Bancada goiana do PT aponta novas pautas nas manifestações de rua, mas mantém “Fora, Bolsonaro” em evidência

Deputados Rubens Otoni, Antonio Gomide, Delegada Adriana Accorsi e vereador Mauro Rubem defendem que crise na saúde exige que frentes de protesto continuem a pedir a destituição do presidente da República

O dia 1º de fevereiro de 2021 ficou marcado pela derrota da oposição ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no comando das Casas do Congresso Nacional. No Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), nome indicado pelo então presidente Davi Alcolumbre (DEM-AP), foi eleito em primeiro turno na tarde daquela segunda-feira para suceder o colega de partido à frente da Mesa Diretora. Pacheco recebeu 57 votos, 36 a mais do que a segunda colocada, a senador Simone Tebet (MDB-MS).

Do outro lado do Legislativo nacional, em Brasília (DF), o deputado federal Arthur Lira (PP-AL), que articulou nos bastidores sua eleição desde o final de 2020, derrotou, na noite do mesmo 1º de fevereiro, com facilidade o adversário Baleia Rossi (MDB-SP) e substituiu Rodrigo Maia (DEM-RJ) no comando da Câmara. O placar foi de 302 votos para Lira e Baleia com 145.

“Eu não acredito que haja tempo agora para fazer um debate sobre impeachment e nem o Lira vai colocar em votação. Se a gente não conseguiu colocar impeachment em votação com Rodrigo Maia, certamente não vai conseguir colocar com o Lira.” A declaração foi dada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na manhã de quinta-feira, 18, ao jornalista Kennedy Alencar durante entrevista ao UOL.

Críticas a Bolsonaro e Maia

Na entrevista, Lula não poupa críticas ao presidente Jair Bolsonaro pela forma como tem conduzido as ações do governo federal no combate à Covid-19 no Brasil, que o petista define como “genocida”. “Essa brincadeira que ele [Bolsonaro] está fazendo com o coronavírus é uma estupidez, um gesto de um homem insano, que não tem sentimento, não tem respeito pela ciência, pela medicina e pelas 250 mil pessoas que morreram e sabe Deus quantas vão morrer porque está ficando cada vez pior.”

Lula criticou também o ex-presidente da Câmara, o deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ), por não ter colocado em votação nenhum dos 62 pedidos de impeachment contra Bolsonaro nos últimos dois anos. “Não quero impeachment de Bolsonaro porque não gosto dele, [ou] porque sou adversário de Bolsonaro. É porque Bolsonaro já tomou várias medidas que mereciam impeachment”, afirmou na entrevista o ex-presidente da República (2003-2010).

A eleição de Arthur Lira na Câmara e de Rodrigo Pacheco no Senado veio com apoio de parte da oposição, inclusive com votos de parlamentares do PT. Inclusive, o Partido Nacional tem problemas a resolver da votação que deu a presidência da Câmara ao representante do Centrão apoiado pelo governo Bolsonaro. Na composição da Mesa Diretora da Casa, a deputada federal Marília Arraes (PT-PE), que ficou em segundo lugar na eleição para prefeita de Recife no ano passado, conquistou a segunda secretaria.

Conflitos internos

Mas a escolha foi contra a sigla, que indicou João Daniel (PT-SE) para o cargo. Marília saiu independente do apoio petista ao representante de Sergipe na Câmara e venceu na votação secreta por 192 votos a 168. É neste cenário que o PT tenta manter viva a força de oposição nas ruas e no Congresso, com disputas internas e o reconhecimento do ex-presidente Lula de que se o impeachment não foi pautado na Casa por Maia, com Lira é que não deve sair da gaveta.

Questionado pelo Jornal Opção se o PT o foco das manifestações de rua contra o governo Bolsonaro após as eleições de Lira e Pacheco no Congresso manteria o foco no “Fora, Bolsonaro”, o vereador por Goiânia Mauro Rubem respondeu que a pauta “deve continuar” a mesma.

Único representante do Partido dos Trabalhadores eleito em 2020 para o Legislativo da capital, Mauro Rubem passou a presidir a recém-criada Frente Parlamentar Vacina Para Todos e Combate à Covid-19 na Casa. O bloco foi aprovado na Câmara Municipal e instituído na quarta-feira, 24.

Ao lado da vereadora Aava Santiago (PSDB), que ocupa a vice-presidência na frente, o grupo presidido pelo petista tem 16 parlamentares. O objetivo da Frente Parlamentar Vacina Para Todos e Combate à Covid-19 é juntar esforços para garantir que a população de Goiânia conte com doses suficientes dos imunizantes contra a Covid-19 para frear o avanço de casos, internações e mortes causadas pela doença.

Novos protestos

Entre a sexta-feira, 19, e o domingo, 21, ao menos 65 cidades brasileiras contaram com atos contra o governo do presidente Jair Bolsonaro. Em Goiânia, uma carreata deu início ao protesto no domingo passado às 8 horas na Praça Universitária. Na pauta da manifestação estavam assuntos como a “vacinação para todos e todas pelo SUS”, a “volta do auxílio emergencial”, a “volta dos empregos”, “em defesa do Estado e dos serviços públicos” e “contra a reforma administrativa” na União. No final do material de convocação para o protesto aparece: “Fora, Bolsonaro! Impeachment já!”.

Não só o PT esteve envolvido nas manifestações pelo Brasil, mas também outros partidos de esquerda, todos convocados pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. Em Goiânia, a carreata foi organizada pelo Fórum Goiano em Defesa dos Direitos, da Democracia e Soberania.

“Ainda mais urgente”

Para a deputada estadual Delegada Adriana Accorsi (PT), “a luta contra as políticas genocidas do Bolsonaro se torna ainda mais urgente”. De acordo com a parlamentar, o comando do Congresso por representantes do Centrão, “da velha política que ele [Bolsonaro] tanto condenava”, abre-se caminho para o avanço de pautas que representam a “destruição de direitos e soberania, como a questão [da autonomia] do Banco Central”.

“E nada de políticas de saúde pública, como vacinas e fortalecer o SUS. O povo está entregue à própria sorte. Lamentável.” Segundo a deputada petista, o Brasil assiste aos líderes mundiais lutarem pela vida de seu povo enquanto “Bolsonaro só se preocupa em armar a população e proteger os filhos acusados de crimes”.

De acordo com a parlamentar, ter Arthur Lira na presidência da Câmara e Rodrigo Pacheco à frente do Senado não inviabiliza os protestos contra o presidente Jair Bolsonaro. “Temos pautas específicas como vacinas para todas as pessoas e garantia da continuidade do auxílio emergencial. E o ‘Fora, Bolsonaro’ como caminho para que isso aconteça”, descreve Adriana.

Bolsonaro e Centrão

Na avaliação da deputada, o apoio de Bolsonaro aos candidatos do Centrão eleitos na Câmara e no Senado não enfraquece a formação de frentes amplas de oposição ao presidente na eleição de 2022. “Na verdade, até o momento, elas nunca existiram. Até agora, só a esquerda mesmo se uniu em algumas pautas, mas acredito que vamos construir uma frente com as forças democráticas. Isto está em construção.” Adriana diz que quem votou no Centrão “jamais faria parte pois ama poder e só está com quem está no poder”.

Sobre a união de parte dos partidos de esquerda em 2022, Adriana Accorsi defende que surja uma grande união das forças democráticas no segundo turno da disputa presidencial “contra o fascismo, a incompetência e o negacionismo”. “Nossa prioridade agora deve ser a vacina para todas as pessoas, sobretudo as mais vulneráveis. Todas as autoridades do Brasil deveriam estar empenhadas nesta questão. Espero que o governador [Ronaldo Caiado (DEM)], respeitado como médico, tome as providências para garantir vacina em Goiás e não espere do governo genocida e não aja como ele”, pontua.

Quando Adriana fala sobre união no segundo turno de 2022, a declaração se explica pela entrevista concedida no dia 4 de fevereiro pela presidente nacional do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann, na qual disse que se Lula não puder concorrer ao cargo de presidente da República, o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, surge como nome “quase natural” do partido. Em resumo, Haddad lançou Lula como pré-candidato e Lula devolveu a indicação.

Situação de Lula

Para que Lula possa concorrer ao cargo de presidente em 2022, o ex-juiz Sergio Moro precisa ser julgado suspeito pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao condenar o petista na ação penal referente ao tríplex do Guarujá (SP). E os desembargadores do Tribunal Regional da 4ª Região (TRF-4), de Porto Alegre (RS), também precisam ser considerados suspeitos ao aumentarem a pena de Lula no processo do sítio de Atibaia (SP). Por enquanto, Lula segue inelegível pela Lei da Ficha Limpa por contar com duas condenações colegiadas.

O Jornal Opção também conversou com o deputado federal Rubens Otoni sobre os protestos “Fora, Bolsonaro”. Para o representante do PT na bancada goiana na Câmara, a eleição de Lira e Pacheco nada muda no foco das manifestações. “A prioridade continua sendo salvar vidas. Para isso, precisamos de vacina para todas as pessoas, emprego e auxílio emergencial. É nesse contexto que o ‘Fora, Bolsonaro’ ganha cada vez mais força.”

Perguntado se o apoio dado por Bolsonaro aos presidentes da Câmara e Senado teria enfraquecido a formação de frentes amplas de oposição para 2022, Otoni afirma que isso não interfere em uma eleição de dois turnos. “A aliança fundamental será a do segundo turno”, explica.

Lançamento antecipado

Sobre o PT antecipar o lançamento do nome de Lula como candidato a presidente no ano que vem, o deputado federal avalia que o anúncio não atrapalha nem ajuda no diálogo com outra siglas da oposição. “Não interfere. No primeiro turno é natural que cada partido tenha o seu candidato. Quem for para o segundo turno, aí sim, receberá o apoio de quem ficou de fora.”

Analistas apontam que tanto Bolsonaro quanto o PT trabalham para que 2022 repita o segundo turno de 2018, com o presidente na disputa eleitoral final contra Lula ou Haddad. Para Rubens Otoni, ainda é cedo para concordar com a possibilidade. “Vamos ter que aguardar o cenário nacional para avaliar. O PT terá candidatura própria no primeiro turno, o PDT e o PSOL também. Quem for para o segundo turno buscará o apoio de quem ficar de fora. Isso é natural”, observa o deputado federal.

Preço do Centrão

Irmão de Rubens Otoni, o deputado estadual Antonio Gomide (PT) diz acreditar que a eleição das mesas diretoras no Congresso, agora comandadas pelo Centrão, irá cobrar mais de Bolsonaro. Para Gomide, o “Fora, Bolsonaro” é o grito de guerra, mas o mais importante “é construirmos um programa que acene à defesa da democracia com justiça social”.

O deputado estadual do PT defende que seja formado um bloco de partidos contra a extrema direita em 2022. “Esse será nosso exercício para 2021 e 2022”, descreve Gomide. Sobre o preço que o Centrão pode cobrar de Bolsonaro pelo apoio no Congresso, o parlamentar afirma que o custo veio na eleição, mas que a popularidade do presidente da República está em jogo “em relação à vacina, às reformas, privatizações. Vamos ver como reage a sociedade. Centrão não segura alça de caixão”, destaca.

Em linha parecida com a defendida por Lula na entrevista ao UOL, Gomide diz que agora é hora de preparar o terreno para vencer Bolsonaro nas próximas eleições. “Tirar pelo voto”, afirma. “O PT tem nome e voto. Nada mais justo do que colocar o nome no primeiro turno e agregar ao bloco anti-extrema direta com o nome da esquerda que estiver no segundo turno. Diálogo sempre presente, com lucidez na conjuntura para não errar.”

Gomide pontua: “O governo sempre faz a mesa no Legislativo, com raras exceções. A gordura do governo foi gasta na eleição do Congresso. Fala-se em R$ 2 bilhões [as cifras chegam a R$ 3 bilhões]. Não é pouco”.

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