, até o presente momento, não existem diferenças. Até porque esta é uma marca que o PT precisa preservar e apresentar como legado político. A marca da continuidade é evidente por meio do Programa Bolsa-Família, fundamental para a votação acachapante de Dilma na região Nordeste nas eleições do ano passado. Os programas como ProUni e Sisu nasceram com o antecessor de Dilma, e permanecem intactos como vitrines dos governos petistas.

Na prática, com Dilma a linha programática passou a ser mais centralizadora e indutora, do que nos períodos lulistas. O governo passou a ser do tipo gerencial, focado em metas e programas já formatados. Este modelo de gestão adotado de 2011 a 2015 teve um planejamento concebido como regra, quase como uma lei, ou seja, este formato não aceitava mudanças em função de alguma questão situacional como a que o País passa no momento, tanto politicamente quanto economicamente. Daí uma imagem rígida e fria da presidente, que se distanciou das bases construída por Lula. Esse é um dos grandes diferenciais dos dois governos: diálogo com a sociedade.

“Se Lula é virtú, Dilma é fortuna”

Pedro Célio (esquerda): ”Lula tem astúcia política; Dilma, apenas sorte”; Francisco Tavares: “Políticas de governo não atendem população” | Fotos: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Pedro Célio (esquerda): ”Lula tem astúcia política; Dilma, apenas sorte”; Francisco Tavares: “Políticas de governo não atendem população” | Fotos: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

De acordo com o cientista político Pedro Célio, há muitos fatores que destoam Lula de Dilma. Para ele o mais notável é que o primeiro teve que fazer um grande esforço para chegar ao poder. Em outras palavras, Lula é detentor de virtú, ou seja, qualidades e habilidades pessoais apreciáveis para quem quer se manter no poder, como destreza de governo e astúcia política. Já Dilma chegou ao governo por um acaso, mais por uma herança de seu padrinho político dentro de um contexto de circunstância que na política se classifica como fortuna — sorte individual. “Essa talvez seja a diferença dos dois, porém isso faz com que o esforço de Dilma para se manter no poder seja maior do que Lula.”

Sobre as diferenças entre o tratamento com o Congresso, Pedro Célio afirma que Dilma tem uma visão diferente de Lula sobre as relações de poderes. Em sua avaliação, a presidente enxerga o funcionamento dos poderes com uma visão muito mais formal de que Lula. Segundo ele, no aspecto das relações institucionais, Dilma tem mostrado que enfrenta problemas para escolher bons ministros para o bom andamento nas negociações entre Executivo e Le­gislativo. “O pacote de ajuste que Dilma promete não é exatamente aquele que está recomendado na receita que ela disse no programa eleitoral. Portanto, ela está numa armadilha.”

Para o professor da Uni­versidade Federal de Goiás (UFG) e cientista político Francisco Tavares, o mesmo estrato demográfico que apoiou Lula sustentou as duas eleições de Dilma Rousseff. Porém, segundo ele, a população abandonou a presidente porque as políticas de governo não atendem mais os anseios da população que no período em que o PT esteve no poder assistiu a valorização do salário mínimo, o aumento da renda e do poder de consumo. “No momento em que a economia brasileira se corrói, o petismo perde sua base de sustentação no Congresso”, diz.

Uma resposta para “Dilma é a criatura de Lula, mas não a sua imagem e semelhança”

  1. Roberto Morais Forte disse:

    Pobre a naçao brasileira que tem pessoal dispreparadas para cargo que exercem,verdadeiros maus carates não sabem,eita povinho burro.

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