Calçadas: uma necessidade

Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção

É preciso que os gestores municipais atuaem de maneira firme sobre a problemática das calçadas

É preciso que os gestores municipais atuaem de maneira firme sobre a problemática das calçadas

Desde 1986, com a publicação da Carta de Ottawa, as atividades de promoção da saúde ganharam importância como referencial teórico para a definição de estratégias destinadas à manutenção do bem-estar e da saúde das pessoas pelo mundo afora. Um de seus pontos principais é o que chama atenção para a importância do ambiente saudável, que vai além da ausência ou do controle da poluição atmosférica, dos mananciais e da contaminação do solo.

Importa refletir sobre algo relativamente simples, mas que tem profundo impacto sobre a vida das pessoas e que está ao alcance de todas as comunidades e das administrações municipais: a qualidade das nossas calçadas.

Calçada ou passeio, é um “caminho pavimentado para pedestres, quase sempre mais alto que a parte da rua destinada aos veículos, e geralmente limitado pelo meio-fio”, segundo o dicionário Aurélio. Ou, pelo menos, deveria ser. Na verdade, o que se constata no quotidiano da maioria de nossas cidades, é que as calçadas — ou a falta delas, são fonte permanente de ameaça à saúde das pessoas. Se não existem, expõem os pedestres a riscos de atropelamentos; se existem e são mal conservadas impõem risco de quedas e suas consequências potencialmente graves para as vítimas. Quedas que resultam, quase sempre, em traumas de variados graus de complexidade, principalmente em idosos, crianças e gestantes.

Além disso, negam veementemente os esforços das políticas de promoção da saúde, que recomendam a adoção de hábitos saudáveis de vida, como a prática regular de atividade física, de que a caminhada é o exemplo mais eloquente e ao alcance de todos. Esta prática está na dependência direta da existência, manutenção e nivelamento das calçadas.

É um contrassenso a omissão das administrações municipais ao se negarem a promover as condições mínimas para a mobilidade urbana dos pedestres, seja na construção e na manutenção dos passeios de áreas públicas, seja pela negligência na fiscalização daqueles que se encontram sob responsabilidade de particulares. A administração pública torna-se, assim, responsável por uma falta grave, com repercussões importantes sobre a vida das pessoas, pois além dos prejuízos à saúde causados pela impossibilidade de acesso (ex. dificuldade dos cadeirantes) a ambientes saudáveis e propícios à prática regular de atividade física, há os danos físicos imediatos para as vítimas de quedas, além de prejuízos econômicos para estas e para os serviços de saúde que arcam com o tratamento e a reabilitação dos pacientes.

É preciso, pois, que os nossos administradores municipais tenham a perspicácia de atuar de maneira firme sobre essa questão. Parece simples, mas trata-se de uma medida claramente inserida no capítulo da “intersetorialidade”, posto que conjuga as dimensões da mobilidade urbana e da saúde coletiva. Se assim não for, continuaremos a fazer de conta que promovemos a saúde das pessoas e que cuidamos adequadamente do ambiente em que vivemos.

Fernando Cupertino é médico, mestre (ISC-UFBA) e doutorando em Saúde Coletiva (UnB)

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