Bernardo Élis expressa o sentimento da gente

Único goiano a usufruir da imortalidade da Academia Brasileira de Letras, o escritor centenário merece as homenagens do Estado

Nascido em Corumbá, Bernardo Élis conquistou, em 1975, a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras

Nascido em Corumbá, Bernardo Élis conquistou, em 1975, a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras

Marconi Perillo
Especial para o Jornal Opção

Ele nasceu em 15 de no­vembro de 1915. Ano passado comemoramos o centenário de nascimento do escritor goiano Ber­nar­do Élis Fleury de Campos Curado, até agora o único do nosso Estado a usufruir da imortalidade utópica criada para distinguir nacionalmente, na Academia Brasileira de Letras, aqueles que se destacaram como escritores, poetas e intelectuais. Bernardo merece nossa reverência pela magnânima obra literária que construiu, especialmente com romances e contos que ensejam muita qualidade e acuidade literárias e um gostoso sentimento da autêntica gente de nossa terra.

Natural de Corumbá de Goiás, filho de Érico José Curado e de Marieta Fleury Curado, recebeu formação educacional inicial entre a cidade Goiás e sua cidade natal, com grande influência do pai, considerável poeta e portador de boa formação intelectual. Leitor assíduo e interessado, concluiu sua formação em Goiânia, depois de uma passagem pelo Rio de Janeiro, onde tentou emplacar sem grande sucesso seus primeiros trabalhos literários. Primeiro ganhador da Bolsa Hugo de Carvalho Ramos, em 1944, com o livro de contos “Ermos e Gerais”. Pela grandiosidade do conto “Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá”, nele incorporado, já se podia ver que nascia ali um grande escritor.

A partir daí veio a lapidação, o trabalho como professor e os contatos com escritores nacionais, onde se iniciou a escalada que culminaria, em 1975, com a eleição, como quarto ocupante, para a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras – seu concorrente foi o ex-presidente Juscelino Kubits­chek. Bernardo foi um goiano importantíssimo na boa e qualificada divulgação do Estado de Goiás, com uma literatura consistente e muito apreciada, que facilmente se expandiu Brasil afora e saltou com segurança as fronteiras do nosso País.

Ler Bernardo Élis é sorver en­cantamentos, adentrando mundos de personagens autênticos e vigorosos, que caminham por nossas terras, rios, cidades e lugarejos, tecendo insidiosas algaravias em roteiros e enredos de tirar o fôlego e encantar os mágicos. Desde a minha infância convivo com o Bernardo da literatura e o aprecio como um baluarte do fazer literário de Goiás. Em sua obra há o nítido retrato do sentimento e das coisas de Goiás, que ele redimensionou com uma autenticidade de mestre e uma sabedoria avassaladora.

Livros como “O Tronco”, “Ve­ranico de Janeiro”, “Chegou o Governador” e “Ermos e Ge­rais” marcam a gente para sempre, com histórias que se aproximam de nós e personagens que se parecem com muitos dos que conhecemos Goiás afora.

Em “Chegou o Governador”, enumera, com brilhantismo e precisão, as três fases que marcam a chegada e a gestão de Dom Francisco Mascarenhas à frente da então Província de Goiás.
Bernardo define de “febre com delírio” os planos do governador de promover as reformas e mudanças que julgava necessárias ao partir de Portugal em direção Brasil. A confrontação com a realidade, que leva Dom Mascarenhas a adaptar suas metas, o escritor vem a definir como “febre sem delírio”. Por fim, ao perceber que seus planos – concebidos em uma Lisboa muito diversa daquela do interior do Brasil – eram inaplicáveis, o governador tem de resignar-se diante da realidade, que Ber­nardo define como “prostração”.

Catei aqui da orelha do livro de contos “Caminhos dos Gerais”, Editora Civilização Brasileira, de 1975, a opinião do escritor Mário de Andrade sobre Bernardo Élis, que considero muito pertinente:

“Você tem a qualidade principal pra quem se aplica à ficção: o dom de impor na gente, de evidenciar a “sua” realidade, pouco importando que esta “sua” realidade seja ou não o real da vida real. Enfim: jamais a gente percebe nos escritos de você aquele ranço do “documento”, tão prejudicial à ficção legítima. Você pega o documento e com ótima desenvoltura o transfere num elemento seu, como nascido de você, criando aquela “realidade mais real que o real”, que é do melhor espírito e força da ficção”.

Ao me mudar para Goiânia, ainda adolescente, uma das intenções que carregava comigo era a de participar do mundo da política e conhecer e conviver com artistas e toda a plêiade goiana de literatos e músicos. Aos poucos e também pelas mãos de amigos e parentes, fui me aproximando e convivendo. Tive a honra de privar de algumas conversas com Bernardo Élis, que era também grande cronista, além de escritor, professor e poeta. Eu o admirava, porque era além de tudo uma figura que se apresentava com grande eloquência e sempre demonstrava muita sabedoria.

Sempre que posso agraciar de alguma maneira, busco homenagear os goianos que se destacam pelo seu trabalho artístico e literário. Dessa forma, comemoramos ano passado o centenário de nascimento de Bernardo Élis. Em várias situações me referi a ele de forma respeitosa e carinhosa e prestei várias homenagens. Uma delas foi a de dar o nome dele a uma das salas da biblioteca do Centro Cultural Oscar Niemeyer.

Marconi Perillo é governador de Goiás.

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