Com Nexus investigado, responsáveis por Estudo de Impacto de Vizinhança desaparecem

Construtora que teria realizado a pesquisa de opinião e ex-funcionários que assinaram o EIV não falam da forma como os questionários foram elaborados e aplicados, tampouco sobre as suspeitas em relação à documentação

Sede da construtora Milão, no Jardim Planalto, identificada apenas por uma placa com o nome da empresa | Fernando Leite/Jornal Opção

Sede da construtora Milão, no Jardim Planalto, identificada apenas por uma placa com o nome da empresa | Fernando Leite/Jornal Opção

Alexandre Parrode e Sarah Teófilo

A possibilidade de fraude da pesquisa de opinião, inserida no Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) do megaempreendimento Nexus Shopping & Business, tem gerado grande repercussão entre a sociedade e a Justiça. O Ministério Público de Goiás (MPGO) já está investigando, vereadores da Câmara de Goiânia questionam o empreendimento e entraram, na última semana, com uma ação popular para cancelamento do alvará.

A possível inconsistência da pesquisa feita em 2013 foi mostrada pelo Jornal Opção há três semanas. Diante de uma surpreendente quantidade de rubricas sem identificação e diversas assinaturas parecidas, a reportagem percorreu alguns dos endereços nos setores Marista, Sul, Oeste e Bueno em busca das pessoas que assinaram a documentação para saber se, realmente, foram consultadas sobre a construção do gigante Nexus. Conforme apurado pelo jornal, grande parte dos moradores e comerciantes desconhece o empreendimento.

Além disso, o próprio MPGO chegou a ouvir alguns dos moradores na última semana e, como apurado, a suspeita se manteve. Vários deles confirmaram a versão do Jornal Opção de que desconheciam as assinaturas e tampouco foram procurados pela pesquisa.

O principal ponto, entretanto, veio de um perito que analisou de forma preliminar uma amostra da pesquisa e identificou diversas semelhanças entre assinaturas, levantando a possibilidade de fraude. Logo no início deste mês, a Comissão Especial de Inquérito (CEI) das Pastinhas aprovou um pedido de perícia técnica das assinaturas da pesquisa de opinião e foi protocolado, ainda, um pedido de decreto legislativo para suspender o alvará enquanto as investigações estiverem sendo feitas.

A obra é realizada por meio de uma parceria entre as empresas Consciente Construtora e Incor­poradora, de Ilézio Inácio Ferreira, e a JFG Incorporações, de Júnior Friboi. Para a reportagem da edição 2100, o Jornal Opção conseguiu por meio do intermédio da assessoria de imprensa da Consciente algumas respostas de Magna Barbosa de Queiroz. A administradora de empresa assinou um documento no EIV no qual alega que “tanto o estudo quanto o relatório de impacto de vizinhança foram elaborados por uma equipe multidisciplinar”. Além dela, assinaram Mário Rassi (como engenheiro civil) e Paulo de Tarso Rassi Paranhos, como especialista em engenharia sanitária.

Na própria nota enviada ao jornal, a Consciente informou que na verdade Magna responderia como representante da Construtora Milão, que seria a responsável pela pesquisa de opinião.

Screenshot_1Sendo assim, a reportagem buscou a Construtora Milão para conversar sobre os critérios utilizados para a produção do EIV do Nexus, visto que a Consciente Construtora alegou que a empresa possui uma vasta experiência na área. No entanto, muito pouco foi encontrado. A começar pelo fato de que, há cerca de dois anos, a Milão teria sido vendida e uma parte dos funcionários foi demitida.

Por telefone, o jornal conversou com uma funcionária que está lá desde antes da venda da construtora. Ela confirmou que Magna Barbosa de Queiroz não trabalha mais no local. Questionada se existia uma área específica que realiza pesquisas de opinião na empresa, a funcionária informou que não há tal departamento.

Outra funcionária corroborou com a afirmação da primeira de que a Construtora Milão não faz pesquisas de opinião, e contou que quem poderia nos dar alguma resposta é Solange Rassi, irmã de Mário Rassi, dono da construtora à época que, inclusive, assina o EIV do Nexus. A funcionária sugeriu ainda que Solange seria a única pessoa que poderia falar sobre os estudos do empreendimento que, segundo ela, teriam sido realizados pela construtora por meio de Solange em conjunto com Magna. “A nova direção não tem nada a ver com isso”, desconversou.

O primeiro a ser procurado pelo Jornal Opção, sugerido por uma das funcionárias, foi o engenheiro Adeilton Machado. Ele estava na empresa na época em que o estudo do Nexus e foi identificado por veículos de comunicação, em 2013, como “diretor” da Construtora Milão. À reportagem, negou que tenha sido responsável pela empresa: “Nunca fui diretor. Sou só engenheiro, funcionário”.

Adeilton garantiu desconhecer a pesquisa de opinião, o Estudo de Impacto de Vizinhança e até mesmo o empreendimento. “Não conheço essa pesquisa de opinião. Não participei nem sei do que você está falando”, completou.
Insistimos: “O senhor conhece o Nexus?”. E a resposta: “Não. Nadinha. Não sei do que você está falando”. Questionado sobre Magna Barbosa, o engenheiro disse de forma simples que a conhece porque já trabalhou na empresa.

A reportagem tentou contato com o engenheiro e ex-proprietário da Milão, Mário Rassi, em três oportunidades via telefone. Na primeira ligação, o empresário informou que estava dirigindo e que falaria com o jornal depois. Posteriormente, Mário disse que esta é uma questão envolvendo empresas privadas, que deve ser resolvida, se necessário, entre os interessados e que não falaria com a imprensa. Na terceira e última vez, ele arrematou: “Não vou falar com a imprensa. Entendeu? Não vou falar com a imprensa”.

Sem sucesso, o jornal continuou na busca por respostas, desta vez com o atual dono da empresa, Valdemir Rabelo Alcântara – que teria comprado a Milão há cerca de dois anos. Os primeiros contatos foram feitos via telefone. O repórter ligou diversas vezes para a empresa atrás de Valdemir. No entanto, não obteve sucesso.

O Jornal Opção, então, foi à sede da construtora, uma pequena casa localizada no Setor Jardim Planalto, identificada apenas por uma placa com o nome da empresa. No local, não foi possível conversar com o dono, ou mesmo com outros representantes. Valdemir não se encontrava e, conforme uma funcionária, curiosamente Mário Rassi havia acabado de sair do local. “Ele vem aqui sempre”, comentou.

Alguns dias depois, o jornal conseguiu localizar o atual dono, que concedeu entrevista por telefone. Valdemir Rabelo Alcântara reiterou o fato de ter comprado a empresa em outubro de 2013, depois que o EIV já havia sido realizado, e que não poderia responder pelo documento, mas sim Mário Rassi.

EIV do empreendimento (em maquete fotográfica) está envolto de questionamentos. Vereadores tentam cancelar o alvará enquanto a empresa já construiu o estande de vendas no local e acelera a venda de apartamentos | Reprodução

EIV do empreendimento (em maquete fotográfica) está envolto de questionamentos. Vereadores tentam cancelar o alvará enquanto a empresa já construiu o estande de vendas no local e acelera a venda de apartamentos | Reprodução

Vale frisar que, na verdade, o nome da Milão não está nos documentos aos quais o jornal teve acesso e que foram apresentados pela Consciente Construtora à antiga Secretaria Municipal de De­senvolvimento Urbano Sustentável (Semdus). A empresa foi citada pela Consciente Construtora, que, em nota enviada ao jornal, afiançou que Magna responderia como representante da Milão — apontada pela empresa de Ilézio Inácio Ferreira como “a que detinha a melhor referência para a realização de trabalhos desta natureza”.

Nos documentos, estão os nomes de Mário Rassi, Magna Barbosa e Paulo de Tarso Rassi Paranhos, apontado como irmão de Mário e Solange. O mistério envolvendo os três e Magna Barbosa de Queiroz chama atenção à medida que estas pessoas afirmam não ser responsáveis ou simplesmente não respondem aos questionamentos (no caso de Magna, que na última reportagem enviou por meio da Consciente nota -resposta, mas desta vez não foi encontrada pela empresa).

Screenshot_1O jornal tentou, ainda, contato com Paulo de Tarso Rassi, que consta como engenheiro sanitário no EIV. Paulo Rassi afirmou que fez apenas a avaliação de responsabilidade técnica e que não saberia falar do estudo. “Você tem que ver com a Solange Rassi. Ela que fez o estudo.” Ao ser questionado sobre a possibilidade de fraude do estudo, Paulo afirmou: “O que eu sei é que tudo foi feito de acordo com o que pede. Não tem nada fraudado.”

A reportagem entrou em contato com Solange Rassi, que informou que estava no dentista e que não poderia atender, mas que ligaria em seguida, o que não aconteceu. O jornal tentou contato por diversas vezes, mas as ligações não foram atendidas. Na última tentativa, um homem atendeu ao telefone e informou que Solange estava novamente no dentista e que não poderia atender, mas retornaria.

Afinal, quem são os responsáveis pelo EIV do Nexus? Por que eles se recusam a falar com o Jornal Opção e esclarecer as suspeitas de fraude, bem como as incongruências deflagradas por este veículo?

De qualquer forma, Valdemir também afirmou desconhecer o empreendimento Nexus, a Consci­ente Construtora e o empresário Ilézio Inácio Ferreira. “Eu acho que a responsável por isso é essa Consciente, mas vou acionar o Mário para falar com vocês”, justificou. Porém, como afirmado anteriormente, recusou-se a falar com a imprensa.

“Maior prova da aprovação do público ao empreendimento foi o sucesso da comercialização no lançamento”

O Jornal Opção entrou em contato com a Consciente Construtora para esclarecer a autoria do Estudo de Impacto de Vizinhança do Nexus Shopping & Business. Se quem o realizou foi a administradora Magna Barbosa Queiroz ou a Construtora Milão. Questionamos, ainda, a possibilidade de fraude no EIV e como a Consciente pretende proceder ante as várias frentes de investigação contra o megaempreendimento.

Novamente, a empresa de Ilézio Inácio Ferreira afirma ter contratado os serviços da Construtora Milão porque, segundo a assessoria, a empresa à época era “referência para a realização de trabalhos” do gênero e seria responsável pelo EIV “de todos os grandes empreendimentos da capital, além de atuar em outras grandes cidades”.

A construtora sustenta que “não acredita” que haja falsificação no estudo e que este “foi submetido, analisado e aprovado pelos técnicos pela Prefeitura de Goiânia”. A Consciente informou que, ao tomar conhecimento dos questionamentos, “consultou a Secretaria Municipal de Planejamento Sustentável (Semdus)” — que, atualmente, é a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Habitação (Seplanh)—, e que a pasta reafirmou a regularidade do estudo e a análise dos técnicos.

Por fim, a empresa explica que “respeita” o direito de a sociedade fazer questionamentos, mas que a maior prova da “aceitação do público” ao empreendimento foi o sucesso da comercialização no lançamento. “Em apenas dois dias, foram vendidas mais unidades comerciais e apartamentos de hotéis no Nexus Shopping Business do que o mercado imobiliário vendeu durante todo o ano de 2015 na capital goiana, de acordo com número da Associação das Empresas do Mercado Imo­biliário do Estado de Goiás (Ademi-GO)”, escreveu a assessoria.

“O Nexus Shopping & Business preparará a capital para o desenvolvimento econômico previsto para os próximos anos, revitalizará todo o seu entorno e, ainda, contribuirá com a mobilidade urbana e qualidade de vida dos goianos”, concluiu em nota.

3 respostas para “Com Nexus investigado, responsáveis por Estudo de Impacto de Vizinhança desaparecem”

  1. Avatar Caio Maior disse:

    Depois da leitura desta reportagem só resta a nós – cidadãos recorrentemente vítimas da ambição mal administrada do capitalismo bravio – um recurso extra-jurídico: a ironia. Todos os supostos envolvidos na suposta trama são inocentes. Os procedimentos foram realizados dentro de absoluta normalidade respeitando a ética e a legalidade. Quanto aos “moradores” entrevistados – e que jamais serão localizados – a explicação é óbvia: foram abduzidos! Isso mesmo: teletransportados por seres alienígenas não identificados. As supostas assinaturas supostamente falsificadas são mais um caso típico de Ilusão de óptica: as imagens enganaram momentaneamente o cérebro do perito deixando seu inconsciente confuso e fazendo com que captasse idéias falsas, preenchendo espaços que não ficaram claros à primeira vista. Quanto aos supostos responsáveis pela suposta pesquisa a suposta explicação é psicossomática: supostamente padecem de amnésia – a perda das memórias já adquiridas agravada pela incapacidade de fixar novas memórias. Ainda bem que a escassa lucidez que habita entre nós refugiou-se na mente dos repórteres, vereadores e promotores de Justiça que se dispuseram a enfrentar a árdua tarefa de desvendar este autêntico “enigma do cerrado”,

  2. Avatar Gibran Estephan disse:

    Não existe e nunca existiu planejamento público em Goiânia. Mas esse empresários dão o tiro no pé… Pq os empreendimento deles no longo prazo vão ser afetados.

    Burro de investidor q compra essas salas comerciais.

  3. Avatar Belo disse:

    Como haver documentação correta e idônia num empreendimento Que tem como sócio a JFG de Júnior Friboi. Basta lembrar Que o mesmo participou do circulo vicioso corrupto do BNDS, recebendo enormes Quantias deste Banco Governamental e devolveu com apoio gigantesco para as Campanhas de Lulla e Dillma. Ainda recebeu “de presente“de Marconi e seus Deputados amestrados 1,3 BILHÃO de Reais de isenção super suspeita de impostos. Queriam seriedade a partir de AGORA? Esta obra é a maior ABERRAÇÃO URBANÍSTICA da capital Que já é uma das piores do Brasil em mobilidade.

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