Cirurgia plástica para afinar o rosto está na moda, mas é preciso ter cuidado

A bichectomia entrou no hall dos procedimentos estéticos favoritos dos brasileiros. Mas dermatologista aponta: é uma cirurgia sem volta

Angelina Jolie antes (à esq.) e depois da bichectomia. É possível ver que seu rosto ficou mais alongado após a cirurgia, alcançando o efeito esperado | Fotos: Fotos: Forbes

Angelina Jolie antes (à esq.) e depois da bichectomia. É possível ver que seu rosto ficou mais alongado após a cirurgia, alcançando o efeito esperado | Fotos: Fotos: Forbes

Marcos Nunes Carreiro

A moda não está afeita apenas às roupas. Aliás, nunca esteve; seu alvo sempre foi a beleza. Ligar moda àquilo que se veste é algo meio século 19, época em que a beleza de uma mulher era avaliada tendo como parâmetro as roupas que vestia e os calçados e adereços que usava. O motivo: seguindo os ditames da França, os vestidos mal deixavam tornozelos à mostra. Logo, restava ao rosto, cabelo e pescoço fazer o papel de corpo e mostrar — ou não — os indícios de beleza física.

Mas, com o passar dos anos, as coisas mudaram. Como relata a historiadora brasileira Denise Bernuzzi em “História da beleza no Brasil”, em um país favorecido pelo clima, que tem uma população predominantemente jovem e cuja beleza é louvada mundialmente, o culto ao corpo é antigo, pois se atribui ao Brasil a ideia de que, se o país possui uma be¬leza física natural, o corpo brasileiro também deve ser, por natureza, belo. Todos são? Naturalmente, não.

De acordo com Bernuzzi, o conceito da beleza natural surgiu, efetivamente, nos Estados Unidos da década de 1950, onde se pregava que “o verdadeiro glamour é natural e elegante.” No Brasil, o ideal pregado por Juscelino Kubitschek — o dos “50 anos em 5” — foi o grande responsável por indicar o modo de como eliminar distâncias antes insuperáveis. Isso provocou naquela geração a vontade de alcançar seus objetivos rapidamente e, assim, JK ajudou a estabelecer aquilo que era pregado pelos astros hollywoodianos da época: a liberação corporal, assumindo um “quê” de naturalidade.

O problema foi que, com essa liberação corporal, vieram os padrões. Em meados da década de 1960, as jovens brasileiras começaram a dar adeus ao laquê e, na década seguinte, logo abandonariam os sutiãs de bojo. Nas propagandas de sabonete e xampu, logo começaram a aparecer mulheres de cabelos soltos e molhados, exalando sensualidade e certa nudez. Com a nudez, apareceram as características corporais fora do padrão e, com elas, as críticas.

Isso criou, especialmente no Brasil e nos Estados Unidos, um padrão elevado para a beleza corporal. E como essa beleza não poderia, ao contrário do que se intentava, ser natural, o jeito era arrumar alternativas. O que fazer? A resposta vem dos seguintes dados: desde 2013, o Brasil é primeiro no ranking de cirurgias plásticas no Brasil. Naquele ano, 1,49 milhão de procedimentos foram realizados, número que subiu em 2015, quando a quantidade passou dos 1,5 milhão de cirurgias, embora nem todas sejam feitas em território brasileiro.

Dados da Sociedade In­ternacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps) apontam que o número de procedimento feitos no Brasil vem caindo desde 2014, devido à crise financeira. Em 2014, foram feitas 1,34 milhão de cirurgias — 148 mil a menos do que no ano anterior. O valor leva muitos brasileiros a procurarem procedimentos no exterior, em países como Bolívia. Mas o fato é que, em território nacional ou não, as cirurgias estão sendo feitas e o objetivo é apenas um: a busca pela beleza.

Em outras palavras, a busca pela beleza virou objetivo nacional e as cirurgias plásticas, moda. Como toda moda, há variações de tendências. Lipoaspirações, implante de próteses de silicone, abdominoplastia, rinoplastia (cirurgia no nariz)… Garanto que o leitor já ouviu falar de todas elas — é provável que conheça alguém que tenha feito pelo menos uma. Moda. E a cirurgia da moda atual tem nome engraçado: bichectomia.

O nome vem do objeto da cirurgia, a “bolsa de Bichat”, um tecido gorduroso localizado nas bochechas e que foi batizado em referência ao anatomista e fisiologista francês Marie François Xavier Bichat (1771-1802). A cirurgia consiste em retirar parcial ou totalmente a “bolsa de Bichat” a fim de afinar o rosto, tornando-o mais magro e dando certa protuberância às maçãs faciais.

Vá ao Google Imagens e digite “bichectomia”. O leitor verá dezenas de mulheres famosas que já passaram pelo procedimento e agora desfilam dentro dos padrões estabelecidos de beleza. O caso mais conhecido talvez seja o da atriz Angelina Jolie (veja fotos). Entretanto, como todo procedimento estético, a bichectomia tem lá os seus “contras”.

A dermatologista Juliana Sal­gado diz que a gordura de Bichat é importante para a proteção de vasos e nervos que passam na região, mas principalmente para a sustentação da pele. “Então”, diz ela, “a remoção dessa gordura dá um aspecto mais encovado na face e faz a porção superior da bochecha fica mais saliente. Tem-se um aspecto de sustentação maior da bochecha pela remoção da parte inferior adjacente.”

Em outras palavras, dá-se a impressão de que a bochecha está mais proeminente. “É um resultado estético interessante em alguns casos, de pessoas que têm um rosto muito arredondado, pois a cirurgia deixa o rosto mais alongado. Agora, vejo com muita cautela a indicação da bichectomia porque, no longo prazo, isso pode determinar um grau maior de flacidez na região adjacente”, relata.

Juliana Salgado: “Muitos jovens se submetem à cirurgia e têm uma flacidez de pele muito pequena. Com o passar dos anos, essa flacidez pode piorar” | Foto: Renan Accioly

Juliana Salgado: “Muitos jovens se submetem à cirurgia e têm uma flacidez de pele muito pequena. Com o passar dos anos, essa flacidez pode piorar” | Foto: Renan Accioly

A dermatologista afirma tem pacientes que fizeram o procedimento e que tiveram resultados ruins. “Num primeiro momento, o resultado para pessoas jovens é muito bom, mas no futuro pode não ficar tão bom assim. A bichectomia deixa a pessoa com uma projeção maior da região malar, mas pode apresentar uma piora na flacidez, no sorriso, naquele efeito sanfona da face. Às vezes, conseguimos melhorar com alguns procedimentos e o uso de alguns estimuladores de colágeno, como ácido poli-L-láctico, fios de sustentação, mas é um problema que se arruma para o resto da vida.”

A preocupação de Juliana é, sobretudo, em relação à idade em que as pessoas têm passado pela cirurgia. “Cada vez mais jovens estão aderindo a esta moda. As pessoas que se submetem à cirurgia são muitos jovens e têm uma flacidez de pele muito pequena. Com o passar dos anos, essa flacidez pode piorar, visto que se perde uma estrutura que é de sustentação da face”, afirma.

Contudo, um ponto mais essencial, segundo a dermatologista, é a escolha do profissional que irá realizar o procedimento e do local onde isso ocorrerá. “A pessoa precisa escolher bem o local e o médico que irá fazer a cirurgia”, alerta ela. “Tem que haver um local com assepsia adequada, um local de cirurgia. Existem cirurgiões plásticos que fazem muito bem, dermatologistas com formação em cirurgia dermatológica que também fazem muito bem e existem cirurgiões dentistas que fazem muito bem. Agora, o paciente deve ficar atento. Vemos essa cirurgia sendo feita por pessoas não habilitadas e em locais impróprios.”

O ponto central, para Juliana, é a não banalização da estética, que é importante, mas não pode ser alcançada a qualquer custo. “A estética”, diz, “deve ser vista com muita seriedade, pois complicações graves resultam de procedimentos mal feitos. Desde uma simples toxina botulínica a um preenchimento, que é algo muito comum nos consultórios dermatológicos, as chances de complicações existem e elas devem ser tratadas no tempo hábil e da forma correta. A estética não pode ser feita de qualquer jeito.”

“Se a cirurgia for feita com um médico com experiência e formação na área, os riscos são pequenos”

Eduardo Kanashiro é, com certeza, um dos cirurgiões plásticos mais requisitados atualmente quando o assunto é bichectomia. Ele relata que, quando começou a fazer o procedimento, nunca tinha ouvido falar de alguém que tivesse feito essa cirurgia no Brasil. Agora, opera três ou quatro pacientes por semana.

E, de fato, quase todos os pacientes de Kanashiro vão à procura de sanar sua busca pela beleza, pela estética. Ele diz: “Recebo alguns pacientes que, eventualmente, mordem a bochecha por dentro. Isso acontece com quem tem a ‘bolsa de Bichat’ grande, mas os casos são poucos; a maioria dos pacientes vem por motivos estéticos mesmo”.

O cirurgião, que tem uma clínica em São Paulo e afirma atender muitos pacientes de outros estados, inclusive de Goiás, atendeu à ligação da reportagem e respondeu a todas as questões propostas. “Meu objetivo é esclarecer as dúvidas”, ressaltou.

Existem riscos no procedimento?

Se a cirurgia for feita com um médico que tem experiência, com formação na área, os riscos são pequenos. É claro que existem estruturas próximas, que, se não forem respeitadas ou se o profissional não tiver experiência, podem gerar lesões chatas como a paralisia facial, lesões no ducto da parótida, ou seja, lesões que trazem transtornos para a pessoa.

Uma das grandes críticas à cirurgia é devido ao fato de a região do rosto onde se encontra a “bolsa de Bichat” perder gordura com o passar da idade. Assim, com a retirada da “bolsa”, isso pode se acentuar de maneira precoce. Como o sr. avalia a questão?

Isso é um pouco de mito, porque a “bolsa de Bichat” em si não diminui com a idade ou com a perda de peso. Já tive pacientes, por exemplo, que chegaram a pesar 35 quilos para tentar afinar o rosto, mas que continuaram com o rosto bem redondo. Com o emagrecimento, a situação piorou, porque ficaram magérrimas e o rosto aumentou. Por outro lado, já operei pacientes com mais de 70 anos e que estavam incomodados com a “bolsa” em excesso. O que acontece é que, com a idade, nós vamos perdendo colágeno e a pele vai ficando flácida. Com isso, a “bolsa” também começa a ter uma flacidez e começa a descer. Então, quem tem a “bolsa” aumentada, na juventude se incomoda com o volume da bochecha, e com a idade começa a se incomodar com o volume na região inferior, tipo bochecha de buldogue. Ou seja, o incômodo só muda de lugar.

O que fazer para evitar aborrecimentos com a cirurgia?

O paciente precisa escolher um profissional que conheça a visão estética da face, que saiba indicar e tratar complicações que eventualmente possam ocorrer. É muito comum a indicação de outro procedimento além da bichectomia. Às vezes, o paciente tem um rosto mais redondo, precisa tirar a “bolsa” e tratar a gordurinha que tem abaixo do queixo. Eventualmente, precisa fazer um lifting, caso já tenha alguma flacidez, ou fazer um procedimento para estimular a formação de colágeno. Tudo isso é avaliado e, às vezes, o paciente tem, não só o aumento da “bolsa”, mas também uma hipertrofia do músculo masseter (um dos músculos da mastigação). Às vezes, o paciente tem apenas a hipertrofia. Então, não há uma fórmula e tudo isso é avaliado na consulta, de acordo com cada paciente.

Eduardo Kanashiro, um dos cirurgiões plásticos mais requisitados atualmente, garante que a bichectomia é um procedimento seguro, desde que realizado com o profissional certo e que seja capacitado para operar | Foto: Reprodução/Globo

Eduardo Kanashiro, um dos cirurgiões plásticos mais requisitados atualmente, garante que a bichectomia é um procedimento seguro, desde que realizado com o profissional certo e que seja capacitado para operar | Foto: Reprodução/Globo

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joana Darc coelho batista

acho meu rosto mt grande e torto tenho crescimento masseter so d um lado .

Valdely

Eu fiz bichectomia em uma clínica de especialização do procedimento; Como cirurgião dentista experiente em outras áreas porém estava se especializando em bichectomia, Não achei o resultado tão grande não sei se por esse fato ou realmente a mudança é pouca ?Minha dermatologista me deu uma bronca e me deixou amedrontada; disse que realmente com passa do tempo vai ficar caída a minha face.