Brasil, que já foi vanguarda, falha na prevenção ao HIV

Para infectologista, Ministério da Saúde tem sido omisso. Ativista critica ‘sumiço’ da população LGBT das campanhas de conscientização

Marcos Silvério: “A população LGBT foi empurra para debaixo do tapete”

Marcos Silvério, 47, anda preocupado. Militante há 17 anos pelos direitos da comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais), percebe um risco às políticas de prevenção à infecção do vírus HIV, causados da Aids. Um sinal é a atual campanha do Governo Federal com foco no carnaval. “A população LGBT foi varrida para debaixo do tapete”, denuncia.

De fato, a campanha lançada pelo ministro da Saúde para o carnaval 2019 foca no público em que o número de novas infecções é maior: os homens. Mas peca pela generalização, pois não distingue os diferentes perfis masculinos. A peça, estrelada pelo cantor Gabriel Diniz (do hit chiclete Jennifer), alerta que 73% dos casos registrados ocorrem entre os homens. “Orientação sexual não importa”, disse o ministro Luiz Henrique Mandetta.

Não é bem assim. “Segundo a Unaids Brasil, o risco de infecção pelo HIV é 27 vezes maior entre homens que fazem sexo com homens; 23 vezes maior entre pessoas que usam drogas injetáveis; 13 vezes maior entre profissionais do sexo; e 13 vezes maior entre mulheres trans”, diz Silvério.

Aumento

Christiane Kobal: “há 15, 16 anos o Ministério da Saúde não acompanha mais as inovações terapêuticas do HIV

Os dados nacionais sinalizam para um aumento significativo da infecção pelo HIV em homens que fazem sexo com muitos, especialmente os jovens”, reforça a infectologista Christiane Kobal. A especialista concorda que o Governo Federal tem falhado na prevenção ao vírus. “O Ministério da Saúde tem sido, no mínimo, omisso no que se refere à falta total de campanhas de caráter preventivo. Há vários anos não temos investimentos em campanhas de prevenção ao HIV oferecidas. Deixou-se de falar em HIV e isso é muito grave”, enfatiza.

Em Goiás, por exemplo, a última campanha própria da Secretaria Estadual de Saúde foi feita em 2017. De acordo com a assessoria de imprensa do órgão, o enfoque foi na conscientização da importância da testagem e início rápido do tratamento. Estudos internacionais corroboram a preocupação da SES e apontam que a supressão viral decorrente da terapia tem eficácia também na diminuição da transmissibilidade.

No carnaval deste ano, a SES fará a tradicional distribuição de preservativos (1,4 milhão de unidades) e disponibilizará 35,9 mil testes rápidos gratuitos para detecção de HIV e sífilis.

Detecção
Atualmente, segundo o Ministério da Saúde, 694 mil pessoas são portadoras do HIV no Brasil. Dessas, 172 mil desconhecem a condição. Os dados apresentados pelo ministro no lançamento da campanha para o carnaval mostram que um em cada cinco novos casos registrados ocorre em homens de 15 a 24 anos de idade.

Enquanto a taxa de detecção recua em boa parte da população, ela sobe entre os mais jovens. Em dez anos, a alta foi de 7% entre os brasileiros de 15 a 19 anos; 132%, na faixa que vai dos 20 aos 24 anos; e 33% na que começa aos 25 e segue até os 29 anos de idade.

Camisinha
Segundo Crhistiane Kobal, são vários os fatores que contribuem para esse recrudescimento da epidemia. Entre eles, o não uso de camisinha e o excesso de confiança típico dos mais novos. “Os jovens sentem-se ‘imunes’ ao vírus. [Pensam que] ‘só acontece com o outro e não comigo’. Há também a perda do medo de contrair o HIV, uma vez que temos tratamento eficaz no Brasil”, diz.

“Os jovens de hoje não viveram o pânico da epidemia de Aids no início da década de 1980”

Marcos Silvério, que é fundador da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Goiás (APOLGBT) concorda. “Os jovens de hoje não viveram o pânico da epidemia de Aids no início da década de 1980. Cresceram na época dos antirretrovirais e da Prevenção Combinada. É comum ouvir entre eles comentários do tipo: ‘se eu pegar HIV, é simples, é só tomar um comprimido por dia e está tudo bem,”, relata.

Despreocupação
A leitura fria dos números colabora com a despreocupação com a doença. Até o surgimento da terapia combinada, em meados dos anos 1990, a mortalidade era de praticamente 100%. Atualmente, o coeficiente de mortalidade é de 4,8, no Brasil. Além disso, a terapia hoje é mais simples. Em alguns casos, basta um comprimido diário, o chamado 3 em 1.

Tudo isso leva à negligência, especialmente entre os homens jovens. De acordo com o Ministério da Saúde, 56,6% dos jovens com idade entre 15 a 24 anos usam preservativo nas relações sexuais com parceiros eventuais. Quando o parceiro é fixo, o uso cai para 34,2%.

Ao mesmo tempo, essa população é a que menos se trata: 44% dos jovens nessa faixa etária não utilizam os medicamentos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). Entre os mais velhos, a partir dos 40 anos de idade, a média dos que não se tratam é de 23%.

Tratamento
Christiane Kobal faz outro alerta. Mesmo com medicamentos amplamente disponíveis, inclusive para novas estratégias de prevenção (como a Profilaxia Pré e Pós-Exposição), o arsenal existente no Brasil não acompanha as inovações da indústria farmacêutica.

Para a infectologista, as opções de tratamento disponíveis são “excelentes” e que os pacientes em tratamento estão ótimos. Mas ela admite que o País já não é tão vanguarda. “O País realmente esteve na ponta no que se refere ao tratamento antirretroviral. Mas, no mínimo há 15, 16 anos o Ministério da Saúde não acompanha mais as inovações terapêuticas do HIV”, diz.

O dolutegravir é um dos últimos medicamentos adicionados ao esquema terapêutico no Brasil

Atualmente, o protocolo inicial é composto por uma pílula de dolutegravir (uma das últimas novidades incorporadas) com uma pílula 2 em 1 de lamivudina e tenofovir – esse medicamento, especialmente, pode causar efeitos colaterais a médio e longo prazo, como problemas no fígado e enfraquecimento dos ossos.

Juluca
Outros medicamentos considerados ultrapassados, como efavirenz (que pode provocar graves efeitos colaterais no sistema nervoso), seguem sendo ofertados pelo SUS. Os Estados Unidos, por exemplo, aprovaram em 2017 o Juluca, que junta em um só comprimido o dolutegravir e rilpivirina. A droga facilita a adesão e diminui os efeitos colaterais.

“O Brasil ainda é uma referência mundial em relação ao tratamento do HIV/AIDS, mas o que temos percebido, desde o aprofundamento da crise econômica e mais agora com esse novo governo, é que pouco a pouco está havendo uma estagnação das políticas públicas e campanhas de prevenção direcionadas às populações vulneráveis, ao diagnóstico e ao tratamento dessas epidemias. O Brasil está deixando de avançar. E, se nada for feito, em algum tempo poderá ficar pra trás em relação a outros países”, alerta Marcos Silvério.

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