Com preço da borracha em queda, Goiás tem queda histórica no plantio de seringueiras

Índices de plantação reduziram drasticamente devido ao baixo preço no mercado; alta na demanda pode reativar seringais somente em 2025

Látex é a borracha ainda em estado líquido, antes de ser industrializada | Foto: Reprodução

O plantio de árvores em seringais goianos caiu assustadoramente de 2015 aos dias atuais. Segundo estatística da Associação Brasileira de Produtores de Borracha Natural (Abrabor), houve redução no plantio de novas árvores que produzem borracha seca desde 2015, quando se registrou 400 hectares de área plantada.

A queda histórica ocorreu em 2017 com apenas 32 hectares de área plantada. Em 2019, a associação não registrou nenhum novo seringal até o momento. A explicação está no baixo preço do produto no mercado mundial. A indústria pagava R$ 5,60 por quilo de borracha seca em 2015 e passou a pagar R$ 3,30 em 2019.

A extensão de área plantada subiu em 2016 para 650 hectares, mas despencou em 2017 para 32 hectares. O pico aconteceu em 2009 com 2.509 hectares de plantio ativo. Daí começou a redução: 1.121 hectares em 2010; 1.320 em 2011; 1.680 em 2012; 1.331 em 2013; em 2014 foram 1.135 hectares; em 2015 reduz para 400 hectares; 2016 para 650 e apenas 32 hectares em 2017.

O grupo Otávio Lage é um dos maiores produtores de borracha em Goiás. Na contramão dos índices, expandiu os negócios para Tocantins com 550 mil novas árvores em dois novos seringais no ano passado. O diretor do grupo, Rodrigo Penna Siqueira, culpa o baixo preço da borracha no mercado mundial para o esvaziamento e desativação de seringais Brasil afora.

O preço do quilo caiu nos últimos quatro anos. “Por isso muitos empresários preferiram mudar a área de atuação e esvaziaram os seringais. Mas a redução acontece no mundo inteiro por causa dessa fase ruim nos preços”, explica Siqueira.

Essa fase continua até 2025, ano em que deve faltar borracha no mercado mundial por causa da redução no plantio. Segundo Rodrigo Siqueira, o consumo do produto cresce média de 3% ao ano no mundo inteiro. Quando o mundo chegar em 2025, a demanda será maior que a produção; os preços voltam a subir e o plantio também, por consequência do preço.

Nesse contexto, o Brasil deve adotar medidas fiscais para incentivar a retomada dos seringais desativados e novos plantios, diante da importância da borracha na indústria, principalmente nas produtoras de pneus. Nessa toada, os incentivos respingam nos Estados e, não diferente, chegará a Goiás.

“É preciso ter paciência. Uma árvore começa a produzir borracha a partir de sete anos de vida. É um negócio de longo prazo”, recomenda Siqueira.

Dados da consultoria Jom Jacob, reproduzidos na India Rubber Expo 2019, confirmou a tendência mundial de desaceleração no plantio. A maior produtora de borracha no planeta, Tailândia, reduziu sua área plantada de 2011 (291 mil hectares) para 2019 (104).

A mesma consultoria afirma que o estoque mundial de borracha vai cair de menos 2 milhões de toneladas para menos 465 milhões de toneladas em 2025.

Comissão pede incentivos ao Governo Federal

Uma comissão formada por representantes do setor brasileiro da borracha formula um documento com estratégias para o Brasil se tornar autossuficiente na produção e abastecimento interno do produto. O relatório será entregue ao Ministério da Agricultura, no final de julho, com sugestões colhidas de associações e produtores de borracha natural em todo o Brasil.

A principal representante do setor, a Associação Brasileira de Produtores e Beneficiadores de Borracha Natural (Abrabor), pedirá ao governo Federal que desonere impostos desde a cadeia produtiva até a indústria; assim, o preço do produto final chegaria mais barato ao consumidor e se tornar mais competitivo em relação aos países exportadores. A sugestão da Abrabor é desonerar a indústria que comprar o produto brasileiro.

Nos últimos quatro anos, o preço por quilo da borracha seca no mercado mundial despencou. O mercado de borracha seca entrou em recessão após uma alta histórica entre 2010 e 2015, quando o planeta investiu na expansão das atividades. Houve super oferta de produto enquanto o consumo estava baixo, segundo o diretor do grupo Otávio Lage, Rodrigo Penna Siqueira.

Segundo a Abrabor, a principal dificuldade do setor produtivo brasileiro é competir com a exportação dos países asiáticos, que abastecem cerca de 80% do comércio mundial. Os três grandes exportadores também são os principais fornecedores do Brasil: Tailândia, Malásia e Indonésia, exportadores de 85% do produto no continente asiático. Segundo a Abrabor, os produtores brasileiros não conseguem competir com o preço dos asiáticos enquanto carregarem a carga tributária imposta ao setor.

Presidente da Abrabor, Antonio Carlos da Costa, diz que a falta de incentivo fiscal dos governos dificulta a briga de preços entre a borracha brasileira e a asiática | Foto: Reprodução

Atualmente, 85% da borracha exportada no mundo vem dos asiáticos. Desses 85%, 70% vai para China, que consome quase toda a borracha exportada no mundo, segundo o presidente da Abrabor, Antonio Carlos da Costa.

A autossuficiência no abastecimento interno também evita que o país desaqueça economicamente em períodos de falta do produto, como já ocorreu em 2016, quando os consumidores viram o preço dos pneus, por exemplo, subir além do normal nas prateleiras dos comércios. E o pneu se torna o principal fator de oneração do preço final por ser o meio de transporte mais utilizado para escoação da borracha. Ou seja, gasta-se pneu para levar borracha à indústria que fabricará mais pneu.

Atualmente o Brasil produz 40% da borracha utilizada pelas indústrias de pneu, a maior consumidora do produto no país e no mundo. As três maiores fábricas estão localizadas em São Paulo e Bahia, responsáveis por comprarem 85% da matéria prima circulante no país, seja brasileira ou importada; o restante (15%) é utilizado na fabricação de luvas, preservativos e derivados de borracha, segundo estatísticas da Abrabor.

Os 55% restantes de borracha consumida pelos brasileiros são importados dos maiores produtores mundiais: Malásia, Indonésia e Tailândia.

Questionado sobre qual importância para o Brasil em se tornar autosuficiente em produção de borracha, o presidente da Abrabor diz que é mais fácil importar borracha e parar de produzir no país. Mas que isso afetaria drasticamente o setor interno e o produto tem status de “segurança nacional” pelas Forças Armadas de todo o mundo.

Os países que produzem a matéria prima têm políticas públicas para o setor, como o continente asiático que praticamente desonera quase toda a cadeia produtiva.

Estudo da Embrapa em 2016 revela Goiás com produção superior a média mundial | Foto: Embrapa

Segundo a Abrabor, as Forças Armadas Brasileiras tentaram intervir junto ao Governo Federal, há alguns anos, pelo reconhecimento oficial do petróleo, aço e borracha como itens de “segurança nacional” que devem alcançar a autosuficiência.

Oscilação do mercado asiático – Os principais players da borracha no mundo são os que mais sofrem com oscilação nos preços devido às tensões políticas no continente asiático. Toda vez que a Coréia do Norte ensaia a emissão de mísseis nucleares, como aconteceu no ano passado, o mar índico fecha a rota dos navios que levam a borracha para o restante do mundo. Nesses dias de tensão política, o preço da matéria prima in natura bate recordes na bolsa de valores da Ásia.  

Brasil possui estoque para 60 dias

Como a produção brasileira não alcança a metade do abastecimento interno, o país pode sofrer desabastecimento pela falta do produto no mercado. O presidente da Abrabor, Antonio Carlos da Costa, afirma que o estoque nacional deve segurar a produção nas indústrias por 60 dias.

Esse colapso se aproxima com a crescente demanda da China pela borracha natural. Atualmente, eles compram 85% de toda a matéria produzida no mundo. A Abrabor entende que a importação chinesa deve aumentar nos próximos anos.

Os seringais brasileiros produzem média de 1.400 toneladas de matéria in natura, ou seja, crua, por hectare ao ano. O Brasil estima produzir por ano 144 milhões de toneladas de borracha.  

A média de produção em Goiás é superior a nacional por características diferentes do restante do Brasil: mão de obra regida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o que incentiva os seringueiros a trabalharem mais; os seringais têm técnicas de adubação e irrigação mais complexas que o restante dos produtores brasileiros, levando seringais a produzirem 2 mil toneladas por hectare ao ano, enquanto a média nacional é de 1,6 mil quilos.

O presidente da Abrabor explica que a produtividade nas fazendas é relacionada ao tempo e saúde das árvores: se o seringal é novo, produz menos e no final da vida também produz menos.

Goiás tem grande potencial de crescimento, segundo Antonio Carlos, se os produtores receberem algum incentivo público estadual e federal; situação desigual em relação ao recebido em São Paulo.

A falta de incentivo estadual não permite que indústrias do setor se instalem em Goiás e toda a matéria prima acaba sendo exportada in natura para fábricas de pneu em São Paulo e na Bahia.  

Toda a borracha produzida no Brasil é consumida pelo mercado interno e a produção goiana é absorvida por indústrias de beneficiamento localizadas nos estados de São Paulo, Espírito Santo e Bahia, de acordo com a última pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sobre o setor, em 2016.

Seringais goianos são jovens, mas promissores

Seringais goianos produzem mais que a média nacional; 2,5 toneladas por hectare, enquanto o restante do Brasil produz 1,5 tonelada por hectare | Foto: Embrapa

Atualmente, a produção goiana ocupa o quinto lugar no ranking nacional dos estados produtores, mas com expectativa de subir mais posições em torno de cinco anos, quando os seringais atingirem idade adulta e seu pico de produção de látex (borracha ainda líquida).

De acordo com o último estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de 2016, os plantios de seringueira em Goiás está acima da média nacional e pode chegar ao dobro da média mundial.

A produtividade média do mundo é de aproximadamente uma tonelada de borracha seca por hectare, a brasileira é de 1,26 t/ha, e no Estado de Goiás a média é de 1,53 t/ha. Em seringais com tecnologia avançada, os produtores conseguem até 2,5 toneladas por hectare.

Em terras goianas há 23 mil hectares de área plantada. Desse total, em 20% as árvores ainda estão em fase de crescimento. O restante, já em idade produtiva, geram 37,4 milhões de quilos de borracha seca por ano. A produção goiana é maior do que a média nacional porque os seringais são mais desenvolvidos tecnologicamente, diferentemente de São Paulo, onde predomina regime de extração por meio de parcerias com seringueiros e ONGs.  

O presidente da Abrabor ressalta que os seringais goianos pagam bons salários via regime do Código de Leis Trabalhistas (CLT). Na Ásia, por exemplo, um seringueiro recebe média de US$ 150 dólares por mês; em Goiás, o dono de uma fazenda paga três vezes mais pelo mesmo serviço.

A diferença de preço entre a borracha nacional vendida no mercado interno e a importada está na mão de obra, que corresponde a 80% do custo total da produção, segundo Antonio Carlos da Costa.

O Brasil tem uma preocupação ambiental e social muito forte ao desenvolver leis e normas que regem o trabalho no campo. “A gente tenta convencer grandes players brasileiros a valorizarem o produto brasileiro, que é produzido de forma social e ambiental correta”, afirma o presidente da Abrabor. Costa reforça que os trabalhadores asiáticos não têm amparo jurídico como os brasileiros.  

O preço por quilo de borracha seca variou significativamente nos últimos cinco anos, de acordo com a Abrabor. Em 2016, por exemplo, ano em que se teve mais estudos do setor, até por parte da Embrapa, o mercado pagava R$ 4 por quilo de matéria prima. Hoje, pagam R$ 3,30. Mas o valor já chegou a R$ 2,70, em 2017.

Produtor goiano fatura bem no mercado in natura

Frederico Jayme tem 40 mil árvores em produção no município de Goianésia, enquanto espera outras 40 mil chegarem a idade de produção | Foto: Reprodução

Frederico Jayme é proprietário de um seringal em Goianésia (GO), com 80 mil árvores plantadas, 40 mil produzindo látex diariamente, e 11 trabalhadores em campo. Para Jayme, o valor de R$ 3,30 está bom, se continuar estabilizado no mercado. Com as 40 mil árvores em produção, a média de faturamento bruto mensal está em R$ 148 mil bruto.

Há cerca de sete anos Jayme espera parte de suas árvores alcançarem a idade madura de produção e alinhadas à tecnologia de extração, elas devem render-lhe de 2 kg a 2,5 kg de látex puro por mês; produção superior à média nacional, de 1,6 kg mensais.

O maior comprador de sua borracha é a Michellin, fábrica fancesa de pneus localizada que compra quase 44 toneladas mensais. O látex sai de Goianésia, de caminhão, e vai para São Paulo e Bahia. O restante da produção vai para laboratórios para produção de luvas e preservativos.

Em dois meses do ano, julho e agosto, as árvores não produzem látex porque passam por uma renovação; período em que todas as folhas caem e voltam a florescer repentinamente. “Você pensa que as árvores morreram, mas de repente elas florescem e voltam a produzir látex”, diz Frederico Jayme. 

Grupo Otávio Lage começou a plantar seringais em 1989

Rodrigo Siqueira (direita), diretor do Grupo Otávio Lage, conta que o grupo possui três seringais em sangria: em Goiás e Tocantins | Foto: Divulgação

O cultivo de seringueira para a produção de borracha natural é a principal atividade do Grupo Otávio Lage no ramo da agricultura. As primeiras plantações começaram em 1989 em uma fazenda a quatro quilômetros de Goianésia, com 200 mil árvores.

O diretor do Grupo Otávio Lage, Rodrigo Penna Siqueira, conta que a fazenda entregou resultados apenas em 1995. Mas satisfeitos com a produtividade, o grupo expandiu a atividade para o município de Barro Alto. Desta vez com 900 mil árvores plantadas em 1.700 hectares, entre 2003 e 2010. Os números atuais não são os mesmos. Em 2019, o grupo possui 700 mil árvores em sangria nessa fazenda, com expectativa de atingir 800 mil em poucos anos.

No terceiro e último projeto, como destaca Siqueira, o grupo plantou 550 mil árvores em Araguaçú e Sandolândia, no Tocantins, entre 2012 e 2015. Neste ano, algumas árvores desse projeto começaram a produzir látex.

Siqueira diz que o mercado de borracha teve um período “muito bom” entre 2005 e 2012. Essa alta nos preços da matéria prima influenciou outros fazendeiros a plantarem seringais Brasil afora, principalmente no fim de 2012. “O que levou ao mundo ter uma super oferta maior que o consumo. por isso estamos vivendo esse período de preços abaixo da história do mercado”, explica o executivo.

O preço subiu nos últimos quatro meses, porém em cima de um valor que estava ruim, na avaliação de Siqueira. “Mesmo com a melhora continua abaixo do mercado. A tendência é continuar assim até 2020. Em 2025 e 2026 deve faltar borracha no mercado mundial porque ninguém está plantando por causa do preço ruim”, estima o executivo. Ele acrescenta que o Brasil não é formador de preço nesse mercado, respondendo apenas por 2% da produção mundial.

O esperado para o mercado em 2019 é estabilidade na produção e preço, segundo Siqueira. O grupo dirigido por ele emprega 350 pessoas nos três seringais em Goiás e Tocantins.

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