Autorretrato de uma reportagem velha

Aberta a caça às memórias furtivas de Gabriel García Márquez em Goiânia e dentro da gente

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Foto: Agência EFE

Kaito Campos
Especial para o Jornal Opção

Este autorretrato surgiu a partir de duas memórias de uma pauta triste: o escritor colombiano Gabriel García Márquez está com demência e eu estou envelhecendo. Espero que minha presença não assuste a quem espera ler realidades noticiadas no papel deste jornal, mas eu tive de aparecer para dizer que nas últimas duas semanas (ou nas primeiras semanas de abril) percorri Goiânia inteira em busca das memórias do Gabriel García Már­quez. Incorporei a mim em palavra porque, mesmo tão longe de Car­tagena de las Indias, a cidade colombiana onde ele nasceu, e também da Cidade do México, onde ele morreu, suas lembranças estão nas ruas daqui. E na sala de um hospital. E no escritório de um professor.

Foi preciso me encontrar com outras pessoas para não deixar que minhas leituras falassem por conta própria e então construir um caminho que agora não pode ser desconsiderado. Não posso juntar as vozes do Francisco, da Elisa, da Filomena, da Maria, da Rosângela e do Renato, nem a minha, num mesmo tempo. Cada um falou num dia, solitariamente. Se estivessem todos ao redor de uma mesma mesa, como se prestam à função de mesa muitas reportagens, as coisas não teriam andado como andaram. Esta narrativa teve um trajeto no tempo e no espaço de Goiânia. Ela começa, media e termina com intervenções do futuro e do passado, e tropeça nas limitações do que eu posso lembrar, porque esqueci meu caderno de anotações em algum lugar, sumiu.

Envelheci muitos anos aqui. E a primeira coisa que posso registrar é que não vou contar sobre envelhecer e, como diz minha avó, sobre “ficar caduco”, como se tivesse entendido velhice e demência, apesar de ter ouvido conceitos de psicólogo, merendeira, geriatra, sociólogo, todos especialistas em velho, seja por diploma de faculdade ou de vida. Durante as conversas, alguns termos em comum surgiram e são estas simultaneidades de ideias o elo entre Gabriel García Márquez, eu, você que lê e a humanidade. Estamos todos correndo risco de esquecer.

Faculdade

No primeiro dia, houve luz. Acendeu no próprio prédio onde se ensina comunicação social na Universidade Federal de Goiás. Ali ouvi rumores de que quando alguém abre García Márquez para ler, abre também a memória da América Latina. E se o autor começa a livrar-se da lembrança dos mais conhecidos e até dos títulos de seus livros é porque o corpo se rende à história. São 87 anos, um Nobel de Literatura, dois filhos e incontáveis mundos, com o mesmo destino. Em 2012, a família anunciou que o criador está preso ao mal que também prendia sua criatura José Arcadio Buendía ao tronco de uma árvore, em “Cem anos de Solidão”: demência senil. “Não tenha vergonha de usar esse nome, tem uma conotação ruim, a gente assusta ao ver a palavra demência. Não é isso que te chocou? Não tanto senil, senil não te chocou porque é de velho”, diria a geriatra Elisa Franco, dias depois.

Antes de Elisa me permitir falar em demência sem pesar a consciência, o diagnóstico do escritor foi questionado numa sala da Faculdade de Ciências Sociais da UFG. Lá, o professor de sociologia Francisco Rabelo descansou o copo de café (“isso aqui na verdade não é café, por isso nem vou te oferecer, isso aqui é água com café”) para me contar que a demência senil é uma construção que geralmente não é de quem sofre, mas de quem criou o discurso. “Quem é essa pessoa que fala no lugar dele? A família? A construção da velhice começa com os nossos queridos”, bebericou o café com água e prosseguiu:

“Quando minha filha caçula tinha 12 anos, eu falava que ia fazer um pós-doutorado e ela, aluna do ensino fundamental, perguntou: pai, quantas vidas o senhor acha que tem? E aqui ela estava dizendo que aquilo não era mais possível para mim, ou de alguma maneira estava dizendo para mim: ‘velho’.” Dos queridos, a construção da velhice passa a ser institucionalizada, ao que Rabelo lembra o que seria repetido tantas vezes depois, que a Organização Mundial da Saúde chama de idoso quem tem mais de 60 anos.

Foi ainda naquela sala que me dei conta de que outro jeito de perceber o envelhecimento são as perdas. Não só a perda de cabelo, mas também a de memória e aquela que serve para evitar falar em morte. O próprio Rabelo, com 66 anos, perdeu a cor nos cabelos, e sobre a balança entre perder e ganhar se pronuncia: “Esta maneira de construir a velhice é altamente destruidora dos velhos, porque desconhece aquilo que eles estão adquirindo por serem mais idosos. O que me assusta, enquanto velho, é que ninguém sublinha aquilo que você está ganhando e eu ainda estou ganhando. Ninguém sublinha isso, só sublinha as perdas, o cabelo e tal”. Neste ponto do cabelo, percebo meu erro, corrigindo aqui, um tanto envergonhado, que seus cabelos, professor, não perderam a cor, mas são brancos justamente por terem ganhado todas elas.

Aqui percebi que envelheço mais do que contam meus 19 anos, porque, depois do meu avô, sinto que estou perdendo um dos meus escritores preferidos. Só me aliviaria desse pensamento o que me disse o Renato Verissimo, que está concluindo a graduação em jornalismo com uma análise da obra “Notícia de um Sequestro”, do Gabriel García Márquez. O Renato me provaria, semanas depois, que eu perco um repórter do que seria esse tempo, em que a América Latina se encontra tão instável, mas não perco o escritor, porque suas memórias estão bem conservadas em mais de 40 publicações em livro. E é por ter construído a memória ao limite, que Rabelo chama a demência do autor colombiano de castigo: “Ele castigou tanto a memória, de fazer um mundo tão fantástico, que agora está levando o castigo. Acho que ele foi pra esse mundo e não voltou.”

O café do professor era só uma mancha preta no copo descartável quando eu me despedi. Fui embora acompanhado de suas últimas palavras, que eram perguntas retóricas, daquelas que são feitas e não são respondidas: “alguém já se perguntou qual é o mundo que García Márquez vive? Alguém já procurou instrumentos pra dar conta do mundo que ele vive?”. Preciso levar este jornal para o Rabelo ler, porque catei as perguntas que ele jogou no ar, fui ao Hospital das Clínicas e ao Centro de Referência em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa (Craspi) e ganhei respostas.

Hospital

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“Saúde e doença na velhice estão ligadas a independência e autonomia, é manter o idoso o mais tempo possível com as patologias que tem, mas autônomo, independente”, explica a psicóloga Filomena Costa

“Saúde e doença na velhice estão ligadas a independência e autonomia, é manter o idoso o mais tempo possível com as patologias que tem, mas autônomo, independente”, explica a psicóloga Filomena Costa

Na caça das memórias escorregadias do escritor colombiano, me dei com a camiseta grudada num crachá-adesivo de visitante do Hospital das Clínicas de Goiânia. Nesta busca, quase que perdi a mim, por causa dos corredores escuros, um labirinto por onde me enfiei atrás de um lugar chamado Clínica Médica. Depois de rampas, imagens de santas com os braços abertos, ambulatório, quimioterapia, banco de espera, pessoas de branco, radiografias, por fim, entrei na sala que menos esperava encontrar num hospital, uma sala de aula. Lá me encontrei com Elisa Franco, uma mulher de 51 anos que é muita coisa numa só: geriatra, professora da Faculdade de Medicina da UFG e presidente da Comissão de Título da Sociedade Brasileira de Geriatria.

Pedi: “Elisa, vim encontrar sentido para a demência do García Márquez, que li nos jornais de realidades noticiadas. Estou com medo de escrever demência e de interpretar errado. O que é isso? Não seria Alzheimer?”. E ela, primeiro, me deu um nome alternativo, transtorno neurocognitivo. Depois me mandou olhar o CID-10, como se eu soubesse o que era um CID-10, mas logo explicou, abrindo um livro a sua frente: Classificação Interna­cional de Doenças. Lá estava a demência, “uma síndrome caracterizada pela perda adquirida da capacidade cognitiva ou intelectual, em relação ao nível anterior que a pessoa tinha, de forma a comprometer as atividades de vida”.

Desta vez, pedi uma tradução, ao que ela explicou que a síndrome da demência são sintomas que a pessoa tem de uma doença, que pode ser o Alzheimer, problemas vasculares, mal de Parkinson, ou uma mistura de todas. E então abri mais os olhos, como se na verdade quisesse ouvir melhor, quando Elisa falou que a linguagem também é comprometida pela demência. Imaginem só, a linguagem de García Márquez, o realismo fantástico de Macondo e o Novo Periodismo da Colômbia, coisas que o estudante Renato me explicaria uma semana mais tarde.

Ainda no hospital, aprendi com Elisa que “a idade é o principal fator de risco, 10% da população com mais de 80 anos no Brasil tem demência, mas nem todos os velhos têm. Minha avó tem 98 anos e não tem, e meu pai, com 84, tem”. Se nem o pai da geriatra está a salvo, nem os escritores que passam a vida a limpo em memórias, imaginem eu. Pois contei que estava com medo e ela me acalmou, “plagiando um cantor francês, o Maurice Chevalier, envelhecer não é tão ruim assim quando se pensa na alternativa. A alternativa é morrer cedo. Isso nos diz hoje que, infelizmente ou felizmente, o Gabriel García Márquez viveu muito para escrever muito, porque se ele tivesse tido alternativa, ele não teria chance de ter essa doença”.

As memórias vão embora, sobra o cuidado. A família cuidando do escritor na Cidade do México, e eu, a geriatra e os demais leitores, cuidando dos livros dele, nas nossas respectivas estantes. Se não fosse a diferença de dias, a voz de Elisa teria soado em uníssono à voz do professor de sociologia Francisco Rabelo, no momento em que ela também fala sobre o processo de perder: “é lidar com essas perdas, porque é uma perda. Tem um momento em que tem que dizer para a família que aquilo é cuidado paliativo, a demência é progressiva e não tem perspectiva de cura. A gente faz o tratamento possível para aliviar”.

É um processo longo, de impacto e custo elevados. No Brasil, quem compartilha da idade e do sofrimento de García Márquez não tem suporte social para ser tratado com a delicadeza necessária, como me provaram Elisa e, posteriormente, a psicóloga Filomena Costa. Deixei a sala de aula do Hospital das Clínicas sabendo que a geriatria é o instrumento que mantém contato entre o mundo da demência, da velhice e das perdas com o mundo que ainda caminha em direção às perdas, à velhice e à demência. No dia seguinte, sem saber em qual desses mundos pertencia, me equilibrando na intuição, entrei num ônibus rumo ao Craspi, ou Centro de Referência em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa.

Craspi

Gabriel García Márquez estava no Craspi. O prédio fica na região sudoeste de Goiânia, existe há cinco anos, atende cerca de 9 mil idosos, conforme a estimativa da administração, e guarda dentro de si o Cerrado inteiro. Cada porta que se abriu para mim mostrava uma árvore, uma fruta nativa. Era época de pequi, ipê-amarelo e pitanga nos consultórios, na enfermaria, no ginásio, na sala de arte-terapia (“uma sala bem diferente, bem colorida, daqui uns dias você nem anda nela”, eu ouviria algumas horas depois). E na sala da graviola se sentava Filomena Costa, à sombra dos velhinhos de porcelana em cima da mesa.

Filomena é professora de psicologia na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e gestora técnica do Craspi. Em outro lugar atrás do cenário desta reportagem, idosos cantavam ao toque de um violão, era a chamada musicoterapia, então imagine que o que Filomena vai dizer para você agora, primeiro foi dito a mim com a trilha sonora mais alegre da velhice: “O Centro de Referência em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa atende pessoas de mais de 60 anos, com determinado perfil. São pacientes com algum tipo de doença…”, violão, vozes, música, “doença que a atenção básica não dá conta: uma delas é a demência”, silêncio.

Em Goiânia, quando a pessoa chega à velhice, perde as coisas e perde a si mesmo, esquece e há suspeita de demência, ela então é encaminhada para o Craspi. É uma rede de geriatras, psicólogos, terapeutas, educadores físicos, nutricionistas, farmacêuticos e fonoaudiólogos, além do Cerrado inteiro, claro. Todos tentando ligar mundos, fazer com que o idoso reconheça o nome que passa no letreiro do ônibus e lide com os caixas eletrônicos dos bancos (“porque o banco é uma realidade diferenciada por causa da informática, ele se sente perdido”). De repente, coincidência: conceitos que a geriatra Elisa Franco me ensinou na sala de aula do Hospital das Clínicas também foram pronunciados por Filomena, quando ela me explicou a diferença entre saúde e doença no idoso.

Elisa, a geriatra, havia me contado que independência tem a ver com o físico, conseguir tomar banho, comer, andar com as próprias forças. Já a autonomia implica questões da mente, do juízo crítico, como a tomada de decisão. E a psicóloga complementou: “saúde e doença na velhice estão ligadas à independência e autonomia, é manter o idoso o mais tempo possível com as patologias que tem, mas autônomo, independente”. Preciso esclarecer que patologia diz respeito a quando alguém tem hipertensão ou diabetes, por exemplo. Ou então quando uma pessoa tem um câncer no pulmão ou um câncer no fígado ou um câncer nos gânglios. Se a pessoa tiver os cânceres que descrevi, todos ao mesmo tempo, ela se chama Gabriel García Márquez, como foi divulgado pela família ainda enquanto estas palavras se montavam em frases e, tão novas, envelheciam.

Espelho

A trilha sonora do dia em que fui ao Craspi e encontrei García Márquez não desperta mais alegria em mim. Das minhas reminiscências, seleciono ainda o momento em que Filomena fala da memória como se refletisse alma e, portanto, lembrar seria uma cirurgia que nos abrisse para revelar a nós mesmos, dentro. Para a professora, “a memória, ela é aquilo que faz com que eu tenha convicção de ser humano. Essa é a nossa consciência do processo de memória. Quando você perde isso, você perde a identidade. Por isso que a demência é algo muito pesado, grave, porque ela é gradativa, ela vem lentamente. Normalmente a pessoa percebe estas perdas, então isto é angustioso”.

“Tchau, Filomena”, agradeci, aperto de mãos, saí. Os velhinhos de porcelana permaneceram na mesa, como se descansassem. Ainda tive tempo de parar na recepção e sentar-me com Maria de Lurdes Leite, que esperava dar uma da tarde para se consultar com uma geriatra. Ela tem 84 anos, é pequena, porém me deu a impressão de ter encostado a ponta da cabeça em nuvens branquinhas que ainda estavam ali, feito cabelos, mas nuvens. Maria me mandou almoçar e se preocupou com minha mão gelada. Eu me preocupei com o que ela fazia no médico e pulei algumas cadeiras para perguntar à sua filha, Rosângela Leite, sentada noutro canto. Cinquenta e dois anos de Rosângela lhe deram força suficiente para ser merendeira de escola e depois deixar o ofício para cuidar da mãe em “tempo integral, de segunda a sexta, 30 dias por semana”.

Rosângela confiou em mim para contar problema da mente, problema do corpo, da mãe e de si mesma. Falou que Maria de Lurdes estava com uma dor no braço que apareceu de repente, mas que a memória dela “é boa. Está com a memoriazinha boa. A cabecinha dela está boa graças a Deus, está boa mesmo”. Quando entreguei um lápis para Rosângela e pedi um autorretrato, ela reclamou. Disse que não sabia desenhar e, a ponto de chorar: “estou nervosa e estressada, porque hoje foi um dia muito difícil já que…” Não, esta memória é só minha, Rosângela confiou, eu guardo. Ainda assim, o autorretrato da ex-merendeira tinha um dos maiores sorrisos de todos. Reflexos.

Aliás, todo mundo reclamou quando pedi autorretratos. Maria de Lurdes se desenhou mesmo com dor no braço, o que me deixa arrependido ainda agora. Precisei lembrar a Elisa de que ela usava óculos, porque a única característica que ela procurou marcar foram os traços do queixo. Filomena chegou a se recusar, mas cedeu quando mostrei o desenho de Elisa (mesmo não sendo ético) e, por fim, preferiu esta técnica, porque tem aversão à fotografia. E por falar nisso tenho que desmascarar uma (boa) mentira que levei às entrevistas por motivo de persuasão: eu não pedi para que se desenhassem por causa de um novo projeto gráfico, acontece que faltou bateria na máquina fotográfica que carregava comigo. Por fim, foi “divertido”, como disse o Renato Verissimo, estudante de jornalismo, o único que ficou realmente animado com a história.

Macondo

Renato foi o último a quem procurei. Quando nos sentamos juntos, no laboratório onde nasce esta reportagem, como se para contornar ciclos, recolhi toda a ansiedade e contei, “Renato, fui ao Centro de Referência em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa e o Gabriel García Márquez estava lá”. Mas ao leitor, vou guardar mistério, sigamos. O Renato tão novo quanto eu, 22 anos, pediu para que eu mantivesse o rumo desta história no escritor colombiano, que não partisse para o lado da saúde dele. Renato, eu juro que fiz por bem, eu precisava entender a memória dos velhos de agora, tanto para me aproximar do Gabo, apelido do autor, quanto para não me assustar mais tarde, caso eu tenha esta alternativa.

Assim que começamos a conversar, o laboratório de jornalismo se transformou em Macondo, a cidade de Cem Anos de Solidão onde tudo pode acontecer. E, de Macondo, variava para a realidade noticiada das cidades colombianas e da América Latina. Isto porque até então eu só conhecia García Márquez enquanto criador de realismo fantástico, não enquanto jornalista. Algumas frases do Renato: “o jornalismo faz um encaixe na literatura, mas um encaixe estiloso, um encaixe da palavra”, e ainda, “o grande vínculo entre jornalismo e literatura é a palavra”. Daí, o conceito de Novo Periodismo.

r3Deste último encontro, fiz de tudo para tirar lições da linguagem do escritor e poder construir a minha. Destas lições, preciso destacar da voz de Renato o que me disse sobre a valorização dos personagens, as ambiguidades que cabem nas situações e do quanto o autor usava sua literatura para protestar contra problemas sociais, como o narcotráfico. Sem contar que García Márquez reportava revisitando as memórias de seus entrevistados. “Inclusive, no prefácio do livro ‘Notícia de um Sequestro’, ele fala que se sentia profundamente tocado pelas pessoas que tiveram de abrir as memórias delas para acontecimentos tão dolorosos”, me contou o estudante.

E antes que seja tarde e eu me esqueça, quando digo que Gabriel García Márquez estava no Craspi, não brinco: o autor era palavra, como eu sou aqui, e abria a tese de doutorado da psicóloga Filomena. Era uma amostra de “Memória de Minhas Putas Tristes”: “Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas”, e recortando dolorosamente para que caiba no parágrafo, remonto, “quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos […], me atravessou uma ideia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais”.

Penso no rio de Heráclito e me lembro do Rio Vermelho, cujas águas entram no porão da casa de Cora Coralina, na Ci­da­de de Goiás. Eu e Cora, nós so­mos um desencontro, por questão de tempo. Ela morreu quando meu pai era menino, mas ainda assim me descreveu em verso no que digo agora: “Venho do século passado, trago comigo todas as idades”. Filo­me­na, a professora de psicologia, di­zia que gostava do Gabo porque ele trazia uma imagem positiva do ve­lho. Eu gosto porque foi na ten­tativa de encontrar as lembranças furtivas de García Már­quez que saí de um lugar e de um tempo e fui a outros, emigrei de mim.

Kaito Campos é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás.

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