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A partir do quadro de recessão pintado pelas novas autoridades econômicas em Brasília, Prefeitura e governo do Estado prometem apertar os cintos

Marconi Perillo se antecipou e o prefeito Paulo Garcia seguiu o rastro para fazer a Prefeitura caber em Goiânia

Marconi Perillo se antecipou e o prefeito Paulo Garcia seguiu o rastro para fazer a Prefeitura caber em Goiânia

Afonso Lopes

Sentiremos saudades de 2014 e desejaremos que 2016 seja antecipado pelo menos uns seis meses? Difícil responder essa pergunta. O cenário recessivo montado em Brasília, com inflação em alta, crescimento negativo e dólar em disparada, a constatação mais óbvia é que a tal marolinha que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizia que seria o impacto da crise no Brasil era na realidade um tremendo tsunami que pode agora varrer o otimismo de norte a sul, les­te a oeste. Aliás, já está varrendo, apesar do clima de carnaval e fe­riado prolongado. A perspectiva de quarta-feira de cinzas está logo aí.

Os governos de Goiás e de Goiâ­nia anunciaram cortes em suas estruturas para enfrentar a onda monstruosamente negativa que se aproxima velozmente. Isso é bom, sem dúvida. No Brasil, os go­vernos, todos eles, tendem a crescer mais do que podem quando os tempos são favoráveis, e precisam corrigir a rota quando as coisas se complicam. Mas é exatamente nas horas de dificuldades que surgem soluções bem plantadas e inteligentes, embora doloridas.

Tamanho

Qual é realmente o tamanho da crise financeira do Estado e da Prefeitura de Goiânia? Ninguém sabe. Ou melhor, tem quem saiba exatamente a dimensão do problema, mas as administrações públicas são políticas, e é evidente que isso limita a zona de conforto dos governantes quando os assuntos não são nada positivos. Não só no Brasil, mas em todos os lugares do mundo. Na Grécia, por exemplo, o novo governo foi eleito dizendo que daria uma banana para a comunidade financeira da Europa, mas agora começa a rever o discurso.

De qualquer forma, existem sinais emitidos pelas autoridades que podem ser captados e interpretados. Na sexta-feira, 13, em um artigo publicado pelo jornal “O Popular”, a secretária da Fa­zenda, Ana Carla Abrão Costa, resumiu o tremendo esforço que será feito este ano com uma só frase: “O Estado (governo) deve caber dentro de Goiás”. Durante a semana, o prefeito Paulo Gar­cia divulgou alguns pontos da reforma administrativa que ele pretende enviar para votação na Câmara dos vereadores. Ele quer cortar nada menos que 10 secretarias. Ou seja, a frase de Ana Car­la veste como uma luva perfeita também, no caso: “A Pre­fei­tura tem que caber em Goiânia”.

Esse é o lado, digamos, positivo da visão administrativa que está colocada para este 2015. Adminis­trações financeiramente bem comportadas são sempre muito bem-vindas. O problema é que para se chegar a isso a dor não é pequena, e politicamente costuma ter altíssimo custo. Paulo Garcia já deve ter colocado as barbas de molho. Alguns setores da sua su­posta base de sustentação estão fran­camente inquietas. No Estado, certa dose de insatisfação se tornou pública, através de aliados como o deputado federal e presidente regional do PTB, Jovair Arantes, e tucanos ligados ao Palá­cio, como Antonio Faleiros e Car­los Alberto Leréia. O governador Mar­coni Perillo teve que manter o pulso firme para suportar as pressões, e resumiu sua posição ao di­zer que sempre foi ajudado pelos amigos/companheiros, mas sempre também os ajudou. Ou seja, o que terá que ser feito, será feito.

Necessidade

E existe mesmo essa necessidade de promover cortes tão profundos como os que estão sendo elaborados no Estado e na Pre­fei­tu­ra? Sem dúvida nenhuma. O Es­tado, conforme declarações oficiais, convive com um déficit mensal de R$ 100 mi­lhões desde o ano passado. A Prefeitura chegou a extrapolar os limites legais dos gastos com folhas de pagamento e viveu uma crise cotidiana imensurável nos últimos dois anos, quando se apresentou um rombo orçado em R$ 40 milhões por mês. Isso significa que apenas para empatar, a Pre­feitura teria que gastar quase meio bilhão a menos este ano, e o Estado, mais de 1 bilhão e R$ 200 milhões.

Paralelamente a esses quadros negativos, existem ótimas notícias. A economia de Goiás tem uma extraordinária capacidade de se recuperar. Marconi Perillo sabe disso como ninguém. E sabe também que se não segurar as pontas agora, vai passar mais tempo na UTI financeira. E o governo não está parado. Agora mesmo, o vice-governador José Eliton, ainda no exercício do cargo de governador, esteve na região norte do Estado entregando equipamentos para cooperativas de produtores e leite e de mel. Coisa não muito grande financeiramente, em torno de R$ 700 mil, mas suficientes para incrementar mais um pouquinho a economia doméstica de suas três mil produtores. En­quan­to isso, em sua viagem à Eu­ropa, Marconi adoçou a boca dos empresários franceses e, principalmente, italianos, ao revelar que, a­pe­sar do pibinho nacional dos últimos dois anos, a economia de Goiás cresce em ritmo chinês, ba­tendo nos 5% em 2014. Isso soa co­mo música nos ouvidos de qualquer empreendedor. Aqui ou lá fora.

Já Paulo Garcia desencadeou uma agenda positiva de obras, ao anunciar o avanço de mais uma etapa no complexo e imenso parque Macambira-Anicuns e o prolongamento da avenida Marginal Botafogo. Quanto ao déficit, a promessa é que as coisas vão entrar nos eixos.

Em resumo, talvez seja, sim, correto imaginar que sentiremos saudades de 2014 e desejaremos que 2016 chegue rápido. Mas se as lições de casa que estão em curso forem completadas, talvez as dores de 2015 representem somente o parto de uma década de anos bem melhores e mais produtivos. De qualquer forma, é uma prova de fogo. Marconi já provou, ao longo de seus mandatos, ter determinação suficiente para corrigir rumos. Paulo Garcia terá agora que provar que não é diferente. E ambos buscam solução interna, ao contrário do que tem feito o governo federal, que pretende avançar sobre os nossos bolsos para corrigir os erros provavelmente originados com a estúpida interpretação de que o tsunami era somente uma marolinha.

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