Bolsonaro e Haddad não representam ameaça à democracia, dizem cientistas políticos

As maiores dificuldades dos candidatos, se eleitos, serão às articulações junto ao Congresso Nacional

Jair Bolsonaro e Fernando Haddad | Fotos: Reprodução

“Bolsonaro não ganha essa eleição porque não tem maioria no País para as ideias dele.” A afirmação é do ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, declarada à versão brasileira do jornal “El País”.

Não se sabe se Jair Bolsonaro (PSL), de fato, não tem o apoio da maioria dos eleitores brasileiros, como afirma José Dirceu. Porém, os levantamentos realizados por diversos institutos de pesquisas indicam que o deputado federal deve terminar o primeiro turno à frente dos demais concorrentes.

A última pesquisa de intenção de voto divulgada pelo instituto Datafolha e contratada pelo jornal “Folha de S. Paulo” mostra que o candidato apresenta crescimento. De 28 de novembro a 06 de outubro, Jair Bolsonaro ultrapassou os 30% das intenções. O presidenciável pontuou 36%, levando em consideração a margem de erro, Bolsonaro tem de 34% a 38%.  

Contudo, assim como em qualquer outra disputa, sair na frente não é sinônimo de vitória. Em segundo lugar, os brasileiros observam o crescimento de Fernando Haddad (PT). O candidato de Lula da Silva permaneceu dentro da margem de erro, segundo o último levantamento feito pelo mesmo instituto. A oscilação do petista foi de 21% para 22%. Considerando a margem, que pode variar para mais ou para menos, o petista pontua entre 20% e 24%. O nível de confiança da pesquisa é de 95%.

O entrave entre direita e esquerda permaneceu acirrado e sem grandes alterações ao longo da última semana. Isso reforça a possibilidade de os eleitores terem que voltar às urnas pela segunda vez para colocarem um ponto final na disputa que estará ainda mais afunilada. Entretanto, mesmo com tantas diferenças ideológicas entre ambos os extremos, um denominador comum tem gerado inquietação na maioria dos eleitores: até que ponto esses nomes representam uma ameaça à juvenil democracia brasileira?  

A candidatura de Fernando Haddad, herdada pelo padrinho Lula da Silva, divide as massas em dois lados sólidos: petistas e lulistas e antipetistas e antilulistas. Diversos cientistas políticos estão de acordo com esse raciocínio. O papel de opositor ao PT naturalmente seria de Geraldo Alckmin (PSDB), mas o candidato do PSL roubou a cena e protagonizou a encarnação do desejo de destruição do petismo nos últimos tempos.

Esse misto de liberalismo e conservadorismo contido na figura de Jair Bolsonaro soa de forma agradável para grande parte das massas brasileiras. Apesar de ambos figurarem como líderes populares em defesa dos interesses de dois extremos — de um lado alguém que nega os malefícios da ditadura militar e homenageia o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e, do outro, alguém que propõe uma nova Constituinte e o controle da imprensa —, os cientistas políticos ouvidos pela reportagem garantem: se eleitos, não representarão uma ameaça à democracia brasileira ou às instituições democráticas do País.

“Não enfrentaremos uma crise institucional ou qualquer ameaça democrática”

O cientista político graduado pela Antioch College em 1966 e pós-doutor em Ciência Política pela Universidade do Estado de Nova York, David Fleischer, assegurou que Jair Bolsonaro e Fernando Haddad não apresentam qualquer ameaça à democracia brasileira. “Temos instituições fortes. O Poder Judiciário, assim como o Ministério Público e a Polícia Federal, estão funcionando muito bem. Certamente, não enfrentaremos uma crise institucional ou qualquer ameaça democrática.”

David Fleischer: Quem for eleito terá que se entender com o Congresso” I Foto: Divulgação

Ele, que também é professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), afirmou que as maiores dificuldades que podem ser enfrentadas em um possível governo de Bolsonaro ou Haddad serão as articulações junto ao Congresso Nacional para que aprovem os seus projetos. “Quem for eleito terá que se entender com o Congresso. Terá que constituir uma maioria sólida para aprovar suas propostas.”

Para o docente, Bolsonaro não apresenta uma ameaça militar para o País, pois a sua passagem pelo Exército Brasileiro foi marcada por atitudes de desobediência, ou seja, os próprios militares não o vêem com bons olhos. Quanto ao petista Fernando Haddad, Fleischer avalia que, ainda que fosse de sua vontade, não será possível conceder indulto ao ex-presidente Lula da Silva. “Existem jurisprudências muito fortes formadas dentro do Supremo. Se ele for eleito, deverá continuar indo a Curitiba [local onde o ex-presidente encontra-se preso] para receber suas instruções dentro do presídio.”

“Do ponto de vista da democracia, a candidatura de  Bolsonaro é menos perigosa”

O cientista político Paulo Kramer, professor da Universidade de Brasília (UnB) e consultor e conferencista em marketing político-eleitoral, acredita que a vitória do capitão da reserva ainda no primeiro turno da disputa começou a deixar o terreno das possibilidades abstratas e se movimentar em direção das possibilidades concretas.  

Para ele, ainda não se pode afirmar com tamanha certeza que a eleição será definida no primeiro turno, pois há um grande número de eleitores “no armário”. “Mas não podemos deixar de considerar a possibilidade de Bolsonaro crescer e isso gerar um efeito manada que leve os eleitores a liquidar logo no primeiro turno.”

Apesar do grau de polarização da disputa, o cientista político afirma com segurança que ambos não representam uma ameaça. “Mas, do ponto de vista da preservação da democracia, a candidatura de Bolsonaro é menos perigosa que a do Haddad”, complementa.

Paulo Kramer: “O Bolsonaro e Haddad podem até não representar uma ameaça à democracia brasileira, mas o PT raivoso sim” I Foto: Divulgação

O professor universitário reforça que, apesar de não ver nada de catastrófico em nenhuma das duas candidaturas, algumas perguntas sobre a atuação de Fernando Haddad insistem em permear: “Se o petista vence, até que ponto o governo seria realmente dele? Até que ponto haveria influências partindo de dentro do cárcere de Curitiba?”.

Em sua avaliação, depois de todos os acontecimentos que resultaram na prisão de Lula da Silva, o ex-presidente passou a adotar uma linguagem voltada à militância petista e não ao eleitor mediano. “Isso acabou levantando suspeitas de que um possível próximo governo petista venha a ser uma gestão pautada pelo revanchismo, controle da mídia, alianças contra a democracia representativa, o Congresso Nacional, entre outros. Bolsonaro e Haddad podem até não representar uma ameaça à democracia brasileira, mas o PT raivoso sim.”

Na visão do docente, Haddad não deve trabalhar a favor do indulto de Lula, mas tem suas dúvidas se ele irá resistir às pressões. “Não sei até que ponto ele seria capaz de suportar. Tenho minhas dúvidas se ele tem enraizamento suficiente para resistir às investidas do mecanismo petista.”

“O que vejo são dificuldades enormes para a governabilidade do País”

Por sua vez, o cientista político e professor aposentado da Universidade Federal de Goiás (UFG), Pedro Célio não acredita na possibilidade de haver uma crise institucional em nenhum dos dois governos. “O que vejo são dificuldades enormes para a governabilidade do País. Seja Bolsonaro ou  Haddad , o custo da governabilidade será maior, tendo em vista que o Congresso Nacional terá bancadas mais autônomas e menos apegadas à figura do presidente da República. As dificuldades de ambos serão bem parecidas, mas, por enquanto, algo bem distante de uma crise democrática.”

Pedro Célio: “As dificuldades de ambos serão bem parecidas, mas, por enquanto, algo bem distante de uma crise democrática” I Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Para ele, caso um segundo turno entre eles venha a se concretizar, as articulações com as forças de centro da política brasileira serão um fator decisivo para as respectivas candidaturas. “A tendência é que esses candidatos busquem uma aproximação com o centro. Eles querem ganhar a eleição e, para isso, farão compromissos com outros políticos. Tudo irá depender de como esses candidatos irão proceder e quais serão as suas estratégias nesse período restante.”

O professor universitário reforça que ambos não representam uma ameaça à democracia brasileira, apesar de apresentarem discursos radicalizados. “Isso é para segurar seus eleitores, mas eles sabem que precisam variar esse discurso e buscar um complemento eleitoral que lhes é necessário.”

Entre ambos os casos, o cientista diz acreditar que a candidatura de Haddad depende mais da afirmação democrática. “Já o Bolsonaro pode até ter um rompante de desestabilização maior que o do Haddad, mas chegar ao ponto das instituições não o suportarem, sinceramente, não acredito.”

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