Cresce o barulho da oposição

Em quatro mandatos, o governador Marconi Perillo jamais elegeu uma bancada governista tão majoritária como agora. Por que a oposição está conseguindo repercussão?

Oposicionistas estão fazendo barulho enquanto a base aliada tem assistido de forma passiva, com raras exceções | Foto: Y. Maeda

Oposicionistas estão fazendo barulho enquanto a base aliada tem assistido de forma passiva, com raras exceções | Foto: Y. Maeda

Afonso Lopes

É fato: os deputados oposicionistas na Assem­bleia Legislativa estão conseguindo ecoar um brado intenso e frequente contra as ações do governo estadual. É evidente que início de governo sempre é embalado por cortes, choros e lamentações. Sempre foi assim e com todos os governantes. E desta vez, além do ritmo normal de reinício, o recheio veio bem mais amargo, com uma brutal diminuição no tamanho da máquina administrativa estadual, inserida no bojo de um ousadíssimo projeto de reacomodação das finanças estaduais. A consequência imediata foi uma redução dos espaços políticos equivalentes ao tamanho do corte.

Até aí, é perfeitamente compreensível inclusive o fato de a base governista parecer um pouco desnorteada neste momento, mas o silêncio um tanto cúmplice diante da oposição tem fugido do diapasão. E não apenas: a própria base às vezes oferece argumentos, ou os reforça, para as pancadas oposicionistas. Por que tem acontecido isso exatamente neste momento, o mais complicado que se pode imaginar nos próximos quatro anos? Esse é o enigma.

Lavar as mãos

Parte da base, mesmo tendo sido eleita porque pediu votos na chapa liderada por Marconi e não na chapa adversária, onde certamente enfrentaria as mesmas dificuldades que os então candidatos oposicionistas enfrentaram, tem olhado para a movimentação da diminuta bancada oposicionista sem reagir, salvo uma ou outra exceção. É como se lavassem coletivamente as mãos, e talvez até torcendo para uma pequena crise na governabilidade, o que poderia forçar o Palácio das Esmeraldas a negociar novas posições no tabuleiro do poder estadual.

É uma ação que implica  sérios riscos para a própria base. Principalmente porque é muito interessante para os oposicionistas ver um Palácio sem defesa, para diminuir o decisivo peso que o governador Marconi Perillo poderá exercer como principal cabo eleitoral do Estado nas eleições municipais do ano que vem. Isso, evidentemente, pode fragilizar um dos principais argumentos dos governistas nas eleições, que é a parceria com o Palácio. E como uma coisa leva a outra, se a base aliada sofrer nas disputas municipais, a reeleição de deputados acaba se comprometendo também em 2018.

Comunicação

Ainda que se leve em conta essa possível omissão dos governistas na defesa do próprio governo, o barulho oposicionista poderia ter reverberado com menor intensidade se as medidas adotadas pela área econômica tivessem sido bem divulgadas. Como caíram como um pacotão pronto e acabado, é natural as reações que surgiram instantaneamente.

É o caso da liberação do pagamento dos servidores públicos em duas etapas, a primeira parcela no último dia do mês trabalhado, e a quitação até o quinto dia útil do mês trabalhado. Se todo o sacrifício a ser imposto sobre os funcionários for só esse, o preço da crise e do ajuste estadual vai sair barato demais. É claro que isso implica alguma reengenharia financeira doméstica. Os servidores estavam acostumados desde 1999 a receber integralmente até o último dia do mês, com exceção do período de Alcides Rodrigues, entre 2007 e 2010, quando ocorreram atrasos significativos nos salários dos servidores. As dívidas contraídas por eles, em prestações ou mensalidades, também foram acomodadas nos primeiros dias do mês seguinte. A mudança mexeu nessa paridade.

Tudo somado, o que há mesmo é essa malemolência de setores governistas diante das críticas dos opositores. Ao ponto de até o secretário de Finanças de Goiânia, Jeovalter Correia, usar a rede social Twitter para dar pitacos nas finanças estaduais sem ser questionado por nenhum político governista. O caso chama a atenção e se torna exemplar porque Jeovalter comanda um cofre tão precário que não conseguiu acabar com dificuldades rotineiras nos serviços prestados pela Prefeitura, como no caso do lixo, que ainda sofre de tempos em tempos com alguns recuos.

É exatamente o silêncio dos governistas que torna o barulho dos opositores, que se posicionaram correta e estrategicamente, muito maior do que os fatos em si. Até onde irá essa “cumplicidade” de setores mudos da base não se sabe, mas certamente, se houver prejuízos políticos, eles próprios é quem terão que arcar com a maior carga negativa. O governo Marconi vai além das eleições do ano que vem. Já a base com mandato depende muito das eleições municipais para se garantir em 2018. Sem a forte presença de Marconi, vale a ressalva, já que ele foi reeleito.

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