De fato temos um candidato fascista na eleição presidencial?

Manifestações contra Jair Bolsonaro (PSL) incluíram, entre as características impostas ao deputado, o fascismo. Acadêmicos analisam uso do termo 

Nos últimos dias da propaganda na TV e no rádio, inserções do PT usaram imagem do #EleNão em que a caricatura de Bolsonaro lembra o líder do nazismo alemão Adolf Hitler | Foto: Reprodução/Propaganda Eleitoral de TV

“Diante de uma crítica a aspectos fascistas das ideias e práticas de Bolsonaro, um amigo (nem sei mais) reagiu indignado: “Nem todo eleitor de Bolsonaro é fascista”. Na hora, a única coisa que me ocorreu foi dizer que, sim, era bem possível que nem todo bolsonarista seja fascista, mas cabia a ele explicar por que, não sendo tal, votava em um candidato com muitas ideias nitidamente fascistas. O que levaria um não fascista a votar em um candidato fascista?” O trecho anterior abre o artigo de Wilson Gomes, “Nem todo eleitor de Bolsonaro é fascista. Mas o que isso significa?“, publicado no site da Revista Cult na terça-feira (2/10).

Wilson Gomes é doutor em Filosofia e professor titular da Faculdade de Comunicação e do programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA). O colunista da Cult é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), uma “rede de laboratórios associados que envolve 20 instituições e 50 pesquisadores brasileiros na área de democracia e tecnologias digitais”. Para o doutor em Filosofia, por mais que parte do eleitorado de Bolsonaro não se veja como fascista, defende “aspectos fascistas” escancarados no discurso e candidatura do presidenciável.

O colunista segue sua argumentação sobre o fascismo de Bolsonaro no site da Cult: “Mas, enfim, aí é que está o problema do meu amigo. Ele pode não ser fascista ou não se achar fascista, mas está, faustianamente, endossando o fascismo para conseguir saciar a sua obsessão antipetista. O preço é muito alto – para ele, para o país, para as filhas que tanto ama -, mas ele não se importa de pagar. E, pelo ânimo furioso com que tem se comportado, depreende-se que mais ainda pagaria se necessário fosse, desde que o PT não ganhe esta eleição”.

Definição do fascismo
Para Ademir Luiz da Silva, doutor em História e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Bolsonaro “é tão fascista quanto qualquer tiozão de boteco”. O historiador cita o livro “A Cabeça do Brasileiro”, do cientista político Alberto Carlos Almeida, que aponta que o brasileiro, de forma geral, gosta do Estado, vê pessoas individualistas como algo ruim e gosta de líderes fortes. “Em uma explicação óbvia e rasteira, tudo isso se carateriza como fascismo”, observa Ademir.

A grande questão discutida pelo historiador é se o brasileiro médio, como aponta o livro do cientista político, de fato vem a ser fascista. “O uso que se faz do termo fascismo é o corrente, como aconteceu com definições como narcisista ou esquizofrênico. Mas será que é isso mesmo?” No entendimento de Ademir, é preciso definir o fascismo clássico para entender melhor o assunto.

“O fascismo é ultranacionalista, etnocentrista – embora na Itália não seja tanto, mas sim na Alemanha – e o militarismo. Não por acaso, quase todo líder fascista tem fascinação por uniformes e medalhas. Uma questão fundamental é o líder forte”, descreve o professor da UEG. A respeito da discussão sobre o fascismo ser de esquerda ou direita, o historiador lembra que o ex-primeiro ministro italiano Benito Mussolini (1883-1945), no livro “A Doutrina do Fascismo”, estabeleceu ser de direita. “O que não significa necessariamente ser conservador. São duas coisas diferentes.”

Como a origem vem da briga com a Igreja Católica, ser conservador na Itália era ser papista. Por isso o fascismo nasce anticonservador. “As interpretações de hoje acabaram culminando no fascista de hoje ser o conservador que se coloca como cristão. A coisa se inverteu”, observa Ademir. Outra característica do fascista, por definição, é o antiliberalismo, enquanto Bolsonaro se viabiliza, em parte, pela união com o economista Paulo Guedes. “Apesar dos conflitos entre as ideias econômicas de Paulo Guedes e Bolsonaro, o candidato se assume como liberal”, afirma.

De acordo com o historiador, nada do que o candidato do PSL diz se aproxima de qualquer definição clássica, nem mesmo o liberalismo. “O tiozão do boteco, que é racista, homofóbico e misógino, tem conhecimento residual dessas questões.” Ademir relata que a partir dos anos 1990, com ganho de força no século XXI, a discussão do liberalismo começa a ganhar força. “Me parece que Bolsonaro pode ter tido contato com o que falaram para ele sobre isso, mas demonstra um conhecimento básico sobre o assunto. Não tem como definir Bolsonaro a partir de nenhum conceito clássico. Nem o presidenciável nem o tio do boteco têm formação para isso.”

Outra característica que define o fascismo clássico é o anticomunismo. “O fascismo, que hoje não é mais assim por ter se tornado outra coisa, se colocava como uma terceira via entre o capitalismo e o comunismo.” A série de livros “Guia Politicamente Incorreto”, do jornalista Leandro Narloch, é lembrado por Ademir, por trazer entrevistas com 60 deputados federais e tentar mapear qual grupo se identificava com o fascismo clássico. “Qual foi a surpresa que o autor teve ao final? Os deputados que mais responderam perguntas que os aproximavam do fascismo eram parlamentares do PCdoB, PT, PDT e outros dois partidos de esquerda, enquanto que DEM e outros de direita se afastavam mais da definição do fascismo.”

Mas o historiador alerta para as perguntas usadas pelo jornalista, como questionar se o deputado se considera anti-individualista. “Obviamente o individualismo é antifascista enquanto conceito, porque o fascismo parte do ‘fascio’, de muitas varetas juntas, da força pela união.” No livro, o que se coloca é que, pelo senso comum, um deputado do PCdoB, por exemplo, que se coloca como antifascista por definição, se posiciona contra o individualismo ou defende a importância do Estado. Para o fascista, o Estado também é fundamental. Só que Ademir lembra que o Estado é uma das etapas do comunismo.

Historiador diz que definição pelo senso comum se tornou um fator moral

Historiador Ademir Luiz afirma que, mais do que uma criação em resposta ao PT, Jair Bolsonaro (foto) é um fenômeno de internet | Foto: Antonio Augusto/Câmara dos Deputados

“É óbvio que foi uma pegadinha. É no ato falho que você revela o que há de mais puro em você. E isso acontece porque o fascismo hoje é muito mais ligado a princípios de moralidade do que qualquer outra coisa no âmbito político.” O historiador lembra que, quando o Muro de Berlim é derrubado em 1989, as esquerdas perceberam que perderam a guerra econômica e que o modelo socialista para o setor não funciona. Ademir cita o livro “O Fim da Utopia”, de Russel Jacoby, para demonstrar que a utopia socialista não existe mais no modelo pré-queda do Muro de Berlim.

E é justamente nos anos 1990 que a discussão sobre minorias entra no radas das esquerdas. “Tudo que parecia ser contra ou atrasar o processo de emancipação das minorias, começa a ser chamado de fascismo. Só que o fascismo original e o comunismo original não estavam preocupados com essa pauta. O que nós temos é uma deturpação das palavras pelo senso comum, que viraram fundamentalmente outra coisa.” É quando o Bolsonaro se assemelha ao tiozão do bar, explica o historiador, porque tanto o candidato como seus críticos usam conceitos baseados no senso comum.

Ao analisar o movimento de mulheres #EleNão, contra Bolsonaro, o historiador verifica que pode ser compreendido como fascista no sentido de que há uma pressão social para que se assuma uma posição. “A ideia é a de que se você não participa do grupo você é malvisto.” A partir desse entendimento, Ademir usa o livro “A Rebelião das Massas”, de José Ortega y Gasset, para mostrar que às vezes as massa se unem por uma espécie de modismo. “A moda atualmente é fazer a crítica do fascismo, porque tudo é fascismo. O fascismo virou uma crítica da moralidade”, resume o professor da UEG.

Segundo Ademir, pode-se dizer que pelo jargão popular, Bolsonaro é de fato fascista, mas quando a análise é da definição histórica nem tanto. “O candidato tem algumas características que se aproximam, como o militarismo e o ultranacionalismo, mas outras não, como o flerte com o liberalismo e a moral cristã.” Para o historiador, o fascismo original foi derrotado e não faz mais sentido. O professor da UEG usa a definição do sociólogo Zygmunt Bauman para afirmar que fascismo se tornou uma palavra líquida que serve para definir qualquer coisa. “Se você discorda de alguém, a primeira coisa que você vai acusar essa pessoa é de ser fascista. O fascismo é o não-diálogo, mas muitas vezes quem cobra o diálogo é quem não está disposto a dialogar.”

Ademir diferencia o movimento de mulheres contra Bolsonaro das manifestações de 2013 pelo fato de agora existir um inimigo em comum que é reconhecível. “É um fenômeno advindo da internet, que ganha uma dimensão mais séria. Só que, ao mesmo tempo, surge o lado contrário. Se há o #EleNão de um lado, passa a haver um #EleSim.” O historiador usa uma frase de Gasset para definir o fenômeno da rebelião das massas: “De modo geral, a rebelião não vem do insatisfeito, mas do excesso”.  Por se alguém que fere a moral, o Bolsonaro foi o alvo perfeito, na visão de Ademir. “Temos mais intelectuais engajados ou tiozões do bar da esquina? Tiozões do bar da esquina”, define.

Derrubada da burguesia
Quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estava no poder, os intelectuais dos partidos de esquerda aumentaram o discurso de que o grande inimigo era a burguesia, identificada como qualquer pessoa de classe média. “As pessoas passaram 15 anos ouvindo que não gostavam de negros, homossexuais, mulheres. E houve uma reação. Há uma definição de que o inimigo era o arquétipo do que é aceito. E do outro lado estava o cidadão comum, que foi bombardeado por anos com isso sem saber o que fazer.”

Para Ademir, Lula está muito próximo do dito cidadão comum, mas a polarização vem da reação ao grupo de intelectuais que sempre difundiram a idealização do inimigo comum. “Lula, por estar envolvido em acusações de crimes de corrupção, acabou por ser o grande nome em foco, como se fosse a figura central dessa disputa.” O historiador descreve que, enquanto presidente, Lula era um líder popular muito pragmático guiado por ideias revolucionários. “O livro ‘A Cabeça do Brasileiro’ comprovou que o povo brasileiro é contra por ser conservador, se aproxima muito do que seria o fascismo do senso comum”, observa o professor da UEG.

De acordo com o historiador, não é por acaso que o brasileiro que diz “eu não sou isso que você está me chamando” toma como cores-símbolo o verde o amarelo. “Nelson Rodrigues tem uma frase fantástica sobre a tal ameaça comunista que é ‘O problema do comunismo é que ele quer criar o novo homem’. No novo homem não vai haver mais o canalha. E se você não tem a chance de ser canalha mais é porque você perdeu a sua humanidade. E o brasileiro comum quer ser um pouco canalha, mas não se pode mais.”

Sobre a afirmação do candidato a presidente Ciro Gomes (PDT) de que Bolsonaro seria uma criação do PT, Ademir diz que o fenômeno do “mito” em torno do capitão da reserva é muito mais uma criação da internet e das redes sociais do que um efeito colateral do PT. “Bolsonaro é uma invenção de grupos de família, que começaram a ver vídeos do candidato do PSL, que para muito gente são posições escandalosas, e viram semelhanças no que pensam sobre determinados assuntos. Faltou à oposição tradicional ao PT, como o PSDB, coragem para encampar essas bandeiras.” O historiador completa que pode ter faltado também a percepção de que essa onda ultraconservadora não passaria.

Apenas pelo fato de o PT ter esmagado essa classe média ao tê-la chamado de fascista, Ademir concorda que Bolsonaro pode ter sido sim uma criação do Partido dos Trabalhadores, como pensa Ciro Gomes. “A classe média começou a ver esse sujeito falando e o tomou para si.” Pela segunda vez no Brasil um político se torna ídolo. O historiador lembra que a primeira vez que isso aconteceu foi justamente com Lula. “As pessoas compram camiseta do Bolsonaro como compravam do Lula antigamente”, destaca o docente da UEG.

“Você quer eleger alguém que é tão abertamente antidemocrático?”, pergunta professor da Universidade de Yale

Imagem vira sucesso e camisetas são vendidas em atos de campanha e manifestações pró-Bolsonaro | Imagem: Reprodução

Para o autor do livro “How Fascism Works: The Politics of Us and Them” (Como o Fascismo Funciona: As Políticas do Nós e Eles), ainda sem edição no Brasil, Bolsonaro deixa claro que não será um líder democrático e mesmo assim as pessoas dizem votar nele no Brasil. Em entrevista a Danielle Brant na edição da Folha de S.Paulo de quarta-feira (3), Jason Stanley, professor filosofia na Universidade Yale (EUA), definiu o fascismo moderno como algo que “envolve outros elementos, como nacionalismo”. “Mas o cerne ainda é aquele a que Platão se refere, a noção de que tudo é poder e força. A verdade e o conhecimento são fraquezas.”

De acordo com Stanley, o novo fascismo é uma ideologia “baseada no poder que coloca o poder como oposto à verdade e à Justiça”, calcada pela hierarquia na qual “um grupo racial é dominante, melhor do que o outro”. “Poder e lealdade são os ingredientes principais. Qualquer um que não seja devotado ao líder, que não seja um dos apoiadores, é criminoso. Trata ainda de machismo e dominação. E o líder do país deve ser a pessoa que vai resolver todos os problemas sozinho. A democracia é uma fraqueza. Líderes fascistas gostam de se vangloriar sobre sua força ao falar de violência contra adversários políticos”, afirmou o professor de Yale à Folha.

O filósofo define o fascismo como extremamente patriarcal. “Fascistas também são sempre contra os gays, pois a homossexualidade representa grande ameaça à masculinidade. E há essa retórica machista violenta, a representação de que o outro se opõe às políticas da lei e da ordem.” Outra base seria o discurso anticorrupção, e “quando o país tem muita corrupção, fica muito suscetível a políticos fascistas”. “O político fascista diz que, se a corrupção é uma tradição, ele vai combater aquilo. Ele pode até acabar amealhando dinheiro, mas com ele não é corrupção.”

Segundo o professor de filosofia, um dos riscos do fascismo é o de que as notícias se tornam “notícias falsas” (fake news). “Hitler (1889-1945) costumava dizer que a imprensa passava do limite.” E continua: “Bolsonaro ataca o grupo diferente dele, geralmente uma minoria racial, que ele diz que são criminosos. É sempre o caso. Os judeus na Alemanha eram criminosos e preguiçosos”. Stanley define que Bolsonaro é assustador por ser abertamente antidemocrático.

“Políticos fascistas geram pânico ao falar sobre estrangeiros destruindo a força do país. Bolsonaro faz tudo isso. Por que pensar que alguém assim abriria mão do poder? Fascistas nunca abrem mão do poder. Eles veem a democracia como fraqueza.” Stanley afirma que o capitão da reserva do Exército mente sobre os motivos do que diz que fará, mas que deixa isso claro. “Uma coisa dessa ideologia fascista machista é que eles dizem o que vão fazer. Então o que o Bolsonaro diz que vai fazer? Tem que acreditar nele. Ele está dizendo a verdade sobre o que vai fazer”, alerta o filósofo.

Segundo o professor de Yale, “uma crise econômica deixa as pessoas ansiosas e com medo, e elas querem um líder forte que surja e resolva todos os problemas”. “O fascista tem a sua própria realidade. Trata-se apenas da vitória. Se eles não ganharem, por definição é uma fraude. A realidade é irrelevante.”

De acordo com Stanley, o fascismo tem como alvo “esquerdistas, progressistas, comunistas e minorias”. “Há a tendência a se sentir seguro se você não pertence a um desses grupos. Mas o fascismo vai atrás de você também, pois o líder fascista persegue até os próprios apoiadores para se manter no poder.” E enfatiza: “Os apoiadores têm prazer no ódio do líder fascista contra quem eles odeiam. Quanto melhor o líder fascista vai, mais as pessoas que eles odeiam vão se irritar e se sentir humilhadas. Esse é o prazer que o fascismo oferece”.

Ao ser questionado por Danielle Brant se Bolsonaro é fascista, o professor de filosofia responde: “Ele é contra gays e fala de minorias como preguiçosos. Ele fala em matar os adversários políticos? Se apresenta como o cara durão, que vai chegar e matar os criminosos sem tribunal? Ele fala que mulheres não deveriam ser líderes políticas, deveriam ficar em casa? Ele elogia ditadores, como Trump faz? Elogia ditadores passados no Brasil? Ele fala de militares, como ele é o verdadeiro Brasil, como os esquerdistas estão arruinando o país e como ele vai fazer algo sobre isso? Essas são as características”.

Para Stanley, Bolsonaro usa táticas fascistas, como a violência, que “não é democrática, é um sintoma do fascismo”. “Quem se vangloria de usar a violência contra adversários… Ele é mais abertamente antidemocrático que Trump.” No final da entrevista, a repórter da Folha pergunta de o petista Fernando Haddad é um risco à democracia, e o docente da Universidade de Yale volta a falar do capitão da reserva do Exército: “[Bolsonaro] Está dizendo a você que não será um líder democrático. Não vejo ele como alguém que desista”. “Você quer eleger alguém que é tão abertamente antidemocrático? Que está prometendo violar as regras? Eu não entendo. Por que vocês não estão acreditando nele?”, conclui.

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