Com cerimônias alternativas, noivos driblam pandemia e realizam sonho do casamento

Para casais, o coronavírus foi apenas um detalhe no caminho do altar

O casamento de Iago e Lucília foi assistido simultaneamente por 3 mil pessoas | Foto: Arquivo pessoal

O número de casamentos teve uma queda de 48% no Brasil nos três primeiros meses da pandemia do novo coronavírus – março, abril e maio. Os dados são da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen Brasil). Para se ter uma ideia da redução de casais que decidiram “juntar as escovas de dente” em definitivo durante o período, o mês de maio, conhecido por ser o mês das noivas, registrou, sozinho, uma redução de 58% nos casamentos.

O motivo parece óbvio: devido à proibição de aglomerações durante o isolamento social (estratégia usada para controlar a proliferação do causador da Covid-19), ficaram todos impossibilitados de recorrer às tradicionais igrejas e espaços de eventos que reúnem convidados que se debulham em lágrimas no “eu aceito” ou salivam com os docinhos da festa.  Contudo, há aqueles que não deixaram o Sars-CoV-2 frustrar seus planos e, sem romper as recomendações sanitárias, conseguiram se casar em grande estilo.

É o caso dos recém-casados Iago do Nascimento, de 27 anos, e Lucília Franco, de 26. Após inúmeros adiamentos da tão esperando data devido à pandemia, o publicitário e a administradora, naturais de Aparecida de Goiânia, resolveram quebrar os ritos tradicionais e se casaram aos moldes tecnológicos: em casa, sem aglomerações e com a cerimônia transmitida ao vivo para uma plateia de cerca de 3 mil pessoas.

Iago relata que viu as primeiras notícias do coronavírus na Europa serem divulgadas, mas jamais imaginou que o vírus causaria um cenário de proporções tão caóticas no Brasil. Entretanto, aos poucos o casal começou a perceber que a pandemia poderia ser um empecilho direto para o casamento, que estava marcado para o dia 17 de abril de 2020. Uma decisão precisava ser tomada.

“Faltando um mês para o dia 17, a gente decidiu adiar porque vimos que não ia dar mesmo. Adiamos para o dia 31 de julho, mas quando a gente adiou, não sabíamos a dimensão dessa pandemia, como isso ia se comportar aqui no Brasil. Não tínhamos noção que seria algo que provavelmente íamos ficar lutando o ano todo”, conta.

A cerimônia foi adiada a contragosto, mas conforme a nova data, 31 de julho, se aproximava, mais preocupante ficava a questão da Covid-19. A primeira opção era adiar mais uma vez o casamento, mas a situação não os permitia nem ao mesmo ter uma noção de quando as coisas estariam mais controladas em relação ao vírus. Foi aí que veio a ideia.

O publicitário afirma que várias opções foram levantadas, mas o vínculo afetivo do casal com a casa da então noiva falou mais alto. “A gente começou a pesquisar vários formatos diferentes de fazer o casamento. Vimos aquele modelo que só os noivos vão para um lugar distante, só os noivos e o celebrante. Vimos aquele modelo que é uma espécie de drive-in, em que os convidados assistem à cerimônia dentro do carro. Mas temos um contexto emocional muito forte na casa onde minha esposa morava. Tem toda a história da mãe dela que morava lá e faleceu. Decidimos que ia ser lá”, revela.

Lucília ficou reticente no início, mas ao contar a ideia para a cerimonialista, ganhou uma injeção de ânimo. Iago conta que o casal ficou todo o mês de junho a planejar e divulgar o casamento, que seria transmitido através de um canal no YouTube. O rapaz utilizou seus dotes publicitários e fez diversos convites em formato de vídeo para falar da cerimônia e de seu estilo diferente.

Iago recorda que quando contou sua ideia para alguns parentes, teve gente que “torceu o nariz”. “Teve gente que disse ‘acho que vocês vão acabar se arrependendo’ de fazer o casamento assim”, lembra. Todavia, os noivos não hesitaram.

No dia 31 de julho, lá estavam os dois. A casa de Lucília, na Vila Brasília, fora inteiramente decorada pelos fornecedores, que amaram a ideia. De pessoas presentes, apenas os familiares mais íntimos, como irmãos e pais dos noivos, que já moravam com o casal, e as testemunhas para a assinatura do documento do cartório. “Ganhamos praticamente tudo do nosso apartamento. O pessoal engajou com a gente, deu presente. Minha noiva fez sorteio do buquê, teve quase 700 pessoas participando”, relembra Iago.

Toda a cerimônia foi transmitida ao vivo pelo canal do YouTube, que chegou a bater a marca de 3 mil pessoas a acompanhar. O casamento ocorreu no exato dia em que os pombinhos completavam quatro anos juntos. Para Iago, não poderia ter sido melhor. “Você pode planejar sua vida do jeito que for, você não tem controle de nada. De repente vem uma pandemia, que muita gente até falou que era uma “gripezinha”, e vira sua vida de cabeça para baixo. Mas a gente ficou muito feliz e satisfeito com o resultado. Eu sei que não é fácil, quem está passando por isso agora, mas até servimos de incentivo para muita gente que está pensando em casamento”, afirma.

No íntimo do privado

Enquanto alguns, diante do cenário de pandemia, preferem se casar no aconchego do lar e proporcionar para milhares de convidados a experiência, mesmo que remota, outros escolhem por fazer algo mais íntimo e reservado. A estilista Carol Sucena, de 30 anos, e o engenheiro eletricista Caio Barbosa, de 32, são um bom exemplo disso.

Após pouco mais de um ano de noivado, Carol e Caio, a noiva natural de Brasília e o noivo de Goiânia, resolveram marcar a data do casório para 25 de abril de 2020. A estilista conta que não seria um casamento religioso, de igreja, e sim num espaço que já havia sido reservado para cerca de 150 convidados. Contudo, o coronavírus fez com que os dois repensassem seus planos e dessem uma guinada bruta.

Ao se darem conta de que não seria possível realizar o casamento no espaço planejado devido às medidas sanitárias contra a Covid-19, Carol e Caio precisavam de uma solução. A alternativa veio a partir da publicação nas redes sociais da cerimonialista contratada. “Ela repostou algo de uma outra cerimonial, de São Paulo, falando [que mesmo com a pandemia] para comemorar, não deixar a data passar, ser uma data perdida, e aí me deu a ideia. Comentei com ela e fomos planejando”, recorda Carol.

A estilista conta que foi atrás de todos os fornecedores do casamento que deveria ocorrer originalmente no espaço de eventos e contou da novidade. Carol e Caio haviam decidido se casar em casa, com toda a decoração tradicional que a data pede, mas numa cerimônia reservada, íntima.

O evento aconteceu no dia inicialmente previsto, 25 de abril, e foi realizado somente entre os dois. “Não teve celebração com padre, juiz, nada assim. Foi uma celebração só nossa, e nem chegamos a fazer transmissão nem nada. Tem muitos casais que estão fazendo hoje em dia, mas não fizemos”, relata Carol.

Um jantar especial foi preparado e até o cachorro do casal ganhou uma gravata borboleta. Os noivos não quiseram vestir as roupas tradicionais como fraque, casaca ou vestido de noiva e nem contratar equipe de filmagem – as fotos foram todas feitas pelo celular. Porém, a casa foi toda decorada e o casal selou a união ao melhor estilo. “Foi muito legal, porque a gente ressignificou o dia. Era um dia em que ia acontecer nossa festa, ia ter a participação da nossa família e tudo. Para não passar o dia chorando, a gente decidiu fazer uma celebração”, conclui a estilista.

Apesar da pandemia, casamentos não pararam

A assessora de cerimonial Priscila Borges está no mercado de casamentos há 9 anos em Goiás e garante que casamentos fora do tradicional, como os feitos em casa, são mais comuns do que se pensa.

Priscila foi a responsável pela organização tanto do casamento de Iago e Lucília quanto de Carol e Caio. Contudo, a assessora de cerimonial relata que já trabalhou em casamentos nesse estilo antes da pandemia. “Teve uma situação em que a noiva quis fazer algo em casa, só pra eles, mais intimista. Mas na época coloquei 100 pessoas dentro da casa dela”, se recorda.

Priscila Borges está no mercado de casamentos há 9 anos e garante que, mesmo com pandemia, eles continuam a acontecer | Foto: arquivo pessoal

Mesmo com o coronavírus, Priscila conta que não chegou a notar uma queda expressiva no número de casais que querem se casar. Apesar de uma redução, a profissional relata que suas atividades continuaram normalmente ao longo do isolamento social. “A gente não pode falar que não teve queda. Teve sim uma queda, mas existe sim uma movimentação. As pessoas não pararam de organizar casamento por causa disso [pandemia]”, diz.

“Estou sempre a fazer orçamentos, atendimentos, que agora são on-line. Tem gente na organização de casamento para 2023. Não interrompi as atividades porque o trabalho é muito on-line, nós só deixamos de sair”, arremata.

Enquanto uns arrumam jeito de se unir, outros querem se separar

A pandemia parece ter despertado em algumas pessoas a força para superar dificuldades e impedir que o vírus frustre os sonhos anteriormente planejados. Entretanto, a crise sanitária também fez com que casais, confinados no isolamento social, chegassem à conclusão de que não foram feitos um para o outro.

O Estado de Goiás viu crescer em 33,8% o número de divórcios consensuais realizados pelos Cartórios de Notas na comparação entre o mês de junho de 2020 com o mesmo período do ano anterior. Para se ter uma ideia, em números absolutos, os divórcios consensuais em Goiás passaram de 275 no mês de junho de 2019 para 368 no mesmo período deste ano.

O aumento do fim de matrimônios coincide com a autorização nacional para que os atos notariais de escrituras – divórcios, inventários, partilhas, compra e venda, doação – e procurações possam ser feitos de forma remota, por videoconferência na plataforma única e-Notariado.

O Provimento número 100, editado pela Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ), disciplinou a realização de atos à distância pelos Cartórios de Notas de todo o País. Assim, atos de divórcios consensuais passaram a ser resolvidos de forma mais rápida, sem a necessidade de deslocamentos ou encontros entre as partes.

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