Candidatos vão lidar com a desconfiança

Dificilmente o eleitorado goianiense elegerá prefeito que prometa “mundos e fundos”. Discurso pé no chão pode conquistar mais

Afonso Lopes

Os goianienses sofrem com um trânsito que beira o caótico: algum candidato vai prometer uma solução milagrosa? | Foto: Frederico Vitor/Jornal Opção

Os goianienses sofrem com um trânsito que beira o caótico: algum candidato vai prometer uma solução milagrosa? | Foto: Frederico Vitor/Jornal Opção

Construção de milhares de quilômetros de asfalto, centenas de escolas e creches, viadutos nos quatro cantos da cidade. Promessas assim sempre pautaram intensos debates nas campanhas eleitorais de Goiânia, mas dificilmente devem emplacar no gosto do eleitorado este ano. A desconfiança em relação ao mundo maravilhoso e colorido de pindorama durante as campanhas e a realidade nua e crua das dificuldades administrativas depois delas está muito presente na sociedade. Principalmente após a campanha presidencial do ano passado, quando a presidente Dilma Rousseff prometeu maravilhas para a economia e desembarcou na pior recessão da história do Brasil logo após o fechamento das urnas.

O goianiense não é alheio ao que acontece. É claro que a campanha eleitoral apresenta um conjunto de promessas e compromissos que constituem uma carta de intenções de governo, e não necessariamente uma projeção garantida de futuras realizações. Mesmo entendendo que boa parte dessas intenções não se concretiza depois, a tendência do eleitor desapaixonado e não militante deste ou daquele grupamento é de avaliar o conjunto e depositar aí o seu voto, escolhendo entre os que disputam o seu aval.

O problema é que as campanhas eleitorais no Brasil estão se tornando cada vez mais um conjunto de números e promessas fabulosas, como se tudo fosse permitido não para conquistar o eleitor, mas para enganá-lo. Tanto se fez nesse sentido, que o eleitorado está mudando aos poucos, tornando-se mais crítico e atento para as mirabolantes propostas e promessas. O goianiense talvez opte exatamente por esse caminho, de aceitar mais um discurso próximo do que será possível fazer a partir do ano que vem e rejeitar o mundo maravilhoso que só existe nas marqueses eletrônicas dos programas eleitorais. O candidato que tentar vender sonhos provavelmente vai acabar falando sozinho.

Problemas

Assim como em todas as grandes cidades, o trânsito de Goiânia é tema constante de reclamações. Viadutos, novas avenidas e mirabolâncias mil vendem ilusão de que basta uma varinha mágica para tudo fluir como uma perfeita sinfonia. Mas ai do candidato que cair nessa esparrela. O eleitor, motorizado ou não, sabe muito bem que tudo o que se pode fazer nesse setor é adotar uma política que minimize, mesmo sem resolver completamente o problema. E ninguém acredita, fora do mundo maravilhoso e poético da imaginação sobre o mundo ideal, que transporte coletivo e bicicletas vão solucionar o problema do trânsito. Goiânia tem hoje, proporcionalmente, uma das maiores frotas de carro do país. O motorista não quer ser convidado a deixar o carro em casa, até porque ele não fará isso. E nem se sente culpado pelo caos nas ruas lotadas.

Criar alternativas baseadas em pesquisas de fluxo e impedir novos empreendimentos que provoquem forte intervenção em áreas já complicadas, como se espera que aconteça com o complexo Nexus, na confluência das avenidas D e 85, é muito mais palpável para o eleitor do que prometer ônibus que ofereçam conforto de limusine.

Outro tema que passou a incomodar os eleitores de Goiânia é o serviço de coleta de lixo. Desde o colapso total nesse serviço no início do mandato do prefeito Paulo Garcia, apresentar uma solução corriqueira pode ser melhor e mais atrativo do que falar sobre sustentabilidade. Se antes era fácil prometer grandes operações para atacar o problema da sujeira da cidade, prática aliás que vem sendo mantida pela Comurg atualmente, hoje é mais interessante um plano permanente de ação. Não adianta muita coisa fazer pente fino em um grupo de bairros enquanto o restante da cidade enfrenta o problema do acúmulo do lixo cotidianamente.

Outro aspecto administrativo que incomoda boa parte do eleitorado goianiense é o atendimento básico de saúde. Os grandes hospitais estaduais conseguiram acabar com a farsa dos números inflados, de milhares de atendimento, quando na realidade eram somente depósitos de pessoas adoentadas espalhadas em macas pelos corredores quando não instaladas precariamente no chão. Hoje, o atendimento é real.

É exatamente esse o padrão que se deseja para os postos de saúde municipais, primeira linha de frente desse atendimento. Uma demanda antiga era a disponibilidade do serviço 24 horas por dia. Agora, não basta manter as portas abertas. É preciso manter médicos e equipes de prontidão, coisa que muitas vezes não acontece nem durante o dia.

Prometer novos postos de saúde maravilhosos, imensos, que mais se parecem com hotéis cinco estrelas, pode ser lindo e maravilhoso enquanto filmeto televisivo, mas certamente o eleitor vai olhar para isso com um pé atrás: se não há dinheiro nem para manter o que existe, é óbvio que o posto de saúde hollywoodiano não vai sair da maquete.

Enfim, o eleitor está mais atento às campanhas e vai, mais do que nunca, olhar para as promessas mirabolantes com extremo rigor. Candidatos que se apresentarem com uma capa de “salvador da pátria”, no caso salvador da cidade, certamente não serão levados a sério. Os tempos são outros e o eleitorado amadureceu. Discurso otimista, sim, mas fantasioso, não. É o que se espera.

 

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